Kuressaare é a capital de Saaremaa e uma das cidades pequenas mais encantadoras da Estônia: serena, bem cuidada e dominada por um dos castelos medievais mais bem conservados do Báltico. Localizada na costa sul da ilha, é ao mesmo tempo a porta de entrada para explorar Saaremaa e um destino com personalidade própria, entre sua fortaleza episcopal, seu centro histórico de casas baixas e sua longa tradição balneária de banhos de lama.
O coração da cidade é o castelo episcopal, uma imponente fortaleza quadrada de pedra calcária cercada por fosso e bastiões, que abriga o Museu de Saaremaa e oferece o passeio mais bonito da ilha pelo parque ao redor. Em volta dele, Kuressaare exibe uma praça barroca com sua prefeitura, igrejas, casas de madeira, uma orla animada com marina e uma oferta notável de hotéis-spa, herdeiros dos banhos que no século XIX atraíram a aristocracia russa.
Este guia percorre Kuressaare com um olhar prático: como chegar de ferry ou ônibus a partir do continente, o que ver (o castelo e seu museu, a praça e a prefeitura, os históricos banhos de lama, a orla, as igrejas, as casas-museu), onde dormir e comer, e como usá-la como base para toda Saaremaa. Um destino ideal para quem procura história medieval, spas, clima insular tranquilo e uma cidade em escala humana.
Kuressaare nasceu em torno do seu castelo, erguido a partir do século XIV pelo bispado de Ösel-Wiek como sede episcopal na ilha de Saaremaa. Conhecida em alemão como Arensburg, recebeu direitos de cidade em 1563 e passou das mãos dinamarquesas às suecas e, a partir de 1721, às russas, sempre em torno de sua fortaleza. Entre 1825 e 1840 se desenvolveu como estância balneária graças aos seus banhos de lama, que atraíram a aristocracia do Império Russo. Viveu as ocupações e guerras do século XX — incluindo a execução de civis no pátio do castelo em 1941 — e as décadas de isolamento soviético, quando Saaremaa foi zona militar fechada. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Kuressaare é, antes de tudo, uma cidade de castelo. Sua história começa com a fortaleza que dá nome e sentido a todo o resto. Depois da conquista cruzada de Saaremaa em 1227 e da criação do bispado de Ösel-Wiek em 1228, a ilha ficou sob o poder de um príncipe-bispo, e com o tempo os bispos precisaram de uma sede forte em seu território insular. Assim, a partir da segunda metade do século XIV — a primeira menção escrita ao castelo é da década de 1380 —, a Ordem Teutônica ergueu para os bispos de Saare-Lääne uma imponente fortaleza de pedra na costa sul da ilha: o castelo de Arensburg, hoje castelo de Kuressaare.
O castelo foi construído como um castelo-convento quadrado, com torres, capela, refeitório e dependências em volta de um pátio, seguindo o modelo das ordens militares do Báltico. Sua solidez e sua função defensiva e administrativa fizeram dele o centro do poder episcopal em Saaremaa, um dos castelos mais importantes do bispado até a dissolução deste durante a Guerra da Livônia.
À sombra da fortaleza foi crescendo um pequeno povoado de artesãos, comerciantes e servidores do bispo, que com o tempo se tornaria a cidade de Kuressaare. A relação entre castelo e cidade marcou todo o seu desenvolvimento: durante séculos, a vida, a economia e o destino de Kuressaare estiveram ligados a quem controlasse, em cada momento, a velha fortaleza episcopal.
Com a Reforma e a Guerra da Livônia (1558-1583), o bispado de Ösel-Wiek desmoronou. Em 1559, o último bispo vendeu seus domínios insulares à Dinamarca, que assumiu o controle do castelo e da ilha. Foi nessa época dinamarquesa que o povoado ao pé da fortaleza deu o salto para cidade: em 1563 Kuressaare — conhecida pelos alemães bálticos como Arensburg — obteve direitos de cidade, com seu próprio governo municipal, sua praça e seu comércio.
Como toda Saaremaa, a cidade foi depois uma peça no tabuleiro das guerras entre as potências do Báltico. Após a paz de Brömsebro (1645), que encerrou a guerra entre Suécia e Dinamarca, Kuressaare passou para mãos suecas. O período sueco fortaleceu a administração, a igreja luterana e a vida urbana; as fortificações do castelo foram ampliadas e modernizadas, cercando-o com o anel de bastiões de terra em forma de estrela e com o fosso que hoje lhe dão seu aspecto característico, pensados para resistir à artilharia moderna.
A elegante prefeitura barroca (Raekoda) da praça, com seus leões de pedra, e a antiga casa da balança (Vaekoda) datam dessa época de esplendor comercial do século XVII, quando Kuressaare consolidou sua fisionomia de pequena cidade báltica organizada em torno do castelo, da praça e do porto.
A Grande Guerra do Norte (1700-1721) mudou de novo o dono da ilha: a Suécia foi derrotada pela Rússia e, pela paz de Nystad (1721), Saaremaa e Kuressaare foram incorporadas ao Império Russo, dentro do qual a cidade — capital da ilha de Ösel — permaneceria por dois séculos. O castelo perdeu sua função militar; em 1836, após a construção da fortaleza de Bomarsund nas Åland, a guarnição russa de Kuressaare se retirou, e a velha fortaleza ficou como um monumento do passado.
Mas justamente aí a cidade encontrou uma nova vocação que a tornaria famosa: a estância de águas. Por volta de 1825-1840 começou-se a explorar a lama marinha curativa da região, à qual se atribuíam propriedades para tratar reumatismos e outros males. Kuressaare virou uma estância termal da moda, frequentada pela aristocracia e pela burguesia do Império Russo para 'tomar os banhos de lama'. Foram construídas casas de banho, vilas de veraneio e o elegante Kuursaal, um grande pavilhão de madeira no parque do castelo. A cidade-castelo se transformou também em cidade-estância, com um ar distinto de resort báltico que ainda conserva.
Essa dupla identidade — fortaleza medieval e estância termal — define Kuressaare até hoje: de um lado o castelo, austero e maciço; do outro, a cultura do bem-estar, os banhos de lama e os hotéis-spa, herdeiros diretos daquela tradição do século XIX.
O século XX trouxe a Kuressaare, como a toda a Estônia, a tempestade das guerras e das ocupações. Depois de séculos de domínio russo, a cidade passou a fazer parte da Estônia independente proclamada em 1918. Mas essa independência foi rompida em 1940 com a ocupação soviética, seguida em 1941 pela invasão alemã e, em 1944, pela reconquista soviética.
O castelo de Kuressaare, símbolo da cidade, também foi palco da violência daqueles anos. Em 1941, durante a primeira ocupação soviética, as forças de ocupação executaram cerca de 90 civis no pátio do castelo, um dos episódios mais sombrios da história da cidade, lembrado hoje com um memorial. A reconquista soviética de Saaremaa no outono de 1944 foi duríssima, com combates ferozes na ilha, especialmente na península de Sõrve, mais a oeste.
Após a guerra, com a Estônia novamente sob a União Soviética, Kuressaare e toda Saaremaa viraram zona militar de fronteira fechada. Durante décadas era preciso uma autorização especial para visitar a ilha, e a cidade — rebatizada por um tempo de Kingissepa, em homenagem a um dirigente comunista estoniano nascido ali — viveu o isolamento e o controle típicos da fronteira ocidental da URSS. Esse isolamento, no entanto, preservou seu patrimônio e seu clima de outra época.
Com a recuperação da independência da Estônia em 1991, Kuressaare voltou ao seu nome histórico e se abriu de novo para o mundo. A cidade retomou com força sua vocação de estância: hoje é um dos grandes destinos de spa do país, com modernos hotéis-spa que resgatam a velha tradição da lama marinha. O castelo, magnificamente conservado, abriga o Museu de Saaremaa e se tornou o grande emblema turístico da ilha, cercado por seu parque, seu fosso e seus bastiões.
Kuressaare é hoje uma capital insular pequena e tranquila, com cerca de 13.000 habitantes, que combina o patrimônio medieval, a herança das águas e uma vida cultural calma, mas viva, com festivais de verão, concertos no castelo e no Kuursaal, e uma gastronomia ilhéu de prestígio crescente, apoiada no produto local: peixe, cordeiro, pão preto e cerveja artesanal de Saaremaa.
Para o viajante, a cidade é ao mesmo tempo destino e base: dá para passar um dia percorrendo o castelo, a praça barroca, o centro histórico e a orla, e usá-la como ponto de partida para descobrir o resto de Saaremaa. Em Kuressaare, a longa história da ilha — bispos, dinamarqueses, suecos, russos, guerras e ocupações — se resume e se torna visível em um só lugar: o velho castelo refletido, sereno, na água do seu fosso.