Interlaken é a porta de entrada para um dos cantos mais espetaculares dos Alpes: a região de Jungfrau. A pequena cidade se estende sobre uma planície verde entre dois lagos de um azul-turquesa incrível, o de Thun e o de Brienz, com os picos nevados do Eiger, do Mönch e da Jungfrau recortados ao fundo. O nome vem do latim 'inter lacus', 'entre lagos', e descreve perfeitamente sua geografia: uma faixa de terra plana, o Bödeli, encaixada entre montanhas e água.
Vale dizer sem rodeios: Interlaken é, acima de tudo, uma base logística. A cidade tem seu charme — o grande gramado da Höhematte com a Jungfrau ao fundo, a avenida Höheweg com seus hotéis do século XIX, os cassinos e relojoarias —, mas o que é realmente memorável está ao redor. Daqui saem os trens e teleféricos que sobem para Grindelwald, Lauterbrunnen, Wengen, Mürren, o Schilthorn e o mítico Jungfraujoch, a estação de trem mais alta da Europa. Interlaken também é a capital suíça dos esportes de aventura: parapente, bungee jump, rafting, canyoning.
Este guia percorre a cidade com um olhar prático: o que dá para ver e fazer na própria Interlaken (o mirante do Harder Kulm, os barcos dos dois lagos, a Höhematte, o parapente sobre os telhados), como usá-la como base para as grandes excursões da região e como entender os passes de transporte e os preços dos teleféricos, que são a grande dor de cabeça do orçamento por aqui. Interlaken é cara, mas é a chave para viver algumas das paisagens alpinas mais impressionantes do planeta.
A história de Interlaken começa com um mosteiro. Por volta de 1130, foi fundada aqui, entre os dois lagos, uma comunidade de cônegos agostinianos que durante quase quatro séculos foi a grande senhora da região, até que a Reforma protestante de Berna a dissolveu e secularizou em 1528. O povoado, que se chamou Aarmühle até 1891, era apenas um vilarejo até que, no século XIX, o Romantismo e o turismo inglês o descobriram: viajantes, poetas e músicos como Lord Byron e Felix Mendelssohn se renderam à paisagem da Jungfrau, e os hotéis começaram a se multiplicar ao longo da avenida Höheweg. Em 1864, um grupo de moradores e hoteleiros assinou um pacto para que o grande gramado da Höhematte ficasse livre de construções para sempre e a vista da montanha não fosse bloqueada: esse acordo continua em vigor. A chegada da ferrovia e, em 1912, do trem da Jungfrau consolidaram Interlaken como capital turística dos Alpes Berneses. Hoje a cidade recebe visitantes do mundo todo — com forte presença asiática — que a usam como base para conhecer a região. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The roof of touristic Switzerland: the glacial valleys of the Bernese Oberland settled by the Walser, cradle of the golden age of alpinism and of English Romantic tourism, with Interlaken, Grindelwald, Lauterbrunnen and the railway that climbs to the Jungfraujoch, the "Top of Europe".
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existirem hotéis, cassinos e parapentes, nesta planície verde encaixada entre o lago de Thun e o de Brienz havia um mosteiro. E foi esse mosteiro que deu nome à cidade. Por volta de 1130, fundou-se aqui uma comunidade de cônegos regulares de Santo Agostinho, mencionada pela primeira vez em um documento de 1133, quando o imperador do Sacro Império Lotário III (Lotário II como duque) a colocou sob sua proteção. Os monges latinizaram o lugar como 'inter lacus', 'entre os lagos', e daí nasceu Interlaken.
O mosteiro agostiniano não era um convento qualquer. Durante quase quatro séculos, foi a grande potência da região: acumulou terras, direitos e servos em todo o vale do Bödeli e em boa parte do Oberland, e chegou a ser uma casa dupla, com um ramo masculino e um feminino. Sua igreja e seus edifícios, às margens do rio Aar, eram o centro espiritual e econômico de uma região de camponeses e pastores de montanha. Com o tempo, o poder dos cônegos sobre os habitantes do vale virou fonte de tensões e de ressentimento popular.
A geografia explica tudo. O Bödeli, essa faixa de terra plana e fértil formada pelos sedimentos que os rios foram depositando entre os dois lagos, era um lugar estratégico: controlava a passagem para os altos vales da Jungfrau —Lauterbrunnen e Grindelwald— e o trânsito entre as duas bacias lacustres. Quem dominava o Bödeli dominava a porta da montanha. E, durante a Idade Média, quem o dominava era o mosteiro.
O século XVI mudou Interlaken para sempre. Em 1528, a poderosa cidade-Estado de Berna, da qual a região dependia, adotou oficialmente a Reforma protestante depois de uma célebre disputa teológica. A decisão de Berna arrastou todo o seu território, e o mosteiro agostiniano de Interlaken —símbolo da velha ordem católica e de um poder senhorial malvisto— foi dissolvido e secularizado naquele mesmo ano. Seus bens, terras e rendas passaram para o Estado bernense.
A secularização não foi um processo tranquilo. O descontentamento dos camponeses com o mosteiro vinha de longe, e a Reforma se misturou a revoltas rurais no Oberland. Berna acabou impondo sua autoridade e transformou os edifícios do antigo mosteiro na sede de um administrador (um 'Landvogt', ou bailio) que governava a região em nome da cidade. O velho claustro passou a ter usos civis; ao longo dos séculos, parte do conjunto chegou até a funcionar como hospital. Ainda hoje se conservam a igreja do castelo (Schlosskirche) e edifícios daquele mosteiro, integrados ao Schloss Interlaken.
Nos séculos seguintes, Interlaken —ou, mais exatamente, o povoado de Aarmühle, 'o moinho do Aar', como se chamou o núcleo principal até 1891— continuou sendo um lugar pequeno e rural, de camponeses, moleiros e artesãos, à sombra das grandes montanhas. Nada indicava que aquela aldeia entre lagos se tornaria, em apenas algumas décadas do século XIX, uma das capitais turísticas da Europa. Para isso acontecer, foi preciso uma mudança na forma como os europeus olhavam para as montanhas.
Durante séculos, os Alpes foram vistos como um obstáculo perigoso, um lugar de dragões e avalanches que os viajantes preferiam atravessar depressa e com medo. Isso mudou com o Romantismo. No fim do século XVIII e no começo do XIX, poetas, pintores e viajantes —sobretudo britânicos e alemães— passaram a olhar a alta montanha com outros olhos: não mais como uma ameaça, mas como o cenário do sublime, da beleza selvagem e arrebatadora que colocava o ser humano diante da imensidão da natureza. E poucas paisagens encarnavam essa ideia melhor do que o maciço da Jungfrau visto de Interlaken.
Entre os primeiros grandes visitantes ilustres esteve Lord Byron, que percorreu o Oberland Bernês em 1816 —o 'ano sem verão'— e ficou tão impressionado com a Jungfrau, suas cachoeiras e suas tempestades que ambientou nessas paisagens seu drama poético 'Manfred'. Pouco depois, em 1831, o jovem compositor Felix Mendelssohn visitou a região e a desenhou e descreveu com entusiasmo; os músicos, escritores e artistas do Romantismo transformaram a Jungfrau em um ícone cultural. Mais tarde viriam outros nomes célebres atraídos pela fama do lugar, numa época em que fazer o 'Grand Tour' pela Suíça virou moda entre as classes abastadas.
O turismo, então, transformou o povoado. Ao longo de uma antiga alameda de nogueiras em frente ao grande prado, começaram a surgir hotéis cada vez maiores e mais luxuosos: nascia a avenida Höheweg, a elegante espinha dorsal da cidade moderna, com estabelecimentos como o que viria a ser o Victoria-Jungfrau. Interlaken se especializou em algo muito concreto: ser a varanda confortável e refinada de onde contemplar uma das montanhas mais famosas do mundo. A aldeia de camponeses estava virando uma cidade de hoteleiros.
Em meio àquele boom da construção de hotéis, aconteceu algo excepcional, um episódio que hoje parece incrível e que define o caráter de Interlaken. Em frente aos grandes hotéis da Höheweg se estendia um enorme prado aberto, a Höhematte, de cerca de 14 hectares, que havia pertencido ao antigo mosteiro. Com o vilarejo crescendo e o terreno cada vez mais valorizado, a tentação de construir ali —tapando para sempre a vista da Jungfrau, que era justamente a grande atração da cidade— era enorme.
Em 1864, um grupo de 37 proprietários e hoteleiros locais tomou uma decisão visionária: em vez de dividir o prado entre si para construir, assinaram um pacto para mantê-lo aberto para sempre. Fundaram uma sociedade, a Höhe-Interessentschaft, que comprou e reuniu a propriedade com a condição de que jamais se erguesse um edifício sobre ela. Entenderam que a vista desimpedida da montanha valia, a longo prazo, muito mais do que qualquer hotel: era o patrimônio de todos.
Aquele acordo, assinado há mais de 160 anos, continua valendo e é respeitado. Por isso hoje, bem no centro de uma cidade turística, existe um grande campo verde onde os parapentes pousam, as pessoas fazem piquenique e se deitam para olhar o Eiger, o Mönch e a Jungfrau, sem um único prédio atrapalhando. A Höhematte é uma raridade urbanística —uma das decisões de planejamento mais notáveis e precoces da Suíça— e, ao mesmo tempo, a melhor síntese do que Interlaken soube ser: um lugar que entendeu que seu tesouro era a paisagem e a protegeu por escrito.
Se o Romantismo colocou Interlaken no mapa, a ferrovia a transformou em uma potência turística. A partir da segunda metade do século XIX, a Suíça viveu uma febre de construção de trens de montanha que levou os trilhos a lugares antes inacessíveis. Em 1872 foi inaugurada a Bödelibahn, a primeira linha que conectou Interlaken à rede ferroviária e aos cais dos lagos; em 1890 chegaram os trens para Lauterbrunnen e Grindelwald, escancarando a região da Jungfrau para o visitante comum.
O grande símbolo dessa época foi a Jungfraubahn, a ferrovia da Jungfrau. Em 1893, durante uma caminhada, o empresário e industrial Adolf Guyer-Zeller teve a ideia ousada —para muitos, uma loucura— de construir um trem de cremalheira que subisse por dentro da montanha, escavando um túnel através do Eiger e do Mönch, até um colo a mais de 3.400 metros: o Jungfraujoch. As obras começaram em 1896 e foram duríssimas: dezesseis anos perfurando a rocha, em condições extremas, com acidentes e mortes de operários, muitos deles imigrantes italianos. O trem finalmente chegou ao Jungfraujoch em 1912, criando a estação ferroviária mais alta da Europa, apelidada de 'Top of Europe'.
Aquela façanha de engenharia consolidou Interlaken como a base indiscutível de toda a região: o lugar onde o viajante dormia, comia e de onde partia para viver a alta montanha. Ao longo do século XX, somaram-se teleféricos, funiculares e trens de cremalheira —para First, Schilthorn, Männlichen— que teceram uma das redes de transporte de montanha mais densas do planeta. A grande obra mais recente é o Eiger Express, o teleférico tricabo inaugurado em dezembro de 2020 que sobe a partir do Grindelwald Terminal e encurtou drasticamente a viagem até o Jungfraujoch, já em pleno século XXI.
Os séculos XX e XXI transformaram Interlaken em um destino de massa de alcance mundial. À antiga clientela britânica e europeia do turismo romântico somaram-se, primeiro, viajantes de todo o Ocidente e, nas últimas décadas, um fortíssimo fluxo de turismo asiático —japonês, coreano, chinês e indiano— que fez do Jungfraujoch um dos passeios dos sonhos da Ásia. Não é raro ouvir mais idiomas asiáticos do que alemão na avenida Höheweg em plena temporada, nem encontrar placas e cardápios pensados para esse público.
Ao mesmo tempo, Interlaken se reinventou como capital dos esportes de aventura dos Alpes: parapente, bungee jump, rafting, canyoning, esqui e snowboard transformaram a cidade em um ímã para viajantes jovens e mochileiros do mundo todo, com uma cena de hostels e de turismo ativo que convive com os grandes hotéis clássicos. Esse duplo perfil —luxo histórico e adrenalina low cost— é uma de suas marcas registradas.
Esse sucesso tem seu lado B. Na alta temporada, a cidade e, principalmente, os pontos mais fotografados da região (Lauterbrunnen, o píer de Iseltwald, o próprio Jungfraujoch) sofrem com aglomerações e saturação, mais um caso dos debates sobre excesso de turismo que muitos ícones alpinos enfrentam. E os preços, que já são altos na Suíça, fazem desta uma região cara para o visitante — ainda mais para quem viaja com o real. Mas o essencial não mudou desde os tempos de Byron: as pessoas continuam vindo a Interlaken pelo mesmo motivo, para parar em um prado entre dois lagos e ficar olhando, de boca aberta, a parede branca e azul da Jungfrau. Aquele prado, graças ao pacto de 1864, continua lá, aberto e sem construções, cumprindo sua promessa.