O Lake District é o grande parque nacional da Inglaterra e, para muita gente, a paisagem mais bonita do país: um mundo de lagos compridos encaixados entre montanhas, vales glaciais, bosques, cachoeiras e vilarejos de pedra cinza onde o tempo parece passar mais devagar. Aqui ficam os maiores lagos da Inglaterra — Windermere, Ullswater, Derwentwater, Coniston — e suas montanhas mais altas, coroadas pelo Scafell Pike, o pico mais alto do país. Desde 2017 é Patrimônio da Humanidade da Unesco, não só pela beleza natural, mas como 'paisagem cultural': o resultado de mil anos de pastores, ovelhas Herdwick e muros de pedra que moldaram estas colinas.
É também terra de literatura. Aqui escreveram os poetas lakistas — William Wordsworth à frente, com Coleridge e Southey —, que tornaram famosa a paisagem romântica inglesa, e aqui viveu Beatrix Potter, a criadora de Peter Rabbit, que com os direitos autorais de seus livros comprou fazendas para salvá-las da especulação imobiliária e as doou ao National Trust. Percorrer o Lake District é visitar Dove Cottage e Hill Top, pegar um barco pelo Windermere, caminhar até uma cachoeira ou subir um cume, tomar chá num vilarejo e terminar num pub perto da lareira enquanto lá fora cai a chuva (porque chove, e bastante).
Este guia mostra o essencial com olhar prático: como chegar de trem a Oxenholme e Windermere, como se locomover com os ônibus da Stagecoach e os barcos do lago quando você não está de carro, quais vilarejos e lagos ver, quais trilhas valem a pena e quais exigem experiência (cuidado com o Striding Edge), e como aproveitar as casas dos escritores e as fazendas do National Trust. O Lake District não é de monumentos: é de ar livre, paisagem e calma. Com uma boa capa de chuva e sem pressa, ele rende alguns dos dias mais bonitos de uma viagem pelo Reino Unido.
O Lake District que vemos hoje nasceu de duas forças: o gelo e as ovelhas. As geleiras das últimas eras glaciais esculpiram os vales em forma de U e as depressões onde hoje estão os lagos; depois, mais de mil anos de pastoreio com a resistente ovelha Herdwick, muros de pedra seca e fazendas de montanha criaram a paisagem 'cultural' que a Unesco reconheceu em 2017. Nos séculos XVIII e XIX, os poetas românticos — William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge e Robert Southey, os chamados 'lakistas' — transformaram estas montanhas em símbolo do sublime e atraíram os primeiros turistas, um fluxo que disparou com a chegada da ferrovia vitoriana a Windermere em 1847. No começo do século XX, a escritora Beatrix Potter usou o dinheiro de seus livros infantis para comprar fazendas e terras e protegê-las da especulação e, ao morrer, deixou-as para o National Trust, com a condição de manter as ovelhas Herdwick. Essa aliança entre paisagem, literatura e conservação — que também deu origem ao movimento conservacionista britânico — explica o Lake District de hoje. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The land of Viking York and the Industrial Revolution: Manchester and its cotton mills, Liverpool and its links with the slave trade and with the Beatles, the Peterloo massacre and the wild lakes of the Lake District.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Se o Lake District parece uma paisagem desenhada à mão, é porque, de certa forma, foi: não pelo homem, mas pelo gelo. Sob os vales verdes e os lagos alongados da Cúmbria existe uma história geológica de quase 500 milhões de anos. A base são rochas antiquíssimas: ardósias do período Ordoviciano (os Skiddaw Slates, no norte), as rochas vulcânicas do centro (o Borrowdale Volcanic Group, que forma os picos mais ásperos e altos, entre eles o Scafell Pike) e os arenitos e calcários do sul. Essa matéria-prima foi erguida e dobrada por sucessivos movimentos da crosta terrestre, e depois a erosão fez o resto.
Mas a forma atual (os vales em U, os lagos radiais que se abrem a partir do centro como os raios de uma roda, os circos glaciais pendurados nas montanhas) é obra das glaciações do Quaternário, sobretudo a última, que terminou há cerca de 11.000 anos. Enormes línguas de gelo desceram dos picos centrais escavando os vales, arrancando rocha e depositando morenas que, quando o gelo recuou, represaram a água e criaram os lagos. Windermere, Ullswater, Derwentwater, Coniston e Wastwater ocupam essas bacias glaciais. O resultado é um maciço compacto, de montanhas que não chegam a mil metros, mas que, pelo relevo esculpido e pelo clima úmido, parecem muito mais altas e selvagens do que dizem os números.
Esse clima úmido não é um detalhe qualquer: o Lake District registra alguns dos maiores índices de chuva da Inglaterra (Seathwaite, no vale de Borrowdale, é o lugar habitado mais chuvoso do país), e essa abundância de água alimenta lagos, cachoeiras e turfeiras. É ela também que dá à paisagem seu verde intenso e seu caráter mutável, com a neblina subindo e descendo pelas encostas.
O Lake District não é uma natureza intocada: é uma paisagem trabalhada há mais de mil anos, e por isso a Unesco a reconheceu em 2017 como 'paisagem cultural', e não simplesmente como maravilha natural. Houve assentamentos desde a pré-história (o círculo de pedras de Castlerigg, perto de Keswick, tem cerca de 4.500 anos), os romanos passaram por aqui (e deixaram o forte de Hardknott, num passo de montanha espetacular) e, sobretudo, chegaram os colonos noruegueses e nórdicos na Alta Idade Média. Deles vem boa parte do vocabulário da paisagem: 'fell' (montanha), 'beck' (riacho), 'tarn' (lagoa de montanha), 'dale' (vale) e 'thwaite' (clareira) são palavras de raiz escandinava que ainda dão nome a cada canto da região.
A protagonista silenciosa dessa história é a ovelha Herdwick, a raça nativa de cara branca e lã cinza que se adaptou como nenhuma outra a essas montanhas duras. As Herdwick têm uma qualidade notável chamada 'hefting': cada rebanho conhece seu território na encosta e transmite esse conhecimento de mãe para cria, geração após geração, o que permite pastar nas terras altas comunais sem precisar de cercas. Esse sistema de pastoreio em terras comuns, o maior da Europa, moldou tudo o que vemos: os prados dos vales, os muros de pedra seca (drystone walls) que sobem pelas encostas de um jeito que parece impossível, as fazendas de pedra, os estábulos e as trilhas.
Durante a Idade Média e a época moderna, a vida girou em torno dessas fazendas de montanha (dos 'statesmen', pequenos proprietários independentes), da lã, de um pouco de mineração (grafite em Borrowdale, cobre, ardósia) e de uma economia de subsistência dura e isolada. Entre os séculos XVIII e XIX, o processo dos cercamentos (enclosures) transformou boa parte das terras comunais em lotes privados delimitados por muros, uma mudança profunda na propriedade e no uso da terra que deixou sua marca geométrica na paisagem. Essa combinação de natureza e trabalho humano (gelo e ovelhas, rocha e muros) é a essência do Lake District.
No fim do século XVIII, algo mudou na maneira de olhar para essas montanhas. Durante séculos, as paisagens agrestes tinham sido consideradas feias, desconfortáveis e até perigosas; o Romantismo as transformou em sublimes. E nenhum lugar encarnou essa virada como o Lake District, graças a um grupo de escritores que a posteridade batizou de 'poetas lakistas' (Lake Poets): William Wordsworth, Samuel Taylor Coleridge e Robert Southey.
Wordsworth, nascido em Cockermouth em 1770, é a figura central. Ele se instalou com a irmã, Dorothy, em Dove Cottage, em Grasmere, em 1799, e ali viveu seus anos mais férteis: escreveu grande parte da sua obra, incluindo boa parte de 'The Prelude', sua autobiografia em versos. Junto com Coleridge, tinha publicado em 1798 as 'Lyrical Ballads', o livro costuma ser apontado como a certidão de nascimento do Romantismo inglês. Dorothy Wordsworth, com seus diários de Grasmere, deixou ainda um retrato íntimo e agudíssimo da vida e da paisagem que hoje é lido como literatura por mérito próprio. Coleridge morou uma temporada em Keswick, e lá também se estabeleceu Southey, que chegou a ser poeta laureado.
Wordsworth não só cantou essas montanhas: ele as explicou. Seu 'Guia do Distrito dos Lagos' (A Guide through the District of the Lakes, 1810 e edições posteriores) foi um dos guias turísticos mais influentes da sua época e ajudou a colocar o Lake District no mapa. Mas ele trazia um paradoxo que marcaria o futuro: ao mesmo tempo que atraía visitantes, Wordsworth se alarmava com o turismo de massa e com as mudanças que a ferrovia traria, e chegou a escrever que a região devia ser considerada 'uma espécie de propriedade nacional', que pertencia a todo aquele que tivesse olhos para percebê-la e coração para desfrutá-la. Essa frase, escrita por volta de 1810, antecipou em mais de um século a ideia dos parques nacionais.
O que Wordsworth temia acabou acontecendo. Em 1847 a ferrovia chegou a Windermere, e o Lake District deixou de ser um canto remoto para se tornar acessível às classes médias das cidades industriais do norte (Manchester, Liverpool, Leeds), que buscavam ar puro longe da fumaça das fábricas. Windermere e Bowness cresceram como centros turísticos, hotéis e casarões vitorianos foram construídos às margens do lago, surgiram os barcos a vapor que cruzavam Windermere (os antepassados dos cruzeiros de hoje) e o turismo virou uma indústria central da região.
Esse mesmo sucesso acendeu as primeiras grandes batalhas conservacionistas da história britânica. Quando foram projetadas novas linhas férreas e explorações que ameaçavam vales inteiros, surgiram vozes de resistência. O crítico e pensador John Ruskin, que viveu seus últimos anos em Brantwood, à beira do lago Coniston, tornou-se um defensor feroz da paisagem e um crítico dos estragos da industrialização. Em 1883 nasceu a Lake District Defence Society, e em 1895 foi fundado o National Trust, a organização que compraria terras e edifícios para protegê-los para sempre, impulsionada em parte por pessoas ligadas a essas montanhas, como o clérigo Hardwicke Rawnsley, pároco perto de Keswick.
Assim, o Lake District se tornou ao mesmo tempo destino turístico e laboratório do conservacionismo moderno. A tensão que Wordsworth havia intuído (como abrir a paisagem para todos sem destruí-la) se transformou num debate prático sobre propriedade, acesso e proteção que continuaria vivo durante todo o século XX e que, em boa medida, definiu o que hoje entendemos por proteger a natureza.
Nessa história de conservação, nenhuma figura foi tão decisiva (nem tão inesperada) quanto Beatrix Potter. Nascida em Londres em 1866, ela ficou mundialmente famosa com seus contos infantis ilustrados, começando por 'The Tale of Peter Rabbit' (1902). Com o dinheiro desses livros, Potter fez algo incomum para uma mulher da sua época: comprou terras. Em 1905 adquiriu a fazenda de Hill Top, em Near Sawrey, e ao longo das décadas seguintes foi comprando fazendas e milhares de acres para salvá-los da especulação imobiliária e manter viva a agricultura tradicional.
Casada com o advogado William Heelis, tornou-se uma fazendeira respeitada e uma criadora experiente de ovelhas Herdwick (chegou a presidir associações da raça), convencida de que a paisagem e o rebanho eram inseparáveis. Quando morreu, em 1943, deixou para o National Trust cerca de 4.000 acres de terra e catorze fazendas, com a condição explícita de que continuassem sendo usadas para o pastoreio de rebanhos Herdwick. Foi uma das doações mais importantes que a organização recebeu e garantiu que boa parte do coração do Lake District ficasse protegida para sempre.
Em 1951 o Lake District foi declarado parque nacional, um dos primeiros do Reino Unido. Hoje o National Trust é o maior proprietário de terras do parque, e a região vive de um equilíbrio delicado entre a agricultura de montanha, a conservação e um turismo enorme (milhões de visitantes por ano). Esse equilíbrio não está livre de debate: há discussões sobre se o pastoreio intensivo de ovelhas empobrece a biodiversidade, sobre quanto 'rewilding' (renaturalização) deveria ser permitido e sobre o que significa exatamente proteger uma paisagem que nunca foi totalmente 'natural', mas fruto do trabalho humano. A inscrição como Patrimônio da Humanidade em 2017 reconheceu justamente isso: que aqui natureza e cultura são a mesma coisa. Percorrer o Lake District é caminhar por esse debate, entre lagos glaciais, muros de pedra, versos de Wordsworth e ovelhas que conhecem sua montanha de cor.