Sopron é uma das cidades mais singulares da Hungria, e não só pelo seu belíssimo centro medieval. Foi a cidade que, em dezembro de 1921, votou em um plebiscito para continuar na Hungria em vez de passar para a Áustria, e por isso carrega desde então o título de Civitas Fidelissima, «a cidade mais fiel». Colada na fronteira austríaca, bilíngue e cercada de vinhedos, Sopron olha ao mesmo tempo para a Hungria e para a Europa Central, com um pé em cada mundo.
O centro histórico, erguido sobre a antiga Scarbantia romana, é um labirinto de ruas de pedra, casas góticas e barrocas, igrejas e torres coroado pelo seu símbolo: a Torre do Fogo (Tűztorony), de 60 metros, de onde os vigias anunciavam incêndios, marcavam as horas e vigiavam para que não entrasse vinho que não fosse de Sopron. A praça Fő, com sua coluna da Santíssima Trindade, as casas-museu Storno e Fabricius, a igreja da Cabra e duas sinagogas medievais completam um conjunto que se percorre a pé sem pressa.
Mas Sopron guarda também um lugar-chave da história europeia do século XX. A poucos quilômetros, na fronteira, em 19 de agosto de 1989 aconteceu o Piquenique Pan-Europeu, quando centenas de alemães orientais cruzaram para a Áustria por um portão aberto simbolicamente: foi uma das primeiras rachaduras decisivas na Cortina de Ferro, meses antes da queda do Muro de Berlim. Este guia percorre o essencial de Sopron — como chegar de trem, o que ver, quanto custam as entradas em florins, os vinhos locais e o lago Fertő —, uma cidade de grande história em um tamanho amigável.
A história de Sopron começa como a Scarbantia romana, cujo fórum está sob a atual praça Fő. Em 1277, o rei Ladislau IV a elevou a cidade livre real, e seu centro medieval se conserva sobre as antigas muralhas. Diferentemente de quase toda a Hungria, não foi ocupada pelos otomanos. Seu momento mais célebre chegou no século XX: depois do Tratado de Trianon de 1920, que destinava a região à Áustria, um plebiscito realizado em 14 de dezembro de 1921 deu a vitória à Hungria com cerca de 65 % dos votos, e desde então Sopron é a Civitas Fidelissima, «a cidade mais fiel». Décadas depois, em 19 de agosto de 1989, o Piquenique Pan-Europeu, na fronteira próxima, abriu uma brecha decisiva na Cortina de Ferro. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Southern and western Transdanubia: Pécs, a Roman town (Sopianae) with its early Christian necropolis and its Ottoman heritage of mosques and minarets, and Sopron, the "most loyal town", which voted in the 1921 plebiscite to remain Hungarian and which in 1989 saw the Iron Curtain open.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Debaixo da praça principal de Sopron, sob os paralelepípedos por onde hoje passeiam os turistas, está o fórum de uma cidade romana chamada Scarbantia. Essa é a origem de Sopron: um povoado fundado na estrada que ligava o Báltico ao Adriático (a famosa “rota do âmbar”), num cruzamento de caminhos que a transformou, desde o começo, em um lugar de passagem entre mundos. Os romanos ergueram aqui um fórum, termas e muralhas, e alguns desses vestígios ainda podem ser vistos nos porões das casas-museu da praça Fő.
Depois da queda de Roma e da passagem de diferentes povos, os húngaros se estabeleceram na região a partir do século IX e reconstruíram as velhas muralhas romanas entre os séculos IX e XI. A cidade, que os alemães chamariam de Ödenburg e os húngaros de Sopron, cresceu como praça fronteiriça do reino da Hungria, sempre olhando para o oeste germânico.
O grande salto veio em 1277, quando o rei Ladislau IV elevou Sopron à categoria de cidade livre real (szabad királyi város). O título era uma recompensa: os moradores tinham recebido as tropas do rei e resistido a uma ocupação boêmia. Ser cidade livre real significava depender diretamente da Coroa, e não de um senhor feudal, com amplos privilégios de autogoverno, comércio e justiça. Sopron se cercou de muralhas sólidas, construiu igrejas e casas de pedra e desenvolveu uma burguesia próspera de comerciantes e artesãos, muitos deles de língua alemã. Dessa época medieval vem boa parte do centro histórico, que se conserva quase intacto: um dos conjuntos urbanos medievais mais bem preservados da Hungria.
Enquanto a maior parte da Hungria caía sob o domínio otomano depois da catástrofe de Mohács, em 1526, Sopron teve um destino diferente. Embora a região tenha sido devastada pelas incursões turcas — especialmente em 1529, durante a marcha otomana rumo a Viena —, a cidade nunca chegou a ser ocupada de forma permanente pelo Império Otomano. Ficou do lado da Hungria dos Habsburgo, o que lhe permitiu manter sua continuidade urbana e sua população, e explica por que seu centro medieval sobreviveu onde tantos outros desapareceram.
Essa posição de fronteira e o forte peso da burguesia germânica fizeram de Sopron um terreno fértil para a Reforma protestante. Ao longo do século XVI, boa parte da população abraçou o luteranismo, e a cidade se tornou um dos bastiões protestantes da Hungria ocidental, com suas igrejas, escolas e comunidade evangélica. Pela sua importância e relativa segurança, Sopron chegou a receber várias sessões da Dieta (o parlamento) do reino da Hungria, e até coroações e atos de Estado nos séculos XVII e XVIII.
Um grande incêndio em 1676 destruiu parte da cidade, que foi então reconstruída com a linguagem elegante do barroco: daí vêm as fachadas, os palácios e a coluna da Santíssima Trindade que hoje dão à praça Fő seu ar senhorial. Também dessa reconstrução é o característico remate barroco da Torre do Fogo, acrescentado em 1681. Assim, sobre os alicerces romanos e o traçado medieval, Sopron ganhou a pele barroca que ainda a define, sem nunca ter conhecido minaretes nem mesquitas: uma raridade no mapa histórico da Hungria.
O episódio que deu a Sopron sua identidade moderna aconteceu depois da Primeira Guerra Mundial, com o colapso do Império Austro-Húngaro. A derrota e a desintegração do império deixaram a Hungria nas mãos dos tratados de paz, e o Tratado de Trianon, de 1920, tirou do país cerca de dois terços do seu território histórico. Nessa partilha, a faixa ocidental da Hungria, habitada em boa parte por população de língua alemã — incluindo Sopron/Ödenburg e seus arredores —, foi entregue à nova república da Áustria, primeiro pelo Tratado de Saint-Germain (1919), que tratava da Áustria, e depois confirmada em Trianon no caso da Hungria. Nascia assim o atual estado austríaco de Burgenland.
Mas a entrega não foi pacífica. Na região estourou uma resistência armada de milícias húngaras que impediu a Áustria de tomar posse efetiva do território, e a tensão levou à beira de um conflito. A mediação diplomática da Itália resultou nos Protocolos de Veneza, que ofereceram uma saída excepcional: em vez de uma transferência automática, seria realizado um plebiscito para que a população de Sopron e de oito vilarejos vizinhos decidisse a que país queria pertencer.
A votação aconteceu em 14 de dezembro de 1921. O resultado foi claro: cerca de 65 % dos votos foram a favor de continuar fazendo parte da Hungria. Sopron e seus arredores continuaram, assim, húngaros, num mapa que de resto tinha sido redesenhado contra o país. O gesto teve um enorme valor simbólico numa Hungria humilhada por Trianon: em 1922, o Parlamento húngaro concedeu à cidade o título honorífico de Civitas Fidelissima, “a cidade mais fiel”. Desde então, o aniversário do plebiscito é feriado local, e a Porta da Fidelidade, sob a Torre do Fogo, lembra aquela decisão. Vale contar essa história com precisão e sem épica nacionalista: foi um plebiscito controverso, com uma comunidade de maioria de língua alemã que, por razões econômicas, afetivas e pelos vínculos com o resto do país, optou majoritariamente pela Hungria.
O século XX continuou turbulento para Sopron. Sua comunidade judaica, com raízes medievais — testemunhadas pelas duas sinagogas do século XIV da rua Új — e reconstituída na era moderna, foi vítima do Holocausto: durante a ocupação alemã da Hungria, em 1944, a maioria dos judeus de Sopron foi deportada e assassinada nos campos de extermínio nazistas. É uma das feridas mais profundas da história da cidade, que suas sinagogas preservadas mantêm viva na memória.
Nos últimos meses da guerra, Sopron sofreu bombardeios e combates, e foi tomada pelo Exército Vermelho soviético em 1º de abril de 1945. O pós-guerra trouxe a instauração do regime comunista e, sobretudo, uma condição nova e dramática: a de cidade de fronteira do bloco do Leste. A linha que separava a Hungria da Áustria passou a fazer parte da Cortina de Ferro, o sistema de cercas de arame farpado, torres de vigilância e campos minados que dividia a Europa em duas. Sopron, que durante séculos tinha sido um lugar de passagem e de comércio com o mundo germânico, ficou presa no extremo ocidental de um mundo fechado, com a fronteira a poucos quilômetros, mas intransponível.
Durante quatro décadas, a vida da cidade foi marcada por essa proximidade com um limite vigiado e militarizado. Atravessar para a Áustria vizinha, tão próxima geográfica e culturalmente, era quase impossível para o cidadão comum. Essa fronteira fechada, porém, se tornaria o palco de um dos acontecimentos que mudariam a história da Europa.
No verão de 1989, o bloco soviético rangia. Na Hungria, um governo reformista tinha começado a desmontar as cercas da fronteira com a Áustria, e milhares de cidadãos da Alemanha Oriental, que passavam férias no lago Balaton e no resto do país, começaram a olhar para o oeste à espera de uma oportunidade para fugir. Foi nesse contexto que um grupo de ativistas húngaros, com figuras como Otto de Habsburgo — presidente da União Pan-Europeia e filho do último imperador austro-húngaro — e o político reformista Imre Pozsgay como patrocinadores, organizou uma manifestação pacífica pela paz na fronteira, perto de Sopron.
A ideia era carregada de simbolismo: abrir durante três horas um velho portão de fronteira, perto de Fertőrákos, para que pedestres húngaros e austríacos pudessem atravessar livremente num gesto de fraternidade europeia. No fundo, os organizadores também queriam medir a reação de Moscou e do governo de Mikhail Gorbachev diante de uma abertura da fronteira. O encontro foi marcado para 19 de agosto de 1989 e divulgado com panfletos, alguns dos quais chegaram às mãos dos alemães orientais.
O que aconteceu naquele dia superou qualquer previsão. Quando o portão de madeira se abriu, centenas de cidadãos da Alemanha Oriental — entre 600 e 700, segundo as estimativas — correram em massa para a Áustria, para o mundo livre, e os guardas de fronteira húngaros, diante da avalanche, decidiram não atirar nem detê-los. Foi a maior fuga coletiva desde a construção do Muro de Berlim, e uma brecha decisiva na Cortina de Ferro.
O efeito foi imediato e em cadeia. Poucas semanas depois, em 10 de setembro de 1989, a Hungria abriu completamente sua fronteira ocidental aos alemães orientais que queriam partir. A pressão sobre o regime de Berlim Oriental ficou insustentável, e em 9 de novembro de 1989 caía o Muro de Berlim. O Piquenique Pan-Europeu entrou para a história como um dos elos que levaram à reunificação alemã e ao fim do comunismo no Leste Europeu. Hoje, o Parque Memorial do Piquenique Pan-Europeu, na fronteira junto a Fertőrákos, relembra aquele dia com a escultura “Ruptura”, de Miklós Melocco, e um centro de visitantes; em 2015, foi o primeiro local da Hungria a receber o Selo do Patrimônio Europeu. Que um episódio desses da história europeia tenha acontecido às portas de Sopron diz muito sobre esta cidade de fronteira, sempre dividida entre dois mundos.