Durante muito tempo, Bordeaux teve fama de cidade séria e meio adormecida, a 'Bela Adormecida' da França. Não mais: depois de uma grande limpeza das fachadas e da chegada do bonde e do TGV, a capital da Gironda se revelou como o que sempre foi por baixo da fuligem, uma das cidades mais bonitas do país. Seu centro histórico, com quilômetros de arquitetura de pedra clara do século XVIII, é tão harmonioso que a Unesco o declarou Patrimônio da Humanidade em 2007 com o nome poético de 'Port de la Lune', o Porto da Lua.
Bordeaux é, antes de tudo, sinônimo de vinho. Cercada por alguns dos vinhedos mais prestigiados do planeta — Médoc, Saint-Émilion, Pomerol, Sauternes —, a cidade respira cultura do vinho por todos os lados, dos grandes négociants do cais à espetacular Cité du Vin, um museu do vinho em forma de decanter. Mas reduzi-la ao vinho seria injusto: Bordeaux é também a Place de la Bourse refletida no Miroir d'eau, os cafés do bairro Saint-Pierre, os mercados e uma cena gastronômica que vai do canelé (seu doce emblemático) às ostras de Arcachon.
Este guia percorre o essencial com um olhar prático: o que ver no centro histórico, como se locomover de bonde, como organizar a visita à Cité du Vin e, principalmente, como aproveitar a localização privilegiada para escapar até Saint-Émilion, a gigantesca duna de Pilat e a bacia de Arcachon. E também aparece, com a sobriedade que merece, a face mais incômoda de seu esplendor setecentista: a fortuna que Bordeaux acumulou com o comércio atlântico e o tráfico de escravizados, uma memória que hoje a cidade reconhece abertamente.
Bordeaux nasceu como Burdigala, um assentamento fundado por volta do século III a.C. pela tribo gaulesa dos bitúriges víviscos às margens do Garona. Sob Roma, tornou-se, no ano 70 d.C. e por decisão do imperador Vespasiano, capital da província da Aquitânia: uma cidade rica e culta — berço do poeta Ausônio — já cercada de vinhedos, pois foi nessa época que se plantaram as primeiras videiras do futuro vinhedo bordalês. Em 1152, o casamento de Leonor da Aquitânia com Henrique Plantageneta, futuro rei da Inglaterra, colocou Bordeaux e toda a Aquitânia sob domínio inglês durante três séculos (até a batalha de Castillon, em 1453, que pôs fim à Guerra dos Cem Anos). Esse vínculo com a Inglaterra transformou o vinho de Bordeaux num grande negócio de exportação, voltado mais para o Atlântico e o mar do Norte do que para Paris. O século XVIII foi sua era de ouro: o comércio colonial e atlântico — açúcar, café, índigo e também o tráfico de escravizados, do qual o porto participou ativamente — financiou a transformação urbana que lhe deu sua cara atual, com grandes praças, cais monumentais e palácios de pedra dourada. Bordeaux foi ainda capital provisória da França em três ocasiões (1870, 1914 e 1940), sempre que Paris se viu ameaçada pela guerra. Em 2007, seu centro histórico entrou para o Patrimônio Mundial da Unesco. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓From the Atlantic to the high mountains: the Aquitaine of Eleanor and of the English kings, the Bordeaux of wine and of the slave trade, the Basque Country of Biarritz and the Savoyard Alps, cradle of alpinism at Mont Blanc.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Bordeaux começa junto à água. Por volta do século III a.C., a tribo gaulesa dos bituriges víviscos se instalou em uma curva do rio Garona, em uma área de pântanos com um bom porto natural, e fundou um assentamento chamado Burdigala. O nome parece vir de raízes aquitanas que evocam um 'abrigo' junto ao 'pântano', uma descrição exata do lugar: uma cidade protegida na curva de um grande rio navegável, com saída para o Atlântico.
Com a conquista romana, Burdigala prosperou rapidamente. No ano 70 d.C., o imperador Vespasiano a transformou em capital da província da Aquitânia, e a cidade se encheu de monumentos, termas e templos. Dessa época ainda resta o Palais Gallien, com as ruínas de um grande anfiteatro romano. Era uma cidade rica e culta: ali nasceu e ensinou, no século IV, o poeta Ausônio, preceptor do imperador Graciano, que deixou versos elogiando sua cidade natal, suas águas e seus vinhedos.
Foi justamente nessa época, nos primeiros séculos da nossa era, que foram plantadas nas encostas do Garona as primeiras videiras que dariam origem ao vinhedo bordalês. Aqueles romanos não podiam imaginar que estavam plantando aquilo que seria, dois mil anos depois, a marca registrada da cidade. Já na Antiguidade, o vinho de Burdigala começou a ser exportado por rio e por mar: desde o início, o destino de Bordeaux esteve ligado ao rio, ao mar e ao vinho, uma trilogia que atravessaria toda a sua história.
O acontecimento que marcou o destino medieval de Bordeaux foi um casamento. Em 1152, Leonor da Aquitânia (duquesa da Aquitânia e uma das mulheres mais poderosas e fascinantes da Idade Média), que acabara de ter anulado seu casamento com o rei da França, casou-se com Henrique Plantageneta, conde de Anjou. Dois anos depois, em 1154, Henrique se tornou rei da Inglaterra como Henrique II. Por causa dessa união, Bordeaux e toda a Aquitânia passaram ao domínio da coroa inglesa, e assim continuariam por três séculos, até 1453.
Longe de ser uma desgraça, essa dependência da Inglaterra foi uma era de ouro comercial para Bordeaux. O vinho da região encontrou no mercado inglês um cliente insaciável: o 'claret' (o clarete bordalês) virou a bebida da moda na Inglaterra e no norte da Europa. Todo outono, frotas inteiras partiam do porto do Garona carregadas de barris rumo a Londres, a Flandres e aos portos hanseáticos. No auge, por volta de meados do século XV, cerca de um milhão de hectolitros de vinho saíam todo ano de Bordeaux para a Inglaterra e o mar do Norte, a imensa maioria da produção regional. A cidade conquistou privilégios comerciais, autonomia e prosperidade. É revelador que, já naquela época, o vinho bordalês tomasse o caminho do Atlântico e não o de Paris: Bordeaux olhava para o mar, não para o interior da França.
Esse longo período inglês terminou com a Guerra dos Cem Anos. Em 1453, a batalha de Castillon, travada bem perto da cidade, marcou a derrota inglesa definitiva e a volta da Aquitânia ao reino da França. Foi uma mudança traumática para uma Bordeaux que se sentia próspera sob os ingleses e que perdeu parte de seus privilégios e de seu principal mercado. Desconfiado, o rei da França mandou construir fortalezas para vigiar a cidade. Bordeaux levaria tempo para recuperar seu esplendor, mas o vínculo comercial com o mundo anglo-saxão ficou gravado para sempre em sua cultura do vinho.
O século XVIII foi a verdadeira era de ouro de Bordeaux e, ao mesmo tempo, seu capítulo mais incômodo. A cidade se tornou um dos grandes portos do comércio atlântico francês, enriquecida pelo tráfico com as colônias das Antilhas. Açúcar, café, cacau, algodão e anil produzidos nas plantações do Caribe entravam pelo Garona e eram redistribuídos por toda a Europa. Desse comércio saíram as imensas fortunas dos négociants (grandes comerciantes) que financiaram a transformação urbana da cidade.
Essa prosperidade tinha um alicerce sombrio que hoje Bordeaux reconhece abertamente: o tráfico de pessoas escravizadas. Desde o começo do século XVIII e, principalmente, nas décadas anteriores à Revolução, armadores bordaleses participaram diretamente do comércio triangular. Seus navios levavam armas e tecidos para a costa da África, de lá deportavam pessoas escravizadas para as colônias americanas e voltavam carregados com os produtos das plantações. Estão documentadas cerca de 480 expedições negreiras armadas em Bordeaux, que deportaram umas 150.000 pessoas. A isso se somava a riqueza, ainda maior, gerada pelo comércio dos produtos coloniais cultivados por escravizados. A cidade foi um dos principais portos negreiros da França, e boa parte do seu patrimônio do século XVIII foi erguida, direta ou indiretamente, sobre esses lucros. Há anos Bordeaux encara essa memória: há placas nos cais, salas dedicadas ao tema no Museu da Aquitânia e espaços de memória que chamam os fatos pelo nome, sem eufemismos. Para o leitor brasileiro, a história ressoa de perto: muitos dos navios que partiam desses portos europeus abasteciam o mesmo sistema escravista que marcou o Brasil.
Manter juntas essas duas verdades, o esplendor arquitetônico e a fortuna escravista que o tornou possível, faz parte hoje de uma visita honesta a Bordeaux. A beleza de suas fachadas de pedra dourada não pode ser separada da história atlântica, colonial e escravista que financiou aquele século de ouro.
Com a riqueza do comércio atlântico, o século XVIII deu a Bordeaux o rosto que hoje admiramos e que a Unesco protege. Sob o impulso de uma sequência de intendentes reais iluministas, como os Boucher e os Tourny, a cidade medieval se abriu e ganhou um urbanismo monumental de linhas clássicas. Até então, ela vivia fechada atrás de suas muralhas e de costas para o rio.
A obra mais emblemática dessa mudança de mentalidade foi a Place Royale, hoje Place de la Bourse, construída entre 1730 e 1775 segundo os projetos do arquiteto real Ange-Jacques Gabriel. Pela primeira vez, Bordeaux derrubou trechos da muralha para exibir ao Garona uma fachada harmoniosa e elegante: a cidade deixava de temer o rio e passava a se exibir para ele. Ao mesmo tempo, foram abertas amplas praças, a frente dos cais foi alinhada com quilômetros de fachadas uniformes de pedra calcária local (essa pedra clara que dá a Bordeaux sua luz dourada) e foram erguidos edifícios como o Grand Théâtre, inaugurado em 1780. Esse teatro é uma joia do neoclassicismo, com sua grande colunata e sua escadaria interna.
O resultado foi um dos conjuntos urbanos do século XVIII mais completos e coerentes da Europa, um manual vivo de arquitetura clássica. Durante muito tempo, porém, esse patrimônio ficou enegrecido pela poluição e pela passagem do tempo, e Bordeaux carregou a fama de cidade cinzenta e adormecida. Foi preciso esperar a virada do milênio para que esse quadro mudasse. Uma grande campanha de limpeza de fachadas, a transformação do centro em área de pedestres, a devolução dos cais à cidade e a chegada do bonde moderno devolveram à pedra sua cor original e revelaram, debaixo da fuligem, uma das cidades mais bonitas da França.
Tem um fato que surpreende muitos visitantes: Bordeaux foi capital provisória da França em três ocasiões, sempre em momentos em que Paris estava ameaçada pela guerra. A primeira vez foi em 1870-1871, durante a guerra franco-prussiana, quando o governo e a Assembleia se mudaram para o sudoeste diante do avanço alemão sobre Paris. A segunda foi em setembro de 1914, no começo da Primeira Guerra Mundial, quando o exército alemão voltou a se aproximar perigosamente da capital e o governo francês se instalou por um breve período em Bordeaux. A terceira foi em junho de 1940, nos dias dramáticos da queda da França diante da Alemanha nazista: foi em Bordeaux que o governo se refugiou antes do armistício e do início da ocupação. Longe do front, bem conectada e com porto no Atlântico, a cidade era um refúgio natural para o Estado francês em apuros.
O século XX também trouxe sombras. Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães fortificaram o litoral e o estuário e construíram no porto uma grande base de submarinos. A comunidade judaica da cidade sofreu a perseguição e as deportações do regime de Vichy e dos ocupantes. Depois da guerra, Bordeaux viveu décadas de certa letargia, marcadas pelo longo mandato do prefeito Jacques Chaban-Delmas.
O renascimento chegou a partir dos anos 2000. Primeiro vieram a limpeza das fachadas, a recuperação dos cais como passeio público, a criação de ruas de pedestres no centro e a inauguração do bonde em 2003. Mais tarde vieram o Miroir d'eau (2006) e a Cité du Vin (2016). Juntas, essas mudanças transformaram completamente a imagem da cidade. O reconhecimento veio em 2007, quando a Unesco inscreveu o centro histórico na lista do Patrimônio Mundial como o 'Port de la Lune', o Porto da Lua, nome que vem da meia-lua desenhada pelo Garona. É o maior conjunto urbano protegido desse tipo. E em 2017, a chegada da linha de trem de alta velocidade, que colocou Paris a pouco mais de duas horas, terminou de consagrar Bordeaux como um dos destinos favoritos da França. A Bela Adormecida, enfim, acordou.