Se Budapeste é a elegância imperial da Hungria, Siófok é o seu verão. Debruçada sobre a margem sul do lago Balaton — o maior da Europa Central —, esta cidade é o grande balneário húngaro: 17 quilômetros de praia (a faixa de areia mais longa do país), água morna e rasa, ideal para curtir, e uma vida noturna que a transformou na 'capital da festa' do lago. Quando chega o calor, meio país parece marcar encontro em suas praias, seus terraços e seu calçadão Petőfi.
Mas Siófok não é só guarda-sol e música até o amanhecer. É uma cidade com história: aqui, no século III, os romanos abriram um canal para domar as águas do Balaton; aqui nasceu, em 1882, Imre Kálmán, o rei da opereta húngara; e foi daqui, graças à ferrovia que chegou em 1861, que nasceu o turismo de veraneio do lago. Na orla fica a eclusa do Sió, que até hoje regula o nível de todo o Balaton, e uma torre de água transformada em mirante e símbolo da cidade.
Este guia reúne o prático e o essencial de Siófok: onde tomar banho, como chegar a partir de Budapeste, quanto custam as coisas em florins, o que ver além da praia e como escapar de ferry para a margem norte. Um aviso sincero: Siófok é uma cidade de temporada. Em pleno verão é pura energia; fora dele, sossega e muitos estabelecimentos fecham as portas. Sabendo disso, é um dos grandes clássicos das férias húngaras.
A história de Siófok é a história da relação da Hungria com seu grande lago. No século III, o imperador romano Galério mandou abrir um canal para escoar o Lacus Pelso, como era chamado o Balaton: foi o antepassado do atual canal Sió. O povoado aparece mencionado como 'Fuk' na carta de fundação da abadia de Tihany, de 1055. Depois da invasão mongol e da longa ocupação otomana (os turcos ergueram aqui uma fortaleza em 1552), Siófok era apenas uma vila de pescadores. Tudo mudou em 1861, quando a ferrovia ligou Budapeste à margem sul do Balaton: em poucas décadas nasceu o turismo de veraneio, o nível do lago passou a ser regulado pela eclusa do Sió (1863) e Siófok se tornou o grande balneário húngaro. Em 1882 nasceu aqui Imre Kálmán, o compositor de operetas mais famoso do país. Durante a época socialista, a cidade se encheu de colônias de férias sindicais e foi, sobretudo, o lugar onde as famílias alemãs divididas pela Cortina de Ferro — do Leste e do Oeste — se reencontravam a cada verão. Em 1989, muitos desses turistas da RDA não voltaram para casa: ficaram na Hungria e atravessaram para o Ocidente. A história completa, com nomes e datas, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The "Hungarian sea": the largest lake in central Europe, with the Tihany peninsula and its abbey of 1055 — where the first known words in Hungarian were written — and the beaches where, during the Cold War, East and West German families secretly met again.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existirem guarda-sóis, baladas e trens lotados de veranistas, houve um problema de água. O Balaton — que os romanos chamavam de Lacus Pelso — é um lago enorme e raso, e durante séculos o seu nível subiu e desceu ao sabor do clima, com oscilações que podiam chegar a vários metros. Quando chovia demais, a água inundava as margens e transformava toda a região em pântano; quando vinha a seca, deixava à mostra lamaçais intermináveis.
Foram os romanos os primeiros a tentar domar o lago. Na época do imperador Galério, por volta do fim do século III d.C. (a tradição situa a obra por volta do ano 292), foi aberto um canal artificial para drenar parte do Lacus Pelso e ganhar terras ao brejo. Esse canal, exatamente no ponto onde hoje fica Siófok, é o antepassado direto do atual canal Sió, o único escoadouro do Balaton em direção ao Danúbio. A província romana da Panônia era então povoada e cultivada, e essa obra hidráulica foi uma das muitas formas pelas quais Roma organizou a paisagem da bacia dos Cárpatos.
O gesto é simbólico e fundador: a história de Siófok começa sendo, literalmente, a história da relação dos seres humanos com o grande lago. A cidade nasce da necessidade de controlar a água, e esse fio — o do canal, o da eclusa, o do nível do Balaton — atravessa toda a sua história até hoje.
Durante a Idade Média, o lugar era uma modesta aldeia de pescadores junto ao escoadouro do lago. Seu nome mais antigo era 'Fok' (ou 'Fuk'), e ele aparece pela primeira vez em um documento célebre: a carta de fundação da abadia de Tihany, de 1055, um dos textos mais antigos da história húngara. Ali, no meio das palavras em latim, aparecem expressões em húngaro que descrevem a paisagem do Balaton, e é mencionado esse pequeno braço de água, o 'fuk', que dá nome ao lugar. Mais tarde, o topônimo composto 'Siófok' — a união do rio Sió com 'fok', o escoadouro — é documentado a partir de 1790.
A história medieval de Fok foi a mesma do resto da Hungria: dura e sofrida. A devastadora invasão mongol de 1241-1242 arrasou a região, que depois foi sendo repovoada lentamente. Pior ainda foi a longa ocupação otomana. Em 1552, em plena expansão turca pela Hungria, os otomanos tomaram Fok e ergueram aqui uma fortaleza para controlar a margem do lago, ponto estratégico entre Buda e o sudoeste. A região ficou sob domínio turco por gerações, até ser libertada em 1688, no contexto da reconquista cristã que expulsou os otomanos da Hungria. Em 1693, o cabido de Veszprém voltou a instalar moradores e construiu para eles uma igreja de madeira.
Durante todo esse tempo, Fok continuou sendo uma aldeia pequena, sem grandeza monumental, marcada pela pesca, pelos juncos e pelas águas instáveis do Balaton. Nada indicava que, um século e meio depois, aquele vilarejo se tornaria o grande balneário da Hungria.
O destino de Siófok mudou com duas invenções do século XIX: o barco a vapor e, sobretudo, a ferrovia. Em 1846, a recém-criada companhia de navegação do Balaton lançou o primeiro vapor do lago, o 'Kisfaludy', que passou a ligar as suas margens e a pôr na moda os passeios pela água. Mas o grande salto veio em 1861, quando foi inaugurada a linha de trem que ligava Budapeste a Nagykanizsa margeando a costa sul do Balaton. A estação de Siófok ficou pronta em 1863 e, de repente, o lago passou a ficar a poucas horas da capital.
Nesse mesmo ano, 1863, aconteceu outra obra decisiva: a inauguração da eclusa do Sió (Sió-zsilip), projetada pelo engenheiro Ferenc Cathry Szaléz. Finalmente era possível regular o nível do Balaton de forma artificial, pondo fim às enchentes e às oscilações selvagens que haviam atormentado a região durante séculos. Com margens estáveis e trens trazendo viajantes de Budapeste, estava tudo pronto para nascer algo novo: o turismo de veraneio.
E ele nasceu. Nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do XX, Siófok se encheu de vilas, hotéis, casas de banho, passeios e jardins. As famílias abastadas de Budapeste e de todo o Império Austro-Húngaro começaram a passar o verão às margens do 'mar húngaro'. Foram construídos o porto, os balneários e, em 1912, a caixa-d'água que até hoje é o símbolo da cidade. Siófok virou sinônimo de férias, de sol e de lago, uma identidade que mantém até hoje. Em 1968, recebeu oficialmente o status de cidade.
Nessa Siófok que se transformava em balneário nasceu, em 24 de outubro de 1882, Imre Kálmán, um dos grandes compositores de opereta de todos os tempos. Filho de uma família judia da burguesia local, estudou música em Budapeste e fez sucesso na Viena do início do século XX, a capital mundial do gênero. Suas obras — 'A Princesa das Czardas' (Die Csárdásfürstin, 1915), 'Condessa Maritza' (1924) ou 'A Baiadera' — lotaram os teatros de Viena, Budapeste, Berlim, Londres e Nova York, e misturavam com maestria a valsa vienense com o ritmo picante da música húngara, as czardas.
Kálmán viveu o esplendor e também a tragédia do século XX. Quando os nazistas chegaram ao poder, sua condição de judeu o colocou em perigo: Hitler chegou a lhe oferecer o status de 'ariano honorário' para que ele ficasse na Alemanha, mas Kálmán recusou a oferta e se exilou, primeiro em Paris e depois nos Estados Unidos, onde continuou a carreira. Morreu em Paris em 1953, e seus restos descansam em Viena, a cidade dos seus grandes triunfos.
Siófok nunca esqueceu seu filho mais ilustre. A casa onde ele nasceu hoje é um museu, com partituras, objetos e lembranças daquela era de ouro da opereta, e em um parque em frente ao lago fica uma estátua de bronze do compositor, inaugurada em 1993. Todo verão, a cidade programa concertos e apresentações que mantêm viva a sua música, um lembrete de que Siófok não é só praia: também é melodia.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a Hungria caiu na órbita soviética e Siófok mudou de pele sem deixar de ser um balneário. A partir de 1950, o novo regime transformou o Balaton no grande destino de férias do povo trabalhador: foram construídas enormes colônias de férias sindicais, centros de descanso de empresas estatais e campings populares onde milhares de famílias húngaras passavam suas semanas de folga pagas pelo sindicato ou pela fábrica. Siófok se encheu de blocos de concreto, refeitórios coletivos e praias lotadas. Em 1968, recebeu o título de cidade.
Mas o Balaton foi, naqueles anos da Cortina de Ferro, muito mais do que o balneário dos húngaros: foi um dos poucos lugares do mundo onde alemães do Leste e do Oeste podiam se reencontrar. Para os cidadãos da República Democrática Alemã (RDA), viajar para o Ocidente era quase impossível; para os da República Federal, entrar na Alemanha comunista era difícil e triste. Mas ambos podiam viajar para a Hungria, país 'irmão' socialista, porém mais aberto. Assim, a cada verão, famílias separadas pelo Muro de Berlim — irmãos, pais e filhos, avós e netos que não se viam havia anos — marcavam encontro às margens do Balaton, em Siófok e nas cidadezinhas vizinhas, para passar alguns dias juntos. Eles se reconheciam nos campings, se abraçavam nas praias, dividiam férias roubadas à geografia da Guerra Fria.
Esse reencontro não passava despercebido ao regime: a Stasi, a temida polícia política da RDA, mantinha no lago a chamada 'Brigada Balaton', que, com a ajuda dos serviços húngaros, vigiava os turistas da Alemanha Oriental. O lago era, ao mesmo tempo, um paraíso de liberdade de verão e um lugar sob observação. Poucos cenários resumem tão bem a humanidade e o absurdo da Europa dividida quanto aquelas famílias alemãs reunidas diante da água morna do Balaton.
O vínculo entre o Balaton e a Alemanha dividida teve um desfecho histórico no verão de 1989. Naquele ano, como em todo verão, milhares de cidadãos da RDA chegaram de férias à Hungria e ao Balaton. Mas o mundo estava mudando: a Hungria tinha começado a desmontar sua fronteira com a Áustria, cortando as cercas de arame da Cortina de Ferro. Entre os turistas da Alemanha Oriental, espalhou-se a notícia de que, pela primeira vez, talvez existisse uma brecha para fugir para o Ocidente.
Muitos daqueles veranistas decidiram não voltar para casa. Em julho de 1989, centenas de alemães do Leste continuavam na Hungria sem autorização de residência, acampados, esperando, recusando-se a regressar à RDA. Queriam passar para a Áustria e chegar à Alemanha Ocidental. A tensão cresceu durante todo o verão.
O momento decisivo chegou em 19 de agosto de 1989, no chamado Piquenique Pan-Europeu, perto da cidade de Sopron, na fronteira entre a Áustria e a Hungria. Durante esse ato simbólico pela unidade europeia, um velho portão de fronteira foi aberto por algumas horas, e entre 600 e 900 cidadãos da RDA aproveitaram para atravessar para a Áustria, na maior fuga coletiva desde a construção do Muro de Berlim. Muitos deles vinham de passar as férias no Balaton. Foi uma das primeiras rachaduras por onde a Cortina de Ferro desabou: poucos meses depois caía o Muro de Berlim e, no ano seguinte, a Alemanha se reunificava.
Hoje Siófok voltou a ser o que sempre quis ser: uma cidade de férias, de música e de água morna. Mas a sua história guarda esse capítulo extraordinário, quando o grande balneário húngaro foi, sem querer, um dos cenários onde a Europa dividida começou a chegar ao fim.