Annecy é uma daquelas cidades que parecem saídas de um conto de fadas. Fica no coração dos Alpes franceses, às margens de um lago de águas turquesa, consideradas das mais limpas da Europa. O centro medieval se espalha entre canais, pontes floridas e casas coloridas com arcadas. Por isso a chamam de 'Veneza dos Alpes': o rio Thiou e seus canais atravessam o centro. Sobre um deles fica o Palais de l'Isle, um edifício do século XII em forma de proa de navio, a imagem mais fotografada da cidade.
Mas Annecy é muito mais do que um cartão-postal. O lago é espetacular e, em pleno verão, dá para nadar nele. Ele é cercado de montanhas e tem praias, passeios e uma ciclovia que o contorna pelo traçado de uma antiga ferrovia. A cidade também tem um castelo medieval no alto de uma colina, uma basílica que guarda os restos mortais de São Francisco de Sales, jardins à beira d'água e a romântica Pont des Amours (a 'Ponte dos Namorados'). E é uma cidade viva, com feiras, boa gastronomia da Saboia e um famoso festival de cinema de animação que a enche de cor a cada primavera.
Este guia apresenta Annecy de um jeito prático e acolhedor. Mostra o que ver no centro histórico e no castelo, como curtir o lago (nadar, pedalar, passear de barco) e quais vilarejos da margem valem a visita. Também explica como chegar de Paris, Lyon ou Genebra e como circular sem pressa. Seja um bate-volta dentro de uma viagem pelos Alpes, seja uma estadia de vários dias para relaxar à beira d'água, Annecy tem aquele dom raro de conquistar à primeira vista.
Annecy nasceu na Antiguidade como um povoado galo-romano, o vicus de Boutae, na planície junto ao lago. Na Idade Média, a cidade cresceu ao pé do castelo e virou residência dos condes de Genebra (Genevois). Mais tarde se tornou capital de um apanágio da poderosa Casa de Saboia, que a governou durante séculos. Seu momento espiritual mais marcante veio quando Genebra aderiu ao calvinismo, no século XVI. Annecy acolheu os católicos que fugiam e se transformou em um bastião da Contrarreforma, a 'Roma dos Alpes', sobretudo graças a São Francisco de Sales, bispo da cidade entre 1602 e 1622. Junto com o resto da Saboia, Annecy foi anexada definitivamente à França em 1860. No século XIX a cidade se industrializou (têxteis, seda). Na segunda metade do século XX, o lago sofreu uma poluição grave. Um ambicioso plano de saneamento nos anos 60 e 70 devolveu a pureza às águas, e o lago de Annecy virou um dos mais limpos da Europa. Toda essa história está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓From the Atlantic to the high mountains: the Aquitaine of Eleanor and of the English kings, the Bordeaux of wine and of the slave trade, the Basque Country of Biarritz and the Savoyard Alps, cradle of alpinism at Mont Blanc.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de ser chamada de 'a Veneza dos Alpes', Annecy já pulsava às margens do seu lago. Os primeiros habitantes se instalaram aqui na pré-história, em aldeias lacustres sobre palafitas construídas junto à água. Mas a cidade propriamente dita tem raízes na época romana: no século I, na planície junto ao lago (o atual bairro de Les Fins), floresceu um próspero vicus galo-romano chamado Boutae, com seu fórum, seu templo e seu teatro, num cruzamento de caminhos dos Alpes.
Com a queda do Império Romano e as inseguranças da Alta Idade Média, a população foi abandonando a planície aberta e buscando refúgio em lugares mais protegidos. Assim, entre os séculos XI e XII, o povoamento se deslocou para o pé da colina onde hoje fica o castelo, junto à foz do rio Thiou, mais fácil de defender. Nascia a Annecy medieval, aglomerada em torno de sua fortaleza e cortada pelos canais do Thiou, que aproveitavam a força da água para mover moinhos e oficinas.
Naquela época, Annecy entrou na órbita de uma família poderosa: os condes de Genebra (Genevois). Quando a vizinha cidade de Genebra ficou sob o controle de seu bispo, os condes transferiram aos poucos seu poder para Annecy, que foi ganhando importância como sede de sua corte. A cidade crescia, ganhava muralhas, igrejas e o imponente château, e se preparava, sem saber, para um destino ligado à grande potência alpina da região: a Casa de Saboia.
A antiga dinastia dos condes de Genebra se extinguiu no fim do século XIV, com a morte de seu último representante em 1394. Depois de alguns anos de incerteza, o condado foi vendido em 1401 a Amadeu VIII de Saboia, o senhor mais poderoso dos Alpes ocidentais, cujos domínios se estendiam dos dois lados das montanhas, entre o que hoje são França, Itália e Suíça. Annecy passava assim às mãos da Casa de Saboia, à qual ficaria ligada durante séculos.
Sob os Saboia, Annecy alcançou um esplendor notável. A cidade se tornou capital de um apanágio (um senhorio concedido a um ramo da família ducal), o condado de Genevois-Nemours, e nela se instalaram os principais órgãos de governo da região, além da corte dos príncipes. Edifícios foram erguidos e ampliados, o castelo foi reforçado e a cidade se consolidou como um centro político, administrativo e comercial dos Alpes saboianos.
O centro histórico que hoje admiramos — com suas ruas de arcadas, seus canais, suas casas coloridas e o Palais de l'Isle sobre o Thiou — tomou forma em grande parte nesses séculos. O Palais de l'Isle, aquele edifício em forma de proa no meio do canal, serviu sucessivamente de residência, casa da moeda, tribunal e prisão, testemunha de todas as épocas da cidade. Annecy era uma capital pequena, mas orgulhosa, e estava prestes a viver o episódio que a tornaria célebre em toda a cristandade.
No século XVI, a Reforma Protestante sacudiu a Europa, e muito perto de Annecy a vizinha Genebra se tornou o grande bastião do calvinismo, a 'Roma protestante' de João Calvino. O bispo católico de Genebra, expulso de sua sede, teve que buscar refúgio em território saboiano, e o encontrou em Annecy. Assim, a cidade se transformou na sede do bispado de Genebra no exílio e num baluarte da Contrarreforma católica, na linha de frente diante da Genebra protestante.
Nesse contexto surgiu a figura que marcaria para sempre a identidade de Annecy: Francisco de Sales. Nascido em 1567 num castelo próximo, esse sacerdote de grande inteligência e doçura se dedicou a reconquistar para o catolicismo a região do Chablais, evangelizando com a palavra e o exemplo mais do que com a força. Em 1602 foi nomeado bispo de Genebra, com residência em Annecy, cargo que ocupou até sua morte em 1622. Seus escritos espirituais, como a 'Introdução à vida devota', tiveram uma influência enorme, e junto com Joana Francisca de Chantal ele fundou a Ordem da Visitação.
São Francisco de Sales foi canonizado e, mais tarde, declarado Doutor da Igreja e padroeiro dos jornalistas e escritores. Sua presença fez de Annecy um importante centro religioso, a ponto de a cidade ficar conhecida como a 'Roma dos Alpes'. Hoje seus restos mortais, e os de Santa Joana de Chantal, repousam na Basílica da Visitação, sobre uma colina da cidade, destino de peregrinos e um dos grandes símbolos de Annecy.
Durante séculos, Annecy e toda a Saboia viveram à margem da França, como parte dos Estados de Saboia e depois do reino da Sardenha. A cidade conheceu um breve período francês durante a Revolução e o Império napoleônico (de 1792 a 1815), quando foi capital de um departamento do Mont-Blanc, mas com a queda de Napoleão voltou às mãos da Casa de Saboia.
A mudança definitiva chegou em 1860. No contexto da unificação italiana, o reino da Sardenha (governado pela Casa de Saboia) cedeu à França as regiões da Saboia e de Nice em troca do apoio francês à sua causa. A anexação foi referendada por um plebiscito, e em 24 de março de 1860 a Saboia — e com ela Annecy — passou a fazer parte da França de forma definitiva. Annecy se tornou capital do novo departamento da Alta Saboia (Haute-Savoie), função administrativa que mantém até hoje.
O século XIX foi também o da industrialização. Aproveitando a força motriz da água do Thiou e do lago, prosperaram em Annecy fábricas têxteis — sobretudo de algodão e seda —, além de outras indústrias, e a cidade cresceu para além de suas muralhas medievais. Foram construídos a ferrovia, novos bairros e passeios, e o lago começou a atrair os primeiros turistas e veranistas, seduzidos por sua beleza. Annecy deixava de ser apenas uma velha capital saboiana para se transformar, pouco a pouco, num destino. Mas esse sucesso traria, no século seguinte, uma ameaça inesperada ao seu maior tesouro: o lago.
Em meados do século XX, o maior tesouro de Annecy estava em perigo. O crescimento da cidade e dos povoados da margem, sem um sistema adequado de tratamento de esgoto, fez com que as águas residuais fossem parar diretamente no lago. No fim dos anos 60, o lago de Annecy estava gravemente poluído e eutrofizado: durante boa parte do ano o nível de oxigênio dissolvido no fundo caía quase a zero, as algas proliferavam e quase todas as espécies de peixes tinham desaparecido. O símbolo da cidade estava morrendo.
A reação foi exemplar e pioneira no mundo. Já em 1957, impulsionados por vozes de alerta como a do médico e vereador Paul Servettaz, oito municípios ribeirinhos se uniram num consórcio intermunicipal para salvar o lago. A partir dos anos 60 e 70 foi realizada uma obra colossal: a construção de um coletor 'cinturão' de dezenas de quilômetros que contorna todo o lago e recolhe o esgoto das cidades da margem para levá-lo a uma estação de tratamento situada rio abaixo, fora do lago. Pela primeira vez, nem uma gota de água suja voltaria a ser despejada nele.
O resultado foi espetacular. Em poucos anos, o lago recuperou sua transparência e sua vida, e hoje o lago de Annecy é considerado um dos mais limpos da Europa, com águas onde dá para nadar em pleno centro de uma cidade. Aquele feito ambiental é motivo de orgulho e um modelo estudado no mundo todo. A Annecy atual, capital da Alta Saboia e cidade de mais de 130.000 habitantes após a fusão de 2017 com vários municípios vizinhos, vive voltada para o seu lago e as suas montanhas: turismo, qualidade de vida, esportes ao ar livre e um famoso Festival Internacional de Cinema de Animação. Da Boutae romana à 'Veneza dos Alpes' que salvou seu lago, Annecy é hoje uma das cidades mais queridas da França.