Saaremaa é a maior ilha da Estônia e um daqueles lugares onde o tempo parece ter parado. A uma curta travessia de balsa do continente, oferece uma paisagem serena de bosques de zimbro, campos, moinhos de vento, faróis solitários e pequenas igrejas medievais de pedra, com uma identidade insular tão forte que os próprios estonianos a veem como 'outro país' dentro do país. É a Estônia rural, tranquila e autêntica, ideal para desconectar e explorar com calma.
A ilha combina natureza e patrimônio de um jeito único: a espetacular cratera de meteorito de Kaali, formada por um impacto há milênios; o imponente castelo episcopal de Kuressaare, o mais bem conservado do Báltico; os moinhos de vento de Angla; a falésia de Panga; a selvagem península de Sõrve, com seu farol e sua memória de guerra; e as estâncias e spas da capital, herdeiros da tradição termal do século XIX. Tudo isso salpicado de aldeias de pedra, casas com telhado de palha e uma gastronomia ilhéu de pão preto, peixe e cerveja artesanal.
Este guia percorre Saaremaa com olhar prático: como chegar de balsa a partir de Virtsu ou de ônibus saindo de Tallinn, como se locomover pela ilha, o que ver (Kaali, Kuressaare, Angla, Panga, Sõrve, as igrejas medievais), onde dormir e comer e quando ir. Um destino perfeito para quem procura ilhas do Báltico, natureza tranquila, história medieval e aquele ritmo lento tão típico de Saaremaa.
Saaremaa — a antiga Ösel de alemães e suecos — foi o bastião dos oeselianos, temidos vikings estonianos que dominaram o Báltico com seus barcos e resistiram ferozmente aos cruzados. Só em 1227, após a queda das fortalezas de Muhu e Valjala, a ilha foi submetida e cristianizada, ficando sob o bispado de Ösel-Wiek, que ergueu o castelo de Kuressaare. Em 1343 os ilhéus protagonizaram a sangrenta Rebelião da Noite de São Jorge. Depois a ilha passou por mãos dinamarquesas, suecas e russas, viveu o drama das duas guerras mundiais — com os duríssimos combates de 1944 na península de Sõrve — e as décadas de isolamento soviético, quando foi zona militar fechada. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes da chegada dos cruzados, Saaremaa — a Ösel das crônicas medievais — era habitada pelos oeselianos (saarlased), um povo estoniano que dominou o mar Báltico oriental durante a Idade do Ferro tardia e a Era Viking. Longe da imagem de camponeses isolados, os oeselianos eram navegadores e guerreiros consumados: construíam barcos velozes, comerciavam por todo o Báltico e praticavam a pirataria e os ataques ao litoral com tamanha ousadia que sua fama de corsários temíveis chegou até a Escandinávia e às terras eslavas.
As sagas nórdicas e as crônicas russas mencionam suas frotas e seus ataques. Os oeselianos saquearam litorais da Suécia, da Dinamarca e dos territórios que hoje são a Letônia e a Rússia, e mais de uma vez foram os suecos e os dinamarqueses que sofreram com suas incursões, e não o contrário. Na ilha, ergueram fortalezas circulares de terra e pedra — como as de Valjala, Kaarma ou, na vizinha Muhu, a de Mona — que serviam de refúgio e de centro de poder de uma sociedade organizada, pagã e ciosa da sua independência.
Essa cultura marinheira e guerreira, com religião própria, seus lugares sagrados (como a cratera de Kaali ou o penhasco de Panga) e uma identidade forte, fez de Saaremaa um dos últimos bastiões do paganismo báltico e um osso duro de roer para as potências cristãs que, no começo do século XIII, partiram para conquistar e converter os povos do Báltico oriental.
No começo do século XIII, a Cruzada da Livônia levou a Igreja e as ordens militares alemãs e dinamarquesas a submeter à força os povos pagãos do Báltico oriental. A Estônia continental foi caindo aos poucos, mas Saaremaa, protegida pelo mar e defendida pelos aguerridos oeselianos, resistiu mais do que qualquer outra terra.
O golpe decisivo veio no inverno de 1227. Quando o mar congelou, um enorme exército cruzado — segundo a Crônica de Henrique da Livônia, cerca de 20.000 homens — partiu da foz do rio Pärnu e avançou sobre o gelo em direção às ilhas. Primeiro caiu a fortaleza de Mona, em Muhu, depois de vários dias de cerco e de um massacre terrível; em seguida, rendeu-se a grande fortaleza de Valjala, na própria Saaremaa. Com isso, os oeselianos aceitaram formalmente o cristianismo e a ilha foi incorporada ao mundo cristão da Livônia medieval (Terra Mariana), dentro do Sacro Império.
Saaremaa passou a ser dividida entre a Ordem dos Irmãos da Espada (depois integrada à Ordem Teutônica) e o bispado de Ösel-Wiek, criado em 1228, um principado eclesiástico que abrangia as atuais Saare, Hiiu e Lääne e parte de Pärnu. O novo poder impôs sua religião e sua ordem social, encheu a ilha de igrejas de pedra — a de Valjala é a mais antiga da Estônia ainda em uso — e iniciou, já no século XIV, a construção do castelo de Kuressaare como sede episcopal na ilha.
A submissão não apagou o espírito independente dos ilhéus. Em 1343, eclodiu em todo o norte da Estônia e nas ilhas a Revolta da Noite de São Jorge (Jüriöö ülestõus), um levante dos estonianos contra os senhores alemães e dinamarqueses que os haviam conquistado e contra a religião cristã imposta.
Em Saaremaa, a revolta foi especialmente violenta. Em 24 de julho de 1343, os oeselianos mataram todos os alemães da ilha, afogaram os clérigos e cercaram o castelo da Ordem em Pöide, que se rendeu depois de oito dias de cerco e foi arrasado. Durante algum tempo, a ilha voltou às mãos de seus habitantes. Mas a resposta chegou pelo mesmo caminho da conquista: em fevereiro de 1344, o mestre Burchard von Dreileben atravessou o mar congelado com seu exército, tomou as fortalezas oeselianas e enforcou Vesse, o líder dos rebeldes. No inverno de 1345, o exército cristão voltou a castigar a ilha, saqueando e incendiando durante dias até que os oeselianos pediram a paz, entregaram reféns e aceitaram demolir suas fortalezas.
A revolta, embora tenha fracassado, ficou gravada na memória estoniana como um dos grandes episódios de resistência contra a dominação estrangeira, e Saaremaa como um de seus cenários mais sangrentos. Em 1346, depois desses acontecimentos, o rei da Dinamarca vendeu seus domínios no norte da Estônia à Ordem Teutônica.
Com a Reforma e a Guerra da Livônia (século XVI), o velho mundo do bispado desmoronou. Em 1559, o último bispo de Ösel-Wiek vendeu seus domínios insulares à Dinamarca, que assumiu o controle de Saaremaa e do castelo de Kuressaare. A ilha virou, assim, peça no tabuleiro de xadrez das grandes potências do Báltico e, ao longo dos séculos seguintes, trocou de mãos várias e várias vezes.
Depois da Paz de Brömsebro (1645), que pôs fim à guerra entre a Suécia e a Dinamarca-Noruega, Saaremaa passou para a Suécia. O período sueco deixou marcas na administração, na igreja luterana e na vida rural. Mas a Grande Guerra do Norte (1700-1721) mudou tudo de novo: a Suécia foi derrotada pela Rússia e, pela Paz de Nystad (1721), Saaremaa e toda a Estônia foram incorporadas ao Império Russo, dentro do qual a ilha — com o nome de Ösel — permaneceu por mais de dois séculos, governada na prática por uma nobreza latifundiária de origem alemã-báltica.
Sob o domínio russo, Kuressaare (Arensburg, em alemão) se desenvolveu como uma pequena cidade e, a partir do início do século XIX, como estância balneária: os banhos de lama atraíram a aristocracia do império. A população camponesa estoniana, porém, continuou submetida à servidão até as reformas do século XIX, vivendo de cereais, pesca e pecuária em uma paisagem de moinhos, igrejas de pedra e aldeias com telhado de palha que chegou, em boa parte, até os dias de hoje.
O século XX foi especialmente duro para Saaremaa. Depois de séculos de domínio russo e alemão-báltico, a ilha passou a fazer parte da Estônia independente, nascida em 1918. Mas essa independência durou pouco: em 1940, a União Soviética ocupou a Estônia; em 1941, a Alemanha nazista a invadiu; e em 1944, o Exército Vermelho a reconquistou.
A reconquista soviética de Saaremaa, no outono de 1944 (a chamada operação Moonsund), foi duríssima. Os alemães em retirada tentaram resistir na estreita e defensável península de Sõrve, no sudoeste da ilha. Ali foram travados combates ferozes durante semanas; a batalha noturna de Tehumardi, em 8 de outubro de 1944, perto de Salme, foi uma das mais sangrentas de toda a guerra na Estônia, com luta corpo a corpo no escuro. Os alemães finalmente evacuaram Sõrve — e, com ela, toda a ilha — entre 23 e 24 de novembro de 1944. Hoje, monumentos, cemitérios de guerra e restos de fortificações se espalham pela península como testemunhas daquela tragédia.
O pós-guerra trouxe outra provação: como território fronteiriço e estratégico do Báltico soviético, Saaremaa virou zona militar fechada durante quase toda a ocupação da URSS. Para visitá-la era preciso uma autorização especial, e até muitos estonianos do continente não podiam ir livremente. Esse isolamento, paradoxalmente, ajudou a preservar a natureza e o patrimônio rural da ilha, que ficou à margem da industrialização.
Com a restauração da independência da Estônia em 1991, Saaremaa deixou de ser zona militar fechada e se abriu para o mundo. Aquele isolamento da época soviética deixou uma herança inesperada: uma ilha com a natureza e as aldeias tradicionais notavelmente preservadas, sem grandes indústrias nem loteamentos, que se tornou um dos destinos turísticos mais queridos da Estônia moderna.
Hoje, Saaremaa vive do turismo, da agricultura, da pesca e de uma produção artesanal em plena expansão — cerveja, sidra, pão preto, laticínios — que fez da 'marca Saaremaa' sinônimo de qualidade e autenticidade em todo o país. Kuressaare recuperou sua tradição balneária com modernos hotéis-spa, e a ilha atrai todo verão estonianos, finlandeses e viajantes em busca de natureza, tranquilidade e patrimônio: o castelo, a cratera de Kaali, os moinhos de Angla, os faróis e as igrejas medievais.
A ilha mantém uma identidade própria muito marcante, com seu dialeto, seu humor, suas tradições e aquele ritmo tranquilo tão característico. Os saarlased continuam se sentindo, com orgulho, um pouco 'à parte' do resto da Estônia, herdeiros distantes daqueles oeselianos que um dia dominaram o Báltico. Percorrer Saaremaa é viajar por uma Estônia insular, serena e profundamente enraizada, onde a história — de vikings, cruzados, bispos, impérios e guerras — continua presente em cada moinho, cada farol e cada muro de pedra.