Colada à aristocrática Mdina, e muitas vezes ofuscada por ela, Rabat esconde alguns dos tesouros mais singulares de Malta: não em suas ruas, mas embaixo delas. Esta cidadezinha do centro da ilha, cujo nome árabe significa 'arrabalde', foi o subúrbio da antiga cidade romana de Melite, e seu subsolo é cortado por quilômetros de galerias funerárias paleocristãs —as catacumbas de São Paulo e de Santa Ágata—, pela gruta onde, segundo a tradição, o apóstolo Paulo se refugiou depois do naufrágio, e pelas fundações de luxuosas vilas romanas com mosaicos. Rabat é a Malta que você precisa olhar para baixo para descobrir.
Mas Rabat não é só um sítio arqueológico. É também uma cidadezinha maltesa viva e autêntica, com sua praça, suas igrejas, suas pastizzerias onde comprar os melhores pastéis da ilha e um clima de bairro que contrasta com o silêncio de museu de Mdina. Aqui se respira a religiosidade popular maltesa, intimamente ligada à figura de São Paulo, padroeiro espiritual da ilha, cuja presença se sente na igreja que leva seu nome, na gruta e nas festas do padroeiro. É um lugar para combinar a grande história com a vida cotidiana.
Este guia percorre Rabat com um olhar prático e acolhedor: como chegar e emendar com Mdina e Dingli, quais catacumbas e museus não perder, como entender a ligação com São Paulo e os primeiros cristãos, onde comer um pastizzi saído do forno e como aproveitar as atrações subterrâneas para fugir do calor. Discreta, mas cheia de história, Rabat recompensa o viajante curioso que quer ir além do cartão-postal de Mdina e descobrir as raízes mais antigas e profundas de Malta.
Rabat nasceu como o arrabalde da cidade antiga. Nas épocas fenícia, púnica e romana, a grande cidade de Melite —a capital de Malta— ocupava tanto a atual Mdina quanto boa parte do que hoje é Rabat, que ficava dentro ou junto de suas muralhas. Dessa época dão testemunho os mosaicos e vestígios da Domus Romana, uma luxuosa vila da virada da era. Segundo a tradição cristã, por volta do ano 60 d.C. o apóstolo São Paulo naufragou em Malta e teria se refugiado em uma gruta de Rabat (a Gruta de São Paulo), de onde pregou e lançou as bases do cristianismo na ilha. Nos primeiros séculos da nossa era, as comunidades cristã, judaica e pagã de Melite escavaram na rocha macia do subsolo de Rabat vastas necrópoles subterrâneas: as catacumbas de São Paulo e de Santa Ágata, entre as mais importantes do Mediterrâneo central. Quando a conquista árabe do século IX reduziu a cidade a seu núcleo amuralhado (Mdina), o restante ficou como subúrbio e recebeu o nome de Rabat ('arrabalde' em árabe). Ao longo da Idade Média e da época da Ordem de São João, Rabat cresceu como uma cidadezinha ligada a Mdina, com igrejas, conventos e uma forte devoção a São Paulo. O grão-mestre Alof de Wignacourt patrocinou no século XVII a igreja e o complexo sobre a gruta. Hoje Rabat conserva seu clima autêntico e seu extraordinário patrimônio subterrâneo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Malta's ancient interior: the old medieval capital of Mdina, Rabat with its early Christian catacombs, and the temples and cliffs at the heart of the island.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para entender Rabat, é preciso primeiro imaginar uma cidade que já não existe nesse formato: Melite, a grande capital da Malta antiga. Na época fenícia, púnica e sobretudo romana, Melite ocupava um perímetro amuralhado muito maior que a atual Mdina e se estendia por boa parte do que hoje é Rabat. Ou seja, Rabat e Mdina eram, na origem, uma mesma cidade: o coração político e econômico da ilha, situado no interior, no planalto mais alto e mais fácil de defender, longe das incursões pelo litoral.
A Melite romana era uma cidade próspera, com fóruns, templos, muralhas e residências aristocráticas ricamente decoradas. O melhor testemunho daquela opulência são os restos da Domus Romana, uma luxuosa casa da virada da era descoberta no limite entre Mdina e Rabat. Seus mosaicos (entre os mais finos do Mediterrâneo ocidental, com motivos geométricos e a famosa cena das pombas) revelam o gosto helenístico e a riqueza das elites locais. Malta, na órbita de Roma desde 218 a.C., foi um enclave comercial e estratégico nas rotas do Mediterrâneo central.
É nessa Melite romana que se encaixa o episódio que marcaria para sempre a identidade de Rabat e de toda a ilha: o naufrágio de São Paulo. Segundo os Atos dos Apóstolos, por volta do ano 60 d.C., o apóstolo, que seguia preso para Roma, naufragou na costa de Malta e passou três meses na ilha. A tradição situa seu refúgio em uma gruta de Rabat, de onde ele teria pregado o cristianismo, e também seu encontro com Públio, o homem mais importante de Melite, que ele converteu e que seria venerado como o primeiro bispo de Malta. Aquele naufrágio fez de Malta uma das primeiras comunidades cristãs do mundo, e de Rabat, um de seus lugares sagrados.
O legado mais extraordinário da Rabat antiga está debaixo da terra. Entre os séculos III e V d.C., a comunidade de Melite escavou na rocha calcária do subsolo de Rabat vastas necrópoles subterrâneas, as catacumbas. Elas formam um dos conjuntos de cemitérios paleocristãos mais importantes fora de Roma e são o testemunho mais eloquente do cristianismo primitivo no Mediterrâneo central. A lei romana proibia enterrar os mortos dentro das cidades, então eles eram levados para fora das muralhas, e a rocha macia de Rabat, fácil de talhar, se prestava a escavar galerias e câmaras funerárias.
Os dois grandes complexos são as Catacumbas de São Paulo e as de Santa Ágata, mas há muitos outros hipogeus menores espalhados pela região. São verdadeiras cidades dos mortos: quilômetros de passagens, salas e túmulos de vários tipos (nichos, sarcófagos, túmulos 'de baldaquino') escavados à mão. Um traço muito característico são as agape tables, mesas rituais circulares talhadas na rocha. Em volta delas, os familiares celebravam banquetes funerários em memória dos falecidos, um costume que misturava tradições pagãs e cristãs.
Um aspecto fascinante dessas catacumbas é que nelas conviveram sepultamentos cristãos, judeus e pagãos, às vezes no mesmo complexo, com símbolos próprios de cada religião (a menorá judaica, os símbolos cristãos). Isso revela uma Malta antiga diversa e tolerante na morte, onde várias comunidades religiosas dividiam o mesmo subsolo. Apesar de levarem nomes de santos, as catacumbas não têm relação direta com eles: são invocações devocionais posteriores. As de Santa Ágata conservam ainda valiosos afrescos medievais em sua cripta, com camadas de culto que se sobrepõem ao longo dos séculos.
A fisionomia e o nome de Rabat, assim como os de Mdina, se formaram com a conquista árabe. Por volta do ano 870 d.C., os muçulmanos tomaram Malta, e sob seu domínio a antiga Melite foi reorganizada. Os árabes decidiram reduzir a cidade ao seu núcleo mais alto e defensável, que cercaram com novas muralhas e separaram por um fosso: esse núcleo passou a se chamar Mdina, do árabe 'medina', 'a cidade'. O restante do antigo perímetro urbano, que ficou fora das novas muralhas, virou o subúrbio ou arrabalde e recebeu o nome que conserva até hoje: Rabat, que em árabe significa justamente 'arrabalde' ou 'subúrbio'.
Assim, uma decisão urbanística de mais de mil anos atrás dividiu em duas a velha capital e criou a relação que dura até hoje: Mdina, a cidade amuralhada, dentro dos muros; Rabat, o arrabalde fora deles. Os grandes cemitérios subterrâneos paleocristãos, que na época romana ficavam fora das muralhas de Melite, passaram a ficar no território de Rabat, o que explica por que as principais catacumbas da ilha estão justamente aqui.
Durante o período árabe, que se estendeu até a conquista normanda de 1091, a região manteve população e atividade, e a marca dessa etapa foi profunda: além dos nomes de Mdina e Rabat, o árabe implantado naquela época é a origem da língua maltesa, que ainda é falada. Curiosamente, na Domus Romana os arqueólogos encontraram túmulos muçulmanos escavados sobre os restos da casa romana, o que mostra que a área continuou sendo usada como cemitério também na época islâmica, sobrepondo culturas e crenças em um mesmo solo.
Ao longo da Idade Média, enquanto Mdina era a capital aristocrática, Rabat cresceu como uma cidadezinha intimamente ligada a ela, com sua própria vida religiosa e comunitária. A devoção a São Paulo, pai espiritual do cristianismo maltês, deu a Rabat um papel central na fé da ilha: a Gruta de São Paulo e os lugares associados à sua estadia se tornaram centros de peregrinação, e ao redor deles foram erguidas capelas, igrejas e conventos. Ordens religiosas como os franciscanos, dominicanos, agostinianos e capuchinhos se estabeleceram em Rabat, que se encheu de templos.
Com a chegada da Ordem de São João em 1530 e, sobretudo, depois da fundação de Valletta, a região de Mdina e Rabat ficou afastada do poder político, mas manteve seu prestígio religioso. No século XVII, o grão-mestre francês Alof de Wignacourt (o mesmo que deu a Malta aquedutos e fortificações) impulsionou a construção do grande complexo religioso sobre a Gruta de São Paulo: a igreja de São Paulo, a gruta adaptada como santuário e um colégio para os capelães da Ordem, que hoje abriga o Museu Wignacourt. Esse patrocínio consolidou Rabat como o grande centro de culto a São Paulo na ilha.
A vida de Rabat continuou girando em torno de suas igrejas, de suas festas de padroeiro e de sua condição de cidadezinha agrícola e artesanal do interior. A religiosidade popular, tão característica de Malta, encontrou aqui um de seus focos mais intensos, com procissões, irmandades e a celebração, todo 10 de fevereiro, do naufrágio de São Paulo, feriado nacional que lembra a origem do cristianismo maltês nestas mesmas terras.
A Rabat contemporânea é uma cidadezinha maltesa viva que carrega nos ombros (e debaixo de suas ruas) um patrimônio de quase três mil anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando Malta sofreu um dos bombardeios mais intensos da história, os moradores de Rabat se abrigaram no mesmo subsolo que seus antepassados tinham escavado: túneis e galerias foram abertos ou reaproveitados como abrigos antiaéreos. Alguns deles, como os que se visitam a partir do Museu Wignacourt, estão preservados hoje ao lado das catacumbas e da gruta, sobrepondo a guerra do século XX à Roma do século I.
Na Malta independente e moderna, Rabat soube manter seu caráter sem virar um cenário. Continua sendo uma cidade de moradores, com sua praça de Saqqajja, suas igrejas, suas festas de padroeiro barulhentas e coloridas e suas famosas pastizzerias, onde saem do forno alguns dos melhores pastizzi da ilha, esses pasteizinhos de massa folhada que são quase um símbolo nacional. Esse contraste entre a solenidade histórica e a vida cotidiana faz parte do seu charme: dá para passar de uma catacumba de dezesseis séculos a um pastizzi quentinho comido na rua em questão de minutos.
Administradas pela Heritage Malta e por fundações religiosas, as catacumbas de São Paulo e de Santa Ágata, a Domus Romana e o Museu Wignacourt fazem de Rabat, junto com a vizinha Mdina, o grande polo do turismo histórico do interior de Malta. Menos fotogênica que a 'cidade do silêncio', mas mais profunda em seu legado, Rabat recompensa quem para e olha para baixo e descobre que boa parte da história mais antiga de Malta (a romana, a paleocristã, a de São Paulo) continua aqui, escondida debaixo de uma cidadezinha qualquer do centro da ilha.