Gozo é a Malta que muitos sonham e poucos esperam: mais verde, mais lenta, mais autêntica. A uma curta travessia de ferry da ilha principal, este pequeno território de colinas cultivadas, vilarejos de pedra dourada com igrejas gigantescas, falésias que despencam no mar e enseadas de água transparente parece de outra época. Se Malta anda rápido, Gozo respira fundo: aqui mandam a vida rural, a sesta, a festa do vilarejo e o mar.
A ilha concentra, em poucos quilômetros, uma variedade impressionante. Há os templos de Ġgantija, monumentos megalíticos com mais de 5.500 anos — mais antigos que Stonehenge e as pirâmides do Egito —, erguidos por uma civilização que ainda intriga os arqueólogos. Há Victoria, a capital, coroada pela Cidadela murada com vista de 360 graus sobre toda a ilha. Há Dwejra, a paisagem costeira onde até 2017 ficava a famosa Janela Azul, hoje desabada, ao lado do Mar Interior e da Rocha Fungus. E há Ramla Bay, a praia de areia vermelha da mitologia de Calipso, e os balneários de Xlendi e Marsalforn.
Este guia percorre Gozo com calma e de um jeito prático: o que ver além do passeio rápido, como chegar de ferry, onde nadar, como se locomover por uma ilha onde o ônibus é escasso e por que vale a pena dormir lá para viver o clima local. Porque Gozo não se toma de um gole só: se saboreia. E quem lhe dá tempo descobre o lado mais sereno, verde e humano do arquipélago maltês.
Gozo é habitada há mais de sete mil anos e guarda em Ġgantija um dos templos mais antigos do mundo, obra de uma misteriosa civilização megalítica do quinto milênio a.C. Fenícios, cartagineses, romanos, bizantinos e árabes passaram pela ilha; dos romanos vem o nome Gaulos/Gaudos, e do árabe o maltês Għawdex. Durante séculos, a Cidadela foi o refúgio de toda a população contra os ataques de piratas e corsários: em 1551, o corsário otomano Dragut atacou a ilha e levou cativa quase toda a população — cerca de 5.000 a 6.000 pessoas — como escravos, um trauma que marcou sua história. Sob os Cavaleiros de São João e depois os britânicos, a capital, Rabat, foi rebatizada de Victoria em 1887, pelo Jubileu da rainha Vitória. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The sister islands: greener, more rural Gozo, with the prehistoric temple of Ġgantija and the Citadel of Victoria, and the almost untouched islet of Comino.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Gozo começa muito antes da de quase qualquer outro lugar da Europa. Há mais de cinco mil e quinhentos anos, quando no Egito as pirâmides ainda não tinham sido erguidas e faltavam séculos para Stonehenge, uma misteriosa civilização neolítica construiu numa colina de Gozo, ao lado da atual vila de Xagħra, dois enormes templos de pedra: Ġgantija. Construídos entre aproximadamente 3600 e 3200 a.C., são as estruturas autoportantes mais antigas do mundo depois de Göbekli Tepe, e os primeiros dos Templos Megalíticos de Malta declarados Patrimônio Mundial da Unesco, em 1980.
Os blocos que formam suas paredes são colossais: alguns passam de cinco metros de altura e cinquenta toneladas de peso, e foram movidos e encaixados sem metal, sem roda e sem animais de tração, por uma sociedade de agricultores do Neolítico. A façanha era tão inexplicável para os gozitanos dos séculos seguintes que eles só encontraram uma explicação: tinham sido construídos por gigantes. Daí o nome, Ġgantija, 'a dos gigantes'. Uma lenda conta que foi uma giganta, que se alimentava de favas e mel, quem os ergueu com uma criança pendurada no ombro.
A realidade é igualmente fascinante. Aquela civilização dos templos, que floresceu em Malta e Gozo durante mais de um milênio, construiu cerca de vinte desses santuários megalíticos, provavelmente dedicados a um culto da fertilidade e a uma deusa-mãe, e depois desapareceu de forma abrupta, e até hoje não totalmente explicada, por volta de 2500 a.C. Ġgantija é o testemunho mais antigo e espetacular dessa cultura perdida, e a prova de que Gozo foi berço de uma das primeiras arquiteturas monumentais da humanidade.
Depois do fim enigmático da civilização dos templos, Gozo continuou habitada na Idade do Bronze e entrou de vez na história com a chegada dos grandes navegadores do Mediterrâneo. Os fenícios, por volta do século VIII a.C., colonizaram o arquipélago maltês, e depois deles vieram os cartagineses, herdeiros de seu império comercial. Gozo, com seus ancoradouros e sua posição estratégica no centro do Mediterrâneo, foi mais uma escala nas rotas que ligavam o Oriente ao Ocidente.
Com a queda de Cartago, Malta e Gozo passaram para Roma. Os romanos chamaram a ilha de Gaulos ou Gaudos (de onde derivaria, com o tempo, o nome atual) e lhe concederam certa autonomia como município. Da época romana restam ruínas de vilas, e sobre a colina da atual Victoria ficava a acrópole, embrião da futura Cidadela. A tradição cristã situa ainda nestas águas o naufrágio de são Paulo, no ano 60, que segundo os Atos dos Apóstolos evangelizou os malteses.
Gozo também tem seu lugar na mitologia grega mais antiga. Muitos estudiosos, desde a Antiguidade, identificaram a ilha com Ogígia, a morada da ninfa Calipso na Odisseia de Homero: a ilha onde a ninfa manteve o herói Ulisses (Odisseu) durante sete anos, apaixonada por ele, chegando a lhe oferecer a imortalidade. Na praia de areia vermelha de Ramla Bay, uma caverna ainda hoje é apontada como a mítica Caverna de Calipso. Real ou lendária, essa associação com Homero envolve Gozo numa aura poética que alimenta há séculos a imaginação dos viajantes.
No ano 870, os árabes conquistaram Malta e Gozo, e seu domínio, que durou mais de dois séculos, deixou uma marca profundíssima, sobretudo na língua: o maltês falado hoje é uma língua semítica derivada do árabe (com enorme influência italiana posterior), caso único na Europa. O próprio nome maltês de Gozo, Għawdex, vem do árabe. Sob os árabes se desenvolveram a agricultura irrigada, os cultivos e boa parte da toponímia que ainda perdura.
Em 1127, os normandos, que já dominavam a Sicília, incorporaram o arquipélago a seu reino, e Gozo passou depois, como a Sicília, pelas mãos de suábios, angevinos e aragoneses. Durante toda a Idade Média, a vida na ilha foi marcada por uma ameaça constante: os ataques de piratas e corsários berberes e otomanos, que assolavam o Mediterrâneo capturando pessoas para vendê-las como escravas. Gozo, pequena e exposta, era um alvo fácil.
Diante desse perigo, a velha acrópole da colina de Rabat (a atual Victoria) virou a Cidadela, o refúgio fortificado de toda a ilha. Durante séculos vigorou uma regra severa: todo fim de tarde, a população inteira de Gozo era obrigada por lei a se recolher para dormir dentro das muralhas da Cidadela, por segurança, e não podia voltar a seus campos e aldeias até o amanhecer. A Cidadela não era um luxo defensivo, e sim a única garantia de sobrevivência de uma comunidade que vivia sob a ameaça permanente do sequestro e da escravidão.
O pior pesadelo de Gozo virou realidade em julho de 1551. Naquele verão, uma grande força otomana comandada pelo almirante Sinan Pasha e pelo temido corsário Dragut (Turgut Reis), depois de uma tentativa fracassada de tomar Malta, se lançou sobre a indefesa Gozo. A população inteira, de cinco a seis mil pessoas, se refugiou como sempre dentro das muralhas da Cidadela, confiando em sua proteção.
Mas as defesas medievais da Cidadela já não davam conta da artilharia otomana. Depois de um cerco breve, a fortaleza caiu quase sem resistência. O que veio em seguida foi uma catástrofe que ficou gravada a ferro e fogo na memória coletiva de Gozo: os otomanos capturaram praticamente toda a população da ilha — homens, mulheres e crianças — e a embarcaram para vendê-la como escrava nos mercados de Trípoli e do norte da África. Só um punhado de pessoas, umas trezentas, conseguiu escapar descendo à noite pelas muralhas ou se escondendo. Gozo ficou, literalmente, despovoada da noite para o dia.
O cativeiro de 1551 foi um dos maiores desastres da história de Malta e uma ferida que levou gerações para cicatrizar. A ilha teve de ser repovoada aos poucos nas décadas seguintes, com colonos trazidos de Malta e da Sicília. O trauma também levou ao reforço das defesas: os Cavaleiros de São João, que governavam o arquipélago desde 1530, reconstruíram entre 1599 e 1603 as muralhas do sul da Cidadela com as poderosas fortificações abaluartadas que admiramos hoje, para que uma tragédia como aquela não se repetisse. Essa catástrofe explica por que, ainda hoje, a Cidadela domina Gozo como seu símbolo mais carregado de história.
Sob o governo dos Cavaleiros de São João (1530-1798), Gozo foi se recuperando e se repovoando. A Cidadela foi reforçada, torres costeiras de vigia e baterias se espalharam pela ilha, e a vida rural voltou a florescer em torno das vilas e de suas igrejas. Quando, em 1798, Napoleão expulsou os Cavaleiros de Malta, os gozitanos, logo fartos do domínio francês, se rebelaram com notável rapidez e, com a ajuda de uma força naval, expulsaram a guarnição francesa de Gozo ainda em 1798, antes mesmo de Malta se livrar dos franceses. Por um breve período, Gozo funcionou quase como um pequeno Estado independente sob a proteção britânica e do rei da Sicília.
Em 1800, todo o arquipélago passou para a órbita do Império Britânico, que governaria Malta e Gozo por mais de um século e meio. Sob a administração britânica, a capital de Gozo, até então conhecida simplesmente como Rabat (palavra árabe para 'arrabalde' ou 'subúrbio', a cidade que cresceu aos pés da Cidadela), ganhou um novo nome. Em 10 de junho de 1887, por ocasião do Jubileu de Ouro da rainha Vitória — seus cinquenta anos de reinado — e a pedido do bispo de Gozo, monsenhor Pietro Pace, a localidade foi elevada à categoria de cidade e rebatizada oficialmente de Victoria, em homenagem à soberana.
O novo nome nunca pegou de vez entre os gozitanos: muitos, principalmente os mais velhos, continuam chamando sua capital de Rabat, como sempre, e na ilha os dois nomes convivem com naturalidade. Essa dupla denominação — Victoria para o oficial, Rabat para o coração — resume o caráter de Gozo: uma ilha profundamente apegada às suas tradições e à sua identidade, que absorve as trocas de império sem abrir mão do que é seu.
Malta conquistou a independência do Reino Unido em 1964, tornou-se república em 1974 e hoje é membro da União Europeia (desde 2004) e da zona do euro (desde 2008). Ao longo de todo esse caminho, Gozo manteve sua personalidade própria e diferente. Enquanto a ilha principal se enchia de turismo de massa, concreto e pressa, Gozo escolheu — em parte por natureza, em parte por decisão — um ritmo mais lento e uma escala mais humana.
A Gozo de hoje é um contraste proposital com sua irmã mais velha: campos verdes com muretas de pedra seca, vilas tradicionais dominadas por igrejas monumentais, enseadas de água azul-turquesa, falésias para trilhas e uma vida social que ainda gira em torno da paróquia, da festa e da família. A agricultura, a pesca e o vinho convivem com um turismo mais tranquilo e de qualidade, que busca justamente essa autenticidade: casas de campo restauradas, agroturismo, mergulho, caminhadas. Os gozitanos têm fama de calorosos, apegados às suas tradições e orgulhosos da sua ilha.
Dos templos de Ġgantija, berço de uma civilização de cinco mil anos atrás, à Cidadela que protegeu uma população inteira do cativeiro; do mito de Calipso ao Jubileu da rainha Vitória; do cativeiro de 1551 à calma verde de hoje: Gozo condensa, em poucos quilômetros, uma história longuíssima e uma identidade tenaz. É a Malta mais antiga e, ao mesmo tempo, a mais serena; a ilha que, no coração do Mediterrâneo, decidiu não ter pressa. Por isso muitos viajantes dizem que, de todo o arquipélago, Gozo é o que mais fica na memória.