Tartu é o coração intelectual da Estônia: a cidade universitária mais antiga do país, jovem, culta e cheia de vida, às margens do rio Emajõgi, no sul do país. Sede da Universidade de Tartu desde 1632, foi durante séculos o motor do pensamento e do despertar nacional estoniano, e hoje continua sendo uma cidade de estudantes, museus, cafés e festivais, com um ar descontraído que a diferencia da elegante Tallinn.
Em 2024, Tartu foi Capital Europeia da Cultura, o que renovou sua cena artística e seus espaços públicos. Seu centro histórico gira em torno da praça da Prefeitura, com a famosa fonte dos estudantes se beijando, e da colina verde de Toomemägi, onde convivem as ruínas da catedral medieval e os prédios clássicos da universidade. Ao lado, o bairro de casas de madeira de Supilinn e a cena criativa do antigo distrito industrial de Aparaaditehas completam uma cidade em escala humana e com muita personalidade.
Este guia percorre Tartu com olhar prático: como chegar de trem ou ônibus a partir de Tallinn, o que ver (a Universidade e sua história, os grandes museus como o Museu Nacional da Estônia e o centro de ciências AHHAA, a colina de Toomemägi, Supilinn), onde dormir e comer e como aproveitar o clima estudantil. Um destino ideal para quem busca cultura, museus, boa comida e o pulso jovem da Estônia.
Tartu nasceu como um forte dos antigos estonianos na colina de Toomemägi e já aparece mencionada em 1030 como Yuryev, fundada pelo príncipe Yaroslav de Kiev. Conhecida em alemão como Dorpat, foi sede episcopal e cidade da Hansa na Idade Média, e em 1632 o rei Gustavo Adolfo da Suécia fundou ali sua universidade, que fez de Tartu o berço intelectual do país. Foi palco do despertar nacional estoniano no século XIX e aqui foi assinado, em 1920, o Tratado de Tartu, que reconheceu a independência da Estônia. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Tartu começa na colina de Toomemägi, onde os antigos estonianos, povo fino-úgrico destas terras, ergueram muito cedo um forte de madeira chamado Tarbatu. A posição era imbatível: uma elevação sobre o rio Emajõgi, no cruzamento das rotas do sul da Estônia, que dominava o território e o comércio fluvial. As escavações arqueológicas indicam um assentamento fortificado na colina já no primeiro milênio, o que faz de Tartu um dos lugares habitados mais antigos da Estônia.
O primeiro registro escrito chega em 1030. Segundo as crônicas russas, nesse ano o príncipe Yaroslav, o Sábio, da Rus de Kiev, conquistou o forte estoniano e fundou ali uma praça-forte à qual deu o nome de Yuryev, por seu nome cristão Yuri (Jorge). É a primeira menção documentada da cidade e uma das datas de fundação que Tartu reivindica como sua. O domínio de Kiev, no entanto, não durou muito, e o forte voltou às mãos dos estonianos.
Nos séculos seguintes, Tarbatu continuou sendo um centro dos estonianos do sul, até que, no século XIII, a chegada das Cruzadas do Norte mudou para sempre o destino do lugar. Sobre a velha colina fortificada dos estonianos surgiria uma cidade cristã de senhores estrangeiros, e o nome germânico de Dorpat começaria a se impor nas crônicas.
No início do século XIII, a região do sul da Estônia foi submetida e cristianizada à força durante as Cruzadas do Norte, a campanha com a qual cruzados alemães e a Ordem dos Irmãos da Espada conquistaram o Báltico oriental pagão. Tarbatu caiu em 1224, depois de um cerco duro, e sobre a colina foi fundado o bispado de Dorpat, um dos estados eclesiásticos da Livônia medieval, com sua catedral e seu castelo episcopal.
Aos pés da colina cresceu uma próspera cidade de mercadores e artesãos alemães. Dorpat entrou para a Liga Hanseática, a grande rede comercial do norte da Europa, e prosperou como ponto de passagem do comércio entre a Rússia (Novgorod, Pskov) e as cidades do Báltico e do mar do Norte. Foram erguidas igrejas góticas de tijolo — como a grande catedral de Tartu, hoje em ruínas, e a igreja de São João, famosa por suas figuras de terracota — e a cidade conquistou direitos e muralhas.
Durante quase três séculos, Dorpat foi uma cidade hanseática rica e cosmopolita, dominada por sua elite germano-báltica, enquanto a população estoniana trabalhava a terra e os ofícios. Esse caráter de cidade alemã do Báltico, com seu patriciado mercantil e seu bispo, marcaria Tartu até bem adiante na Idade Moderna, quando as guerras entre as grandes potências do norte puseram fim à velha ordem livoniana.
O século XVI trouxe o fim do velho mundo livoniano. A Reforma protestante varreu os conventos e arruinou a catedral, e a longa e devastadora Guerra da Livônia (1558-1583) transformou Dorpat em um prêmio disputado entre Rússia, Polônia-Lituânia e Suécia. A cidade mudou de mãos várias vezes, sofreu cercos, saques e epidemias, e perdeu boa parte do seu antigo esplendor hanseático. Por fim, no início do século XVII, o sul da Estônia ficou sob domínio do Império Sueco.
Foi justamente sob a Suécia que Tartu viveu o fato que a definiria para sempre. Em 1632, o rei Gustavo II Adolfo da Suécia fundou na cidade a Academia Gustaviana, uma universidade nos moldes da de Uppsala, a segunda do reino sueco e a mais antiga de toda a Estônia. Nascia assim a vocação intelectual de Tartu, que desde então seria, antes de tudo, uma cidade universitária.
As guerras seguintes, principalmente a Grande Guerra do Norte (1700-1721) entre a Suécia e a Rússia de Pedro, o Grande, interromperam várias vezes a vida da universidade e castigaram duramente a cidade: houve deportações de moradores, incêndios e destruição. Com a vitória russa, a Estônia inteira passou para o Império Russo. A universidade ficou fechada por quase um século, mas a semente do saber já estava plantada em Tartu, e voltaria a brotar com força no século XIX.
Em 1802, sob o Império Russo, a universidade de Tartu (então Dorpat) reabriu suas portas e se tornou uma instituição de prestígio europeu, com ensino em alemão e estudantes e professores de todo o Báltico e da Rússia. Ali trabalhou, entre outros, o astrônomo Friedrich Georg Wilhelm von Struve, cujo arco geodésico — o Arco Geodésico de Struve, medido a partir do observatório de Toomemägi — é hoje Patrimônio Mundial da UNESCO. A cidade se encheu de vida científica e estudantil.
Mas o papel mais decisivo de Tartu no século XIX foi outro: tornar-se o berço do despertar nacional estoniano. Numa época em que a língua e a cultura estonianas eram desprezadas pelas elites alemãs e russas, em Tartu floresceram as sociedades culturais que reivindicaram a identidade do povo estoniano. Em 1865 foi fundada a sociedade Vanemuine, e em 1869 a cidade sediou o primeiro grande Festival da Canção estoniano, um acontecimento fundador do sentimento nacional que é celebrado até hoje e é Patrimônio Imaterial da UNESCO. Escritores, folcloristas e ativistas fizeram de Tartu o centro do movimento.
Esse fermento cultural desembocou, depois da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, na independência da Estônia. E foi de novo Tartu a cidade protagonista: em 2 de fevereiro de 1920 foi assinado ali o Tratado de Tartu, pelo qual a Rússia soviética reconhecia a independência da República da Estônia e renunciava para sempre a qualquer direito sobre seu território. Tartu ficava assim ligada para sempre ao nascimento do Estado estoniano.
As duas décadas da primeira república (1918-1940) foram uma época de ouro para Tartu: capital universitária de um país independente, com uma vida cultural intensa, editoras, teatro e ciência em língua estoniana. Mas a Segunda Guerra Mundial trouxe a tragédia. Em 1940 a União Soviética ocupou e anexou a Estônia; em 1941 foi a vez da Alemanha nazista; e em 1944 o Exército Vermelho a reconquistou. Tartu ficou no meio dos combates.
Os bombardeios e os combates de 1941 e, sobretudo, de 1944 destruíram grande parte do centro histórico de Tartu, incluindo sua emblemática ponte de pedra sobre o Emajõgi, do século XVIII, que foi explodida durante a retirada. Muitos edifícios antigos se perderam para sempre, e à destruição material somou-se o horror das ocupações: deportações em massa para a Sibéria, execuções e repressão, tanto sob o terror soviético quanto sob a ocupação alemã, que assassinou a comunidade judaica da cidade.
Durante as décadas soviéticas (1944-1991), Tartu viveu uma situação singular: por causa de sua grande base aérea militar, foi declarada 'cidade fechada', proibida para estrangeiros. A universidade continuou funcionando e manteve viva a cultura estoniana, mas sob controle e russificação. Mesmo assim, Tartu conservou seu espírito: foi um dos focos da resistência intelectual e, nos anos 1980, do movimento que levaria à recuperação da independência.
Com a recuperação da independência estoniana em 1991, Tartu se abriu de novo para o mundo e retomou com força seu papel de capital intelectual do país. Sua universidade, livre outra vez, voltou a ser uma das mais prestigiadas da região báltica e o grande ímã de estudantes da Estônia. A cidade restaurou seu patrimônio, revitalizou bairros como Supilinn e transformou antigos espaços industriais, como a fábrica Aparaaditehas, em polos criativos cheios de ateliês, cafés e galerias.
Hoje Tartu é uma cidade de cerca de 95.000 habitantes, jovem, culta e surpreendentemente vibrante para o seu tamanho. Sua vida gira em torno da universidade e de uma oferta notável de museus — o Museu Nacional da Estônia (ERM), inaugurado em 2016 num edifício espetacular sobre uma antiga pista militar soviética; o centro de ciências AHHAA; o Museu da Universidade —, festivais, teatro e uma animada cena gastronômica e noturna. A praça da Prefeitura, com sua fonte dos estudantes se beijando, virou o símbolo dessa energia jovem.
O reconhecimento veio em 2024, quando Tartu, junto com o sul da Estônia, foi Capital Europeia da Cultura. A programação renovou espaços públicos, impulsionou a arte e projetou a cidade na Europa. Fiel à sua história, Tartu continua sendo o que foi desde 1632: a cidade do saber e da cultura estoniana, um lugar onde o peso da história convive com o pulso de milhares de estudantes e com um olhar aberto e contemporâneo.