Trakai oferece o cartão-postal mais famoso da Lituânia: um castelo gótico de tijolo vermelho, com torres e ameias, erguido numa ilha no meio do lago Galvė e ligado à terra firme por passarelas de madeira. Cercado de água por todos os lados e refletido no lago, é a imagem que aparece nas capas dos guias e no imaginário do país. Mas Trakai é muito mais que o seu castelo: é uma antiga capital medieval, um vilarejo de casas de madeira coloridas e o lar de um povo minúsculo e fascinante, os caraítas.
A apenas meia hora de Vilnius, Trakai é o passeio perfeito. A península onde fica o vilarejo, estreita e ladeada por lagos, guarda a herança dos caraítas (karaimai), uma comunidade de origem turca que o grão-duque Vitautas trouxe da Crimeia no século XIV como guarda pessoal. Algumas poucas famílias ainda vivem aqui e mantêm sua língua, sua religião — um ramo do judaísmo que só reconhece a Torá escrita — e sua culinária, cujo prato principal são os kibinai, pastéis assados recheados de carne que se comem em praticamente qualquer esquina.
Este guia percorre Trakai com um olhar prático: como chegar de Vilnius de trem ou ônibus, como visitar o castelo da ilha e o museu que ele abriga, onde provar os kibinai caraítas e o que fazer nos lagos, de passear de barco a remar de caiaque. É um destino que se conhece em meio dia, mas que combina história, natureza e uma cultura única num cartão-postal difícil de esquecer.
Trakai foi uma das capitais do Grão-Ducado da Lituânia nos séculos XIV e XV, na época de maior esplendor do Estado lituano. O grão-duque Kęstutis e seu filho Vitautas, o Grande, fizeram destes lagos o seu bastião: primeiro o Castelo da Península e depois o Castelo da Ilha, concluído no início do século XV, uma fortaleza que combinava defesa e residência ducal e foi uma das mais importantes da região. Vitautas trouxe para cá, da Crimeia, os caraítas e os tártaros, que formaram comunidades que sobrevivem até hoje. Com a transferência do poder para Vilnius, Trakai perdeu importância e o castelo virou ruína; foi reconstruído no século XX e transformado em museu. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The country's historic heart: baroque Vilnius, founded by Gediminas and called the “Jerusalem of the North”; the island castle of Trakai and its Karaites; and Kernavė, the first medieval capital, now an archaeological site.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucos lugares resumem tão bem a história medieval da Lituânia quanto Trakai. Em poucos quilômetros, entre mais de trinta lagos, foram erguidos dois castelos, a corte dos grão-duques se instalou e conviveram lituanos, caraítas e tártaros trazidos das estepes da Crimeia. Quando o poder lituano estava no auge, Trakai, e não Vilnius, era um de seus corações.
A escolha do lugar não foi por acaso. Cercada de água por todos os lados e num cruzamento de rotas para o oeste, a região oferecia uma defesa natural excepcional contra o grande inimigo da época: a Ordem Teutônica, que durante décadas lançou cruzadas contra o último Estado pagão da Europa. Nas ilhas e penínsulas desses lagos, os duques lituanos ergueram fortalezas quase inexpugnáveis. A do lago Galvė, com seu castelo de tijolos vermelhos refletido na água, viraria o símbolo duradouro daquele esplendor.
Trakai está ligada a dois dos grandes nomes da história lituana: o duque Kęstutis e seu filho Vytautas, o Grande. Em meados do século XIV, Kęstutis fez de Trakai sua residência e ergueu o primeiro grande castelo, o Castelo da Península, em terra firme entre os lagos: uma fortaleza enorme, com várias torres, pensada para resistir aos cercos teutônicos. Foi ali que nasceu, por volta de 1350, seu filho Vytautas, que levaria o Grão-Ducado da Lituânia à sua maior extensão e prestígio.
Foi Vytautas quem concluiu, no começo do século XV, o Castelo da Ilha, numa ilha do lago Galvė: uma obra que unia a função defensiva à de residência ducal, com um palácio de galerias de madeira, salões e uma torre de menagem. De Trakai, Vytautas governou um Estado que ia do Báltico ao mar Negro. Em 1410, ao lado do primo Jogaila, rei da Polônia, esmagou a Ordem Teutônica na batalha de Grunwald (Žalgiris), uma das maiores da Europa medieval, que acabou com a ameaça dos cavaleiros teutônicos. Naqueles anos, Trakai era uma das capitais de uma potência europeia.
Uma das decisões de Vytautas deixou em Trakai uma marca que sobrevive até hoje. Depois de suas campanhas rumo ao sudeste, por volta de 1397-1398, o grão-duque trouxe da Crimeia para Trakai várias centenas de famílias caraítas e tártaras. Os caraítas (karaimai), um povo de língua túrquica que pratica o caraísmo, um ramo do judaísmo que reconhece apenas a Torá escrita, foram instalados junto ao castelo para servir como guarda pessoal do duque e como colonos de confiança. Os tártaros, muçulmanos, se fixaram em aldeias próximas.
Seis séculos depois, essa herança continua viva. Na rua Karaimų, em Trakai, ainda se veem as casas de madeira caraítas, com a típica fachada de três janelas, e funciona a kenesa, um dos poucos templos caraítas em atividade no mundo. A comunidade, hoje reduzida a um punhado de famílias, preserva sua língua, sua religião e sua culinária, cujo símbolo são os kibinai, uma espécie de pastel assado recheado de carne que virou o prato mais famoso de Trakai. É uma das comunidades caraítas mais antigas e contínuas do planeta, um testemunho vivo daquele Grão-Ducado multiétnico.
O esplendor de Trakai não durou. À medida que Vilnius se firmava como capital indiscutível do Grão-Ducado e, depois, da República das Duas Nações (a Comunidade Polaco-Lituana), Trakai foi perdendo importância política. Os castelos deixaram de ter valor estratégico diante da artilharia moderna e viraram residências secundárias, prisões e depósitos. No século XVII, as guerras com a Moscóvia, em especial a devastadora invasão russa de meados do século, arrasaram a região e danificaram gravemente as fortalezas.
A partir daí, o Castelo da Ilha ficou abandonado e começou a se deteriorar lentamente. Durante séculos, seus muros de tijolos vermelhos foram desmoronando sobre a ilha, transformados numa ruína romântica que atraía pintores e viajantes. O Castelo da Península teve sorte pior e ficou reduzido a fragmentos de muralha. A antiga capital ducal virou uma tranquila cidadezinha à beira dos lagos, e sua glória medieval parecia perdida para sempre sob a hera.
O renascimento de Trakai veio no século XX. Os primeiros trabalhos de conservação começaram sob domínio russo e polonês, mas a grande reconstrução do Castelo da Ilha foi feita nas décadas de 1950 e 1960, já durante a ocupação soviética. Foi um projeto polêmico: reconstruir um símbolo do passado nacional lituano não combinava com a ideologia soviética, e as autoridades de Moscou olharam para ele com desconfiança. O arquiteto e os defensores lituanos do projeto tiveram de driblar pressões para concluí-lo. Mesmo assim, o castelo foi reerguido quase por inteiro, seguindo as plantas e os achados arqueológicos, e em 1962 abriu como Museu de História de Trakai.
Para muitos lituanos, aquela reconstrução se tornou um discreto ato de afirmação nacional em plena era soviética: o castelo gótico sobre o lago, reproduzido tantas vezes, era um lembrete de que a Lituânia tinha sido uma grande potência medieval, com história própria. Terminada a restauração, o Castelo da Ilha voltou a ser o que tinha sido: a imagem mais forte e reconhecível do país.
Desde a independência, em 1990, Trakai se firmou como um dos destinos mais queridos da Lituânia e como o passeio clássico a partir de Vilnius, a meia hora de trem. Em 1991 foi criado o Parque Histórico Nacional de Trakai, o único do tipo no país, que protege não só os castelos, mas toda a paisagem cultural de lagos, florestas, aldeias e patrimônio caraíta e tártaro. O Castelo da Ilha, restaurado e transformado em museu, recebe todo ano multidões de visitantes que atravessam suas passarelas de madeira para percorrer o palácio ducal e apreciar o lago Galvė.
Mas Trakai soube ser mais do que um cartão-postal. A comunidade caraíta mantém vivas suas tradições e sua culinária; no verão, os lagos se enchem de veleiros, caiaques e remadores; o palácio de Užutrakis e seus jardins mostram outra faceta do lugar. Assim, em poucos quilômetros, Trakai reúne a memória da Lituânia medieval no auge, a herança de um povo túrquico único na Europa e uma paisagem de água e floresta que continua tão bonita quanto na época em que Kęstutis e Vytautas escolheram estes lagos para construir sua capital.