Liepāja é a cidade mais roqueira e ventosa da Letônia, um porto do Báltico com uma personalidade muito marcante. É chamada de 'a cidade onde nasce o vento' pela brisa incessante que sopra do mar, e é também a capital indiscutível da música letã: foi aqui que nasceu, em 1964, o festival Liepājas dzintars ('Âmbar de Liepāja'), e a cidade respira rock por todos os lados, com sua sala de concertos Great Amber (Lielais dzintars), um prédio de vidro cor de âmbar que brilha junto ao porto.
Mas Liepāja é muito mais do que música. Tem uma das praias urbanas mais longas e bonitas do país, com bandeira azul, areia branca e dunas; um centro histórico de casas de madeira e prédios art nouveau; a Casa dos Artesãos, que guarda o colar de âmbar mais longo do mundo; e, principalmente, Karosta, um fascinante e desolado bairro militar construído pelo Império Russo, com uma catedral ortodoxa monumental, fortes à beira-mar e uma prisão que hoje pode ser visitada e onde dá até para passar a noite 'preso'.
Este guia percorre Liepāja com um olhar prático e acolhedor: o que ver no centro, na praia e em Karosta, quanto custam as visitas, como chegar de Riga de ônibus ou trem, e como encaixá-la num roteiro por Kurzeme junto com Kuldīga, Ventspils e o Cabo Kolka. Uma cidade de contrastes, entre o âmbar, o rock, o vento e a memória militar do Báltico.
Liepāja cresceu como porto da costa oeste e recebeu seus direitos de cidade em 1625, na época do Ducado da Curlândia, que sonhava em ser uma potência naval. Sua grande vantagem sempre foi o porto livre de gelo. No fim do século XIX, o Império Russo a transformou numa base naval gigantesca, Karosta, uma 'cidade dentro da cidade' com catedral, quartéis e fortes que chegou a abrigar dezenas de milhares de pessoas. Durante a guerra de independência, Liepāja chegou a ser brevemente a capital da Letônia enquanto Riga estava ocupada. Passou pelas guerras mundiais, pelas ocupações e pela era soviética, quando Karosta foi uma base militar fechada. Depois da independência de 1991, a cidade se reinventou como capital cultural e do rock. Contamos tudo isso na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The old Courland of the Curonians and of the duchy that held colonies in Tobago and Gambia, with ports, dunes and the coast where the Livonian language is dying out.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Liepāja deve sua existência, como quase todas as cidades deste litoral, ao mar e a um porto que raramente congela. Na Idade Média, na foz do pequeno rio que deságua no lago Liepāja, existia um povoado de pescadores e comerciantes que aparece mencionado com o nome alemão de Libau. A região fazia parte das terras dos curônios, um dos antigos povos bálticos, antes de cair sob o domínio da Ordem Livoniana e da Igreja durante a conquista alemã do Báltico nos séculos XIII e XIV.
O grande impulso veio com o Ducado da Curlândia e Semigália, o pequeno Estado surgido em 1562 após a dissolução da Ordem Livoniana. Os duques da Curlândia sonhavam em transformar seu ducado em uma potência naval e comercial, e para isso precisavam de portos. Liepāja (Libau) recebeu seus direitos de cidade em 1625, um momento-chave que a transformou de vila em cidade com instituições próprias. Sob o duque Jacob Kettler, em pleno século XVII, a Curlândia viveu sua era de ouro marítima — com estaleiros e até colônias no Caribe e na África — e Liepāja se beneficiou desse auge comercial.
Sua vantagem decisiva foi sempre a mesma: um porto que se mantinha livre de gelo quase o ano todo, algo raríssimo no Báltico oriental. Essa condição marcaria todo o seu destino, atraindo o interesse das grandes potências que disputaram a região nos séculos seguintes.
Em 1795, com a anexação do Ducado da Curlândia pelo Império Russo, Liepāja — Libau — passou a fazer parte do império dos czares, dentro da província da Curlândia. Longe de decair, a cidade viveu durante o século XIX um forte crescimento graças, mais uma vez, ao seu porto livre de gelo, que a transformou em uma das principais saídas comerciais do noroeste russo para o mundo.
A chegada da ferrovia, que ligou Libau ao interior do império, disparou seu desenvolvimento. A cidade se industrializou, sua população cresceu com letões, alemães do Báltico, russos, judeus e lituanos, e o porto se encheu de movimento. Libau também se tornou um dos grandes portos de emigração da Europa Oriental: no fim do século XIX e começo do XX, centenas de milhares de emigrantes — muitos deles judeus que fugiam dos pogroms e da pobreza do Império Russo — embarcaram aqui rumo à Grã-Bretanha e, sobretudo, aos Estados Unidos. Para inúmeras famílias, Liepāja foi a última imagem da Europa antes do Atlântico.
Essa prosperidade cosmopolita ficou registrada na arquitetura da cidade, com prédios art nouveau, casas de madeira e um ar de cidade portuária aberta ao mundo que Liepāja conserva até hoje.
O capítulo mais monumental e peculiar da história de Liepāja começou no fim do século XIX, quando o Império Russo decidiu construir aqui uma de suas grandes bases navais no Báltico. Por decreto do czar Alexandre III, a partir da década de 1890 foi erguido ao norte da cidade um colossal complexo militar e portuário: Karosta ('porto de guerra' em letão).
Karosta foi concebida como uma verdadeira 'cidade dentro da cidade', com traçado próprio, quartéis de tijolo vermelho, moradias para oficiais, hospitais, uma escola de equitação, fortificações costeiras e uma imponente catedral naval ortodoxa, a de São Nicolau, consagrada em 1903 com a presença do czar Nicolau II. Chegou a abrigar dezenas de milhares de pessoas e a concentrar boa parte da frota russa do Báltico. Também foram construídos fortes e baterias costeiras para defender a base, cujas ruínas ainda podem ser vistas hoje à beira-mar, semidestruídas pelas ondas e pelas explosões.
A vida de Karosta como base imperial foi relativamente curta, mas intensa. Durante a Primeira Guerra Mundial, a cidade foi ocupada pelas tropas alemãs, e do colapso dos impérios russo e alemão surgiu, em 1918, a Primeira República da Letônia. Karosta e toda Liepāja entravam assim em uma nova e turbulenta etapa.
Liepāja teve um papel de destaque no nascimento da Letônia independente. Durante a guerra de independência (1918-1920), quando Riga estava ocupada por forças hostis, o governo provisório letão se refugiou em Liepāja, que chegou a ser, por um breve período, a capital de fato do país. No porto de Liepāja se decidiu boa parte da disputa política e militar daqueles anos decisivos que consolidaram a independência da Letônia.
O período entreguerras trouxe certa normalidade, mas a Segunda Guerra Mundial foi implacável com a cidade. Em 1940, a União Soviética ocupou e anexou a Letônia. Em junho de 1941, com a invasão alemã da URSS, Liepāja foi um dos primeiros lugares a cair, após combates duros. Veio então um dos capítulos mais atrozes de sua história: sob a ocupação nazista, a numerosa comunidade judaica de Liepāja foi exterminada no Holocausto. Em dezembro de 1941, nas dunas de Šķēde, ao norte da cidade, vários milhares de judeus foram assassinados em um dos massacres mais bem documentados do Holocausto na Letônia, tristemente conhecido pelas fotografias tiradas pelos próprios perpetradores. É uma memória que a cidade lembra hoje com sobriedade e monumentos.
Em 1944-1945, Liepāja ficou dentro do 'bolsão da Curlândia', onde as tropas alemãs resistiram até a capitulação final de maio de 1945. Terminada a guerra, a Letônia e Liepāja voltaram a ficar sob domínio soviético, desta vez por quase meio século.
Durante a era soviética, Liepāja foi uma cidade militar estratégica e, em grande parte, fechada. Karosta voltou a ser uma base naval, agora da frota soviética do Báltico, e toda a área ficou proibida ao público: para entrar era preciso autorização, e nem mesmo muitos moradores da própria cidade podiam circular livremente por lá. A prisão militar de Karosta, por onde passaram ao longo do século marinheiros punidos e presos políticos tanto na época czarista quanto na soviética, é hoje o símbolo mais visível daquele passado militar.
Mas, paradoxalmente, nessa cidade fechada e cinzenta floresceu algo muito livre: a música. Em 1964 aconteceu pela primeira vez o festival Liepājas dzintars ('Âmbar de Liepāja'), e a cidade conquistou com mérito o título de capital do rock letão, berço de bandas e músicos que marcaram a cultura do país mesmo sob a censura soviética. O rock virou parte da identidade de Liepāja, a ponto de ela ter hoje uma 'calçada da fama' dedicada a seus músicos.
Com a recuperação da independência da Letônia em 1991 e a retirada das tropas soviéticas, Liepāja finalmente se abriu e se reinventou. Karosta passou de base secreta a atração turística; o porto foi reconvertido; e a cidade apostou na cultura, na música e no mar. O emblema dessa nova era é a sala de concertos Great Amber (Lielais dzintars), inaugurada em 2015, um prédio de vidro cor de âmbar que brilha junto ao porto e proclama, agora em liberdade, a vocação musical desta cidade do vento. De porto ducal a base imperial, de cenário do Holocausto e cidade militar fechada a capital do rock: Liepāja carrega em suas ruas, suas dunas e seus fortes toda a história intensa e contraditória do Báltico.