Valletta é uma cidade construída de propósito, de uma vez e com um objetivo: nunca mais ficar indefesa. Depois do Grande Cerco de 1565, quando os Cavaleiros da Ordem de São João e o povo maltês resistiram por quase quatro meses ao ataque do Império Otomano, o grão-mestre Jean de Valette decidiu erguer uma nova cidade-fortaleza sobre a árida península do monte Sciberras, entre os dois portos. Em poucas décadas nasceu uma das primeiras cidades planejadas da Europa: traçado em grade, muralhas colossais, igrejas, palácios e albergues (auberges) da Ordem, tudo na mesma pedra calcária dourada que, ao entardecer, brilha como ouro.
O resultado é uma capital barroca em miniatura, densa e intensa, declarada inteiramente Patrimônio Mundial da Unesco. Em poucos quarteirões se concentram a deslumbrante Concatedral de São João — com seu piso de lápides de mármore e duas obras-primas de Caravaggio —, o palácio onde governaram os grão-mestres, museus, abrigos subterrâneos da Segunda Guerra Mundial e balcões de madeira pintados que se debruçam sobre ruas íngremes descendo em direção ao mar. Dos Jardins de Upper Barrakka, a vista do Grande Porto e das Três Cidades fortificadas em frente é uma das mais impressionantes do Mediterrâneo.
Este guia percorre Valletta com um olhar prático e acolhedor: o que ver sem perder o essencial, como entrar na Concatedral e nos museus, como aproveitar os mirantes e a salva de canhão, onde comer bem um pastizzi ou um coelho à maltesa, e como usar a cidade como base para descobrir o resto de Malta. Pequena, fácil de percorrer a pé e carregada de história, Valletta recompensa o viajante que tira um tempo para se perder por suas escadarias e espiar cada esquina com vista para o mar.
Valletta nasceu da guerra. Quando, em 1530, o imperador Carlos V cedeu Malta à Ordem de São João de Jerusalém — os Cavaleiros Hospitalários expulsos de Rodes —, a ilha não tinha uma grande cidade. Tudo mudou com o Grande Cerco de 1565: entre maio e setembro, alguns poucos milhares de cavaleiros e malteses, sob o comando do idoso grão-mestre Jean Parisot de Valette, resistiram ao ataque de uma enorme frota e de um exército otomanos enviados por Solimão, o Magnífico. A vitória cristã ecoou por toda a Europa e transformou Malta em símbolo de resistência. Para blindar a ilha, De Valette fundou em 1566 uma nova cidade sobre a península do monte Sciberras, entre o Grande Porto e Marsamxett, que levaria seu nome. Projetada pelo engenheiro militar Francesco Laparelli e continuada pelo maltês Girolamo Cassar, foi erguida em poucas décadas, com muralhas descomunais, uma grade regular e edifícios barrocos. Durante mais de dois séculos foi a capital dos Cavaleiros, até Napoleão tomar Malta em 1798. Pouco depois veio o domínio britânico (1800-1964), sob o qual Valletta foi uma base naval fundamental; na Segunda Guerra Mundial, Malta sofreu um dos bombardeios mais intensos da história e a ilha inteira foi condecorada com a Cruz de Jorge. Independente desde 1964 e república desde 1974, hoje Valletta é a capital de um Estado-membro da União Europeia e uma joia barroca preservada como Patrimônio da Humanidade. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The fortified heart of Malta: the Baroque capital built after the Great Siege and the Three Cities of the knights, all looking out over the Grand Harbour.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Valletta começa com uma ordem de cavaleiros sem terra. Os Cavaleiros de São João de Jerusalém, também chamados de Hospitalários, surgiram no século XI para cuidar dos peregrinos cristãos na Terra Santa e, com o tempo, viraram uma ordem militar-religiosa que lutava nas Cruzadas. Depois da queda dos últimos redutos cristãos no Oriente, recuaram para Chipre e depois para a ilha de Rodes, no Egeu, onde por dois séculos foram uma potência naval que atormentava os turcos otomanos. Em 1522, após um cerco brutal, o sultão Solimão, o Magnífico, os expulsou de Rodes.
Durante oito anos, a Ordem vagou pela Europa sem um lar, até que em 1530 o imperador Carlos V — rei da Espanha e senhor da Sicília — cedeu a eles o arquipélago de Malta como feudo. O preço simbólico era curioso: um falcão maltês que deveriam entregar todo ano ao vice-rei da Sicília (daí a lenda do 'falcão maltês'). Em troca, os cavaleiros tinham que defender o Mediterrâneo central do avanço otomano e dos corsários berberes.
Malta não era um prêmio cobiçado. Era uma ilha árida, sem rios, com poucas árvores e pouca água, habitada por alguns milhares de camponeses e pescadores de língua semítica. Os cavaleiros, acostumados à fértil Rodes, se instalaram a contragosto em Birgu (a futura Vittoriosa), junto ao Grande Porto, e fortificaram aquela faixa de terra. Logo ficaria claro que aquela pequena rocha no meio do mar era uma posição estratégica de primeira linha, e que a sua posse seria decidida em uma das batalhas mais célebres da história.
Na primavera de 1565, o Império Otomano lançou contra Malta uma das maiores operações militares do seu tempo. Solimão, o Magnífico, o sultão mais poderoso da época, enviou uma frota de mais de 180 navios e um exército que as fontes estimam entre 30.000 e 40.000 homens, com a missão de arrancar a ilha dos cavaleiros e usá-la como trampolim para atacar a Sicília, a Itália e o Mediterrâneo ocidental. Do outro lado, o grão-mestre Jean Parisot de Valette, um veterano de mais de setenta anos, contava com apenas uns 500 cavaleiros e alguns milhares de soldados e milicianos malteses: talvez 6.000 ou 8.000 defensores no total.
O cerco, que durou de maio a setembro, foi de uma ferocidade extrema. Os otomanos concentraram primeiro o fogo no pequeno Forte de Santo Elmo, na ponta da península onde hoje fica Valletta. Contra todas as expectativas, Santo Elmo resistiu por quase um mês sob bombardeio incessante antes de cair, com quase todos os seus defensores mortos; mas essa resistência sangrou o atacante e o fez perder um tempo precioso. Diz a tradição que o comandante otomano Mustafá Paxá, ao ver o custo de tomar aquele forte menor, teria se perguntado, desesperado, quanto custaria então a cidadela principal.
O ataque passou então para Birgu e Senglea, onde os cavaleiros e o povo maltês lutaram casa por casa. Houve episódios de crueldade dos dois lados — decapitações, corpos usados como mensagem — e uma defesa desesperada com a participação de mulheres, idosos e crianças. Quando tudo parecia perdido, no início de setembro chegou enfim o Grande Socorro: uma força de reforço enviada da Sicília pelo vice-rei espanhol. Exaustos e dizimados, os otomanos levantaram o cerco e se retiraram. A vitória cristã, celebrada em toda a Europa como um milagre, salvou Malta e freou o avanço otomano rumo ao oeste.
O Grande Cerco deixou uma lição clara: se os cavaleiros quisessem sobreviver a um próximo ataque, precisavam de uma fortaleza moderna na posição dominante da península do monte Sciberras, a faixa de terra entre o Grande Porto e o porto de Marsamxett de onde os otomanos tinham bombardeado os defensores. Em 28 de março de 1566, apenas meio ano depois da vitória, o grão-mestre Jean de Valette lançou a pedra fundamental de uma cidade totalmente nova que levaria o seu nome: Valletta.
O projeto foi uma façanha de engenharia e urbanismo. A Ordem contratou o engenheiro militar italiano Francesco Laparelli, enviado pelo papa Pio V, que desenhou um traçado revolucionário para a época: uma malha regular de ruas retas que se cruzam em ângulo reto, pensada tanto para a circulação quanto para a defesa, cercada por um cinturão de muralhas, baluartes e fossos escavados na rocha viva. Era uma das primeiras cidades europeias planejadas inteiramente do zero segundo os princípios do urbanismo renascentista e da fortificação 'à moderna'. Depois da partida de Laparelli, a obra foi continuada pelo seu assistente maltês, o arquiteto Girolamo Cassar, autor de muitos dos edifícios emblemáticos.
A construção avançou num ritmo impressionante graças a milhares de operários e escravos. Em poucos anos foram erguidas as muralhas, a Concatedral de São João, o Palácio do Grão-Mestre, os albergues (auberges) das diferentes 'línguas' ou nações da Ordem e um hospital, a Sacra Infermeria, famosa pelo seu enorme salão e pelo atendimento avançado para a época. Valletta se tornou assim a nova capital e o orgulho da Ordem: uma cidade barroca de pedra dourada, concebida ao mesmo tempo como bastião militar e como vitrine do poder e da fé dos cavaleiros. Jean de Valette morreu em 1568 e foi enterrado na cidade que havia sonhado, sem chegar a vê-la pronta.
Durante os séculos XVII e XVIII, Valletta viveu sua época de maior esplendor como capital de um Estado próspero e cosmopolita governado pela Ordem. Os cavaleiros, vindos da nobreza de toda a Europa católica, fizeram de Malta uma encruzilhada do Mediterrâneo: base de uma frota que combatia os corsários, refúgio do comércio e centro artístico onde se misturavam influências italianas, francesas e espanholas. A riqueza acumulada foi despejada no embelezamento da cidade com a linguagem exuberante do barroco.
O símbolo desse esplendor é a Concatedral de São João. Por fora é austera, quase uma fortaleza; por dentro, uma explosão de ouro, mármores policromados e pintura. O grão-mestre Rafael Cotoner encomendou ao pintor calabrês Mattia Preti a decoração da abóbada com cenas da vida de São João Batista, e cada 'língua' da Ordem competiu para enfeitar sua capela com a maior magnificência. O piso é um mosaico de quase quatrocentas lápides de mármore sob as quais repousam os cavaleiros. E no seu oratório está a joia absoluta: 'A decapitação de São João Batista', de Caravaggio, a única obra que o gênio italiano assinou, pintada durante sua estadia em Malta como cavaleiro, pouco antes de fugir da ilha depois de um incidente violento.
A Ordem também deixou sua marca científica e humanitária. A Sacra Infermeria era um dos hospitais mais avançados da Europa, onde os doentes — inclusive peregrinos e escravos — eram servidos em pratos de prata. Foi fundada uma universidade, construíram-se bibliotecas, teatros e palácios, e Valletta se encheu de fontes, igrejas e jardins. Aquele mundo brilhante, porém, se apoiava numa economia que incluía o corso e a escravidão, e numa aristocracia que, com o passar das gerações, foi perdendo o fervor guerreiro dos fundadores. No fim do século XVIII, a Ordem estava em decadência, enfraquecida pela perda de suas rendas na Europa revolucionária.
O fim da Ordem em Malta veio de repente. Em junho de 1798, a caminho da sua campanha no Egito, Napoleão Bonaparte apareceu com sua frota diante de Valletta e exigiu a rendição. O grão-mestre Ferdinand von Hompesch, sem vontade de resistir e com uma Ordem dividida e decadente, entregou a ilha praticamente sem luta. Em poucos dias, os franceses saquearam igrejas e tesouros — inclusive boa parte da prata da Ordem — e aboliram o antigo regime. Mas o saque e as reformas anticlericais enfureceram os malteses, que se rebelaram contra a guarnição francesa e a cercaram dentro das muralhas de Valletta.
Os malteses pediram ajuda à Grã-Bretanha, cuja frota bloqueou o porto. Em 1800, os franceses, famintos, capitularam e Malta ficou sob proteção britânica, algo que o Tratado de Paris de 1814 confirmou de forma definitiva: a ilha virou colônia da Coroa. Para o Império Britânico, Malta era uma joia estratégica: seu Grande Porto, profundo e abrigado, se transformou numa das principais bases navais do Mediterrâneo, escala-chave na rota para a Índia e, depois da abertura do canal de Suez em 1869, ponto vital do comércio e do poder imperial.
Sob o domínio britânico, que durou um século e meio, Valletta continuou sendo a capital e o centro administrativo. A cidade se modernizou com novas obras, foram construídos estaleiros e fortificações, e cresceu uma identidade maltesa que combinava a herança católica e latina com a língua inglesa e as instituições britânicas. O maltês e o inglês passariam a conviver como idiomas, e o país adotaria a mão inglesa no trânsito, herança que continua até hoje. No início do século XX começou a crescer também um movimento pelo autogoverno, que exigia mais voz para os malteses no destino da sua ilha.
O século XX colocou Valletta e toda Malta na linha de frente. Durante a Segunda Guerra Mundial, a posição da ilha — no meio do caminho entre a Europa e a África, junto às rotas de abastecimento do Eixo para o norte da África — a transformou num alvo prioritário. Entre 1940 e 1942, as forças aéreas alemã e italiana submeteram Malta a um dos bombardeios mais intensos e prolongados da história: milhares de ataques aéreos despejaram uma tonelagem de bombas descomunal sobre uma ilha minúscula, arrasando parte de Valletta, os estaleiros e as Três Cidades, e obrigando a população a se abrigar em túneis e refúgios escavados na rocha.
Malta resistiu à beira da fome, com a população e a guarnição dependendo de comboios que cruzavam um mar dominado pelo inimigo. O mais famoso foi a Operação Pedestal, em agosto de 1942, quando um comboio duramente castigado conseguiu levar suprimentos e combustível que salvaram a ilha da rendição. Em reconhecimento à coragem dos malteses sob fogo, em abril de 1942 o rei Jorge VI concedeu à ilha inteira a Cruz de Jorge, a mais alta condecoração civil britânica por bravura: uma honra sem precedentes dada a um povo inteiro, e cuja cruz aparece hoje na bandeira de Malta. Dos Lascaris War Rooms, escavados sob Valletta, foi comandada a defesa aérea e, em 1943, ajudou-se a planejar o desembarque aliado na Sicília.
Depois da guerra, o movimento pela autonomia ganhou força. Malta conquistou a independência dentro da Commonwealth em 1964 e se proclamou república em 1974; as últimas forças militares britânicas saíram em 1979. Em 2004, o país entrou na União Europeia e, em 2008, adotou o euro. Valletta, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco em 1980, foi restaurada e revitalizada, com marcos como o novo Parlamento e a reforma da entrada da cidade projetados por Renzo Piano. Em 2018 foi Capital Europeia da Cultura. Hoje, aquela cidade-fortaleza erguida depois do Grande Cerco continua de pé, dourada e viva, como capital de uma república mediterrânea e como um dos conjuntos barrocos mais bem conservados do mundo.