O Parque Nacional de Žemaitija é um dos cantos mais surpreendentes da Lituânia: uma paisagem de florestas, colinas e lagos no coração da Samogícia, a orgulhosa região das 'terras baixas', que esconde, sob os pinheiros, um dos segredos mais arrepiantes da Guerra Fria. Ao redor do belo lago Plateliai, o maior da região, preserva-se uma natureza serena de vilarejos, igrejas e tradições samogícias; mas no fundo da floresta, um antigo bunker soviético que abrigou mísseis nucleares apontados para a Europa virou um impressionante Museu da Guerra Fria.
Essa combinação de natureza tranquila e memória da Guerra Fria torna o parque único. Você pode passar a manhã descendo às entranhas de um silo de mísseis balísticos R-12 (os mesmos que estiveram no centro da crise dos mísseis de Cuba) e a tarde nadando ou remando no lago Plateliai, caminhando por trilhas na floresta ou descobrindo a cultura samogícia, com seu dialeto próprio, suas igrejas de madeira e suas famosas máscaras e tradições de carnaval (Užgavėnės).
Este guia percorre o Parque Nacional de Žemaitija com olhar prático: como chegar (de preferência de carro), o que ver (o Museu da Guerra Fria na base de mísseis de Plokštinė, o lago Plateliai, o centro de visitantes, as trilhas e os vilarejos da Samogícia), como organizar a visita guiada ao bunker e o que levar em conta. Um destino que une, como poucos, a beleza da natureza báltica a uma das histórias mais tensas do século XX.
A Samogícia (Žemaitija) foi a última região pagã da Europa: suas tribos bálticas resistiram durante séculos à Ordem Teutônica e só se cristianizaram no início do século XV, após a vitória lituano-polonesa em Grünwald (1410). O território do parque, ao redor do lago Plateliai, preserva essa herança em suas igrejas, vilarejos e tradições, como as máscaras do carnaval de Užgavėnės. Na época soviética, o isolamento dessas florestas atraiu um uso secreto: entre 1962 e 1978 funcionou aqui a base de mísseis de Plokštinė, um dos primeiros silos subterrâneos da URSS, com mísseis nucleares R-12 (SS-4) apontados para a Europa Ocidental. O Parque Nacional de Žemaitija foi criado em 1991, após a independência, para proteger a paisagem e o patrimônio da região; em 2012 a antiga base foi aberta como Museu da Guerra Fria. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Lithuanian Baltic and Lithuania Minor with its German roots: the port of Klaipėda (the former Memel), the dunes of the Curonian Spit that Thomas Mann loved, the beaches and amber of Palanga, and wooded Samogitia.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O Parque Nacional de Žemaitija fica no coração da Samogícia (Žemaitija, 'as terras baixas'), uma das regiões históricas da Lituânia com identidade mais forte e singular. Seus habitantes, os samogícios, são um povo báltico com dialeto próprio — tão diferente que muitos o consideram quase uma língua à parte — e um caráter orgulhoso e tenaz que a história forjou ao longo de séculos de resistência. Porque a Samogícia tem um título extraordinário: foi a última região pagã da Europa.
Enquanto o resto do continente se cristianizava, os samogícios mantiveram por séculos suas crenças bálticas ancestrais, com seu culto à natureza, seus deuses e seus ritos em bosques e colinas sagradas. E fizeram isso enquanto resistiam de armas na mão à Ordem Teutônica e à Ordem da Livônia, as ordens de cruzados alemães que, com o pretexto de cristianizá-los, buscavam conquistar suas terras para unir seus domínios. Durante os séculos XIII, XIV e o início do XV, a Samogícia foi um campo de batalha constante, e seus habitantes repeliram a invasão uma vez após a outra.
O ponto de virada chegou com a grande vitória lituano-polonesa sobre a Ordem Teutônica na batalha de Grünwald (Žalgiris), em 1410, que quebrou o poder dos cruzados. Pouco depois, com a região já assegurada para o Grão-Ducado da Lituânia, os samogícios se cristianizaram oficialmente, por volta de 1413-1417, tornando-se o último povo da Europa a abandonar o paganismo. Essa cristianização tardia, e a memória da resistência, ficaram gravadas na identidade samogícia, que desde então combina uma fé católica fervorosa com um forte orgulho regional.
Depois de cristianizada, a Samogícia se tornou, paradoxalmente, uma das regiões mais devotamente católicas da Lituânia, como se despejasse na nova fé a mesma intensidade de suas antigas crenças. O território do parque, em torno do lago Plateliai, reflete essa história. O vilarejo de Plateliai, às margens do lago, foi durante séculos um centro rural com sua igreja, suas casas de madeira e sua comunidade camponesa, e pertenceu em diferentes épocas a nobres e à Coroa.
Bem perto do parque, a localidade de Žemaičių Kalvarija ('o Calvário da Samogícia') se tornou no século XVII um dos grandes centros de peregrinação de toda a Lituânia. Ali foi erguida uma Via Sacra monumental, com cerca de vinte capelas espalhadas pelas colinas, que os peregrinos percorrem cantando os característicos 'Calvários' samogícios, sobretudo durante a grande festa de julho, que continua atraindo multidões. É um símbolo do enraizamento do catolicismo na região e de sua cultura religiosa própria.
Ao lado da fé, a Samogícia conservou tradições populares muito vivas, muitas com raízes pré-cristãs. Uma das mais famosas é a das máscaras de Užgavėnės, o carnaval lituano que se despede do inverno antes da Quaresma: figuras entalhadas de diabos, bruxas, judeus, ciganos, a Quaresma magra (Kanapinis) e o Carnaval gordo (Lašininis) protagonizam desfiles e ritos para espantar o frio e chamar a primavera. Plateliai é um dos lugares mais famosos por essa tradição, e suas máscaras fazem parte do patrimônio cultural que o parque ajuda a preservar.
O episódio mais inesperado e arrepiante da história destas florestas pertence ao século XX e à Guerra Fria. Justamente por seu isolamento, sua cobertura florestal e sua distância, a área em torno do lago Plateliai foi escolhida pela União Soviética para um de seus projetos militares mais secretos. Entre 1960 e 1962, mão de obra soviética construiu na floresta de Plokštinė, cavando à mão boa parte da obra, um dos primeiros complexos de silos subterrâneos de mísseis balísticos de toda a URSS.
De 1962 a 1978, a base de Plokštinė abrigou quatro mísseis nucleares R-12 Dvina (designados SS-4 Sandal pela OTAN), de alcance intermediário, alojados em silos verticais profundos ligados por túneis e salas de controle. Cada míssil podia levar uma ogiva termonuclear de grande potência a mais de dois mil quilômetros, o que colocava boa parte da Europa Ocidental ao seu alcance. É o mesmo tipo de míssil R-12 que a URSS tentou instalar em Cuba em 1962, desencadeando a crise dos mísseis que levou o mundo à beira de uma guerra nuclear. Desta floresta lituana, aquelas armas apontavam para o oeste durante os anos mais tensos da Guerra Fria.
A base funcionou no mais absoluto segredo, cercada de arame farpado e sistemas de segurança, escondida da população local, que ignorava o que se ocultava entre os pinheiros. Foi desativada em 1978, quando o desenvolvimento de novos mísseis a tornou obsoleta, e o complexo ficou abandonado e saqueado durante décadas. Aquele silo esquecido guardava, no entanto, uma das histórias mais impactantes do século XX lituano e europeu.
O Parque Nacional de Žemaitija foi criado em 1991, logo após a Lituânia recuperar a independência, para proteger o valioso patrimônio natural e cultural desta parte da Samogícia: o lago Plateliai e seus arredores, as florestas, as colinas, os vilarejos e as tradições da região. Foi um dos primeiros parques nacionais criados na Lituânia livre, num momento em que o país também recuperava sua memória histórica, longamente reprimida durante a ocupação soviética.
Dentro dos limites do parque ficou a antiga base de mísseis de Plokštinė, abandonada desde 1978. Durante anos, aquele bunker foi um lugar proibido e em ruínas, testemunha muda de um passado que muitos preferiam esquecer. Mas com o tempo ganhou força a ideia de transformá-lo em um espaço de memória e educação sobre a Guerra Fria. Após um projeto de restauração, em 2012 a base foi aberta ao público como Museu da Guerra Fria, único no gênero na região báltica: um lugar onde descer literalmente às entranhas do terror nuclear e entender a loucura armamentista daquela época.
Hoje, o Parque Nacional de Žemaitija oferece ao visitante uma combinação que não se encontra em nenhum outro lugar: a serenidade da natureza samogícia — o lago Plateliai, as florestas, as trilhas, a cultura das 'terras baixas' — e, escondida sob os pinheiros, a memória arrepiante da Guerra Fria na base de Plokštinė. Percorrer o parque é passar, em poucos quilômetros, das máscaras de carnaval e das capelas de peregrinação aos silos de mísseis nucleares; da última terra pagã da Europa à beira da aniquilação atômica. Poucos lugares condensam tantas camadas de história báltica e europeia numa paisagem tão bonita e tranquila.