Rakvere é um dos passeios mais divertidos e familiares do norte da Estônia: uma cidade tranquila do nordeste dominada pela colina de Vallimägi e pelas imponentes ruínas do seu castelo medieval, que em vez de ficar só como um monte de pedras se reinventou como um vibrante centro temático da Idade Média. Em suas muralhas, torres e porões, o visitante pode se vestir de cavaleiro, atirar com uma besta, visitar uma câmara de tortura, descer ao 'inferno', experimentar a vida de um artesão medieval ou comer em uma taverna com receitas de época. É história com imaginação, ideal para ir em família.
Além do castelo, Rakvere surpreende com seu símbolo mais famoso: o 'Tarvas', uma gigantesca estátua de bronze de um auroque (o boi selvagem europeu, já extinto), obra do escultor Tauno Kangro inaugurada em 2002 para celebrar os 700 anos da cidade. Com 7 metros de comprimento, 4 de altura e 7 toneladas, é considerada a maior estátua de um animal do Báltico, e monta guarda ao lado do castelo, no alto da colina. A cidade tem ainda uma vida cultural animada, bons museus, teatro e um clima relaxado, bem longe da agitação da capital.
Este guia percorre Rakvere com um olhar prático: o que ver (o castelo temático de Vallimägi, a estátua do Tarvas, o centro da cidade e seus museus), quanto custam os ingressos verificados, como chegar de Tallinn ou Narva de trem ou ônibus, quando ir (no verão, com o castelo a todo vapor) e como combinar com Lahemaa ou com a rota para o nordeste. Uma parada perfeita para quem procura um programa diferente, com castelo medieval, boas fotos e clima tranquilo, a pouco mais de uma hora de Tallinn.
No lugar de Rakvere já existia um antigo forte estoniano (linnus) antes das cruzadas, em uma colina estratégica do norte do país. Depois da conquista dinamarquesa e depois alemã no século XIII, a Ordem Livoniana ergueu aqui um castelo de pedra a partir do século XIV, que deu origem à vila medieval, conhecida em alemão como Wesenberg. A cidade e o castelo mudaram de mãos várias vezes entre dinamarqueses, a Ordem, suecos, poloneses e russos, e sofreram muito com as guerras, sobretudo a Guerra da Livônia (século XVI): o castelo acabou em ruínas. Já no Império Russo e depois na Estônia moderna, Rakvere cresceu como centro comercial e administrativo do nordeste e, nas últimas décadas, transformou as ruínas do castelo em um centro temático medieval de sucesso. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The maritime north where the country's history begins: the Hanseatic Reval of the capital, the manor houses of Lahemaa and the border with Russia at Narva.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de ser erguido o castelo de pedra que hoje domina Rakvere, a colina de Vallimägi já era um lugar habitado e fortificado. Os antigos estonianos, povo fino-úgrico que habitava estas terras do norte do Báltico, construíram aqui uma fortaleza de madeira e terra (linnus) sobre o promontório, aproveitando sua posição elevada e estratégica para dominar o território e as rotas do nordeste. As escavações arqueológicas encontraram na colina vestígios de povoamento que remontam à época pré-histórica e aos primeiros séculos da nossa era.
A tradição associa a este lugar o antigo nome de Tarvanpea, que costuma ser interpretado como 'cabeça de auroque' (de tarvas, o auroque ou boi selvagem, e pea, 'cabeça'). O auroque, aquele enorme bovino selvagem hoje extinto que povoava as florestas da Europa, ficou assim ligado desde tempos muito antigos à identidade do lugar, algo que a cidade resgataria séculos depois com a gigantesca estátua do Tarvas. Esse vínculo entre o local e o animal selvagem é uma das marcas de identidade mais antigas de Rakvere.
Quando chegaram as Cruzadas do Norte, no século XIII, esta fortaleza estoniana foi uma das muitas que caíram diante dos invasores cristãos. A conquista marcaria o início de uma nova era, em que sobre a velha colina fortificada dos estonianos seria erguido um castelo dos senhores estrangeiros, e a seus pés nasceria uma vila medieval.
No começo do século XIII, a região do norte da Estônia virou palco das Cruzadas do Norte, a campanha com a qual dinamarqueses e cruzados alemães submeteram e cristianizaram à força os povos pagãos do Báltico oriental. Rakvere e sua região, a antiga Virumaa, caíram primeiro sob domínio dinamarquês, no contexto da conquista da Estônia pelo rei Valdemar II. Em alemão, a vila que foi surgindo seria conhecida como Wesenberg, nome com que aparece nas fontes durante séculos.
Em 1346, o rei da Dinamarca vendeu suas possessões do norte da Estônia à Ordem Teutônica, e a região passou para a órbita da Ordem da Livônia (o ramo báltico da Ordem Teutônica). Foi essa ordem militar-religiosa que, sobre a velha colina fortificada, construiu ao longo dos séculos XIV e XV o castelo de pedra cujas ruínas conhecemos hoje: uma fortaleza da Ordem (Ordensburg) com muralhas, torres e dependências, pensada para controlar o território e proteger a rota comercial.
À sombra do castelo cresceu a vila de Wesenberg, que em 1302 recebeu os direitos de cidade (sob o 'direito de Lübeck'), o que a transformou em uma das cidades históricas da Estônia. Foi justamente esse aniversário — os 700 anos da concessão dos direitos de cidade — que se comemorou em 2002 com a inauguração da estátua do Tarvas. A Rakvere medieval era uma pequena cidade de mercadores e artesãos, dominada por seu castelo, em um cruzamento de caminhos do norte estoniano.
A posição estratégica de Rakvere, que a havia tornado importante, foi também a sua desgraça. Ao longo dos séculos, a cidade e seu castelo ficaram presos repetidas vezes nas guerras que devastaram o Báltico oriental, trocando de mãos entre as diferentes potências que disputavam a Estônia. O golpe decisivo veio com a Guerra da Livônia (1558-1583), o longo e devastador conflito em que Rússia, Suécia, Polônia-Lituânia e Dinamarca lutaram pelos restos do Estado da Ordem da Livônia, que se desmoronava.
Durante aquela guerra, Rakvere foi tomada e perdida várias vezes; as tropas russas de Ivã, o Terrível, ocuparam a região, e depois o castelo passou para mãos suecas e polonesas. Os combates, cercos e saques castigaram duramente a fortaleza. As guerras seguintes entre Suécia e Rússia, em especial a Grande Guerra do Norte (1700-1721), e as epidemias que a acompanharam terminaram de arruinar o castelo, que ficou abandonado como uma ruína imponente sobre a colina.
Com a incorporação da Estônia ao Império Russo após a Grande Guerra do Norte, Rakvere (para os russos, Rakobor ou algo parecido) deixou para trás sua função militar. O castelo não foi reconstruído e se transformou em um romântico conjunto de ruínas, enquanto a vida se transferia para a cidade que se estendia a seus pés. Nos séculos seguintes, essas ruínas seriam o pano de fundo do crescimento de uma nova Rakvere, não mais militar, e sim comercial e administrativa.
Sob o Império Russo, ao longo dos séculos XVIII e XIX, Rakvere foi se transformando em uma tranquila cidade do interior do norte da Estônia, centro comercial e administrativo da região de Virumaa. A chegada da ferrovia no século XIX — a linha que ligava Tallinn (Reval) a São Petersburgo passava pela região — impulsionou seu desenvolvimento, conectando-a às grandes cidades do Império e facilitando o comércio dos produtos agrícolas da área. A cidade cresceu com casas de madeira e edifícios de estilo, muitos dos quais ainda estão preservados no centro urbano.
O 'despertar nacional' estoniano do século XIX também teve eco em Rakvere, onde floresceram sociedades culturais, corais e educativas em língua estoniana. Quando a Estônia proclamou sua independência em 1918, Rakvere se consolidou como uma das cidades importantes do país. Durante as duas décadas da primeira república (1918-1940), viveu uma época de prosperidade e vida cultural, da qual dá testemunho, por exemplo, a Casa do Cidadão, que recria o lar de uma família burguesa da época.
Como o resto da Estônia, Rakvere sofreu a tragédia do século XX: a ocupação soviética a partir de 1940, a ocupação alemã de 1941-1944 e novamente a anexação à União Soviética até 1991, com suas deportações, sua coletivização e sua russificação. Pela proximidade com a região mineira e industrial do nordeste (Kohtla-Järve, Narva), a região recebeu população de língua russa, algo que ainda hoje se nota na cidade. Apesar de tudo, Rakvere preservou seu caráter e seu patrimônio, à espera de tempos melhores.
Com a recuperação da independência estoniana em 1991, Rakvere encontrou um jeito de transformar sua grande ruína em um trunfo. Em vez de deixar o castelo como um simples monte de pedras, a cidade apostou em dar vida a ele, transformando-o em um centro temático da Idade Média: um espaço onde o visitante não só observa, mas participa, se fantasia, experimenta armas e ofícios medievais e percorre cantos tão pitorescos quanto uma câmara de tortura, um 'inferno' ou a oficina de um alquimista. A aposta deu certo e fez do castelo de Rakvere uma das atrações para a família mais originais da Estônia.
O ano de 2002 foi decisivo: ao se completarem 700 anos da concessão dos direitos de cidade, foi inaugurada na colina de Vallimägi a colossal estátua do Tarvas, obra do escultor Tauno Kangro. Com suas 7 toneladas e sua figura de auroque selvagem, a estátua resgatou o vínculo antiquíssimo entre o lugar (a 'cabeça de auroque', Tarvanpea) e o animal, e virou imediatamente o novo símbolo da cidade, presente em cartões-postais, suvenires e na identidade local.
Hoje Rakvere é uma cidade de cerca de 15.000 habitantes, tranquila e culta, com teatro próprio, museus, um moderno complexo esportivo e uma vida cultural ativa, orgulhosa de seu castelo e de seu Tarvas. Combina o peso de sua história medieval com um presente acolhedor e autêntico, longe do agito turístico de Tallinn. Para o viajante, é a prova de como uma velha fortaleza em ruínas pode voltar a se encher de vida — e de imaginação — séculos depois de as guerras a terem abandonado.