Poucos lugares do mundo impressionam tanto quanto o vale de Chamonix. Você chega e lá está ele, dominando tudo: o Mont Blanc, o teto da Europa Ocidental com seus 4.807 metros, cercado de agulhas de granito, geleiras que descem até o vale e cumes nevados o ano inteiro. Chamonix é a capital mundial do alpinismo, o lugar onde nasceu o montanhismo moderno no século XVIII e onde foram realizados os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno da história, em 1924. É, ao mesmo tempo, uma charmosa cidadezinha de montanha e uma base de aventura de fama mundial.
O melhor é que não é preciso ser alpinista para viver a alta montanha. O teleférico da Aiguille du Midi sobe em vinte minutos da cidade até os 3.842 metros, deixando você cara a cara com o Mont Blanc, entre geleiras e escaladores que partem rumo ao cume. O histórico trem vermelho do Montenvers sobe até a Mer de Glace, a maior geleira da França, cujo recuo dramático por causa das mudanças climáticas se vê nas escadas que a cada ano é preciso descer um pouco mais para chegar ao gelo. E mirantes como o Brévent oferecem o cartão-postal perfeito do maciço logo à frente.
Este guia percorre Chamonix com um olhar prático: como subir à Aiguille du Midi e à Mer de Glace (com preços e reservas), quais mirantes e trilhas escolher, como aproveitar o transporte gratuito do vale com a Carte d'Hôte, como chegar a partir de Genebra e que cuidados tomar na alta montanha, incluindo o mal de altitude. Seja para caminhar, esquiar, fazer alpinismo ou simplesmente se maravilhar com a paisagem, Chamonix é um dos destinos mais espetaculares de toda a Europa.
O vale de Chamonix foi durante séculos um canto isolado e pobre dos Alpes, habitado por camponeses que temiam as montanhas e suas geleiras, que chamavam de 'montanhas malditas'. Tudo começou a mudar em 1741, quando dois jovens ingleses, William Windham e Richard Pococke, 'descobriram' o vale para o resto da Europa e publicaram suas impressões sobre a Mer de Glace, desencadeando a moda de visitá-lo. O cientista genebrino Horace-Bénédict de Saussure ofereceu em 1760 uma recompensa a quem chegasse ao cume do Mont Blanc, e em 1786 dois homens do vale, Jacques Balmat e o médico Michel-Gabriel Paccard, conseguiram a primeira ascensão, feito que marca o nascimento do alpinismo. O próprio Saussure subiu no ano seguinte. Ao longo dos séculos XIX e XX, Chamonix se transformou na capital mundial do montanhismo e do turismo de montanha, até sediar em 1924 os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno da história. Toda essa epopeia, do medo dos cumes à conquista do Mont Blanc, está contada na nossa página de história.
Ler a história completa ↓From the Atlantic to the high mountains: the Aquitaine of Eleanor and of the English kings, the Bordeaux of wine and of the slave trade, the Basque Country of Biarritz and the Savoyard Alps, cradle of alpinism at Mont Blanc.
Ler a história de Southwest and the Alps →Um guia que mora no lugar conta em meia hora o que nenhuma placa explica. Nós buscamos na Civitatis: com guia em espanhol e reserva online sem complicação. Em Chamonix eles têm 5 passeios. Veja as de baixo: toque em qualquer uma para ver todas.
Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
É difícil imaginar hoje, quando teleféricos e trens levam milhares de turistas até a alta montanha, mas durante a maior parte de sua história o vale de Chamonix foi um canto remoto, pobre e temido dos Alpes. Espremido entre cumes de mais de quatro mil metros e coberto de geleiras que naqueles séculos avançavam até quase encostar nas aldeias, era um lugar de vida dura, habitado por camponeses e pastores que sobreviviam a duras penas do gado, das plantações e da caça de camurças.
Para aquela gente, as montanhas não eram um espetáculo bonito, e sim uma ameaça. As enormes geleiras que hoje admiramos, como a Mer de Glace, eram vistas com medo e superstição: eram chamadas de 'les montagnes maudites', as montanhas malditas, e se acreditava que nos cumes viviam dragões, bruxas e espíritos malignos. Ninguém em sã consciência subia às alturas por prazer; o Mont Blanc, o gigante que dominava o vale, era simplesmente inacessível e inexplorado.
O vale pertencia historicamente ao ducado de Saboia, um pequeno estado alpino dividido entre o que hoje são a França e a Itália, e sua comunidade girava em torno de um antigo priorado religioso fundado na Idade Média, do qual Chamonix herdou boa parte de sua identidade. Isolado do mundo por caminhos difíceis e montanhas, o vale parecia condenado a ficar para sempre no esquecimento. Até que, num dia de 1741, chegaram dois jovens ingleses com vontade de aventura.
Em 1741, dois jovens ingleses em viagem de lazer pelo continente, William Windham e Richard Pococke, se aventuraram com um grupo de amigos até o remoto vale de 'Chamouny', do qual quase nada se sabia no resto da Europa. Movidos pela curiosidade, subiram a cavalo e a pé até o local de Montenvers e contemplaram, maravilhados, a grande geleira que descia entre as montanhas. Ela lhes pareceu um oceano congelado e agitado por uma tempestade, e a batizaram com o nome que chegou até hoje: a 'Mer de Glace', o Mar de Gelo.
De volta à civilização, Windham e Pococke escreveram e publicaram relatos da expedição, que circularam pelas revistas literárias e científicas da Inglaterra e do continente. O efeito foi extraordinário: aquelas descrições de um mundo de gelo e de cumes impossíveis despertaram um verdadeiro fascínio na Europa iluminista. De repente, viajantes, naturalistas, artistas e curiosos quiseram ver com os próprios olhos aquelas maravilhas geladas.
Assim, quase sem querer, aqueles dois ingleses inauguraram o turismo em Chamonix. Nas décadas seguintes, um fluxo crescente de visitantes começou a chegar ao vale para admirar a Mer de Glace e as geleiras, atraídos por uma nova sensibilidade que já não via as montanhas como algo maldito, e sim como uma fonte de emoção, de beleza sublime e de conhecimento. O vale das 'montanhas malditas' ia se transformando, pouco a pouco, em um destino. E no horizonte ficava um desafio enorme: chegar ao topo do Mont Blanc.
Entre os que ficaram encantados com Chamonix estava o cientista genebrino Horace-Bénédict de Saussure, um naturalista apaixonado pela geologia e pela física das montanhas. Saussure visitou o vale pela primeira vez em 1760 e ficou obcecado pelo Mont Blanc. Convencido de que era preciso subir ao cume para estudá-lo, ofereceu naquele mesmo ano uma recompensa a quem conseguisse alcançar o topo, ou pelo menos encontrar uma rota viável até ele.
O prêmio ficou sem dono por vinte e seis anos. Chegar ao topo do Mont Blanc parecia impossível: as geleiras, as fendas, o frio extremo, a falta de oxigênio e o desconhecimento total da alta montanha frustraram uma tentativa atrás da outra. Até que, em 8 de agosto de 1786, dois homens do vale conseguiram: Jacques Balmat, caçador de camurças e buscador de cristais acostumado a andar pelas alturas, e Michel-Gabriel Paccard, o médico de Chamonix. Depois de uma jornada duríssima, alcançaram o cume do Mont Blanc, a 4.807 metros, e voltaram com vida.
Aquela escalada não foi só uma façanha esportiva: marcou o nascimento do alpinismo como atividade. No ano seguinte, em 1787, o próprio Saussure subiu ao cume com uma grande expedição e realizou experimentos científicos lá em cima, consagrando a ideia da montanha como lugar de conquista e de conhecimento. Na cidade de Chamonix, uma famosa estátua lembra Balmat apontando para o cume ao lado de Saussure. E em 1821 os guias do vale fundaram a Compagnie des Guides de Chamonix, a companhia de guias de montanha mais antiga do mundo, ainda em atividade. O vale dos camponeses medrosos tinha se tornado o berço do montanhismo.
Durante o século XIX, Chamonix passou por uma transformação acelerada. A conquista do Mont Blanc abriu as portas para a chamada 'era de ouro do alpinismo': uma após a outra, as grandes agulhas e cumes do maciço foram sendo conquistados por montanhistas de toda a Europa — muitos deles britânicos — acompanhados pelos guias locais. Chamonix virou o centro mundial dessa nova paixão, e seu nome passou a ficar associado para sempre à aventura na alta montanha.
Ao mesmo tempo, o turismo não parava de crescer. O vale, que em 1860 passou a ser francês quando a Saboia foi anexada à França (após o plebiscito que integrou o antigo ducado ao Segundo Império de Napoleão III), se encheu de hotéis, pousadas e visitantes. A chegada da ferrovia no fim do século XIX e no começo do XX acabou de abrir Chamonix para o mundo: foram construídas linhas de trem para chegar ao vale e, principalmente, engenhosos trens de montanha para levar os turistas às grandes paisagens. Em 1908 foi inaugurado o trem de cremalheira do Montenvers, que subia até a Mer de Glace e permitia a qualquer viajante ver de perto a geleira que tinha maravilhado Windham e Pococke.
Chamonix se consolidava como um destino de montanha sem igual, capaz de combinar o alpinismo de elite com um turismo cada vez mais massivo. Faltava, porém, o acontecimento que a colocaria no mapa esportivo mundial e daria nome a toda uma nova era de esportes de inverno.
Em 1924, Chamonix fez história ao sediar a 'Semana Internacional dos Esportes de Inverno', um evento que o Comitê Olímpico Internacional reconheceu depois, de forma retroativa, como os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno da história. Patinação, hóquei no gelo, esqui, saltos, bobsled e outras modalidades reuniram pela primeira vez os melhores atletas do mundo na neve, num vale que já era símbolo da montanha. Aqueles Jogos impulsionaram o desenvolvimento das estações de esqui e consagraram de vez Chamonix como capital dos esportes de inverno.
O século XX trouxe ainda as grandes obras que dão a Chamonix a cara que ela tem hoje. Em 1955 foi inaugurado o teleférico da Aiguille du Midi, na época o mais alto do mundo, que pela primeira vez permitia a qualquer pessoa subir em poucos minutos à alta montanha, a 3.842 metros, sem ser alpinista. E em 1965 foi aberto o túnel do Mont Blanc, uma proeza da engenharia que perfurou a montanha para ligar Chamonix a Courmayeur, na Itália, integrando o vale às grandes rotas europeias.
Hoje Chamonix é, sem discussão, a capital mundial do alpinismo e um dos grandes destinos de montanha do planeta. Combina o turismo de massa — os teleféricos, a Mer de Glace, o esqui — com o montanhismo mais exigente, e todo mês de agosto, desde 2003, recebe o Ultra-Trail du Mont-Blanc, a mítica corrida de cerca de 170 quilômetros ao redor do maciço. O vale também acompanha de perto, como testemunha privilegiada, o drama das mudanças climáticas: suas geleiras, a começar pela Mer de Glace, recuam e afinam ano após ano, um lembrete silencioso de que aquelas 'montanhas malditas' que um dia foram temidas são hoje um tesouro frágil que precisa ser cuidado.