Kaunas é a cidade que virou capital sem querer, e esse acidente da história a transformou num tesouro. Quando, em 1920, Vilnius ficou nas mãos da Polônia, Kaunas assumiu o papel de capital provisória da Lituânia e, durante duas décadas, se transformou a toda velocidade de cidade do interior em uma moderna capital europeia. O resultado é único: centenas de edifícios modernistas do entreguerras — bancos, igrejas, residências, cafés — erguidos entre 1919 e 1939, um conjunto que a UNESCO inscreveu como Patrimônio da Humanidade em 2023 sob o nome de 'Kaunas modernista: arquitetura do otimismo'.
Mas Kaunas é muito mais do que seu modernismo. Tem um dos centros medievais mais bonitos do país, com seu castelo gótico de tijolo vermelho na confluência do Nemunas e do Neris, a praça da Prefeitura (apelidada de 'o cisne branco') e ruas de paralelepípedo cheias de vida. É cortada pela Laisvės alėja, uma das avenidas de pedestres mais longas da Europa, e coroada por dois funiculares dos anos 1930 e pela imponente basílica branca da Ressurreição. É uma cidade jovem, universitária e criativa, com uma cena de arte urbana e de cafés entre as melhores do Báltico.
Este guia percorre Kaunas com um olhar prático: como chegar de trem a partir de Vilnius em pouco mais de uma hora, o que ver no centro histórico e na rota do modernismo UNESCO, como subir nos funiculares históricos e por que vale reservar tempo para o Nono Forte, o impactante memorial do Holocausto nos arredores. É um destino ideal para um ou dois dias, que surpreende quase todo mundo: por trás da fama de 'segunda cidade', esconde uma personalidade fortíssima e uma das histórias do século XX mais intensas da Lituânia.
Fundada em torno de seu castelo, mencionado já no século XIV como bastião contra a Ordem Teutônica, Kaunas cresceu como cidade comercial na confluência do Nemunas e do Neris e integrou a Liga Hanseática. Sob o Império Russo, foi uma grande fortaleza militar (a Fortaleza de Kaunas, com seus fortes numerados). Seu grande momento chegou após a Primeira Guerra Mundial: com Vilnius nas mãos da Polônia, Kaunas foi capital provisória da Lituânia entre 1920 e 1939 e viveu uma explosão de modernidade e arquitetura modernista. A Segunda Guerra Mundial trouxe o horror: no gueto de Kaunas e no Nono Forte foram assassinados dezenas de milhares de judeus. Depois do período soviético e da independência de 1990, Kaunas se reinventou como capital cultural; em 2022 foi Capital Europeia da Cultura e em 2023 sua arquitetura do entreguerras foi declarada Patrimônio da Humanidade. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The geographic centre and Upper Lithuania (Aukštaitija): Kaunas, the sturdy interwar provisional capital now celebrated for its modernist architecture, and the lakes and forests of the country's oldest national park.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Kaunas nasceu da água e da guerra. No ponto exato em que o rio Neris entrega suas águas ao Nemunas, o grande rio da Lituânia, foi erguido já no século XIII ou XIV um castelo de pedra: o primeiro de todo o país. Não foi por acaso. Aquela confluência era uma posição estratégica de primeira ordem, um cruzamento de vias fluviais e de rotas comerciais, e também uma fronteira perigosa: a oeste pressionava a Ordem Teutônica, os cavaleiros cruzados que durante quase dois séculos atacaram a Lituânia, o último grande Estado pagão da Europa.
O castelo de Kaunas foi sitiado, tomado e reconstruído várias e várias vezes. Em 1362, depois de um longo cerco, os cruzados o arrasaram; os lituanos o ergueram de novo, mais forte, com muralhas duplas e um fosso. Sua história de pedra resume a do país naqueles séculos: a resistência à cruzada do Báltico, que só terminou depois da vitória conjunta de poloneses e lituanos na batalha de Grunwald (Žalgiris), em 1410. Com a ameaça teutônica neutralizada, Kaunas pôde se dedicar ao que a geografia lhe oferecia: o comércio.
Assim, a cidade cresceu como um movimentado porto fluvial. Comerciantes da região e do exterior se instalaram nela, e no século XV Kaunas chegou a ter um escritório da Liga Hanseática, a grande rede comercial do norte da Europa. Pelos seus cais passavam madeira, cera, mel, peles e grãos. O centro histórico atual, com sua praça da Prefeitura e suas casas de comerciantes, guarda a memória daquela Kaunas mercantil e hanseática, um próspero ponto de encontro entre o mundo báltico e o resto do continente.
Com o fim da Comunidade Polaco-Lituana nas partilhas do final do século XVIII, Kaunas passou a fazer parte do Império Russo. Sua posição de fronteira — perto da Prússia alemã — voltou a torná-la estratégica, desta vez para o czar. A partir de 1882, o Império Russo transformou Kaunas em uma gigantesca fortaleza militar: um anel de fortes, baterias e trincheiras cercando a cidade, pensado para conter um eventual avanço alemão vindo do oeste. Foram construídos vários fortes numerados, entre eles o Nono Forte, que décadas depois teria um papel tristíssimo.
A Kaunas daquela época era uma cidade de guarnição, com milhares de soldados, engenheiros militares e uma população civil que crescia à sua sombra. A fortaleza, porém, não correspondeu às expectativas: durante a Primeira Guerra Mundial, em 1915, o exército alemão a tomou em poucos dias, numa das derrotas mais humilhantes do exército russo. A cidade ficou sob ocupação alemã até o fim da guerra.
Esse contexto — o colapso do Império Russo, a ocupação alemã, o caos do pós-guerra — foi também o que abriu, de forma inesperada, a grande oportunidade histórica de Kaunas. Em fevereiro de 1918, a Lituânia declarou sua independência. Mas o jovem Estado nasceu disputando sua capital histórica, Vilnius, reivindicada também pela Polônia e pela nascente Rússia soviética. Quando, em 1920, as tropas polonesas tomaram Vilnius, a Lituânia perdeu sua capital, e todos os olhares se voltaram para a segunda cidade do país: Kaunas.
Entre 1920 e 1939, Kaunas foi a capital provisória da Lituânia. A palavra 'provisória' era importante: o país nunca abriu mão de Vilnius, e Kaunas assumiu o papel sabendo que era um arranjo temporário. Mas daquela provisoriedade nasceu uma das fases mais brilhantes da história lituana. Uma cidade do interior, quase sem prédios públicos à altura de uma capital, precisou ganhar em poucos anos ministérios, bancos, universidades, teatros, igrejas e moradias modernas. E fez isso com um impulso extraordinário.
Em menos de duas décadas foram erguidos milhares de edifícios em um estilo novo, moderno, que combinava art déco, funcionalismo, neoclassicismo e motivos nacionais lituanos. Arquitetos como Vytautas Landsbergis-Žemkalnis, Karolis Reisonas e Feliksas Vizbaras desenharam uma cidade otimista, luminosa, de olho no futuro: o Banco da Lituânia, a Câmara de Comércio, a Agência Central dos Correios, o edifício Pienocentras, a Casa dos Oficiais, a Universidade Vytautas Magnus e a enorme e branca basílica da Ressurreição, no alto da colina de Žaliakalnis. Os serviços foram modernizados, os funiculares foram construídos (1931 e 1935) e a cidade se encheu de cafés e de uma vida cultural vibrante.
Aquela Kaunas do entreguerras foi um laboratório da modernidade báltica, orgulhosa e europeia. Seu conjunto arquitetônico é tão singular e tão bem conservado que, em setembro de 2023, a UNESCO o inscreveu na lista do Patrimônio Mundial com o nome de 'Kaunas modernista: arquitetura do otimismo, 1919-1939'. Esse nome resume o espírito de uma época: o de um país jovem que, contra todas as previsões, construía sua capital e seu futuro com fé no amanhã. Um futuro que a guerra estava prestes a despedaçar.
A Segunda Guerra Mundial caiu sobre Kaunas com uma violência extrema. Depois do pacto entre a Alemanha nazista e a União Soviética, a Lituânia foi ocupada pelos soviéticos em 1940, com deportações e repressão. Em junho de 1941, a Alemanha nazista invadiu o país, e começou um dos capítulos mais atrozes de sua história. Kaunas tinha uma comunidade judaica numerosa e de grande vitalidade cultural. Os nazistas, com a colaboração de auxiliares locais, a confinaram em um gueto no bairro de Vilijampolė (Slobodka) e desencadearam o extermínio.
O Nono Forte, aquele velho forte da fortaleza russa nos arredores da cidade, se tornou um dos principais locais de massacre. Ali foram fuziladas dezenas de milhares de pessoas: judeus do gueto de Kaunas e também judeus deportados da Alemanha, da Áustria, da França e de outros países, levados até a Lituânia para serem assassinados. Um dos episódios mais terríveis foi a chamada 'Grande Ação' de 29 de outubro de 1941, em que cerca de 9.000 pessoas foram assassinadas em um único dia. Estima-se que no Nono Forte tenham morrido entre 45.000 e 50.000 pessoas.
A comunidade judaica de Kaunas — como a de quase toda a Lituânia — foi praticamente aniquilada. Houve, sim, gestos de humanidade: o diplomata japonês Chiune Sugihara, cônsul em Kaunas, desobedeceu ordens e assinou milhares de vistos que salvaram a vida de muitos judeus. Mas a dimensão da tragédia foi imensa. Hoje, o Nono Forte é um memorial e museu do genocídio, dominado por um enorme monumento de concreto, que preserva a memória das vítimas com sobriedade e rigor. É uma visita difícil, mas necessária para entender o que aconteceu aqui.
Terminada a guerra, a Lituânia voltou ao controle soviético, e assim permaneceu até 1990. Kaunas, que tinha sido o símbolo da Lituânia independente e moderna do entreguerras, viveu a sovietização com especial dureza: foi justamente em Kaunas que o sentimento nacional se manteve mais vivo e desafiador. O episódio mais famoso aconteceu em maio de 1972, quando o jovem Romas Kalanta se imolou ateando fogo ao próprio corpo no jardim público junto à Laisvės alėja, em protesto contra o regime soviético. Sua morte desencadeou distúrbios e protestos de jovens reprimidos pelas autoridades, e o transformou em um símbolo da resistência lituana.
Com a recuperação da independência em 1990, Kaunas — agora como segunda cidade de uma Lituânia novamente com capital em Vilnius — precisou se reinventar. Deixou para trás a indústria soviética em declínio e apostou na cultura, na universidade e em seu extraordinário patrimônio arquitetônico. A cidade, muito jovem e com uma forte vida estudantil, desenvolveu uma cena criativa, de arte urbana, cafés e festivais, que a colocou no mapa cultural europeu.
Esse renascimento teve dois marcos seguidos e decisivos. Em 2022, Kaunas foi Capital Europeia da Cultura, com um programa ambicioso que valorizou seu modernismo e sua história e projetou a cidade para o continente. E no ano seguinte, em 2023, veio a consagração: a UNESCO declarou Patrimônio Mundial sua arquitetura do entreguerras. Em pouco mais de um século, Kaunas passou de capital provisória improvisada a cenário de uma das maiores tragédias do século XX, e daí a capital cultural reconhecida pelo mundo. Percorrê-la hoje é ler, em suas ruas, castelo, funiculares e edifícios brancos, toda a história da Lituânia moderna.