Vilnius é uma das capitais mais subestimadas e encantadoras da Europa. Seu centro histórico, um dos maiores conjuntos barrocos do continente, é um labirinto de ruelas de paralelepípedo, pátios escondidos, mais de quarenta igrejas de todas as épocas e palácios de fachadas em tons pastel, tudo declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Caminhar por ela é sentir o cruzamento de mundos que ela sempre foi: lituano, polonês, judeu, russo, alemão.
Mas Vilnius não é só passado. É também uma cidade jovem, universitária e criativa, com uma cena gastronômica em ascensão, cafés especiais e uma vida cultural agitada. O maior símbolo desse espírito é Užupis, um antigo bairro boêmio do outro lado do rio Vilnia que, em 1997, se autoproclamou 'república independente', com sua própria constituição pendurada nas paredes, sua bandeira e até seu dia nacional. É artístico, irônico e absolutamente único.
Este guia percorre Vilnius com um olhar prático: como chegar e se locomover, o que ver no centro histórico e em Užupis, quais museus valem a pena, onde comer cepelinai e onde se hospedar. É uma cidade para curtir caminhando sem pressa, olhando para cima, para seus campanários, e para dentro de seus pátios, e que combina uma história densíssima com uma energia surpreendentemente tranquila e acessível.
Fundada oficialmente em 1323, quando o grão-duque Gediminas escreveu as cartas que convidavam mercadores e artesãos a povoá-la, Vilnius foi a capital do Grão-Ducado da Lituânia, um dos Estados mais extensos da Europa medieval. Sua união com a Polônia a transformou em um grande centro multicultural, sede de uma universidade jesuíta fundada em 1579 e de uma comunidade judaica tão importante que a cidade foi chamada de 'a Jerusalém do Norte'. Passou para mãos russas após as partilhas da Polônia, viveu as duas guerras mundiais com enorme violência — a ocupação nazista aniquilou quase toda a sua população judaica no Holocausto — e meio século de ocupação soviética. Em 1990, a Lituânia foi a primeira república a declarar independência da URSS, e Vilnius voltou a ser capital de um país livre. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The country's historic heart: baroque Vilnius, founded by Gediminas and called the “Jerusalem of the North”; the island castle of Trakai and its Karaites; and Kernavė, the first medieval capital, now an archaeological site.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Diz a lenda que o grão-duque Gediminas, caçando nas florestas perto da confluência dos rios Neris e Vilnia, adormeceu e sonhou com um enorme lobo de ferro que uivava no alto de uma colina com a força de cem lobos. O sacerdote pagão Lizdeika interpretou o sonho: o duque devia fundar ali uma cidade tão poderosa que sua fama, como o uivo, fosse ouvida no mundo inteiro. Assim nasceu Vilnius, segundo a história que todo lituano conhece.
Para além do mito, a fundação de Vilnius é datada de 1323, ano em que Gediminas enviou uma série de cartas às cidades hanseáticas e aos comerciantes, artesãos e monges da Europa Ocidental, convidando-os a se instalar em sua capital e prometendo liberdade de culto e de comércio. Essas cartas, preservadas até hoje, são a primeira menção documentada a Vilnius e a certidão de nascimento da cidade. Situada num cruzamento estratégico de rotas comerciais, no coração de um território de florestas e pântanos fácil de defender, Vilnius estava destinada a ser a capital de um dos maiores Estados da Europa medieval: o Grão-Ducado da Lituânia.
Quando Vilnius se tornou capital, a Lituânia era o último Estado pagão da Europa. Enquanto o continente já era cristão havia séculos, os lituanos continuavam venerando deuses da natureza, do fogo e do trovão, e resistiam com armas às cruzadas que a Ordem Teutônica lançava sem parar contra eles em nome da conversão. O Grão-Ducado, no entanto, crescia: sob Gediminas e seus sucessores, chegou a se estender do Báltico até perto do mar Negro, incorporando vastos territórios eslavos.
A virada decisiva veio em 1385-1387, quando o grão-duque Jogaila (Jagelão) aceitou ser batizado e se casar com a rainha Edviges da Polônia, selando a união dos dois reinos. A Lituânia adotou oficialmente o cristianismo — um dos últimos povos da Europa a fazê-lo — e Vilnius recebeu seus direitos de cidade em 1387. Sob o grão-duque Vitautas, o Grande, no começo do século XV, o Ducado atingiu sua máxima extensão e prestígio e, em 1410, ao lado da Polônia, derrotou a Ordem Teutônica na batalha de Grunwald (Žalgiris), uma das maiores da Europa medieval, que quebrou para sempre o poder dos cavaleiros teutônicos.
A União de Lublin, de 1569, fundiu a Polônia e a Lituânia numa única Comunidade, uma das maiores potências da Europa. Vilnius viveu então uma era de ouro multicultural. Em 1579, os jesuítas fundaram a Universidade de Vilnius, a mais antiga do Leste Europeu e do Báltico, que transformou a cidade num grande centro intelectual. Foram erguidas dezenas de igrejas barrocas — a cidade ainda conserva um dos horizontes de campanários mais ricos do continente — e conviviam em suas ruas lituanos, poloneses, rutenos, alemães, tártaros e uma enorme comunidade judaica.
Essa comunidade judaica fez de Vilnius um centro espiritual de fama mundial. Aqui viveu e ensinou o Gaon de Vilna (Elias ben Salomão, 1720-1797), um dos sábios mais influentes do judaísmo, e a cidade ganhou o apelido de 'Jerusalém do Norte' (Yerushalayim de Lita) pela quantidade de sinagogas, ieshivás e gráficas hebraicas. No começo do século XX, cerca de metade da população era judia e o iídiche se ouvia em cada mercado. Esse mundo, com séculos de história, seria quase completamente aniquilado poucas décadas depois.
No fim do século XVIII, as partilhas da Polônia dividiram a Comunidade entre seus vizinhos, e Vilnius ficou sob o Império Russo em 1795. O século XIX foi de dominação czarista, russificação e repressão: depois das revoltas de 1831 e 1863, a universidade foi fechada, a impressão em lituano com caracteres latinos foi proibida e a língua e a cultura nacionais foram perseguidas. Mesmo assim, na clandestinidade, o renascimento nacional lituano ia ganhando forma.
O século XX atingiu Vilnius com uma violência extrema. Depois da Primeira Guerra Mundial, a Lituânia declarou sua independência em 1918, mas Vilnius, disputada por lituanos, poloneses e bolcheviques, foi anexada pela Polônia em 1920 e ficou separada do jovem Estado lituano por vinte anos; a capital provisória foi transferida para Kaunas. Em 1939-1940, após o pacto Molotov-Ribbentrop, a cidade voltou à Lituânia para cair quase imediatamente sob ocupação soviética e, depois, nazista. A ocupação alemã (1941-1944) trouxe o Holocausto: a comunidade judaica de Vilnius, umas 60.000 pessoas, foi confinada em dois guetos e quase inteiramente assassinada, muitos fuzilados nas valas da floresta de Paneriai (Ponar), nos arredores da cidade. Com eles desapareceu a 'Jerusalém do Norte'.
Em 1944, o Exército Vermelho expulsou os nazistas e a Lituânia foi anexada à União Soviética, situação que duraria quase meio século. Vilnius voltou a ser capital, agora de uma república soviética. Vieram as deportações em massa para a Sibéria — dezenas de milhares de lituanos enviados aos gulags —, a coletivização forçada e a repressão política, comandada a partir do prédio da KGB no centro, cujos porões hoje são um museu de arrepiar.
Muitos não se conformaram. Entre 1944 e o começo dos anos 1950, os 'irmãos da floresta' (miško broliai), milhares de partisans armados, travaram uma guerra de guerrilhas desesperada contra o poder soviético a partir das florestas do país; quase todos morreram ou foram deportados, mas sua resistência ficou gravada na memória nacional. A repressão não conseguiu apagar a identidade lituana, que sobreviveu na língua, na Igreja Católica e na cultura, e que voltaria a explodir com força nas últimas décadas do século.
No fim dos anos 1980, a abertura soviética permitiu o ressurgimento do movimento nacional. Em 1988 foi fundado o Sąjūdis, a frente pela independência, e em agosto de 1989 dois milhões de pessoas formaram a 'Corrente Báltica', uma corrente humana de 600 km que uniu Vilnius, Riga e Tallinn para reivindicar liberdade. Em 11 de março de 1990, a Lituânia foi a primeira república a declarar a restauração de sua independência da URSS. Moscou respondeu com pressão e, em janeiro de 1991, com tanques: na madrugada de 13 de janeiro, tropas soviéticas invadiram a torre de televisão de Vilnius e catorze civis desarmados morreram esmagados ou baleados defendendo-a. A resistência pacífica e a comoção internacional foram decisivas: naquele mesmo ano, após o fracasso do golpe de Moscou, a independência lituana foi reconhecida pelo mundo.
Desde então, Vilnius passou por uma transformação notável. A Lituânia entrou na União Europeia e na OTAN em 2004, adotou o euro em 2015, e a capital se tornou uma cidade dinâmica, tecnológica e culturalmente inquieta, sem deixar de cuidar do seu centro histórico, Patrimônio da Humanidade. A antes degradada região de Užupis se reinventou como república boêmia de artistas; os antigos bairros industriais se encheram de startups e cafés. Vilnius hoje olha com firmeza para o Ocidente, atenta à vizinhança com Belarus e a Rússia, orgulhosa de ter sido, em 1990, a cidade que teve a coragem de dizer 'não' primeiro.