O Palácio de Rundāle é a grande surpresa monumental da Letônia: um palácio barroco e rococó de proporções imperiais plantado no meio do campo plano de Zemgale, longe de qualquer cidade grande. Foi projetado por Bartolomeo Francesco Rastrelli, o arquiteto italiano da corte russa que ergueu o Palácio de Inverno e o de Catarina em São Petersburgo, e por isso Rundāle tem aquele ar de residência imperial que ninguém espera encontrar num vilarejo báltico. O apelido de 'Versalhes letã' não é exagero.
Foi a residência de verão de Ernst Johann von Biron, duque da Curlândia e favorito da czarina Ana da Rússia, e seu interior é uma profusão de estuques, afrescos, salões dourados, porcelanas e móveis de época, restaurado com paciência de ourives ao longo de décadas. Do lado de fora, um jardim francês com parterres geométricos, roseirais com milhares de variedades históricas e um bosque decorativo completam um conjunto que é, sem discussão, o palácio mais bonito do país e um dos grandes barrocos do Báltico.
Este guia percorre Rundāle com olhar prático: quais salões não perder, quando as rosas florescem, como chegar a partir de Riga, quanto custam os ingressos e como combinar com o castelo de Bauska no mesmo passeio. Seja pela arquitetura ou pelos jardins, Rundāle é daquelas visitas que justificam sozinhas uma escapada para fora da capital.
O Palácio de Rundāle foi construído entre 1736 e 1768 para Ernst Johann von Biron, duque da Curlândia, segundo os projetos de Bartolomeo Rastrelli. Concebido como residência de verão, seguiu o destino turbulento de seu dono: Biron caiu em desgraça e foi exilado na Sibéria, as obras foram interrompidas e retomadas anos depois. Após a anexação da Curlândia pela Rússia em 1795, o palácio passou pelas mãos de nobres russos, sofreu saques durante as guerras napoleônicas e a Primeira Guerra Mundial e ficou muito danificado na época soviética, quando chegou a ser usado como celeiro e escola. A grande restauração começou em 1972 sob o lendário diretor Imants Lancmanis e transformou Rundāle no museu-palácio que hoje deslumbra. Contamos tudo isso na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Semigallia of the warriors who held out for a century and its baroque palaces, alongside Catholic, Polish-influenced Latgale, the most distinctive region of Latvia.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história do Palácio de Rundāle não começa com pedras nem com plantas, mas com uma das relações de poder mais famosas do século XVIII báltico: a de Ernst Johann von Biron e a czarina Ana da Rússia. Biron nasceu em 1690 na Curlândia (o pequeno ducado, vassalo da Polônia-Lituânia, que ocupava boa parte da atual Letônia ocidental), numa família da baixa nobreza alemã do Báltico. Sua ascensão foi meteórica: ele se tornou o favorito e homem de confiança de Ana Ivanovna, duquesa da Curlândia, e quando, em 1730, Ana foi coroada imperatriz da Rússia, Biron subiu com ela até o topo do poder imperial.
Durante a década de 1730, conhecida na história russa como a 'Bironovshchina' (a 'época de Biron'), esse nobre curlandês foi, na prática, um dos homens mais poderosos do império. Em 1737, a própria czarina manobrou para que Biron fosse eleito duque da Curlândia e Semigália, devolvendo-o como soberano à sua terra natal. Um homem com tanto poder e tanta ambição precisava de um símbolo à altura, e esse símbolo foi um palácio.
Biron encomendou não uma, mas duas grandes residências: o palácio de Jelgava (Mitau), a capital do ducado, e uma residência de verão no campo de Zemgale, num lugar chamado Rundāle. Para os dois projetos, contratou o melhor arquiteto disponível na órbita russa: o italiano Bartolomeo Francesco Rastrelli, a estrela do barroco imperial de São Petersburgo.
Bartolomeo Francesco Rastrelli (1700-1771) é um dos grandes nomes da arquitetura europeia do século XVIII. Filho de um escultor italiano, formou-se e trabalhou a serviço da corte russa, onde assinaria obras colossais como o Palácio de Inverno de São Petersburgo, o Palácio de Catarina em Tsárskoye Seló e a catedral de Smolny. Rundāle é, cronologicamente, uma de suas primeiras grandes obras da maturidade, e já mostra toda a sua linguagem barroca: simetria monumental, corpo central com alas, pátios de honra e uma decoração exuberante.
A pedra fundamental de Rundāle foi lançada em 1736. Rastrelli concebeu um palácio em forma de U ao redor de um pátio de honra, com mais de uma centena de salas, pensado como residência de verão cercada de jardins. Para erguê-lo, foram mobilizados artesãos e materiais de toda a região e de São Petersburgo, e as obras avançaram em bom ritmo nos primeiros anos, em paralelo ao projeto gêmeo do palácio de Jelgava.
Mas a sorte de Rundāle estava atrelada à sorte de Biron, e essa sorte era frágil. Em 1740 morreu a czarina Ana. Biron tentou se agarrar ao poder fazendo-se nomear regente do império, mas apenas três semanas depois foi derrubado num golpe palaciano, preso e condenado. A queda foi tão brutal quanto tinha sido a ascensão: Biron e sua família foram desterrados para a Sibéria. As obras de Rundāle, com o palácio ainda inacabado, pararam de vez.
Por mais de vinte anos, Rundāle ficou como um esqueleto de pedra no meio do campo de Zemgale, enquanto seu dono definhava no exílio. A sorte de Biron só mudou em 1762, quando a nova imperatriz Catarina II, a Grande, pouco depois de subir ao trono, o reabilitou e lhe devolveu o ducado da Curlândia. Biron, já idoso, voltou à sua terra e retomou os dois grandes projetos arquitetônicos interrompidos.
Rastrelli, enquanto isso, tinha caído em desgraça na corte russa com a mudança de gosto em direção ao neoclassicismo, e voltou a se colocar a serviço de seu antigo mecenas. Entre 1764 e 1768 foi concluída a decoração interna de Rundāle, desta vez com uma equipe de artistas de primeira linha: o pintor italiano Francesco Martini e seu colaborador Carlo Zucchi fizeram os afrescos dos tetos, e o escultor e estucador alemão Johann Michael Graff criou os deslumbrantes relevos de estuque que ainda hoje impressionam no Salão Branco e em dezenas de cômodos.
O resultado foi um conjunto barroco e rococó de uma riqueza extraordinária: o Salão Dourado como sala do trono, o Salão Branco como salão de baile, longas enfiladas de cômodos, estufas de porcelana, sedas e dourados. Biron aproveitou pouco o palácio pronto: morreu em 1772. O ducado passou para seu filho Peter von Biron, que viveu sobretudo em Jelgava e usou Rundāle como residência secundária. Em 1795, com a Terceira Partilha da Polônia, a Curlândia foi anexada pelo Império Russo e o ducado deixou de existir.
Depois da anexação russa, o palácio e suas terras deixaram de pertencer aos duques. Catarina, a Grande, deu Rundāle de presente a um de seus favoritos, e ao longo do século XIX o palácio passou pelas mãos de diferentes famílias da nobreza russa, entre elas os Zubov e depois os Shuvalov, que o mantiveram como residência senhorial. Nesse período ele se conservou relativamente bem, embora tenha perdido parte do mobiliário e sua função original.
Os grandes golpes vieram com as guerras. Durante as guerras napoleônicas, com a passagem de tropas pela região em 1812, o palácio sofreu danos e saques. Muito pior foi a Primeira Guerra Mundial: a linha da frente oriental atravessou a Curlândia e Zemgale, e Rundāle foi ocupado, usado como quartel e hospital militar, e saqueado. Em 1915-1919 a região viveu combates, a ocupação alemã e depois a guerra de independência da Letônia, e o palácio ficou muito danificado.
Com a independência da Primeira República da Letônia (1918-1940), Rundāle passou para as mãos do Estado letão e abrigou usos diversos, incluindo uma escola. Mas a Segunda Guerra Mundial e o pós-guerra soviético trouxeram novas humilhações para o velho palácio de Biron: na época soviética, chegou a ser usado como armazém de grãos, depósito e escola, com seus salões barrocos degradados e sua decoração correndo o risco de se perder para sempre. Rundāle parecia condenado a uma lenta ruína.
O renascimento de Rundāle é uma das grandes histórias de conservação do patrimônio em todo o Leste Europeu, e tem nome e sobrenome: Imants Lancmanis. Em 1972, em plena era soviética, foi criado o Museu do Palácio de Rundāle e começou uma restauração que duraria décadas. Lancmanis, historiador da arte, dirigiu o museu desde então e se tornou a alma do projeto: decidiu devolver ao palácio, sala por sala, seu aspecto barroco do século XVIII, pesquisando documentos, recuperando técnicas artesanais e reconstruindo estuques, dourados, tapeçarias, estufas e afrescos com uma paciência e um rigor que impressionaram os especialistas.
A restauração avançou devagar, financiada com recursos sempre escassos, primeiro sob o regime soviético e depois, com a recuperação da independência da Letônia em 1991, como um dos símbolos do patrimônio nacional. Também foi recuperado o jardim francês seguindo as plantas originais de Rastrelli, com seus canteiros geométricos e uma coleção de rosas que hoje está entre as mais importantes do norte da Europa. A restauração dos salões cerimoniais foi dada como concluída, em sua maior parte, por volta de 2014-2015, mais de quarenta anos depois do início.
Hoje o Palácio de Rundāle é o palácio-museu mais visitado da Letônia e uma das grandes atrações do país: um barroco imperial em miniatura plantado no campo báltico, com salões dourados, jardins de rosas e uma história que vai do favorito de uma czarina ao exílio na Sibéria, dos saques das guerras mundiais ao celeiro soviético, e daí ao minucioso renascimento pelas mãos de um punhado de restauradores teimosos e apaixonados. O apelido de 'Versalhes letão' cai como uma luva: poucos lugares contam tão bem o esplendor e as tragédias da Curlândia ducal.