Sacramento é a capital da Califórnia e uma daquelas cidades que surpreendem pela mistura de história e modernidade. Fundada no embalo da corrida do ouro, hoje combina o centro histórico de Old Sacramento — com suas calçadas de madeira, seus prédios do século XIX e a linha da primeira ferrovia transcontinental — com uma cena gastronômica que a transformou na 'capital americana do farm-to-fork' (da fazenda à mesa), graças à riqueza agrícola do Vale Central que a cerca.
O coração cívico é o Capitólio do Estado da Califórnia, um imponente prédio neoclássico cercado por um parque arborizado, onde funciona o governo estadual. A poucos quarteirões pulsam um downtown revitalizado, o bairro histórico de Midtown, com seus restaurantes e galerias, e a confluência dos rios Sacramento e American, perfeita para passear, andar de bicicleta ou navegar.
Este guia percorre o essencial de Sacramento com um olhar prático: como visitar o Capitólio e os museus da corrida do ouro e da ferrovia, onde comer bem aproveitando a fartura agrícola da região, como se locomover e que bate-voltas fazer. É uma capital em escala humana, acessível e com muita história para contar.
Antes da chegada dos europeus, a região era habitada pelos nisenan e outros povos maidu. Em 1839, o suíço John Sutter fundou perto daqui a colônia de Nova Helvécia (New Helvetia) e ergueu o Sutter's Fort. O destino da cidade mudou para sempre em janeiro de 1848, quando foi descoberto ouro em Coloma, às margens do rio American, a poucos quilômetros: explodiu a corrida do ouro da Califórnia (Gold Rush), e milhares de garimpeiros — os 'forty-niners' de 1849 — transformaram Sacramento no grande porto fluvial e centro de abastecimento da região mineradora. A cidade cresceu a toda velocidade apesar de incêndios e enchentes, e em 1854 foi designada capital da Califórnia. Mais tarde, tornou-se o terminal oeste do Pony Express e, sobretudo, a ponta oeste da Primeira Ferrovia Transcontinental, inaugurada em 1869, impulsionada pelos 'Quatro Grandes' (Stanford, Huntington, Crocker e Hopkins). Essa herança ferroviária e mineradora se conserva hoje em Old Sacramento e no California State Railroad Museum. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The golden state of the Pacific: land of dozens of Native peoples and of the Franciscan missions, forged by the gold rush of 1849, today the largest economy in the United States and the cradle of Hollywood, Silicon Valley and legendary parks such as Yosemite and Sequoia.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de Sacramento existir, o vale onde os rios Sacramento e American se encontram era habitado havia milhares de anos pelos nisenan (um grupo do povo maidu) e por outros povos indígenas. Eles viviam em aldeias às margens dos rios, aproveitando a pesca do salmão, a caça, as bolotas dos carvalhos e um ambiente fértil. Seu mundo mudaria drasticamente com a chegada dos europeus e, sobretudo, dos colonos norte-americanos.
O primeiro assentamento de tipo europeu foi fundado em 1839 pelo suíço Johann (John) Sutter, um empreendedor que obteve do governo mexicano — a Califórnia fazia parte do México na época — uma enorme concessão de terras. Ali ele estabeleceu a colônia de Nova Helvécia (New Helvetia, 'Nova Suíça') e ergueu o Sutter's Fort, um forte de adobe que se tornou um movimentado centro de comércio, agricultura e pecuária, além de ponto de chegada dos pioneiros que cruzavam o continente pela rota da Califórnia.
Durante anos, o Sutter's Fort foi o coração da região e um refúgio para os colonos que chegavam exaustos depois de travessias terríveis, como a célebre e trágica expedição Donner. Mas o destino daquele pequeno império agrícola estava prestes a dar uma guinada de 180 graus por causa de uma descoberta que aconteceria bem perto dali, no rio American.
Em 24 de janeiro de 1848, James W. Marshall, enquanto construía uma serraria para Sutter em Coloma, às margens do rio American, encontrou pepitas de ouro. A tentativa de manter a descoberta em segredo fracassou: a notícia se espalhou como rastilho de pólvora e desencadeou a corrida do ouro da Califórnia, um dos maiores movimentos migratórios da história dos Estados Unidos. Ironicamente, a descoberta arruinou Sutter, cujas terras e trabalhadores foram atropelados pela avalanche de garimpeiros.
Em 1849 chegaram dezenas de milhares de pessoas de todo o país e do mundo — os famosos 'forty-niners', por causa do ano de 1849 — em busca de fortuna. Graças à sua localização na confluência dos rios e por ser um porto fluvial navegável a partir da baía de São Francisco, Sacramento se transformou quase da noite para o dia na grande cidade de abastecimento e porta de entrada para as áreas de mineração da Sierra Nevada. Comerciantes, transportadores e fornecedores fizeram tanta ou mais fortuna que muitos mineiros.
A cidade cresceu numa velocidade caótica, com ruas improvisadas, lojas, hotéis e saloons. A população disparou e, junto com o dinamismo, vieram também os problemas: incêndios devastadores e, sobretudo, as enchentes dos rios, que exigiriam decisões de engenharia extraordinárias nos anos seguintes.
O crescimento vertiginoso transformou Sacramento numa peça-chave do novo estado da Califórnia, incorporado aos Estados Unidos em 1850. Depois de passar por várias sedes provisórias, a capital estadual foi fixada em Sacramento em 1854 e, anos depois, foi construído o imponente Capitólio neoclássico que hoje domina o centro (concluído na década de 1870).
Mas a cidade pagava um preço por ficar à beira dos rios: as enchentes eram frequentes e às vezes catastróficas. As grandes cheias de 1861-1862, que chegaram a deixar boa parte da cidade debaixo d'água, levaram a uma decisão de engenharia notável: elevar em vários metros o nível de ruas e prédios inteiros do centro, além de reforçar os diques. Os antigos térreos viraram porões e passagens subterrâneas, que hoje podem ser percorridos nos famosos 'Underground Tours' de Old Sacramento.
Essa etapa consolidou Sacramento como um centro político, comercial e de transportes, com uma identidade própria forjada entre o ouro, os rios e a luta constante contra as águas. Além disso, a cidade se preparava para protagonizar outro capítulo decisivo da história norte-americana: a chegada da ferrovia.
Sacramento foi protagonista de uma das maiores façanhas de engenharia do século XIX: a Primeira Ferrovia Transcontinental. A Central Pacific Railroad, com sede na cidade, ficou encarregada de construir o trecho ocidental, que precisava atravessar a imponente barreira da Sierra Nevada. A obra começou em Sacramento em 1863 e avançou para o leste até se unir à Union Pacific em Promontory Summit (Utah), em maio de 1869, completando a ligação por trem entre as costas do Atlântico e do Pacífico.
Por trás do projeto estavam os chamados 'Quatro Grandes' (The Big Four): Leland Stanford, Collis Huntington, Charles Crocker e Mark Hopkins, comerciantes de Sacramento que ficaram imensamente ricos e poderosos. Stanford chegou a ser governador da Califórnia e fundou a Universidade Stanford. Sua mansão restaurada no centro e o California State Railroad Museum mantêm viva essa história.
A construção do trecho da Sierra foi duríssima e dependeu em grande parte do trabalho de milhares de operários chineses, cujo esforço e sacrifício foram decisivos e, por muito tempo, pouco reconhecidos. A ferrovia transformou a economia do oeste e firmou Sacramento como entroncamento de transportes. Antes disso, a cidade já tinha sido o terminal ocidental do Pony Express, o lendário serviço de correio a cavalo de 1860-1861.
Ao longo do século XX, Sacramento cresceu como capital administrativa de um estado cada vez mais poderoso e populoso. O governo estadual, junto com bases militares e, mais tarde, os setores de tecnologia e serviços, diversificou sua economia. O Vale Central que a cerca se consolidou como uma das regiões agrícolas mais produtivas do planeta, e a cidade se tornou seu mercado e centro logístico.
Nas últimas décadas, Sacramento revitalizou seu centro e sua orla. Old Sacramento foi restaurada e declarada Marco Histórico Nacional, preservando sua atmosfera da corrida do ouro. Bairros como Midtown floresceram com galerias, bares e restaurantes, e a inauguração da arena Golden 1 Center (casa do time da NBA Sacramento Kings) e do distrito DOCO deu novo fôlego ao downtown.
Apoiando-se na riqueza agrícola dos arredores, a cidade se reinventou como a capital norte-americana do movimento 'farm-to-fork' (da fazenda para a mesa), com uma cena gastronômica vibrante que é celebrada todo mês de setembro com um grande festival. Hoje Sacramento combina seu peso institucional, sua história pioneira e ferroviária e uma identidade culinária que a colocaram de novo no mapa do turismo californiano.