Kansas City é uma cidade surpreendente no coração dos Estados Unidos, dividida entre dois estados (a maior parte fica no Missouri e há uma cidade gêmea no Kansas, separadas pela divisa estadual). Famosa por duas paixões gastronômicas e culturais — o churrasco americano (barbecue) e o jazz —, é uma cidade acolhedora, com arquitetura elegante, inúmeras fontes (ela se gaba de ter mais fontes do que qualquer outra cidade, exceto Roma) e bulevares arborizados que lhe renderam o apelido de 'Cidade das Fontes'.
Para o viajante, Kansas City oferece uma combinação atraente de história, música, arte e, claro, comida. O histórico distrito de 18th & Vine foi um dos grandes centros do jazz do país e hoje abriga o American Jazz Museum e o Negro Leagues Baseball Museum. O Nelson-Atkins Museum of Art, com entrada gratuita, é um dos melhores museus do país. E o elegante Country Club Plaza, inspirado em Sevilha, é um charmoso distrito de compras e passeio.
Este guia percorre o essencial de Kansas City com um olhar prático: o lendário barbecue, a herança do jazz em 18th & Vine, os museus imperdíveis (vários gratuitos), as fontes e o Country Club Plaza, e como se locomover por uma cidade tranquila, com um bonde gratuito no centro e um calor humano que a torna muito agradável.
Surgida em meados do século XIX na confluência dos rios Missouri e Kansas, Kansas City cresceu como entreposto comercial e ponto de partida das grandes rotas de pioneiros rumo ao oeste (Santa Fé, Oregon, Califórnia). A ferrovia e os currais de gado a transformaram em um grande centro de processamento de carne, o que deu origem à sua célebre tradição de barbecue. Nos anos 20 e 30 foi uma capital do jazz, berço de nomes como Charlie Parker e Count Basie.
Ler a história completa ↓The 'gateway to the West': a crossroads of rivers and trails, the starting point of the pioneers and of Lewis and Clark, cradle of Kansas City jazz and of the blues, with St. Louis and its Gateway Arch.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Churrasco, jazz e fontes: três palavras que resumem Kansas City, e as três nasceram de um mesmo acidente geográfico. A cidade surgiu em meados do século XIX num ponto estratégico: a confluência do grande rio Missouri com o rio Kansas, no limite oeste do estado do Missouri, bem na borda da fronteira de um país em expansão. A região tinha sido território de povos indígenas e depois cenário do comércio de peles. Os primeiros povoados, como Westport e a 'Town of Kansas', nasceram em torno de embarcadouros e entrepostos comerciais à beira do rio.
A localização transformou rapidamente Kansas City numa porta de entrada para o oeste. Por aqui passavam e se abasteciam os milhares de pioneiros, comerciantes e colonos que partiam rumo ao oeste pelas grandes rotas terrestres da época: a Trilha de Santa Fé, a Trilha do Oregon e a da Califórnia, cujos sulcos de carroças ainda podem ser vistos em alguns pontos da região. A cidade prosperou como centro de abastecimento, transporte e comércio de fronteira, aproveitando tanto a navegação fluvial quanto as caravanas.
O nome da cidade vem do rio Kansas e, em última instância, do povo kansa (kaw), nativo da região, cujo nome costuma ser traduzido como 'povo do vento do sul'. À medida que o país se expandia para o oeste, Kansas City foi crescendo de um modesto povoado ribeirinho até virar uma próspera cidade comercial, lançando as bases de seu desenvolvimento posterior com a chegada da ferrovia, que a catapultaria à condição de grande metrópole do coração do país.
A chegada da ferrovia na segunda metade do século XIX transformou Kansas City num dos grandes centros comerciais do coração dos Estados Unidos. A construção da ponte Hannibal sobre o rio Missouri (1869) e a conexão ferroviária deram à cidade uma posição privilegiada para o transporte de mercadorias e, principalmente, de gado. Kansas City virou um enorme centro de currais e matadouros (os Kansas City Stockyards), atrás apenas de Chicago, onde se processavam milhões de cabeças de gado vindas das planícies do oeste.
Dessa intensa indústria da carne nasceu uma das marcas registradas mais famosas da cidade: o churrasco de Kansas City, o célebre barbecue. A fartura de carne e a presença de trabalhadores, muitos deles afro-americanos que migraram do sul, deram origem a uma rica tradição de defumação lenta. Pioneiros como Henry Perry, considerado o 'pai' do barbecue local, e depois Arthur Bryant, popularizaram o estilo que tornaria a cidade famosa no país inteiro.
O auge da ferrovia e da indústria também atraiu ondas de imigrantes e migrantes que deram à cidade seu caráter diverso. A prosperidade econômica financiou grandes projetos urbanos, parques, bulevares e as inúmeras fontes que lhe renderiam o apelido de 'Cidade das Fontes', num ambicioso plano de embelezamento do início do século XX.
As décadas de 1920 e 1930 foram a era de ouro cultural de Kansas City, sobretudo na música. Durante a Lei Seca, a cidade esteve sob o controle político da máquina de Tom Pendergast, que tolerava casas noturnas, salões de baile e bares onde a música e o álcool corriam soltos. Essa vida noturna, concentrada no distrito de 18th & Vine, transformou Kansas City numa das grandes capitais do jazz do país, com um estilo próprio (o 'Kansas City jazz'), marcado pelo swing e pelo blues.
Dos clubes de Kansas City surgiram ou se formaram lendas como o saxofonista Charlie 'Bird' Parker, nascido na região, o pianista e líder de banda Count Basie, a pianista e arranjadora Mary Lou Williams e muitos outros. O distrito de 18th & Vine também era o centro da vibrante comunidade afro-americana da cidade e sede das Ligas Negras de beisebol, numa época marcada pela segregação. Hoje essa dupla herança é preservada no American Jazz Museum e no Negro Leagues Baseball Museum.
O lado sombrio daquela era de excessos também deixou sua marca: em 1933, o famoso 'Massacre da Union Station' — um tiroteio em que morreram quatro agentes da lei e um prisioneiro foragido em frente à grande estação de trem — abalou o país e ajudou a impulsionar a expansão do FBI. Poucos anos depois, em 1939, a máquina política de Pendergast desmoronou quando o próprio chefão foi condenado por sonegação de impostos, encerrando o capítulo mais turbulento e, ao mesmo tempo, mais criativo da história da cidade.
Ao longo do século XX, Kansas City foi diversificando sua economia e, embora tenha passado por processos de suburbanização e mudanças típicas das cidades do Meio-Oeste, conservou e valorizou seu patrimônio. A cidade moderna revitalizou seu centro (com o bonde gratuito KC Streetcar, o Power & Light District e o complexo Kauffman Center for the Performing Arts) e tem orgulho de seu trio de identidades: o churrasco, o jazz e as fontes, que fazem dela um dos destinos mais acolhedores e singulares do coração do país.
Poucas histórias resumem tão bem o papel de Kansas City na luta pelos direitos civis quanto a das Ligas Negras de beisebol. Em 1920, no YMCA Paseo da cidade, o lendário Andrew 'Rube' Foster fundou a Negro National League, a primeira liga profissional duradoura para jogadores afro-americanos, numa época em que as Grandes Ligas os excluíam por causa da segregação. Os Kansas City Monarchs se tornaram um dos times mais vitoriosos e queridos, e de suas fileiras saiu, entre muitos outros, Jackie Robinson, que em 1947 quebraria a barreira racial do beisebol com os Brooklyn Dodgers.
Essa história, deixada de lado durante décadas, é homenageada hoje no Negro Leagues Baseball Museum, no distrito de 18th & Vine, uma das visitas mais emocionantes da cidade, que entrelaça esporte, dignidade e direitos civis. O museu, ao lado do American Jazz Museum, é a âncora da identidade cultural afro-americana do bairro.
O esporte continua sendo central na vida de Kansas City. A cidade vibra com suas duas grandes franquias profissionais: os Kansas City Chiefs, do futebol americano — campeões do Super Bowl em anos recentes e donos de uma das torcidas mais barulhentas do país no Arrowhead Stadium — e os Royals, do beisebol, campeões da World Series em 2015. Viver um dia de jogo em Kansas City, com seu mar vermelho e sua cultura do 'tailgate' (o esquenta no estacionamento, regado a churrasco), é outra forma de entender a alma desta cidade.