Poucas cidades dos Estados Unidos respiram tanta história quanto a Filadélfia. Aqui, no verão de 1776, os delegados das treze colônias assinaram a Declaração de Independência, e onze anos depois, na mesma sala do Independence Hall, foi redigida a Constituição que deu forma ao país. Por isso ela é conhecida como o 'berço da nação' (Birthplace of America), e seu distrito histórico, com o Independence Hall e o Sino da Liberdade, é Patrimônio Mundial da Unesco. Caminhar pelas ruas de paralelepípedos da Old City é como voltar ao nascimento dos Estados Unidos.
Mas a Filadélfia é muito mais do que um museu a céu aberto. É uma cidade vibrante, gastronômica e com personalidade própria: o berço do cheesesteak, o sanduíche de carne e queijo que é quase uma religião local; o movimentado Reading Terminal Market; a enorme avenida Benjamin Franklin Parkway, ladeada de museus de primeira linha; e as escadarias do Museu de Arte que Sylvester Stallone tornou famosas em 'Rocky'. É também a cidade de Benjamin Franklin, cuja marca está em cada esquina, e de uma paixão esportiva (os Eagles, os Phillies, os 76ers) tão intensa quanto sua personalidade.
Este guia percorre o essencial da Filadélfia com um olhar prático e acolhedor: como visitar o coração histórico da independência, quais museus não perder, onde comer o melhor cheesesteak, como se locomover e quais bairros conhecer. Compacta, fácil de percorrer a pé e a um pulo de Nova York e Washington, a Filadélfia é uma das grandes portas de entrada para a história e a cultura da Costa Leste americana.
A Filadélfia foi fundada em 1682 pelo quaker inglês William Penn como capital de sua colônia da Pensilvânia, concebida como um refúgio de tolerância religiosa. Ele lhe deu um nome de raízes gregas que significa 'amor fraterno' (philos + adelphos) e traçou a cidade com um plano em quadrícula entre os rios Delaware e Schuylkill, pioneiro no urbanismo colonial. Ao longo do século XVIII, tornou-se a maior e mais próspera cidade das treze colônias britânicas e um grande centro intelectual, pelas mãos de figuras como Benjamin Franklin. Seu papel na história é enorme: no Independence Hall reuniu-se o Segundo Congresso Continental, que em 4 de julho de 1776 aprovou a Declaração de Independência, e em 1787 ali foi redigida a Constituição dos Estados Unidos. Entre 1790 e 1800, a Filadélfia chegou a ser a capital do país, enquanto Washington D. C. era construída. No século XIX, transformou-se em uma potência industrial e manufatureira, atraindo ondas de imigrantes europeus (irlandeses, italianos, alemães) e migrantes afro-americanos do sul. Embora tenha perdido peso relativo para Nova York, manteve seu caráter histórico e cultural. No século XX, viveu os altos e baixos típicos das cidades industriais do nordeste, mas nas últimas décadas se reinventou como um destino cultural e gastronômico de primeira linha. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The 'key state': founded by the Quaker William Penn as a land of tolerance, cradle of independence in Philadelphia, setting of the decisive Battle of Gettysburg, of the world's first oil well and of Pittsburgh steel.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Filadélfia começa com um projeto utópico. Em 1681, o rei Carlos II da Inglaterra concedeu ao quaker inglês William Penn uma enorme extensão de terra na América do Norte, como pagamento de uma dívida que a Coroa tinha com o pai dele, já falecido. Perseguido na Inglaterra por sua fé quaker, Penn viu nessas terras a oportunidade de fundar uma colônia baseada na tolerância religiosa, na liberdade de consciência e na convivência pacífica. O território recebeu o nome de Pensilvânia ('os bosques de Penn', em homenagem ao pai dele).
Em 1682, Penn fundou a cidade que seria a capital da sua colônia e deu a ela um nome carregado de simbolismo: Filadélfia, do grego 'philos' (amor) e 'adelphos' (irmão), ou seja, 'a cidade do amor fraternal'. O nome refletia seu ideal de uma comunidade onde pessoas de religiões e origens diferentes pudessem viver em harmonia. Ao contrário de outras colônias, Penn procurou tratar com justiça os povos originários (principalmente os lenape, ou delaware), comprando suas terras por meio de tratados em vez de tomá-las à força, uma política incomum para a época.
Uma das grandes contribuições de Penn foi o desenho urbano. Junto com o agrimensor Thomas Holme, ele traçou a cidade com um plano em grade racional entre os rios Delaware e Schuylkill, com ruas largas e retas e cinco praças públicas (squares) distribuídas de forma simétrica. Essa 'green country town', pensada para evitar os incêndios e a superlotação das cidades europeias, foi pioneira no urbanismo colonial americano e influenciou o traçado de muitas cidades americanas que vieram depois.
Ao longo do século XVIII, Filadélfia cresceu até se tornar a maior e mais próspera cidade das treze colônias britânicas na América do Norte, e uma das maiores do Império Britânico depois de Londres. Seu porto no rio Delaware fez dela um centro comercial de primeira linha, e o clima de tolerância atraiu imigrantes de origens muito diversas: quakers ingleses, alemães ('Pennsylvania Dutch'), escoceses-irlandeses, judeus e outros, o que lhe deu uma diversidade pouco comum para a época.
A cidade também foi um grande polo intelectual e científico, em boa parte graças a uma das figuras mais extraordinárias da história americana: Benjamin Franklin. Embora tenha nascido em Boston, Franklin fez de Filadélfia a sua cidade, e ali desenvolveu sua impressionante atividade como impressor, cientista, inventor, escritor e homem público. Fundou a primeira biblioteca pública por assinatura, o primeiro corpo de bombeiros voluntários, uma universidade (a futura Universidade da Pensilvânia), a American Philosophical Society e um hospital, entre muitas outras instituições. Seus experimentos com a eletricidade lhe deram fama mundial.
Essa combinação de riqueza comercial, diversidade e vida intelectual fez de Filadélfia o lugar natural onde, nas décadas seguintes, as colônias se reuniriam para discutir seu destino. A cidade tinha a infraestrutura, as gráficas, as hospedarias e a localização central que a tornavam o ponto de encontro lógico dos representantes das colônias do norte e do sul.
O papel de Filadélfia no nascimento dos Estados Unidos fez dela uma das cidades mais importantes da história moderna. À medida que cresciam as tensões entre as colônias e a Coroa britânica por causa dos impostos e da falta de representação, foi em Filadélfia que os representantes coloniais decidiram se reunir. Em 1774 aconteceu ali o Primeiro Congresso Continental, no Carpenters' Hall, e em 1775 o Segundo Congresso Continental se reuniu na State House da Pensilvânia, o prédio que hoje conhecemos como Independence Hall.
Foi nesse prédio que aconteceu o fato que mudou a história. Em 2 de julho de 1776 o Congresso votou a favor da separação da Grã-Bretanha, e em 4 de julho aprovou o texto da Declaração de Independência, redigido principalmente por Thomas Jefferson, com sua célebre afirmação de que 'todos os homens são criados iguais'. A data de 4 de julho virou o dia nacional dos Estados Unidos. A leitura pública da Declaração em Filadélfia, dias depois, e o toque dos sinos (entre eles o que depois seria o Sino da Liberdade) marcaram o início simbólico da nova nação.
Durante a Guerra de Independência, Filadélfia foi alvo militar e chegou a ser ocupada pelas tropas britânicas no inverno de 1777-1778, enquanto o exército de George Washington enfrentava um inverno duríssimo na vizinha Valley Forge. Mesmo assim, a cidade manteve seu lugar central como sede do Congresso e coração político da revolução.
O segundo grande momento histórico de Filadélfia chegou poucos anos depois da independência. Vencida a guerra, as novas e frágeis ex-colônias independentes precisavam de uma forma de governo mais sólida do que a oferecida pelos primeiros Artigos da Confederação. Por isso, no verão de 1787, os delegados dos estados voltaram a se reunir na mesma sala do Independence Hall onde a Declaração havia sido assinada, desta vez para redigir uma constituição.
Durante meses de debates intensos a portas fechadas, presididos por George Washington, os delegados — entre eles figuras como James Madison e Benjamin Franklin — desenharam o sistema de governo federal dos Estados Unidos: a separação de poderes, o Congresso com duas câmaras, a presidência e a Suprema Corte. A Constituição dos Estados Unidos, assinada em Filadélfia em setembro de 1787, é a constituição escrita mais antiga ainda em vigor no mundo, e sua redação nesta cidade reforçou para sempre o título de 'berço da nação'.
Por seu peso histórico e sua posição central, Filadélfia foi escolhida como capital provisória dos Estados Unidos entre 1790 e 1800, enquanto se construía a nova capital permanente no Distrito de Columbia (Washington). Nessa década, a cidade foi sede do governo federal, do Congresso e da presidência: George Washington e John Adams governaram daqui. Em 1800, o governo se mudou definitivamente para Washington, e Filadélfia deixou de ser a capital, embora tenha mantido seu enorme prestígio histórico.
Embora tenha perdido o posto de capital nacional, Filadélfia viveu no século XIX uma transformação profunda que a tornou uma das grandes potências industriais dos Estados Unidos. Sua localização, seus rios, seu porto e sua rede ferroviária a tornaram ideal para a indústria. A cidade se encheu de fábricas têxteis, oficinas metalúrgicas, estaleiros, refinarias e, sobretudo, da enorme indústria ferroviária, com a poderosa Pennsylvania Railroad e a fabricação de locomotivas (Baldwin Locomotive Works). Filadélfia chegou a ser conhecida como 'a oficina do mundo'.
Esse crescimento industrial atraiu ondas maciças de imigrantes europeus — irlandeses, alemães, italianos, poloneses, judeus do Leste Europeu — que lotaram os bairros operários e deram à cidade seu caráter multiétnico. Mais tarde, durante a Grande Migração, chegaram também muitos afro-americanos do sul em busca de trabalho e de uma vida melhor, formando comunidades que enriqueceram a cultura da cidade. Cada grupo deixou sua marca nos bairros, nas igrejas, nos mercados (como o Italian Market) e na gastronomia.
Em 1876, Filadélfia sediou a Exposição Universal do Centenário (Centennial Exhibition), a primeira grande feira mundial realizada nos Estados Unidos, que comemorou os cem anos da independência e mostrou ao mundo o poderio industrial do país. A cidade se encheu de pavilhões, invenções e visitantes, num momento de grande orgulho cívico. No fim do século foram erguidas obras monumentais como o City Hall, símbolo da força e da ambição da Filadélfia industrial.
O século XX trouxe para Filadélfia os mesmos altos e baixos vividos por muitas grandes cidades industriais do nordeste dos Estados Unidos (o chamado 'Rust Belt', ou cinturão da ferrugem). Depois de décadas de auge, em meados do século a desindustrialização bateu forte: as fábricas fecharam ou se mudaram, o emprego industrial despencou e muitas famílias de classe média foram para os subúrbios. A população da cidade, que tinha atingido seu pico por volta de 1950, começou a cair, e bairros inteiros sofreram com deterioração, pobreza e tensões raciais.
A partir das últimas décadas do século XX e, sobretudo, no século XXI, Filadélfia começou um processo de reinvenção. A cidade apostou no seu patrimônio histórico, nas suas universidades e hospitais (o setor 'eds and meds', educação e saúde, virou peça-chave da economia), na sua cena cultural e na sua gastronomia. O centro histórico foi valorizado em torno do Independence National Historical Park; surgiram museus de primeira linha na Benjamin Franklin Parkway; e bairros antes degradados se revitalizaram com arte, restaurantes e vida noturna.
Hoje Filadélfia combina seu imenso peso histórico — como berço da nação e sede de joias do Patrimônio Mundial da Unesco (Independence Hall, 1979) — com uma identidade contemporânea vibrante: uma potência gastronômica famosa pelo cheesesteak, uma cidade universitária, esportiva e artística, e um destino turístico de primeira linha na Costa Leste. A 'cidade do amor fraternal' sonhada por William Penn continua se reinventando mais de três séculos depois da sua fundação.