Cēsis é uma das cidades mais bonitas e cheias de história da Letônia: uma pequena joia medieval no coração do vale do Gauja, com um imponente castelo da Ordem da Livônia em ruínas, um centro histórico de ruas de paralelepípedo e casas coloridas, e a floresta do Parque Nacional Gauja ao redor de tudo. Há 800 anos, foi a capital da Ordem que dominou boa parte do Báltico, e esse passado ainda se sente em cada esquina.
Sua grande atração é o castelo medieval, um dos mais bem conservados do país, que se visita de um jeito único: no fim da tarde ou na visita clássica, cada pessoa recebe uma lanterna com uma vela para percorrer as torres e salas escuras como fariam os cavaleiros da Ordem, subindo por escadas em caracol até o alto da torre ocidental. Ao lado, o elegante castelo novo do século XIX abriga o museu de história da região, e o parque senhorial convida a passear.
Este guia percorre Cēsis com olhar prático: o que ver no castelo e no centro histórico, quanto custa o ingresso e a visita da lanterna, como chegar de trem saindo de Riga, quando vir para os festivais de verão ou as cores do outono, e como usar a cidade como base para explorar o vale do Gauja junto com Sigulda e Turaida. É uma parada imperdível no Báltico, onde a história medieval continua viva.
Cēsis nasceu no começo do século XIII, quando os cruzados da Ordem dos Irmãos da Espada se instalaram por volta de 1208 no povoado dos vendos — daí seu nome alemão, Wenden — e ergueram um castelo de pedra sobre o vale do Gauja. Durante séculos foi a capital e o coração da Ordem da Livônia, a organização de monges-guerreiros que dominou boa parte do atual território letão e estoniano, e aqui morava seu grão-mestre. Em 1577, durante a Guerra da Livônia, cerca de 300 pessoas refugiadas no castelo se mataram explodindo-o com pólvora para não se render ao exército de Ivã, o Terrível, um dos episódios mais trágicos da época. Depois passou por mãos polonesas, suecas e russas, até que no século XIX foi construído o castelo novo ao lado das ruínas. Em 1919, Cēsis foi palco de uma batalha decisiva pela independência letã. Tudo isso contamos na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Livonia, with the Gauja valley, the castles of the Order and the medieval town of Cēsis, birthplace of the Latvian flag.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome alemão de Cēsis, Wenden, guarda a chave da sua origem. Antes de existir o castelo, nesta colina sobre o alto vale do rio Gauja vivia um povo chamado vendos (wends), sobre o qual as crônicas medievais dão notícias um tanto confusas: provavelmente um grupo báltico ou eslavo ocidental vindo de outras terras, que tinha se estabelecido aqui ao lado dos latgálios, um dos povos bálticos ancestrais da Letônia. Sobre o seu antigo povoado fortificado de madeira começaria a ser escrita a história da cidade.
No começo do século XIII, o vale do Gauja ficou no caminho da cruzada báltica. A partir de Riga, fundada em 1201, os cruzados alemães, reunidos na Ordem dos Irmãos da Espada (Fratres militiae Christi), avançavam para submeter e cristianizar os povos pagãos do interior. Por volta de 1208, os Irmãos da Espada se instalaram entre os vendos, na fortaleza deles, e a reforçaram com muralhas de pedra que foram substituindo as velhas defesas de madeira.
Assim nasceu o castelo de Wenden, embrião da futura Cēsis. A sua posição era estratégica: dominava a passagem pelo vale do Gauja e as rotas do interior da Livônia. O que começou como um posto avançado da conquista se transformaria, em poucas décadas, no coração de todo um Estado.
Depois da derrota dos Irmãos da Espada para os lituanos e os semigálios na batalha de Saule (1236), os sobreviventes foram integrados à poderosa Ordem Teutônica como um ramo autônomo: a Ordem da Livônia. E Wenden virou o seu centro. Ao longo dos séculos XIII e XIV, o castelo foi ampliado até se tornar uma das fortalezas mais imponentes do Báltico oriental, com torres robustas, muralhas e um pátio interno, e passou a ser a residência habitual do grão-mestre (Landmeister) da Ordem.
Ser a capital da Ordem da Livônia significava muito: Wenden era o 'coração da Livônia', um símbolo do Estado monástico-militar que dominava boa parte do atual território da Letônia e da Estônia. Aqui se guardavam tesouros, arquivos e relíquias; aqui se tomavam as decisões de governo; aqui eram enterrados os grão-mestres, cujos túmulos ainda se conservam na igreja de São João, erguida no final do século XIII como templo da Ordem. A cidade que cresceu ao pé do castelo recebeu direitos urbanos e entrou para a Liga Hanseática, prosperando com o comércio.
Durante quase três séculos, Wenden foi uma das praças mais importantes do Báltico. Mas o poder da Ordem, como toda a ordem medieval que ela representava, estava chegando ao fim. O século XVI traria a Reforma Protestante, que minou a legitimidade religiosa dos monges-guerreiros, e sobretudo uma guerra devastadora que apagaria o mapa que a Ordem tinha desenhado.
A Guerra da Livônia (1558-1583) foi o grande cataclismo. O czar russo Ivan IV, 'o Terrível', invadiu a Livônia em busca de uma saída para o Báltico, e o seu avanço desencadeou uma luta de todos contra todos entre Rússia, Polônia-Lituânia, Suécia e Dinamarca sobre as ruínas do Estado da Ordem, que se dissolveu em 1561. Wenden, a antiga capital, ficou no centro da tempestade e mudou de mãos várias vezes.
O episódio mais célebre e trágico aconteceu em 1577. O exército de Ivan, o Terrível, cercou o castelo e o bombardeou durante dias. Lá dentro tinham se refugiado cerca de 300 pessoas (soldados, moradores da cidade, mulheres e crianças) que, ao entender que resistir era impossível e temendo a conhecida brutalidade das tropas russas, tomaram uma decisão desesperada: em vez de se render, se reuniram em uma das torres, colocaram vários barris de pólvora e se explodiram. O estrondo foi ouvido a léguas de distância. Aquele suicídio coletivo, um dos fatos mais sombrios da Europa da época, ficou gravado na memória do lugar.
O castelo ficou gravemente danificado. Nos anos seguintes, Wenden passou para a República das Duas Nações (a união polaco-lituana), que a transformou em capital de uma voivodia, e voltou a ser disputada. No século XVII caiu sob o Império Sueco, e as guerras do período, incluindo a Grande Guerra do Norte no começo do século XVIII, terminaram de arruinar a fortaleza. Daquela orgulhosa capital da Ordem restaram apenas as ruínas majestosas que visitamos hoje.
Depois da Grande Guerra do Norte, todo o território passou para o Império Russo, mas o poder local continuou nas mãos da nobreza alemã do Báltico, os barões que administravam as terras e os camponeses letões. Em Wenden, a família Sievers adquiriu a propriedade no século XVIII e, no começo do século XIX, ergueu ao lado das ruínas medievais um novo castelo senhorial: um elegante edifício residencial (o que hoje chamamos de Castelo Novo de Cēsis) rodeado por um romântico parque paisagístico com um lago, onde se refletem as velhas torres.
A cidade, enquanto isso, seguiu a sua vida como centro comercial e artesanal de Vidzeme. Em 1878 foi inaugurada a ferrovia, que a ligou a Riga e ao interior, impulsionando o turismo rumo ao vale do Gauja. Cēsis ficou conhecida pelo ar puro, pela sua cervejaria (a histórica Cēsu alus, uma das mais antigas da Letônia) e pelo seu patrimônio medieval, que começou a atrair viajantes e estudiosos.
No final do século XIX e começo do XX, com o despertar do nacionalismo letão, Cēsis ganhou também um forte valor simbólico. A tradição liga a cidade à criação da bandeira nacional letã (vermelho-branco-vermelho), cujo desenho remonta, segundo as crônicas medievais, a um estandarte usado pelas tribos desta região. Esse peso identitário ganharia todo o seu sentido em 1919, em um dos momentos decisivos da história do país.
Quando a Letônia proclamou a sua independência em 18 de novembro de 1918, após o colapso dos impérios russo e alemão na Primeira Guerra Mundial, o novo Estado teve que lutar para sobreviver. Em 1919, em plena Guerra de Independência, as forças letãs e estonianas enfrentaram perto de Cēsis as tropas alemãs da Landeswehr e dos Freikorps, que pretendiam manter o domínio germano-báltico sobre o país. A batalha de Cēsis (Cēsu kaujas), em junho de 1919, terminou com a vitória dos exércitos letão e estoniano e foi um momento fundador: garantiu a jovem independência e freou o projeto de restaurar o poder dos barões alemães. Até hoje ela é lembrada todos os anos.
O século XX trouxe, no entanto, novas ocupações. A Letônia foi anexada pela União Soviética em 1940, ocupada pela Alemanha nazista entre 1941 e 1944-45 e de novo incorporada à URSS por quase meio século, com as deportações e a repressão que marcaram o país inteiro. Cēsis atravessou esse período conservando o seu patrimônio e, com a recuperação da independência em 1991, voltou a olhar para a própria história com orgulho.
Hoje Cēsis é uma das cidades mais queridas da Letônia: um destino de cultura e natureza que combina um dos centros históricos medievais mais bem conservados do país, o grande castelo da Ordem (que se visita com lanterna de vela, à moda antiga), o castelo novo com o seu museu, os festivais de verão e os arredores do Parque Nacional Gauja. Oitocentos anos depois de os Irmãos da Espada fortificarem a colina dos vendos, a velha capital da Livônia continua sendo um lugar onde dá para tocar a história com as mãos.