Lauterbrunnen é, para muitos, o vale mais bonito da Suíça, e a foto não exagera: um vilarejo de casas de madeira estendido no fundo de um cânion glacial de paredes verticais, de onde despencam cachoeiras que parecem pendurar-se do céu. Seu nome, que pode ser traduzido como 'muitas fontes' ou 'fontes barulhentas', vem das 72 cachoeiras que caem ao longo do vale. A mais famosa, a Staubbachfall, se lança quase 300 metros de um paredão de rocha logo atrás do vilarejo e é tão fina que o vento a desfaz em pó de água.
Essa paisagem impressionou gênios da literatura: Goethe escreveu aqui, em 1779, seu poema 'Gesang der Geister über den Wassern' olhando para a Staubbach, e um jovem J. R. R. Tolkien caminhou pelo vale em 1911 e o guardou na memória para imaginar Valfenda, o refúgio élfico de 'O Senhor dos Anéis'. Encaixado entre os colossos do Eiger, do Mönch e do Jungfrau, Lauterbrunnen também é a base perfeita para conhecer a região: daqui saem os trens e teleféricos para os vilarejos sem carros de Wengen e Mürren, para o Schilthorn de James Bond e para o Jungfraujoch, o 'Top of Europe'.
Este guia percorre Lauterbrunnen com um olhar prático e honesto: quais cachoeiras valem a pena e quais são pagas, como subir aos vilarejos de montanha e aos picos, quanto custa tudo (a Suíça é cara, é bom saber), como se locomover num vale onde o carro sobra e como lidar com o turismo de massa que, nos últimos anos, colocou o vilarejo no mapa de todo o Instagram. Um lugar de uma beleza quase irreal que continua valendo cada franco.
O vale de Lauterbrunnen é um livro de geologia a céu aberto: seu perfil em U foi escavado pelas geleiras há dezenas de milhares de anos, deixando paredes verticais de onde hoje caem 72 cachoeiras. Habitado desde a Antiguidade por pastores de montanha — entre eles os walser, um povo alemânico que colonizou os altos vales alpinos na Idade Média —, o vale viveu durante séculos da pecuária e da vida dura da alta montanha. Tudo mudou com o Romantismo e o nascimento do alpinismo: a paisagem sublime de Lauterbrunnen atraiu poetas e viajantes. Goethe o visitou em 1779 e escreveu olhando para a Staubbach; no século XIX chegaram os primeiros turistas ingleses, abriram-se hotéis e, entre 1890 e 1912, as ousadas ferrovias de montanha (o Wengernalpbahn e o mítico Jungfraubahn) transformaram a região num destino mundial. Em 1911, um Tolkien de 19 anos percorreu o vale e gravou na imaginação as imagens que depois dariam forma à Terra-média. Hoje Lauterbrunnen combina essa herança alpina com um turismo de massa que o desafia. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The roof of touristic Switzerland: the glacial valleys of the Bernese Oberland settled by the Walser, cradle of the golden age of alpinism and of English Romantic tourism, with Interlaken, Grindelwald, Lauterbrunnen and the railway that climbs to the Jungfraujoch, the "Top of Europe".
Ler a história de Bernese Alps →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de qualquer ser humano, quem escreveu a história de Lauterbrunnen foi o gelo. O vale que hoje admiramos — um cânion de fundo plano e paredes quase verticais de até 500 metros — é um manual de geologia a céu aberto: o formato em 'U' tão característico não é obra de um rio, que deixa vales em 'V', e sim de uma geleira. Durante as grandes glaciações, enormes línguas de gelo desciam dos picos do Oberland Bernês e, com seu peso descomunal, foram lixando a rocha até deixar este sulco de paredes lisas e chão plano por onde hoje serpenteia o rio Weisse Lütschine ('Lütschine branco').
Quando o gelo recuou, há uns dez a quinze mil anos, os antigos vales laterais ficaram pendurados lá no alto. A água do degelo, ao chegar à beira dessas paredes recém-cortadas, não teve outra saída a não ser despencar no vazio: foi assim que nasceram as cachoeiras. São 72 ao todo ao longo do vale quando o degelo está no auge, e é por isso que o lugar se chama Lauterbrunnen, nome que costuma ser traduzido como 'muitas fontes' ou 'fontes ruidosas' (do médio alto-alemão 'lûter brunnen'). A mais famosa, a Staubbachfall, cai quase 300 metros num único salto, tão fino que o ar o desfaz em pó de água.
Parte dessas águas trabalhou por dentro: a torrente que desce das geleiras do Eiger, do Mönch e da Jungfrau perfurou a rocha por dentro e criou as Trümmelbachfälle, dez cachoeiras escondidas no coração da montanha, as maiores cachoeiras subterrâneas da Europa abertas ao público. Essa paisagem extrema, entre o sublime e o assombroso, é o cenário que dá sentido a tudo o que veio depois: a vida dura dos pastores, o fascínio dos poetas e, mais tarde, a chegada do turismo do mundo inteiro.
Durante séculos, a vida no vale não teve nada de idílica: foi uma luta constante contra a montanha. Os primeiros habitantes fixos desses altos vales alpinos viviam da pecuária transumante, levando o gado para as pastagens de altitude (os 'alp') no verão e descendo no inverno, e fabricando queijos que se conservavam durante os longos meses de neve. Avalanches, deslizamentos e cheias do rio eram ameaças do dia a dia, e as aldeias eram erguidas com cuidado, nos cantos mais protegidos das avalanches.
Um povo em particular contribuiu para a colonização dessas montanhas: os walser, comunidades de língua alemânica que, entre os séculos XIII e XIV, migraram do Valais (Wallis) para outros vales altos dos Alpes, levando sua língua, sua arquitetura de madeira e sua enorme capacidade de viver e trabalhar em terrenos de grande altitude que outros consideravam inabitáveis. A marca deles ficou na toponímia, nas técnicas de construção e na cultura pastoril de boa parte do Oberland e dos vales vizinhos.
Os vilarejos de montanha hoje famosos — Wengen, em seu terraço ensolarado, e Mürren, agarrado a uma saliência de rocha — nasceram como povoados de pastores e camponeses muito antes de virarem estações turísticas. O isolamento, que durante séculos foi uma condenação, acabou sendo, paradoxalmente, seu maior tesouro: como nenhuma estrada chegava até eles, eles se mantiveram como vilarejos sem carros, e essa tranquilidade é hoje um de seus grandes atrativos. Por gerações, Lauterbrunnen foi um vale remoto e pobre, de onde muitos jovens emigravam; ninguém imaginava que aquela paisagem severa acabaria atraindo viajantes do planeta inteiro.
A virada na história de Lauterbrunnen não veio da economia, mas da sensibilidade: a do Romantismo, que no fim do século XVIII ensinou a Europa a enxergar as montanhas não mais como um obstáculo temível, e sim como uma manifestação do sublime, da grandeza da natureza. E poucos lugares encarnavam esse ideal como este vale de paredes verticais e cachoeiras penduradas.
O visitante mais ilustre chegou em outubro de 1779: Johann Wolfgang von Goethe, na época um escritor jovem e já célebre, percorreu o Oberland Bernês e ficou profundamente impressionado com a Staubbachfall. Hospedado na casa paroquial de Lauterbrunnen, escreveu ali mesmo o poema 'Gesang der Geister über den Wassern' ('Canto dos espíritos sobre as águas'), em que compara a alma humana à água que cai da rocha, se pulveriza, sobe de novo em forma de vapor e volta: um ciclo eterno inspirado diretamente pela queda da cachoeira. O poema, mais tarde musicado por Franz Schubert, ligou para sempre o nome de Goethe a este cantinho dos Alpes.
Goethe não foi o único. Ao longo do século XIX, poetas, pintores e viajantes do 'Grand Tour' incluíram Lauterbrunnen em seus roteiros pela Suíça. Lord Byron passou pelo vale em 1816 e registrou a impressão que as cachoeiras lhe causaram. O nascimento do alpinismo como esporte — com as primeiras escaladas aos grandes picos da região em meados do século — e o auge do turismo romântico transformaram o vale num destino da moda. Começaram a abrir os primeiros hotéis e pensões, e o que tinha sido um vale de pastores esquecido passou a viver de receber forasteiros deslumbrados com sua beleza.
O que transformou Lauterbrunnen de vez foi o ferro: as ousadas ferrovias de montanha que, entre o fim do século XIX e o começo do XX, subiram por onde até então só passavam pastores e alpinistas. Em 1890 foi inaugurada a Berner Oberland Bahn (BOB), que ligou Interlaken a Lauterbrunnen e Grindelwald e deixou o vale a poucos minutos do mundo. Em 1893 abriu a Wengernalpbahn (WAB), uma ferrovia de cremalheira que subia até Wengen e chegava ao colo de Kleine Scheidegg, ao pé da face norte do Eiger; com mais de 19 quilômetros, continua sendo uma das ferrovias de cremalheira contínuas mais longas do mundo.
O auge dessa febre ferroviária foi a Jungfraubahn, a linha que a partir de 1898 começou a ser escavada no interior do Eiger e do Mönch e que em 1912 chegou ao Jungfraujoch, a 3.454 metros: a estação de trem mais alta da Europa. Essa façanha de engenharia — cara em dinheiro e em vidas — transformou toda a região da Jungfrau num destino de fama mundial, e Lauterbrunnen ficou no centro da rede, como ponto de passagem rumo aos picos e aos vilarejos sem carros.
O século XX consolidou Wengen e Mürren como estações de esqui de prestígio. Mürren, aliás, foi um dos berços do esqui alpino de competição: ali o britânico Arnold Lunn organizou em 1922 o primeiro slalom moderno e, em 1928, a lendária 'Inferno', uma das corridas de esqui mais antigas do mundo. Em Wengen, a prova de descida do Lauberhorn, disputada desde 1930, virou uma das provas mais espetaculares e temidas do circuito internacional. Do vale de pastores esquecido não sobrava quase nada: Lauterbrunnen já era uma marca do turismo alpino de elite.
Entre os muitos viajantes que cruzaram o vale no começo do século XX, houve um cuja passagem teria consequências inesperadas para a literatura mundial. No verão de 1911, um jovem de 19 anos chamado John Ronald Reuel Tolkien percorreu a pé o Oberland Bernês com um grupo de excursionistas. Aquela viagem pelos Alpes suíços o marcou para sempre, e décadas depois, já autor de 'O Hobbit' e 'O Senhor dos Anéis', ele reconheceu essa influência.
Numa carta ao filho Michael, escrita em 1968, Tolkien afirmou que a jornada de Bilbo de Valfenda para o outro lado das Montanhas Sombrias — incluindo a descida escorregando pelas pedras até o bosque de pinheiros — foi baseada em suas aventuras de 1911. Os estudiosos de sua obra concordam que o próprio vale de Lauterbrunnen, com o vilarejo encaixado no 'V' da garganta e o rio correndo lá embaixo entre paredes de rocha e cachoeiras, foi o modelo do vale de Valfenda (Imladris), o refúgio dos elfos. Até o jogo de sons parece proposital: 'Lauterbrunnen' evoca águas ruidosas, assim como os nomes do rio de Valfenda na obra de Tolkien — Loudwater em inglês, Bruinen em élfico.
Seja qual for o peso exato daquela lembrança, o fato é que hoje Lauterbrunnen reivindica com orgulho seu papel de 'a verdadeira Terra-média', e muitos visitantes chegam em busca da paisagem que Tolkien imaginou. É um exemplo perfeito de como um lugar real pode alimentar um mito universal, e de como esse mito, por sua vez, volta para transformar o destino turístico do lugar que o inspirou.
A Lauterbrunnen de hoje vive um paradoxo incômodo: sua beleza, espalhada por milhões de fotos nas redes sociais, virou também seu maior problema. O vilarejo, que mal passa de alguns poucos milhares de habitantes, recebe na alta temporada uma avalanche diária de visitantes que chegam quase todos com o mesmo objetivo: tirar a foto do vilarejo com a Staubbachfall ao fundo, uma das imagens mais compartilhadas da Suíça no Instagram. O resultado é trânsito, ônibus, lixo, ruas congestionadas e uma pressão enorme sobre um lugar que não foi feito para tanta gente.
Em 2024 o debate chegou à mídia internacional quando as autoridades locais anunciaram que estudavam cobrar uma taxa de entrada de 5 a 10 francos dos visitantes que chegassem de carro só para passar o dia, como forma de conter o turismo de massa e financiar a gestão do turismo, seguindo o exemplo de outros pontos saturados da Suíça. O estacionamento no vilarejo é bastante regulado, com um grande estacionamento coberto pago e limite de tempo, e as autoridades incentivam a chegada de trem para desafogar a estrada do vale.
A essa pressão turística soma-se outra imagem que faz parte da identidade recente do vale: a do base jump. As paredes verticais de Lauterbrunnen transformaram o lugar numa das mecas mundiais desse esporte radical, e no verão é comum ver saltadores se jogando no vazio de wingsuit. É uma atividade de altíssimo risco que, ao longo dos anos, já custou várias vidas no vale: um lembrete sóbrio de que essa beleza assombrosa também tem seu lado severo. Entre o fascínio de Goethe, o eco da Terra-média de Tolkien e os desafios do turismo do século XXI, Lauterbrunnen continua sendo, apesar de tudo, uma das paisagens mais extraordinárias dos Alpes.