St. Moritz é um nome que soa a luxo, a neve e a jet set, e com razão: este vilarejo da Alta Engadina, no cantão suíço dos Grisões, é literalmente o berço do turismo de inverno. Foi aqui, em 1864, que o hoteleiro Johannes Badrutt fez uma aposta que mudou a história do turismo: convenceu alguns hóspedes ingleses de que o inverno alpino, longe de ser cinzento e hostil, podia ser luminoso e ensolarado. Ganhou a aposta e, com ela, inventou uma indústria. Desde então, St. Moritz é sinônimo de férias de inverno de alto padrão, com dois Jogos Olímpicos de Inverno no currículo (1928 e 1948) e uma das clientelas internacionais mais exclusivas do planeta.
Mas St. Moritz é muito mais do que hotéis cinco estrelas e boutiques de relógios. Fica encravado na Engadina, uma das paisagens de montanha mais bonitas da Suíça: um vale alto de luz intensa, salpicado de lagos, cercado de picos nevados e geleiras, com vilarejos de casas enfeitadas com esgrafiados (os 'sgraffiti' típicos da região). No inverno, o lago congelado se transforma num cenário incrível: sobre o gelo acontecem corridas de cavalos (o White Turf), joga-se polo na neve e funciona o mítico e perigoso Cresta Run, a pista natural de skeleton mais famosa do mundo. No verão, essas mesmas paisagens se abrem para as trilhas, o ciclismo e o trem panorâmico.
Este guia percorre St. Moritz com um olhar prático e honesto: o que ver e fazer no vilarejo e nos arredores, como subir ao Piz Nair, como pegar o lendário Bernina Express rumo à Itália por uma linha declarada Patrimônio da Humanidade, quanto as coisas custam de verdade (muito: é um dos destinos mais caros do mundo) e como aproveitar o Swiss Travel Pass. St. Moritz é exclusivo, sim, mas a beleza da Engadina e seus trens de montanha estão ao alcance de qualquer viajante que saiba se virar bem.
A história de St. Moritz é muito anterior ao esqui. Suas fontes minerais, riquíssimas em gás carbônico, já atraíam gente na Idade do Bronze, há mais de 3.000 anos: foram encontradas oferendas da época na nascente. Durante séculos foi uma estância termal de verão aonde se ia 'tomar as águas', sob a proteção de São Maurício (Mauritius), de onde vem o seu nome. Tudo mudou em 1864, quando o hoteleiro Johannes Badrutt apostou com alguns clientes ingleses que eles iriam curtir o inverno da Engadina: ganhou a aposta e inventou, sem querer, o turismo de inverno. St. Moritz virou o destino da moda da Belle Époque, sede de dois Jogos Olímpicos de Inverno (1928 e 1948) e refúgio da jet set internacional. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The alpine and Mediterranean south of Switzerland: the Rhône valley and the bishopric of Sion, the Matterhorn of Zermatt conquered in 1865, Italian Ticino that was a subject land of the Confederation, and the Romansh Engadine where St. Moritz invented winter tourism.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existirem os esquis, os hotéis de luxo ou o jet set, St. Moritz já era um lugar para onde as pessoas peregrinavam por um motivo bem concreto: suas fontes minerais. No fundo da nascente de St. Moritz, os arqueólogos encontraram oferendas votivas, espadas e agulhas da Idade do Bronze, com mais de 3.000 anos, prova de que os povos pré-históricos — e mais tarde os celtas — já conheciam e veneravam essas águas. As fontes de St. Moritz estão entre as mais ricas em ácido carbônico (gás carbônico) da Europa, e seu sabor efervescente e ferruginoso as tornou famosas como águas curativas.
Durante séculos, a Engadina foi um vale alto e remoto dos Grisões, habitado por comunidades que falavam romanche, uma língua derivada do latim que ainda sobrevive na região e é a quarta língua oficial da Suíça. O nome do lugar vem de São Maurício (Sanctus Mauritius, San Murezzan em romanche), o santo a quem foi dedicada a igreja local. A fama das águas foi crescendo: em 1535, o célebre médico e alquimista Paracelso visitou a nascente e elogiou por escrito suas propriedades, o que atraiu a atenção da nobreza europeia.
A partir de então, St. Moritz foi se consolidando como uma estância termal de verão à qual a aristocracia acorria para 'tomar as águas'. Em 1832 foi erguida a primeira casa de hóspedes junto à fonte, e em meados do século XIX ela já podia acomodar centenas de visitantes. Mas continuava sendo um destino estritamente de verão: assim que chegava o frio, os hóspedes iam embora e o vale se fechava sobre si mesmo, branco e silencioso, durante longos meses de inverno. Ninguém imaginava então que justamente esse inverno, considerado um obstáculo, se tornaria a maior riqueza do vilarejo.
O momento fundador da St. Moritz moderna tem data, nome e forma de aposta. O protagonista foi Johannes Badrutt, um hoteleiro visionário que em 1856 havia alugado uma modesta pensão no vilarejo (a Pension Faller, o embrião do futuro Kulm Hotel) e que a comprou pouco depois, transformando-a no primeiro hotel de St. Moritz. Badrutt estava convencido de algo que parecia absurdo aos seus contemporâneos: que o inverno da Engadina, com seu céu limpo, seu sol intenso e sua neve seca, não era um tormento, e sim um prazer, muito mais ensolarado e luminoso que os invernos cinzentos e úmidos do norte da Europa.
No outono de 1864, decidido a provar isso, ele fez a um grupo de seus clientes ingleses uma proposta memorável. Disse a eles, mais ou menos: 'Voltem a St. Moritz no inverno. Se não gostarem, se o frio for insuportável, eu mesmo pago a viagem de ida e volta desde Londres'. Era uma aposta para valer. Os ingleses aceitaram o desafio e chegaram no Natal, esperando encontrar um descampado congelado. Em vez disso, deram de cara com dias radiantes de sol, ar seco e uma paisagem deslumbrante. Ficaram encantados até a Páscoa, bronzeados e felizes, e voltaram à Inglaterra contando a história.
Aquela aposta, vencida com folga por Badrutt, costuma ser considerada o nascimento oficial do turismo de inverno nos Alpes. A notícia se espalhou, e em poucos anos St. Moritz se encheu de hóspedes que vinham justamente na estação fria. Badrutt continuou inovando: em 1878 instalou no restaurante do seu Kulm Hotel a primeira luz elétrica da Suíça, um luxo tecnológico que deixou a clientela boquiaberta. O vilarejo termal de verão tinha se reinventado como capital do inverno, e nunca mais deixaria de sê-lo.
Com os primeiros turistas de inverno veio também a vontade de fazer alguma coisa com toda aquela neve e aquele gelo. Nas últimas décadas do século XIX, St. Moritz se tornou o laboratório onde foram inventados ou aperfeiçoados boa parte dos esportes de inverno que conhecemos hoje. Os hóspedes ingleses, com seu gosto por clubes e competições, foram os principais impulsionadores.
No inverno de 1884-1885 foi construído, entre St. Moritz e o vilarejo vizinho de Celerina, o Cresta Run: um tobogã de gelo natural pelo qual os mais ousados se lançavam de bruços e de cabeça sobre um pequeno trenó. Aquela pista, erguida à mão a cada inverno e ainda em funcionamento, é o berço do skeleton e continua sendo a única pista natural desse esporte no mundo, com seu ar de excêntrico clube britânico e sua tradição (durante mais de um século, de forma polêmica, só admitiu competidores homens). Pouco depois, em 1º de janeiro de 1904, foi inaugurada em St. Moritz a primeira pista de bobsleigh, a Olympia Bob Run, que também é a única pista natural de bob do planeta que continua ativa.
A esses se somaram a patinação artística, o curling, o hóquei no gelo, as corridas de cavalos sobre o lago congelado (o White Turf, desde 1907) e os primeiros passos do esqui alpino. Assim, St. Moritz ganhou, com toda a razão, o título de berço dos esportes de inverno, um legado que celebra até hoje com eventos únicos que usam seu lago congelado como palco. A combinação de infraestrutura hoteleira de luxo com essas competições pioneiras a colocou no centro do mapa esportivo mundial.
O prestígio esportivo de St. Moritz culminou com a maior das honras: os Jogos Olímpicos de Inverno. O vilarejo da Engadina os organizou não uma, mas duas vezes. Os primeiros foram os Jogos de 1928, realizados de 11 a 19 de fevereiro, com 25 nações e mais de 460 atletas; foram Jogos marcados pelo clima extremo da alta montanha, com temperaturas que oscilavam loucamente e afetaram algumas provas. Vinte anos depois, em 1948, St. Moritz voltou a ser sede olímpica, de 30 de janeiro a 8 de fevereiro. Aqueles foram Jogos históricos por outro motivo: foram os primeiros depois da Segunda Guerra Mundial, após doze anos sem competição olímpica, e por isso são lembrados como os 'Jogos do renascimento'. A Suíça, neutra durante o conflito, oferecia um cenário intacto e pacífico para reunir de novo o esporte mundial.
Com duas Olimpíadas na bagagem, St. Moritz se tornou uma das pouquíssimas localidades do mundo a sediar duas vezes os Jogos de Inverno. Esse duplo selo olímpico consolidou sua imagem internacional e sua marca, que o vilarejo protege com unhas e dentes (o nome 'St. Moritz' e seu logo do sol estão inclusive registrados como marca há mais de um século).
Ao longo do século XX, St. Moritz completou sua transformação em destino do jet set. Seus grandes hotéis — o Badrutt's Palace, o Kulm, o Carlton, o Suvretta House — se encheram de aristocratas, magnatas, estrelas de cinema e membros da realeza que fizeram do vilarejo seu ponto de encontro de inverno. A Via Serlas, sua rua principal, virou uma das mais caras do mundo, com butiques das grandes marcas de luxo e relojoarias. St. Moritz passou a ser sinônimo de exclusividade, glamour e preços estratosféricos, um dos lugares mais caros do planeta.
A St. Moritz de hoje continua vivendo dessa dupla herança: a da estância termal de águas milagrosas e a do vilarejo que inventou o turismo de inverno. É um destino de luxo assumido, com uma temporada de inverno que atrai a elite internacional para esquiar em Corviglia e Corvatsch e para curtir os eventos únicos sobre o lago congelado — o White Turf, o polo na neve, o críquete no gelo, o Cresta Run —, todos aproveitando a raridade de um lago alpino que aguenta o peso de cavalos, arquibancadas e multidões.
Mas St. Moritz também aprendeu a valorizar sua outra grande temporada, o verão, quando a Alta Engadina revela uma das paisagens de montanha mais bonitas da Suíça: a sequência de lagos de Silvaplana e Sils, mecas europeias do windsurfe e do kitesurfe graças ao vento de Maloja; as florestas de lariços que no outono ficam douradas; e uma rede imensa de trilhas e ciclovias entre geleiras e picos. Por esses vales passeou, em busca de inspiração, o filósofo Friedrich Nietzsche, que passava os verões na vizinha Sils Maria.
E há, claro, os trens. St. Moritz é o ponto de encontro de duas das viagens ferroviárias mais famosas do mundo, ambas pelas mãos da ferrovia dos Grisões (Rhätische Bahn) e das ferrovias suíças: é o terminal do Glacier Express, que a liga a Zermatt em oito horas de paisagem ininterrupta, e o ponto de partida do Bernina Express rumo a Tirano, na Itália, pela linha Albula/Bernina, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2008. Esses trens, que cruzam viadutos helicoidais e passos glaciares a mais de 2.200 metros sem cremalheira, são hoje uma das grandes atrações do lugar e colocam a beleza da Engadina ao alcance de qualquer viajante, não só do jet set. St. Moritz, no fim das contas, continua sendo o que sempre foi: um pequeno vilarejo de montanha com uma história enorme, capital eterna do inverno alpino.