Estrasburgo é uma daquelas cidades que parecem saídas de um conto de fadas: casas em enxaimel com telhados íngremes debruçadas sobre os canais, gerânios nas janelas, pontes cobertas e uma catedral de pedra rosada que domina o céu há mais de seis séculos. Capital da Alsácia e, ao mesmo tempo, capital da Europa, é um encontro de mundos: aqui se fala francês, mas se come choucroute e bretzels, se brinda com vinho branco alsaciano e se celebra o Natal como em nenhum outro lugar da França.
Seu coração, a Grande Île, é Patrimônio da Humanidade da Unesco, e basta se perder pelas ruas para entender por quê. A catedral de Notre-Dame, com sua única flecha de 142 metros e seu impressionante relógio astronômico, foi durante séculos o edifício mais alto da cristandade. A poucos passos, o bairro de La Petite France exibe seu cartão-postal mais famoso: moinhos, eclusas e casas de curtidores refletidas na água. E ao redor, a Neustadt alemã, o Palais Rohan e o moderno bairro europeu contam a história de uma cidade que trocou de bandeira várias vezes.
Este guia percorre o essencial de Estrasburgo com um olhar prático e acolhedor: o que ver no centro histórico, como subir à plataforma da catedral, quando chegam os mercados de Natal, como escapar para os vilarejos e vinhedos da rota do vinho e como se locomover de bonde e a pé. Seja na primavera, com os canais floridos, ou em dezembro, entre luzes e cheiro de vin chaud, Estrasburgo oferece um dos cantinhos mais encantadores da Europa.
Estrasburgo nasceu como um acampamento romano chamado Argentoratum, fundado por volta do ano 12 a.C. junto ao Reno. Após a queda de Roma, os francos a reconstruíram e lhe deram seu nome germânico, Strateburgum, 'a cidade dos caminhos'. Na Idade Média, tornou-se uma próspera cidade livre do Sacro Império Romano-Germânico, e ali Johannes Gutenberg viveu e aperfeiçoou a imprensa antes de se mudar para Mainz. Em 1681, o rei Luís XIV a anexou à França. Em 1792, durante a Revolução, o oficial Rouget de Lisle compôs em Estrasburgo o 'Canto de guerra para o Exército do Reno', que entraria para a história como A Marselhesa, o hino nacional francês. Entre 1871 e 1945, a cidade mudou de mãos quatro vezes entre França e Alemanha, ao sabor das guerras. Após a Segunda Guerra Mundial, e como símbolo da reconciliação franco-alemã, Estrasburgo foi escolhida como sede das instituições europeias. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The France of the Rhine and the Rhône: Strasbourg and Alsace-Lorraine, fought over by France and Germany across three wars and today a capital of Europe; and Lyon, ancient Roman Lugdunum, city of silk, of the Resistance and of food.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Numa planície fértil às margens do Reno, onde o rio Ill se abre em vários braços, os romanos logo perceberam o valor estratégico do lugar. Por volta do ano 12 a.C., sob o imperador Augusto, fundaram ali um acampamento militar chamado Argentoratum, destinado a vigiar a fronteira do Império diante das tribos germânicas do outro lado do Reno. O nome, de raiz celta, provavelmente fazia alusão aos cursos d'água ou à prata (argentum). Durante quase quatro séculos, a Legio VIII Augusta ficou aquartelada ali, e em torno do forte cresceu uma cidade com termas, um porto fluvial e um comércio movimentado.
Argentoratum foi palco de um episódio célebre da Antiguidade tardia: no ano 357 d.C., na batalha de Estrasburgo (ou batalha de Argentoratum), o futuro imperador Juliano, então césar das Gálias, derrotou uma coalizão de alamanos muito superior em número, garantindo por um tempo a fronteira do Reno. Mas a pressão germânica não parou. Com o enfraquecimento do Império, a cidade foi arrasada e reconstruída várias vezes, até que as grandes invasões do século V a deixaram em ruínas.
Daquele passado romano restam vestígios arqueológicos que hoje estão guardados sobretudo no Museu Arqueológico do Palais Rohan. Sobre as ruínas de Argentoratum, depois da vitória de Clóvis e dos francos por volta do ano 500, ergueu-se uma cidade nova, que recebeu um nome germânico: Strateburgum, 'a cidade dos caminhos' ou 'das estradas', em referência à sua posição como cruzamento de rotas comerciais. Desse nome deriva a atual Estrasburgo (Strasbourg), e nele já estava escrito o seu destino: ser sempre um lugar de passagem e de encontro entre mundos.
A Idade Média fez de Estrasburgo uma das cidades mais ricas e livres do Sacro Império Romano-Germânico. Já no ano 842 a cidade tinha entrado para a história europeia: foi ali que se pronunciaram os Juramentos de Estrasburgo (Serments de Strasbourg), um pacto de aliança entre os netos de Carlos Magno, Luís, o Germânico, e Carlos, o Calvo, contra o irmão deles, Lotário. Sua importância vai além da política: os juramentos foram redigidos em duas línguas vernáculas — uma forma antiga de romance (antecessor do francês) e de germânico (antecessor do alemão) —, e são considerados o primeiro documento preservado escrito em algo parecido com o francês. Em Estrasburgo, mais uma vez, os dois mundos se cruzavam.
Durante séculos a cidade foi governada por seus príncipes-bispos, mas em 1262, depois da batalha de Hausbergen, a burguesia se rebelou e conquistou sua autonomia. Em 1334 Estrasburgo se tornou oficialmente Cidade Livre Imperial (Freie Reichsstadt), subordinada apenas ao imperador e governada por suas próprias corporações de ofício e magistrados. Foi uma época de grande prosperidade: ergueu-se a catedral, cuja flecha foi concluída em 1439, transformando-a no edifício mais alto da cristandade, e floresceram o comércio, os bancos e os ofícios.
Nesse ambiente de liberdade e saber surgiu uma figura decisiva. Entre 1434 e 1444, aproximadamente, um ourives de Mainz chamado Johannes Gutenberg viveu em Estrasburgo, onde fez experiências com a técnica que mudaria o mundo: a imprensa de tipos móveis. Embora tenha terminado de aperfeiçoá-la e publicado sua famosa Bíblia em Mainz, foi em Estrasburgo que ele deu os primeiros passos, e a cidade se orgulha disso: uma grande estátua dele, obra de David d'Angers, domina desde 1840 a praça que leva o seu nome. Estrasburgo logo se tornou um importante centro de impressão e de humanismo e, no século XVI, aderiu à Reforma protestante, com uma universidade fundada em 1538 (que seria reconhecida como tal em 1621) que atraiu intelectuais de toda a Europa.
O século XVII mudou o rumo de Estrasburgo. A França, sob Luís XIV, expandia suas fronteiras para o leste, e a rica cidade livre do Reno era um prêmio cobiçado. Em setembro de 1681, em plena paz e quase sem resistência, as tropas francesas cercaram a cidade e a burguesia capitulou: Estrasburgo passou a fazer parte do reino da França. O Rei Sol respeitou, no entanto, muitas de suas particularidades — a liberdade de culto protestante, suas instituições, o uso do alemão — e encarregou o engenheiro militar Vauban de fortificar a praça, obra da qual ainda resta o Barrage Vauban, de 1690. A catedral, que tinha sido templo protestante durante a Reforma, voltou ao culto católico.
Um século depois, Estrasburgo foi palco de um dos momentos fundadores da França moderna. Em abril de 1792, logo após a declaração de guerra à Áustria, um oficial e engenheiro chamado Claude Joseph Rouget de Lisle, servindo na guarnição da cidade, compôs numa única noite — segundo a tradição, na casa do prefeito, o barão Philippe-Frédéric de Dietrich — um canto para levantar o ânimo das tropas. Deu a ele o título de 'Chant de guerre pour l'armée du Rhin' (Canto de guerra para o Exército do Reno). A melodia se espalhou rapidamente e, alguns meses depois, foi cantada pelos voluntários de Marselha ao entrarem em Paris: por isso ficou para sempre conhecida como 'A Marselhesa'. Em 1795 foi proclamada hino nacional da França. Que o hino mais famoso do patriotismo francês tenha nascido em Estrasburgo, uma cidade de fronteira e em boa parte de língua alemã, é um dos grandes paradoxos e símbolos da sua história.
A Revolução e o Império napoleônico integraram plenamente a Alsácia à França, e ao longo do século XIX a região se sentiu cada vez mais francesa, embora tenha mantido sua língua, sua cozinha e seus costumes germânicos. Essa dupla identidade, longe de se resolver, estava prestes a transformar Estrasburgo em moeda de troca das grandes guerras europeias.
Nenhuma cidade francesa mudou de nacionalidade tantas vezes em tão pouco tempo quanto Estrasburgo. Em 1870 estourou a guerra franco-prussiana, e Estrasburgo sofreu um duríssimo cerco e bombardeio das tropas alemãs, que destruíram boa parte da cidade e sua biblioteca. Com a derrota francesa e o Tratado de Frankfurt de 1871, a Alsácia e parte da Lorena foram anexadas ao novo Império Alemão. Estrasburgo virou capital do 'Reichsland' da Alsácia-Lorena, e Berlim investiu pesado nela: construiu-se a Neustadt, o amplo bairro imperial de avenidas monumentais, e a administração e o ensino foram germanizados. Durante quase meio século, a cidade foi alemã.
O fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, devolveu a Alsácia à França em meio a comemorações. Mas a calma durou pouco. Em 1940, com a invasão nazista no início da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha de Hitler anexou de novo a Alsácia — desta vez sem sequer um tratado — e impôs uma brutal política de germanização forçada: o francês foi proibido, nomes foram trocados, judeus e opositores foram perseguidos, e dezenas de milhares de jovens alsacianos foram recrutados à força para o exército alemão, os chamados 'malgré-nous' ('apesar de nós'), muitos dos quais morreram na frente oriental. Estrasburgo viveu anos de medo e de exílio; boa parte de sua população tinha sido evacuada no começo da guerra.
Em 23 de novembro de 1944, a 2ª Divisão Blindada do general Leclerc libertou Estrasburgo, cumprindo o chamado 'Juramento de Kufra', que Leclerc tinha feito em 1941, de não parar até ver a bandeira francesa tremular de novo sobre a catedral. A cidade voltou definitivamente para a França em 1945. Quatro trocas de bandeira em menos de oitenta anos deixaram uma marca profunda na identidade alsaciana: uma cultura de fronteira, bilíngue, marcada pelas feridas das guerras e, ao mesmo tempo, por uma vocação de reconciliação que logo teria um destino europeu.
De todas as feridas da sua história, Estrasburgo soube fazer um símbolo. Justamente por ter sido tantas vezes território disputado entre França e Alemanha, a cidade foi escolhida depois da Segunda Guerra Mundial como sede das instituições que buscavam deixar para trás séculos de conflito europeu. Em 1949 instalou-se ali o Conselho da Europa, a organização que promove os direitos humanos e a democracia no continente. Pouco depois chegaram o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e, principalmente, o Parlamento Europeu, que realiza em Estrasburgo suas sessões plenárias mensais, dividindo funções com Bruxelas.
Estrasburgo se tornou assim uma das capitais oficiais da União Europeia, ao lado de Bruxelas e Luxemburgo, e um poderoso emblema da reconciliação franco-alemã e da construção europeia. O moderno bairro europeu, com a torre envidraçada do Parlamento (edifício Louise Weiss, inaugurado em 1999), deliberadamente inacabada como símbolo de uma Europa sempre em construção, é hoje parte essencial da identidade da cidade.
Em 1988, a Grande Île — o centro histórico cercado pelos braços do Ill — foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, um reconhecimento que em 2017 foi ampliado para incluir também a Neustadt alemã, celebrando assim o diálogo entre duas culturas urbanas. Hoje Estrasburgo é uma cidade universitária, próspera e voltada para a sustentabilidade, famosa por ser uma das mais ciclísticas da França e pelo seu bonde moderno. E todo mês de dezembro ela resgata sua tradição mais querida: o Christkindelsmärik, o mercado de Natal mais antigo da França, que acontece desde 1570 e enche de luzes e cheiro de especiarias uma cidade que, depois de séculos de fronteiras instáveis, fez da sua mistura o seu maior tesouro.