Cannes é o nome do glamour na Costa Azul. Todo mês de maio, durante seu célebre Festival de Cinema, a cidade se transforma na capital mundial da sétima arte: o tapete vermelho do Palais des Festivals, os flashes, as estrelas e os iates ancorados na baía. Mas Cannes é muito mais do que doze dias de festa: é uma elegante cidade de praia com um calçadão mítico, a Croisette, ladeado por palmeiras, grandes hotéis e praias de areia fina, pouco comuns neste litoral de seixos.
Por trás do brilho, Cannes guarda uma alma mais antiga e simples. No alto de uma colina se aglomera Le Suquet, o bairro medieval de pescadores onde a cidade nasceu, com suas vielas de pedra, suas casas em tons pastel e uma vista soberba da baía. E em frente ao litoral, a apenas quinze minutos de barco, as ilhas de Lérins oferecem natureza, silêncio e séculos de história: a fortaleza onde ficou preso o enigmático homem da Máscara de Ferro e um mosteiro cisterciense ainda em atividade.
Este guia percorre Cannes com um olhar prático: como funciona de verdade o Festival de Cinema (e por que quase nenhuma sessão é aberta ao público), o que ver na Croisette e em Le Suquet, como escapar para as ilhas de Lérins e como usar os trens da Costa Azul para combinar Cannes com Nice, Antibes ou Mônaco. Ideal tanto para um dia de luxo mediterrâneo quanto para uma parada dentro de uma viagem mais longa pela Riviera.
Durante séculos, Cannes foi uma modesta vila de pescadores à sombra da torre de Le Suquet, ligada desde a Antiguidade às vizinhas ilhas de Lérins, onde no século V foi fundado um célebre mosteiro. Seu destino mudou completamente em 1834, quando Lord Henry Brougham, ex-Lorde Chanceler da Inglaterra, ficou bloqueado na região por um cordão sanitário contra a cólera e parou em Cannes. Encantado com o lugar, decidiu construir uma residência, e seu exemplo foi seguido por outros aristocratas britânicos e europeus, que transformaram a vila em uma elegante estação de inverno. No século XX, Cannes se consagrou definitivamente ao glamour com a criação do seu Festival de Cinema, idealizado em 1939 e realizado pela primeira vez em 1946. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Mediterranean south: Greek Marseille, the Roman Province, the popes of Avignon, the crusade against the Cathars of Carcassonne and the invention of the French Riviera, from Nice to Cannes.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Durante quase toda a sua história, Cannes não passou de uma modesta vila de pescadores, e seu destino esteve ligado não à terra firme, mas às duas pequenas ilhas que se avistam da costa: as ilhas de Lérins. Foi ali, na ilha hoje chamada Saint-Honorat, que aconteceu o fato que deu importância a todo este canto da Provença. Por volta do ano 410, um eremita chamado Honorato fundou na ilha um mosteiro que se tornaria, ao longo dos séculos V e VI, um dos grandes centros espirituais e intelectuais da Gália cristã. Da abadia de Lérins saíram numerosos bispos e santos, e seu prestígio se irradiou por toda a região.
Os monges de Lérins eram, na prática, os senhores do lugar. A eles pertencia o território onde ficava o pequeno porto de Cannes, e foram eles que, para vigiar a costa e se proteger das incursões de piratas sarracenos, mandaram construir no alto da colina que domina o porto — o atual bairro de Le Suquet — uma torre de vigia, cuja silhueta quadrada ainda hoje domina a cidade velha. Em volta dessa torre e ao abrigo da colina foi crescendo o burgo de pescadores.
Assim, enquanto a vizinha Nice era uma praça-forte disputada por reis e condes, Cannes continuava sendo um lugar pequeno e humilde: casas amontoadas em Le Suquet, barcos de pesca, hortas e olivais. Durante a Idade Média e a Idade Moderna, a vida seguiu o ritmo lento do mar e das estações, sem que nada fizesse prever o brilho que a cidade alcançaria no futuro. O próprio nome 'Cannes' evoca, segundo uma interpretação, os juncos (cannas) que cresciam nas áreas pantanosas e nas margens da região.
A grande virada na história de Cannes tem data e nome: dezembro de 1834, Lord Henry Brougham. Brougham era uma figura de primeira linha na Inglaterra: tinha sido Lord Chanceler (Lord Chancellor), a mais alta autoridade judicial do país, e era um político e reformista famoso. Naquele inverno, ele viajava para a Itália com a filha, Éléonore-Louise, de saúde frágil, com a intenção de passar a estação fria no clima ameno da Riviera italiana.
Mas a viagem esbarrou num obstáculo. O condado de Nice, então sob a soberania da Casa de Saboia, tinha fechado a fronteira com um cordão sanitário por causa de uma epidemia de cólera, e Brougham não pôde seguir para o leste. Ao cair da noite, parou para descansar na estalagem de um tal Pinchinat, na atual região do porto de Cannes. E ali, segundo conta a tradição, ficou encantado: com o clima, com a paisagem, com a baía protegida, com a bouillabaisse e o vinho que lhe serviram. Brougham decidiu então interromper a viagem e mandar construir uma residência naquela vila de pescadores.
Essa decisão pessoal desencadeou uma transformação completa. Lord Brougham voltou todo inverno, e seu prestígio atraiu outros aristocratas e personalidades britânicas, que por sua vez mandaram construir mansões: o general Taylor, o pastor Woolfield, membros do Parlamento britânico. Em poucas décadas, a humilde vila virou uma elegante estação de inverno (station hivernale) para a alta sociedade europeia, que fugia do frio do norte. Surgiram mansões suntuosas, jardins, hotéis e até uma igreja anglicana para a colônia estrangeira. Cannes, assim como a vizinha Nice, se reinventou como refúgio de inverno dos ricos: tinha nascido, praticamente do nada, a cidade do luxo e do lazer que conhecemos hoje.
Ao longo da segunda metade do século XIX, Cannes cresceu e se embelezou no ritmo da moda da villégiature de inverno. A chegada da ferrovia, que ligou a cidade ao resto da França e da Europa, acelerou o processo: a cada temporada chegavam aristocratas, industriais e famílias reais de todo o continente, incluindo membros das casas reais britânica e russa. De frente para o mar, foi traçado e urbanizado o grande passeio que se tornaria o símbolo da cidade: o Boulevard de la Croisette.
Durante a Belle Époque, o período de esplendor que vai do fim do século XIX até a Primeira Guerra Mundial, Cannes se encheu da arquitetura opulenta do lazer: grandes hotéis-palácio ao longo da Croisette, mansões com jardins exóticos nas colinas, cassinos. Os nomes dos grandes hotéis que ainda hoje pontuam a orla — o Carlton, com sua fachada monumental inaugurada nos anos 1910 — falam daquela época de ouro em que a cidade vivia do turismo da elite internacional.
Diferentemente de outras cidades da costa, Cannes sempre manteve um perfil marcadamente elegante e voltado ao prazer e ao descanso, mais do que ao comércio ou à indústria pesada. O centro antigo de Le Suquet, com sua torre medieval e sua igreja, continuou sendo o testemunho do passado humilde da cidade, enquanto a Croisette e seus arredores encarnavam a nova Cannes, a do luxo. Aos poucos, além disso, o turismo de inverno foi perdendo espaço para o turismo de verão, com a moda dos banhos de mar e de sol que se impôs no século XX e transformou as praias da Riviera em destino de verão por excelência.
O fato que tornou Cannes famosa no mundo inteiro foi a criação do seu Festival Internacional de Cinema, e sua origem está diretamente ligada à política dos anos 1930. Naquela época, o único grande festival internacional de cinema do mundo era a Mostra de Veneza, criada em 1932. Mas a Mostra tinha se tornado um instrumento de propaganda dos regimes fascistas: na edição de 1938, sob a influência da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler, os principais prêmios foram para filmes alinhados a esses regimes, entre eles 'Olympia', o filme da cineasta alemã Leni Riefenstahl sobre os Jogos Olímpicos de Berlim. Delegações democráticas, como a francesa, a britânica e a americana, se retiraram indignadas.
Dessa indignação nasceu a ideia de criar um festival alternativo, livre e independente, num país democrático. Na França, quem a impulsionou foi o diplomata Philippe Erlanger, com o apoio decisivo de Jean Zay, ministro da Educação Nacional e Belas-Artes do governo da Frente Popular, que queria dar à França um grande evento cultural capaz de rivalizar com Veneza. Cannes foi escolhida como sede por causa do clima, do prestígio e da capacidade hoteleira. A primeira edição estava prevista para setembro de 1939.
Mas a história se intrometeu. O festival de 1939 mal chegou a ser inaugurado: na mesma semana em que deveria acontecer, em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia e estourou a Segunda Guerra Mundial. Tudo foi cancelado. Jean Zay, o ministro que tinha tornado o projeto possível, teve um destino trágico: judeu, maçom e homem da República, foi perseguido pelo regime colaboracionista de Vichy e assassinado em 1944, sem nunca chegar a ver o festival que ajudou a criar.
Foi preciso esperar o pós-guerra. Em setembro de 1946, numa França e numa Europa que saíam da guerra e buscavam reconstruir a cultura e a liberdade entre as nações, finalmente aconteceu a primeira edição do Festival de Cannes. Com os anos, o evento se consolidou como o mais prestigiado do mundo, com seu prêmio máximo, a Palma de Ouro (Palme d'Or), e seu tapete vermelho transformado na grande vitrine do cinema internacional.
A história de Cannes também guarda um dos grandes enigmas da França, e mais uma vez nas suas ilhas. Na ilha de Sainte-Marguerite, a maior das ilhas de Lérins, fica o Fort Royal, uma fortaleza reforçada pelo engenheiro Vauban que serviu durante séculos como prisão de Estado. Ali esteve preso, por volta do fim do século XVII, o mais célebre e misterioso prisioneiro da história francesa: o chamado 'Homem da Máscara de Ferro'.
Era um preso cujo rosto devia ficar o tempo todo escondido atrás de uma máscara, e cuja identidade foi mantida no mais absoluto segredo por ordem do rei Luís XIV. Quem era ele? Por que tanto mistério? A pergunta alimentou séculos de especulações: já se disse que era um irmão gêmeo ou ilegítimo do próprio rei, um nobre caído em desgraça, um diplomata que sabia demais. Voltaire foi um dos primeiros a espalhar a lenda, e Alexandre Dumas a imortalizou em seus romances. Hoje os visitantes podem ver a cela onde ele ficou preso e percorrer o forte, que abriga também um museu com achados arqueológicos do mar.
No século XX e até hoje, Cannes vive plenamente de sua dupla condição: cidade de praia elegante e capital mundial do cinema nos dias do seu festival, todo mês de maio. O Palais des Festivals, a Croisette com seus hotéis-palácio e seus iates, e as praias de areia convivem com o bairro popular de Le Suquet, o mercado Forville e o silêncio das ilhas de Lérins, onde uma comunidade de monges cistercienses continua cultivando vinhas ao lado da abadia, numa continuidade que remonta ao século V.
Daquela vila de pescadores à sombra de uma torre, Cannes se tornou, em menos de dois séculos, um nome conhecido no planeta inteiro. Sua história é a de uma transformação impressionante, impulsionada por um lorde inglês retido por uma epidemia e consagrada pelo cinema: a do pequeno porto provençal que acabou virando sinônimo de glamour.