Šiauliai é uma daquelas cidades que quase ninguém tem na lista e que, no entanto, guarda um dos lugares mais comoventes de toda a Europa: a Colina das Cruzes. A quarta maior cidade da Lituânia, bem no norte do país, é industrial, prática e sem grandes pretensões turísticas, mas funciona como a porta de entrada perfeita para esse morro coberto por mais de cem mil cruzes que virou símbolo da fé e da resistência de todo um povo.
A cidade em si reserva surpresas para quem se demora. Seu calçadão, a Vilniaus gatvė, foi uma das primeiras ruas de pedestres da União Soviética. Na praça central, um enorme relógio de sol coroado pela estátua dourada de um arqueiro lembra que Šiauliai também é chamada de 'a cidade do sol' (Saulė significa sol em lituano). E seus museus temáticos — da Bicicleta, do Chocolate, do Gato, da Fotografia — lhe dão um ar curioso e despretensioso que quebra a solenidade do norte báltico.
Este guia percorre Šiauliai com olhar prático: como chegar de Vilnius ou do litoral, o que ver na cidade e, sobretudo, como organizar a visita à Colina das Cruzes, que quase todo mundo combina na mesma viagem. É um destino que se conhece em pouco tempo, mas que deixa uma marca difícil de esquecer, principalmente por essa floresta de cruzes que continua crescendo, cruz a cruz, há quase dois séculos.
Fundada como povoado em torno da Batalha do Sol de 1236 — quando as tribos samogícias e de terras vizinhas derrotaram a Ordem dos Irmãos da Espada —, Šiauliai cresceu às margens das rotas comerciais do norte lituano. Durante séculos foi um centro agrícola e de artesãos; no fim do século XIX e começo do XX se industrializou com curtumes e fábricas, e chegou a ser um importante entroncamento ferroviário. Sofreu enormes destruições nas duas guerras mundiais: boa parte do centro foi arrasada em 1944. Na época soviética foi reconstruída como cidade industrial e abrigou uma grande base aérea militar (Zokniai, hoje aeroporto). Mas seu grande símbolo fica nos arredores: a Colina das Cruzes, que durante a ocupação soviética se transformou em um ato silencioso e teimoso de resistência nacional e religiosa, arrasada várias vezes pelas autoridades e sempre reconstruída pelo povo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Northern Lithuania, land of the old Battle of the Sun and of the Hill of Crosses: a mound covered in more than a hundred thousand crosses that the Soviets razed again and again, and that the people rebuilt night after night.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Šiauliai deve seu lugar na história a uma batalha travada muito antes de a cidade existir. Em 22 de setembro de 1236, em algum ponto das terras do norte da atual Lituânia, as tribos samogícias, com a ajuda de guerreiros das terras semigálias vizinhas, aniquilaram a Ordem dos Irmãos da Espada. Era a ordem militar cristã que tentava submeter e cristianizar à força os povos bálticos. Nesse confronto, conhecido como a Batalha do Sol (Saulės mūšis), morreram o próprio mestre da ordem, Volkwin, e dezenas de cavaleiros. A derrota foi tão catastrófica que, no ano seguinte, o que restou da ordem teve de se fundir com a Ordem Teutônica.
O nome latino da batalha, 'ad Saulam' ou 'apud Sauven', é tradicionalmente associado a Šiauliai, cuja raiz vem da palavra lituana 'saulė' (sol). Por isso a cidade é conhecida como 'a cidade do sol', apelido que ela celebra hoje com a praça do relógio de sol e o seu arqueiro dourado. Já a primeira menção escrita ao povoado de Šiauliai como tal é bem posterior: aparece em documentos de 1524.
Deixando de lado o debate acadêmico sobre o local exato da batalha, o que ficou foi um símbolo poderoso. A Batalha do Sol foi uma das grandes vitórias dos povos bálticos contra as cruzadas do norte e freou por décadas o avanço das ordens militares sobre a Samogícia, a última região pagã da Europa. Essa raiz combativa, de resistência a um poder externo, ecoa de um jeito curioso na história posterior da cidade e, sobretudo, na da sua Colina das Cruzes.
Na época do Grão-Ducado da Lituânia e depois da Comunidade Polaco-Lituana, Šiauliai foi crescendo como centro agrícola do norte. Em 1589 recebeu o status de vila e, no século XVIII, virou o coração de uma grande propriedade econômica real, as chamadas 'economias de Šiauliai': terras do tesouro do Estado cultivadas por camponeses da região. Essa condição de vila real deixou marcas. Em 1769 estourou aqui uma das maiores revoltas camponesas da história do país, quando os servos das economias se levantaram contra os encargos e os abusos da administração.
Em 1791, nos últimos anos da Comunidade Polaco-Lituana, Šiauliai obteve os direitos de cidade de Magdeburgo e um brasão próprio: um urso vermelho, um olho da Providência e uma cruz, símbolos que continuam em uso. Pouco depois, com as partilhas da Polônia-Lituânia, a cidade foi incorporada ao Império Russo e ficou sob seu domínio por mais de um século. Foi nesse período que se tornou um ponto-chave das rotas comerciais entre Riga e o interior e, principalmente, um entroncamento ferroviário.
A chegada do trem em 1871, com a linha que ligava Liepāja (na atual Letônia) a Romny, transformou Šiauliai. De cidade agrícola, passou a cidade industrial: surgiram curtumes, fábricas de couro e de calçados (a famosa indústria do couro que deu fama à cidade), moinhos e oficinas. No começo do século XX, Šiauliai já era uma das cidades mais dinâmicas do noroeste do império, com uma população diversa em que conviviam lituanos, uma grande comunidade judaica, poloneses, russos e alemães.
Como tantas cidades do norte e do leste da Lituânia, Šiauliai teve durante séculos uma vida judaica intensa. No começo do século XX, os judeus eram cerca de metade da população da cidade e tinham papel central no seu comércio, no artesanato e na indústria. Boa parte dos curtumes e das fábricas de couro pertencia a judeus, e a cidade tinha sinagogas, escolas, imprensa em ídiche e uma rica vida cultural.
A Primeira Guerra Mundial já tinha golpeado duramente essa comunidade. Em 1915, o exército russo, que desconfiava da sua lealdade, deportou grande parte da população judaica para o interior do império, e boa parte da cidade foi destruída pelos combates e pelos incêndios. Muitos voltaram depois e, no entreguerras, com a Lituânia independente, a vida judaica voltou a florescer.
O golpe final veio com a ocupação nazista. Depois da invasão alemã de 1941, os judeus de Šiauliai foram confinados em um gueto e submetidos a trabalhos forçados. Em sucessivas 'ações' e deportações, foram assassinados quase todos. De uma comunidade de milhares de pessoas, só um punhado sobreviveu ao extermínio. O gueto de Šiauliai é lembrado, entre outras coisas, pelos diários que alguns dos seus moradores conseguiram deixar como testemunho. A aniquilação da comunidade judaica fez parte do assassinato de cerca de 90% dos judeus lituanos, uma das porcentagens mais altas de toda a Europa. Ela apagou para sempre uma dimensão inteira da cidade, que hoje é lembrada em memoriais e no trabalho dos historiadores.
Poucas cidades lituanas sofreram tanto no século XX quanto Šiauliai. A Primeira Guerra Mundial deixou grande parte do centro em ruínas e provocou o êxodo de boa parte da população. No entreguerras, com a independência da Lituânia proclamada em 1918, a cidade se reconstruiu e viveu uma fase de esplendor. Tornou-se a segunda ou terceira cidade do país, com indústria de couro, de calçados e de doces, universidades, imprensa e uma vida cultural vibrante.
A Segunda Guerra Mundial foi ainda mais devastadora. Com a ocupação soviética de 1940, a invasão alemã de 1941 e a reconquista soviética de 1944, a cidade ficou presa entre duas frentes. No verão de 1944, durante os combates entre o Exército Vermelho e a Wehrmacht, cerca de 80% dos prédios de Šiauliai foram destruídos. A cidade que se vê hoje é, em grande parte, uma reconstrução do pós-guerra, e isso explica por que seu centro não tem a monumentalidade histórica de Vilnius ou Kaunas.
Sob o poder soviético, Šiauliai foi reconstruída como cidade industrial socialista, com grandes fábricas, bairros de prédios residenciais em bloco e uma importante base aérea militar em Zokniai, nos arredores. Essa base, uma das maiores da região báltica, fez de Šiauliai um ponto estratégico do aparato militar soviético. Hoje, o mesmo aeródromo abriga o aeroporto civil e uma base de onde a OTAN realiza sua missão de policiamento aéreo do Báltico. A reconstrução soviética também trouxe, em 1975, a transformação da rua Vilniaus em calçadão, uma das primeiras ruas exclusivas para pedestres de toda a URSS.
Nenhuma história de Šiauliai está completa sem o seu grande símbolo, que na verdade fica nos arredores: a Colina das Cruzes (Kryžių kalnas), a uns 12 km ao norte. A tradição de fincar cruzes nesse morro remonta pelo menos à década de 1830, depois do levante fracassado de 1831 contra o Império Russo. As famílias que não conseguiam recuperar os corpos dos seus mortos começaram a deixar cruzes em sua memória. Com o tempo, o lugar virou destino de peregrinação e expressão da identidade católica e nacional lituana.
Durante a ocupação soviética, quando a religião era reprimida, a Colina se tornou um ato de resistência pacífica e teimosa. As autoridades passaram tratores por cima dela pelo menos três vezes entre 1961 e 1975, queimaram e enterraram as cruzes e chegaram a cogitar alagar a área. Mas, a cada vez, de noite e às escondidas, as pessoas voltavam a fincar cruzes novas. Esse cabo de guerra silencioso entre um Estado ateu e um povo que se recusava a abrir mão da sua fé transformou a Colina em um dos símbolos mais fortes da resistência lituana à sovietização.
A visita do papa João Paulo II em 1993, que celebrou uma missa ao lado da Colina e a declarou um lugar de esperança, paz e sacrifício, deu a ela projeção mundial. Hoje estima-se que haja mais de cem mil cruzes, e o número continua crescendo. Para Šiauliai, essa colina nos arredores é ao mesmo tempo sua maior atração turística e o coração do seu significado histórico. É ali que a velha raiz combativa da Batalha do Sol, a memória dos levantes do século XIX e a resistência do século XX se encontram, em um bosque de cruzes que não para de crescer.
A Šiauliai de hoje é a quarta maior cidade da Lituânia, com cerca de 100.000 habitantes, e um centro universitário e industrial do norte do país. Depois da recuperação da independência em 1990-1991, passou, como toda a Lituânia, pela dura transição do sistema soviético para a economia de mercado. Velhas fábricas fecharam e muita gente emigrou, mas também chegaram novas indústrias, comércio e serviços.
A cidade apostou em reforçar sua identidade de 'cidade do sol'. A praça do relógio de sol com o arqueiro dourado, inaugurada nos anos 1980, virou seu emblema. Seus curiosos museus temáticos (da Bicicleta, da Fotografia, do Rádio e da Televisão, do Chocolate, do Gato) lhe dão um ar despretensioso e original que a diferencia de outras cidades bálticas. O calçadão da rua Vilniaus continua sendo o coração da vida cotidiana.
Para o viajante, Šiauliai é antes de tudo a base natural para visitar a Colina das Cruzes, e muita gente a inclui como parada no caminho entre Vilnius e o litoral, ou entre Vilnius e Riga. Mas quem fica um pouco descobre uma cidade honesta, sem multidões, que conta do seu jeito a história do norte lituano. É a história das cruzadas do Báltico, da indústria do couro, das comunidades que viveram ali e desapareceram, das guerras que a arrasaram e da resistência silenciosa que fez crescer, às suas portas, um bosque de cruzes.