Tem uma cor que a gente não esquece: o turquesa da Blue Lagoon de Comino. Nesta ilhota quase desabitada, entre Malta e Gozo, o mar forma uma enseada rasa sobre um leito de areia branquíssima, e a água ganha um tom turquesa luminoso, quase caribenho, que parece retocado mas é real. Nadar ali, com a rocha clara no fundo e os peixes à vista, é uma das experiências mais procuradas de Malta, e com razão: poucos lugares do Mediterrâneo têm uma água assim.
Mas Comino é muito mais do que sua lagoa famosa. É uma ilha minúscula e selvagem, sem carros nem vilarejos, declarada reserva natural, cortada por trilhas entre arbustos aromáticos, com enseadas escondidas, cavernas marinhas para fazer snorkel e uma imponente torre de vigia do século XVII que guarda o canal. Por trás da sua beleza tranquila há uma história curiosa: foi prisão de cavaleiros rebeldes, estação de quarentena para conter epidemias, refúgio de um místico judeu medieval e até cenário de filmes de Hollywood.
Este guia percorre Comino com um olhar prático e honesto: como chegar de barco, quanto custa e, muito importante, como evitar a superlotação que no auge do verão pode estragar a Blue Lagoon, com centenas de pessoas amontoadas. E também para onde ir para fugir da multidão: a Crystal Lagoon, as enseadas de Santa Marija e San Niklaw, a torre e as trilhas. Um pedacinho do paraíso que é preciso saber visitar, e tomara que cuidar, para que continue sendo um.
Apesar do tamanho, Comino tem uma história rica. O nome vem do cominho (kemmun), a especiaria que crescia na ilha. Na Idade Média foi lugar de retiro e refúgio: por volta de 1285 viveu aqui, exilado, o místico e cabalista judeu Abraham Abulafia, que escreveu na ilha algumas de suas obras. Sob os Cavaleiros de São João, Comino era área de caça e ponto estratégico contra os corsários: em 1618 o grão-mestre Alof de Wignacourt ergueu a torre de Santa Marija, a quinta de suas torres costeiras, guarnecida por cerca de 30 soldados; ela também serviu de prisão para cavaleiros punidos. No período britânico, no século XIX, Comino funcionou sobretudo como estação de quarentena, onde navios e viajantes passavam semanas isolados para evitar que as epidemias chegassem a Malta e Gozo, e mais tarde como hospital de isolamento. Hoje a ilha é reserva natural e sua população permanente se resume a um punhado de pessoas. A história completa de Comino, de seus cavaleiros e de suas quarentenas está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The sister islands: greener, more rural Gozo, with the prehistoric temple of Ġgantija and the Citadel of Victoria, and the almost untouched islet of Comino.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Entre as duas grandes ilhas do arquipélago, Malta e Gozo, flutua um pedaço de terra minúsculo e quase vazio: Comino. São apenas três quilômetros e meio quadrados de rocha calcária, vegetação rasteira e enseadas, sem vilarejos, sem carros e, hoje, com só um punhado de moradores permanentes. O nome vem de uma planta: o cominho (kemmun em maltês), a especiaria aromática que crescia de forma silvestre na ilha e que lhe deu identidade desde a Antiguidade.
Durante a maior parte da história, Comino foi um lugar marginal e perigoso. Sua posição, bem no canal entre Malta e Gozo, fazia dela um ponto estratégico, mas exposto: por ali passavam as rotas de navegação e também os corsários e piratas que assolavam o Mediterrâneo. Quase sem população para defendê-la, a ilha era ao mesmo tempo um possível esconderijo de saqueadores e um mirante natural para vigiá-los. Essa dupla condição marcaria boa parte do seu passado.
Isolada, seca e de vida difícil, Comino nunca teve um vilarejo estável nem uma comunidade numerosa. Foi, conforme a época, refúgio de eremitas e místicos, reserva de caça de senhores, prisão de cavaleiros, estação de quarentena e, por fim, reserva natural. Sua história é a de uma ilhota pequena que, apesar do tamanho, acumulou capítulos surpreendentes, bem longe da imagem de paraíso de cartão-postal pela qual hoje é conhecida no mundo todo.
Um dos episódios mais singulares da história de Comino aconteceu na Idade Média e tem como protagonista um pensador judeu. Por volta de 1285, o filósofo, cabalista e místico Abraham Abulafia, nascido em Saragoça e figura controversa do judaísmo medieval, refugiou-se em Comino depois de anos de viagens, perseguições e polêmicas, incluindo uma ousada visita a Roma com a intenção de se encontrar com o papa.
Exilado nesta ilhota afastada do Mediterrâneo central, Abulafia encontrou na solidão o ambiente ideal para escrever. Em Comino compôs algumas de suas obras, entre elas o Sefer ha-Ot ('O livro do sinal') e sua última obra conhecida, Imre Shefer ('Palavras de beleza'). Sua mística, baseada na combinação das letras do alfabeto hebraico e em técnicas contemplativas para alcançar a experiência profética, teve uma influência notável na tradição cabalística posterior.
Que um pensador desse porte tenha escolhido — ou sido obrigado a habitar — uma ilhota tão pequena e remota diz muito sobre o caráter de Comino ao longo da história: um lugar de retiro, isolamento e silêncio, à margem do mundo. Aquele refúgio do místico antecipava, de certo modo, os usos posteriores da ilha como espaço de confinamento e separação, fosse para cavaleiros punidos ou para viajantes em quarentena.
Quando a Ordem de São João governava Malta (1530-1798), Comino passou a fazer parte do seu sistema defensivo e, ao mesmo tempo, virou reserva de caça. Os grão-mestres gostavam da ilhota para caçar lebres e aves, e chegaram a impor castigos severos a quem caçasse ali sem permissão. Mas o uso mais importante era militar: vigiar o canal entre Malta e Gozo, uma passagem por onde os corsários podiam se infiltrar para atacar qualquer uma das duas ilhas.
Com esse objetivo, em 1618 o grão-mestre Alof de Wignacourt mandou construir em Comino uma robusta torre de vigia, a Torre de Santa Marija, concluída por volta de 1620. Foi a quinta das chamadas torres de Wignacourt, uma rede de fortins costeiros que se comunicavam por sinais de fogo e fumaça. Guarnecida por cerca de trinta soldados, a torre podia dar o alarme diante do aparecimento de navios inimigos e atacar com sua artilharia os corsários que tentassem usar o canal ou desembarcar.
Sob a Ordem, Comino teve ainda um uso mais sombrio: serviu de prisão. Nos séculos XVI e XVII, alguns cavaleiros punidos por faltas graves cumpriam pena aqui, isolados na ilhota — às vezes por três anos — com a perigosa missão de ajudar a repelir os piratas. Confinamento e perigo se combinavam num destino que poucos queriam. Assim, a mesma ilha que era reserva de lazer para uns era castigo e fronteira para outros, sempre marcada pela solidão e pela exposição ao mar.
Com a chegada do domínio britânico a Malta (1800-1964), Comino ganhou um novo papel, coerente com seu caráter afastado: o de estação de quarentena. No século XIX, quando epidemias como a cólera e a peste aterrorizavam os portos do Mediterrâneo, a ilha se tornou um filtro sanitário para proteger Malta e Gozo do contágio.
Navios e viajantes que queriam chegar ao arquipélago, sobretudo se vinham de lugares suspeitos de epidemia, precisavam antes passar um período de isolamento em Comino, que podia durar de poucos dias a várias semanas. Só depois de cumprir esse confinamento preventivo, sem apresentar sintomas, podiam seguir para as ilhas principais. A ilha, com sua torre e algumas construções, funcionava assim como uma fronteira sanitária, um espaço de separação entre o mundo exterior e a população maltesa.
Em épocas posteriores, Comino continuou ligada à ideia de isolamento: foi usada como hospital de isolamento para doentes contagiosos e, em tempos difíceis, até como abrigo de inverno para o gado. Nunca foi uma ilha de vida próspera e numerosa, mas um lugar de passagem, confinamento e proteção. Essa longa história de quarentenas e isolamento — de místicos, presos e doentes — contrasta de forma quase irônica com seu presente de destino de turismo de massa, onde milhares de pessoas se aglomeram no verão em suas águas turquesa.
No século XX, com as quarentenas já em desuso, Comino ficou praticamente despovoada. Um pequeno número de agricultores trabalhou seus campos durante décadas, mas a população foi diminuindo até se reduzir a um punhado de pessoas; hoje seus moradores permanentes se contam nos dedos de uma mão. A ilha, quase sem construções, conservou seu caráter selvagem, e esse passou a ser justamente o seu novo valor.
Comino foi declarada reserva natural e santuário de aves, e integrada à rede europeia Natura 2000 por sua importância botânica e ornitológica: é refúgio de aves marinhas e ponto de passagem de aves migratórias, e em sua vegetação rasteira crescem plantas mediterrâneas como o tomilho e o cominho que lhe dá nome. Sua beleza agreste e sem construções modernas também atraiu o cinema: a ilha e sua torre serviram de cenário para superproduções como 'O Conde de Monte Cristo' (2002) e 'Troia' (2004), entre outras.
Mas a mesma paisagem que a deixou famosa colocou a ilha em risco. A Blue Lagoon, com suas águas turquesa, virou um ímã turístico de escala global, e em pleno verão a ilhota recebe milhares de visitantes por dia: centenas de pessoas amontoadas na enseada, dezenas de barcos ancorados, quiosques e espreguiçadeiras invadindo as rochas de uma reserva natural frágil. A superlotação e seus impactos — lixo, barulho, pressão sobre o ecossistema — levaram as autoridades a tomar medidas, como limitar e regular o desembarque por meio de um sistema de reserva de vagas introduzido em 2025. O desafio de Comino hoje é claro: como compartilhar seu paraíso sem destruí-lo. Visitá-la cedo, fora da alta temporada, com respeito e sem deixar rastros, é a melhor forma de ajudar esta ilhota — refúgio de místicos, presos e doentes ao longo da história — a continuar sendo, também no futuro, um pequeno éden no meio do mar.