Tem cidades que parecem pintadas à mão, e Szentendre é uma delas. A apenas vinte quilômetros da agitação de Budapeste, essa cidadezinha pequena e luminosa às margens do Danúbio é o bate-volta mais querido dos húngaros e dos visitantes. Seu centro antigo barroco, de vielas de paralelepípedo que sobem e descem entre casas em tons pastel, igrejas de torres bulbosas e pátios floridos, tem um ar mediterrâneo e balcânico que a diferencia de qualquer outra cidade húngara.
Essa atmosfera tão particular tem uma explicação histórica linda: Szentendre foi, durante séculos, refúgio de comunidades sérvias e de outros povos ortodoxos que fugiam dos otomanos, e eles deixaram na cidade suas igrejas, suas cores e sua sensibilidade. Mais tarde, já no século XX, a luz e o charme do lugar atraíram gerações de pintores e escultores, que transformaram Szentendre na grande colônia de artistas da Hungria. Hoje a cidade está cheia de museus, galerias, ateliês de artesãos e lojas de cerâmica.
Este guia percorre Szentendre com um olhar prático e caloroso: como chegar facilmente de trem a partir de Budapeste, o que ver no centro histórico, por que não dá para perder o Skanzen (o grande museu a céu aberto da arquitetura popular húngara), onde comer à beira do rio e como emendar a visita com o resto da curva do Danúbio. É um daqueles lugares onde dá vontade de se perder sem rumo, câmera na mão, deixando-se levar pelos seus cantinhos.
Embora a região tenha sido habitada desde a época romana (ali perto passava a fronteira do Império e existiu um assentamento chamado Ulcisia Castra), a Szentendre que vemos hoje nasceu sobretudo das ondas de população sérvia. Depois da batalha de Mohács (1526) e, principalmente, no fim do século XVII, durante as guerras contra os otomanos, milhares de sérvios ortodoxos, junto com gregos, dálmatas e outros povos balcânicos, fugiram para o norte e se estabeleceram aqui. Foram eles que reconstruíram a cidade em estilo barroco e ergueram suas inúmeras igrejas ortodoxas, dando a ela essa fisionomia tão colorida e meridional. Durante o século XVIII, Szentendre prosperou como cidade mercantil e vinícola. A filoxera arruinou seus vinhedos no fim do século XIX e muitas famílias sérvias voltaram para sua terra, mas a cidade encontrou uma nova vida no século XX, quando se tornou uma colônia de artistas: pintores e escultores se instalaram atraídos pela sua luz e beleza, fundando museus e galerias que até hoje são sua marca registrada. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Hungary: Budapest, born from the union of Buda, Pest and Óbuda over the old Roman Aquincum, and the great bend of the Danube, with Esztergom, cradle of the Christian kingdom, and Visegrád, seat of the Renaissance court of Matthias Corvinus.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Szentendre começa muito antes do seu famoso centro histórico barroco. Na Antiguidade, estas margens do Danúbio faziam parte da fronteira do Império Romano (o 'limes'), e aqui existiu um acampamento militar e um povoado chamado Ulcisia Castra, ligado à defesa da província da Panônia contra os povos do outro lado do rio. As legiões romanas deixaram sua marca em toda a região da curva do Danúbio, da qual Szentendre faz parte.
Depois da queda de Roma e da passagem de diversos povos, a área passou a integrar o Reino da Hungria, que surgiu após a chegada dos magiares e a cristianização do país por volta do ano 1000. O próprio nome da cidade, Szentendre — que significa 'Santo André' —, remete a essa época cristã medieval e ao padroeiro de sua igreja. Durante a Idade Média, foi um povoado modesto da região próxima a Buda.
O Szentendre que admiramos hoje, porém, não é medieval, e sim essencialmente barroco, e sua fisionomia atual nasceu de um acontecimento posterior: as grandes migrações de povos ortodoxos que, fugindo do avanço otomano e depois das guerras de reconquista, encontraram refúgio nestas colinas às margens do Danúbio.
A grande virada na história de Szentendre veio com as guerras contra o Império Otomano. Depois da derrota húngara na batalha de Mohács (1526) e, sobretudo, durante as campanhas do fim do século XVII, em que os Habsburgo expulsaram os turcos da Hungria, enormes levas de população cristã dos Bálcãs — sérvios ortodoxos em sua maioria, mas também gregos, dálmatas e outros — fugiram para o norte em busca de refúgio.
O episódio decisivo foi a chamada 'Grande Migração Sérvia' de 1690, quando, liderados pelo patriarca Arsenije III Čarnojević, milhares de sérvios atravessaram para os territórios sob domínio dos Habsburgo para escapar das represálias otomanas. Muitos deles se estabeleceram em Szentendre, que se tornou assim um dos principais centros da diáspora sérvia na Hungria.
Esses colonos transformaram a cidade por completo. Comerciantes, artesãos e viticultores prósperos, eles reconstruíram Szentendre no estilo barroco que estava na moda na Europa Central da época e ergueram inúmeras igrejas ortodoxas, cujas torres e cores dão à cidade aquele ar meridional e balcânico tão diferente do resto da Hungria. A comunidade sérvia manteve por gerações sua língua, sua religião e seus costumes, deixando uma marca que continua sendo o traço mais característico da cidade.
O século XVIII foi a época de ouro de Szentendre. Graças ao impulso de seus comerciantes sérvios e gregos, a cidade prosperou como centro mercantil e, sobretudo, vinícola. As colinas ao redor se cobriram de vinhedos, e o vinho de Szentendre era exportado com sucesso, gerando uma riqueza notável que se traduziu na construção de elegantes casas barrocas e rococó, igrejas suntuosas e a caprichada praça principal (Fő tér), que hoje é o cartão-postal da cidade.
Dessa prosperidade nasceram monumentos como a cruz dos comerciantes na Fő tér, erguida em 1763 pelos mercadores sérvios em agradecimento por terem escapado da peste, e as numerosas igrejas ortodoxas, entre elas a catedral de Belgrado, sede da diocese ortodoxa sérvia. A cidade virou um mosaico de comunidades — sérvios, gregos, alemães, húngaros — que conviviam e lhe davam seu caráter cosmopolita e colorido.
Esse equilíbrio começou a se romper no fim do século XIX. A praga da filoxera, que devastou os vinhedos de toda a Europa, arruinou a base econômica de Szentendre. Muitas famílias sérvias, empobrecidas, decidiram voltar à terra de origem, e a população da cidade diminuiu. Szentendre entrou em uma fase de decadência e silêncio, mas conservou intacto seu belíssimo centro barroco, como uma bela cidade adormecida às margens do Danúbio.
Depois de décadas de letargia, Szentendre encontrou uma nova vida no século XX graças à arte. A partir da década de 1920, pintores e escultores húngaros descobriram o encanto da cidade — sua luz especial, suas cores, suas vielas barrocas e sua atmosfera tranquila às margens do Danúbio — e começaram a se instalar aqui. Em 1926 foi fundada formalmente uma colônia de artistas (a Szentendrei Művésztelep), que reuniu alguns dos nomes mais importantes da pintura húngara moderna.
Desde então, Szentendre se tornou a capital artística da Hungria, uma espécie de cidadezinha boêmia onde a arte e a vida cotidiana se misturam. Gerações de criadores montaram seus ateliês aqui, e a cidade se encheu de galerias, museus e estúdios. Surgiram museus dedicados a artistas específicos, como o muito querido Museu Margit Kovács, dedicado à grande ceramista e escultora cujas obras, cheias de sensibilidade, são uma das grandes atrações culturais do lugar.
Esse caráter artístico, somado à sua beleza barroca e à sua herança sérvia, é o que define a Szentendre de hoje: uma cidade-museu a céu aberto onde convivem igrejas ortodoxas, casas coloridas, galerias de arte e lojas de cerâmica. A proximidade com Budapeste fez dela, além disso, um dos passeios favoritos tanto dos húngaros quanto dos visitantes estrangeiros.
Um dos marcos culturais mais importantes da Szentendre contemporânea é a criação do Museu ao Ar Livre da Hungria (Szabadtéri Néprajzi Múzeum), conhecido como Skanzen, nos arredores da cidade. Inaugurado nas últimas décadas do século XX, é o maior museu etnográfico ao ar livre do país e um dos mais importantes do gênero na Europa Central.
O Skanzen nasceu com a missão de preservar a arquitetura popular e a cultura material da Hungria rural, que o avanço da modernização ameaçava apagar. Para isso, casas camponesas, igrejas, celeiros, moinhos, oficinas e tavernas vindos das diferentes regiões históricas do país foram transferidos peça por peça — ou reconstruídos fielmente — e organizados em 'regiões' que recriam as diversas paisagens culturais húngaras dos séculos XVIII ao XX.
Mais do que um museu estático, o Skanzen é um espaço vivo: com intérpretes vestidos com roupas de época, demonstrações de ofícios tradicionais, animais de fazenda, festas sazonais e feiras que recriam os costumes populares. Para Szentendre, já famosa por sua arte e sua herança sérvia, o Skanzen acrescentou uma nova dimensão: a de guardiã da memória rural de um país inteiro, transformando a pequena cidade do Danúbio em um destino cultural completo, capaz de combinar o barroco, a arte, a história sérvia e a etnografia húngara em uma só visita.