Ventspils é a surpresa caprichada da Letônia. Num país em que muitas cidades ainda carregam a pátina cinzenta da época soviética, esta cidade portuária do oeste decidiu se reinventar como a mais limpa, florida e organizada do país, e conseguiu com folga. Passear pelas ruas de paralelepípedo, pelos parques impecáveis e pelo calçadão à beira-mar, cruzando com vacas coloridas em tamanho real espalhadas por todo canto, dá a sensação de estar num lugar onde tudo funciona e tudo é cuidado nos mínimos detalhes.
Mas Ventspils não é só capricho: é um porto milenar com um castelo medieval da Ordem da Livônia de pé desde o século XIII, uma praia de areia branca com bandeira azul que está entre as melhores do Báltico, um trenzinho de bitola estreita com uma locomotiva a vapor centenária que percorre o Museu ao Ar Livre à beira-mar e um clima familiar e tranquilo que a torna ideal para viajar com crianças. Tudo isso convivendo com os guindastes e os navios de um dos portos mais movimentados do Báltico oriental.
Este guia percorre Ventspils com um olhar prático e acolhedor: o que ver no castelo e no centro histórico, como aproveitar a praia e o calçadão do rio Venta, onde pegar o Mazbānītis, como chegar a partir de Riga e como encaixar a cidade num roteiro por Kurzeme junto com Kuldīga, o Cabo Kolka e Liepāja. Seja para um bate-volta, seja para ficar uns dias curtindo o mar, Ventspils tem aquele charme tranquilo e luminoso das boas cidades do interior do Báltico.
Ventspils nasceu como porto da Ordem da Livônia no século XIII, em torno do castelo que ainda domina o rio Venta, e chegou a ser membro da Liga Hanseática, que comerciava por todo o Báltico. Nos séculos XVII e XVIII, sob o Ducado da Curlândia, viveu uma época surpreendente: o duque Jacob Kettler transformou Ventspils na base de uma pequena frota que chegou a fundar colônias em Tobago (Caribe) e na ilha de Santo André (Gâmbia, África). Depois vieram séculos de domínio russo, a industrialização portuária, as guerras do século XX e a era soviética, quando o porto se tornou estratégico para a exportação de petróleo. Após a independência da Letônia, em 1991, Ventspils apostou em se transformar na cidade mais limpa e bem cuidada do país. Contamos tudo isso na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The old Courland of the Curonians and of the duchy that held colonies in Tobago and Gambia, with ports, dunes and the coast where the Livonian language is dying out.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Ventspils nasceu onde a geografia manda: na foz do rio Venta, no mar Báltico, um lugar feito para o comércio e a navegação. O nome já diz tudo, porque 'Ventspils' significa literalmente 'castelo do Venta' (pils é castelo em letão). E, de fato, tudo começou com um castelo. Por volta de 1290, os cavaleiros da Ordem da Livônia (o ramo báltico da Ordem Teutônica) ergueram uma fortaleza de pedra junto à foz do rio para controlar o porto e o comércio da região. Esse castelo, com muros que datam do fim do século XIII, continua de pé e é o edifício mais antigo da cidade. Também é um dos castelos de ordem militar mais bem conservados desta parte do Báltico.
À sombra da fortaleza cresceu um povoado portuário que logo se voltou para o mar. No século XIV, Ventspils (então conhecida pelo nome alemão, Windau) entrou para a Liga Hanseática, a poderosa rede de cidades comerciais do norte da Europa. Seus navios comerciavam por todo o Báltico, exportando madeira, cereais, linho e outros produtos da região e importando dos grandes portos hanseáticos. A cidade virou um centro mercantil da Curlândia, com a vida totalmente ligada ao ritmo do porto e das marés.
Durante séculos, a história de Ventspils foi a de tantas cidades do Báltico oriental: dominada pela nobreza alemã do Báltico e pela Ordem, com uma população trabalhadora de letões, alemães e outros povos, e uma economia que dependia do rio e do mar.
O capítulo mais surpreendente e inesperado da história de Ventspils chegou no século XVII, quando essa pequena cidade portuária virou, por um tempo, a base de um império colonial em miniatura. Com a dissolução da Ordem da Livônia em 1561-1562, havia nascido o Ducado da Curlândia e Semigália, um pequeno Estado vassalo da Polônia-Lituânia. Sob o duque Jacó Kettler (Jēkabs, que governou entre 1642 e 1682), a Curlândia viveu uma idade de ouro econômica impressionante.
Jacó era um mercantilista convicto e apaixonado pelo mar. Transformou Ventspils (Windau) em um grande estaleiro e porto: ali foram construídos dezenas de navios mercantes e de guerra, e dali partiu a frota de um ducado que mal aparecia nos mapas. O incrível é aonde esses navios chegaram. A Curlândia fundou uma colônia na ilha de Tobago, no Caribe (batizada de Nova Curlândia), e outra na ilha de Santo André, na foz do rio Gâmbia, na África Ocidental. Durante alguns anos, Ventspils foi o ponto de partida de um comércio que tocava três continentes: açúcar e tabaco do Caribe, ouro e marfim da África, produtos do Báltico.
Foi um sonho breve e frágil. As colônias eram minúsculas e difíceis de defender; os holandeses, os ingleses e as circunstâncias europeias acabaram com elas. A Segunda Guerra do Norte (1655-1660) atingiu duramente o ducado, o próprio duque Jacó chegou a ser feito prisioneiro pelos suecos, e o sonho colonial se desfez. Mas a epopeia ficou gravada na memória: aquela vez em que, a partir de um portinho do Báltico, a Curlândia teve colônias no Caribe e na África.
Em 1795, com a Terceira Partilha da Polônia, o Ducado da Curlândia foi anexado pelo Império Russo, e Ventspils (Windau) passou a fazer parte da província da Curlândia dentro do império dos czares. Durante o século XIX, a cidade continuou sendo um porto de importância média, mas o grande salto veio no fim do século, quando o império investiu na modernização de seus portos no Báltico oriental.
A chave foi a ferrovia. A linha de trem ligou Windau ao interior do império e transformou a cidade em uma saída para o mar das exportações russas: cereais, madeira e outros produtos que chegavam de trem e eram embarcados nos navios. O porto, que tinha a enorme vantagem de ficar quase sempre livre de gelo, cresceu e se modernizou, e com ele cresceram a cidade, a indústria e a população. No começo do século XX, Windau era um porto ativo e em expansão do Império Russo.
Como tantas cidades bálticas, tinha uma população misturada de letões, alemães do Báltico, russos e uma importante comunidade judaica. Essa prosperidade portuária, porém, seria interrompida de forma brutal pelas guerras que iam devastar toda esta parte da Europa no século XX.
O século XX foi tão trágico em Ventspils quanto no resto da Letônia. A Primeira Guerra Mundial levou a frente oriental até a Curlândia: a cidade foi ocupada pelas tropas alemãs, e o porto e o comércio ficaram paralisados. Do colapso dos impérios russo e alemão surgiu, em 1918, a Primeira República da Letônia, e Ventspils passou a fazer parte do novo Estado independente. No período entreguerras, a cidade recuperou parte da atividade portuária e viveu uma fase de normalização dentro da jovem república.
Mas a independência durou pouco. Em 1939-1940, o pacto Molotov-Ribbentrop entre a Alemanha nazista e a União Soviética selou o destino dos países bálticos: em 1940, a URSS ocupou e anexou a Letônia. Em 1941, a Alemanha nazista invadiu e ocupou o país até 1944-1945. Como em tantas cidades letãs, a comunidade judaica de Ventspils foi perseguida e assassinada durante a ocupação nazista, no contexto do Holocausto que exterminou a maior parte da população judaica do país. Foi um dos capítulos mais sombrios da história local.
Em 1944-1945, o Exército Vermelho retomou o controle, e a Letônia ficou de novo, por quase meio século, dentro da União Soviética. A Curlândia, aliás, foi palco dos últimos combates da guerra na frente oriental, no chamado 'bolsão da Curlândia', onde tropas alemãs resistiram até a capitulação final, em maio de 1945.
Na época soviética, Ventspils passou por uma transformação profunda. O porto livre de gelo fez dela um enclave estratégico para a União Soviética, sobretudo como terminal de exportação de petróleo e produtos químicos: boa parte do petróleo soviético saía para o mundo por Ventspils. A cidade se encheu de infraestrutura portuária e industrial, a população cresceu com trabalhadores vindos de toda a URSS e, como tantas cidades soviéticas, ficou marcada pelo cinza do concreto e pela poluição industrial. Ao mesmo tempo, por ser um porto estratégico, era uma cidade relativamente fechada.
A grande virada veio com a recuperação da independência da Letônia, em 1991. Ventspils, que continuava sendo um dos portos mais ricos e importantes do país graças ao trânsito de petróleo, fez algo pouco comum: reinvestiu essa riqueza na própria transformação. Ao longo dos anos 1990 e 2000, a cidade decidiu se tornar a mais limpa, organizada e bem cuidada da Letônia, com parques impecáveis, ruas floridas, um calçadão à beira-mar exemplar e uma aposta clara no turismo em família. Um símbolo alegre desse renascimento veio em 2002, quando Ventspils recebeu o festival internacional de arte urbana Cow Parade: muitas daquelas esculturas de vacas coloridas ficaram para sempre e hoje são um ícone da cidade.
Hoje Ventspils vive um equilíbrio delicado: de um lado, um dos portos industriais mais ativos do Báltico oriental, com seus guindastes e navios; do outro, uma cidade turística charmosa, com praia de bandeira azul, castelo medieval, trenzinho a vapor e aquele capricho que surpreende quem chega. De porto hanseático a base de um sonho colonial, de terminal petrolífero soviético à cidade mais caprichada do país: poucas cidades letãs mudaram tantas vezes de pele quanto Ventspils.