Ronda é uma dessas cidades que ficam gravadas na memória desde o primeiro olhar. Empoleirada à beira de um penhasco vertiginoso, em plena Serranía de Ronda, ela é literalmente partida em duas pelo Tajo, um desfiladeiro com mais de cem metros de profundidade escavado pelo rio Guadalevín. Unindo os dois lados ergue-se a Puente Nuevo, a imagem mais famosa da cidade e um dos cartões-postais mais impressionantes de toda a Andaluzia. Debruçar-se dos mirantes sobre o abismo, com a serra ao fundo, é um espetáculo difícil de esquecer.
Mas Ronda é muito mais que sua ponte. É uma cidade milenar de origem celta e romana, com um centro histórico (La Ciudad) de ruas de pedra, palácios, igrejas e cantinhos andaluzes como os banhos árabes, um dos mais bem conservados da península. É também o berço da tauromaquia moderna a pé, com uma das praças de touros mais antigas da Espanha, e um lugar que encantou viajantes românticos, bandoleiros lendários e grandes artistas: o poeta Rainer Maria Rilke a chamou de 'a cidade sonhada', e Ernest Hemingway e Orson Welles fizeram dela seu refúgio.
Este guia percorre o essencial de Ronda com um olhar prático e caloroso: como chegar no trem panorâmico da serra ou de ônibus a partir de Málaga, o que ver no centro histórico, quanto custam os ingressos dos monumentos, onde se debruçar sobre o Tajo com a melhor luz e que passeios fazer pelos povoados brancos. Muito visitada de dia, mas serena ao entardecer, Ronda é um desses lugares para curtir sem pressa.
Ronda tem raízes muito antigas. Os primeiros habitantes conhecidos foram os celtas, por volta do século VI a.C., que a chamaram de Arunda; perto dali, em Acinipo (a chamada Ronda la Vieja), floresceu uma importante cidade romana da qual se conservam vestígios, entre eles um teatro. A Ronda atual cresceu na época romana e, sobretudo, muçulmana: durante Al-Andalus foi uma praça-forte e chegou a ser capital de uma taifa independente no século XI. Dessa fase andaluza vem boa parte do encanto do centro histórico, com seus banhos árabes e seu traçado de vielas. Em 1485, no contexto da Guerra de Granada, Ronda foi conquistada pelos Reis Católicos e incorporada a Castela. Nos séculos seguintes, tornou-se um enclave senhorial e, no XVIII, viu nascer sua célebre praça de touros (1785) e começar a construção da Puente Nuevo, concluída em 1793 após mais de quarenta anos de obras. No século XIX, a serra agreste ficou famosa por seus bandoleiros, e a própria cidade, com sua paisagem arrebatadora, fascinou os viajantes românticos europeus. Mais tarde, escritores e artistas como Rilke, Hemingway e Orson Welles a imortalizaram. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The luminous south: the land of Tartessos and Roman Baetica, of the Caliphate of Córdoba and the Nasrid kingdom of Granada, of the American gold that passed through Sevilla and of flamenco with its Roma roots.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existir sua famosa ponte, o planalto rochoso onde fica Ronda já era habitado. Os primeiros moradores documentados foram povos celtas e iberos que, por volta do século VI a.C., se estabeleceram nesse ponto privilegiado, protegido naturalmente pelos paredões do Tajo. A esse assentamento se atribui o nome de Arunda, do qual viria o nome atual da cidade. A posição era imbatível: um mirante cercado de precipícios, fácil de defender e com vista sobre toda a serra.
A poucos quilômetros dali floresceu outra cidade de enorme importância: Acinipo, hoje conhecida como Ronda la Vieja. No alto de um morro com vista panorâmica surgiu primeiro um povoado pré-romano e, depois, uma próspera cidade romana que chegou a cunhar moeda própria e a erguer um teatro notável, cujas ruínas ainda estão de pé. Na época de Júlio César, tanto a Ronda primitiva quanto Acinipo ganharam status de cidade e seus habitantes receberam a cidadania romana, dentro do processo de romanização da Bética, a próspera província romana do sul da Hispânia.
Com o tempo, Acinipo entrou em decadência e sua população foi se mudando para o local mais bem protegido da Ronda atual, que herdou seu papel de centro da região. Essa origem dupla — a cidade das alturas e a do teatro romano — explica por que a área guarda uma história de mais de dois milênios e meio, muito anterior à Ronda que conhecemos hoje.
Com a conquista muçulmana da península no século VIII, Ronda — que os árabes chamavam de Madīnat Runda — ganhou uma nova dimensão. Sua localização inexpugnável, sobre o desfiladeiro e protegida por muralhas, fez dela uma praça-forte estratégica. Foi durante os séculos de Al-Andalus que a cidade ganhou boa parte da fisionomia que seu centro histórico ainda conserva: o traçado labiríntico de ruelas, as muralhas e portas como a de Almocábar, os banhos árabes junto ao arroio de las Culebras — entre os mais bem conservados da península — e o sistema hidráulico que garantia água até durante um cerco, como a mina escavada na rocha da Casa del Rey Moro.
Com a queda do Califado de Córdoba no início do século XI, a fragmentação de Al-Andalus em pequenos reinos independentes deu origem à taifa de Ronda, governada pela dinastia berbere dos Banu Ifran. Embora tenha sido um reino modesto e de vida relativamente curta, esse período consolidou Ronda como capital de um território próprio e deixou uma marca cultural importante. Mais tarde, a cidade passou para as mãos de almorávidas e almóadas e, por fim, foi integrada ao reino nasrida de Granada, o último Estado muçulmano da península.
Ao longo de todos esses séculos, Ronda foi uma cidade de fronteira, palco de incursões constantes e de uma convivência tensa entre o mundo andaluz e os reinos cristãos do norte. Seu papel defensivo a manteve como um dos bastiões mais difíceis de conquistar de toda a Andaluzia muçulmana, até o último terço do século XV.
A conquista de Ronda foi um episódio-chave da Guerra de Granada, a campanha final dos Reis Católicos para acabar com o reino nasrida. Em 1485, as tropas cristãs comandadas por Fernando, o Católico, cercaram a cidade. Apesar da fama de inexpugnável, Ronda caiu naquele mesmo ano, depois de um cerco em que a artilharia castelhana teve papel decisivo, bombardeando as defesas e cortando o acesso à água. A tomada de Ronda foi um golpe estratégico e moral enorme para o lado nasrida e acelerou o desfecho da guerra, que terminaria com a rendição de Granada em 1492.
Depois da conquista, a cidade foi incorporada à Coroa de Castela e começou a se transformar. Foi criado o concejo (município) de Ronda, com privilégios equivalentes aos de cidades importantes como Toledo ou Sevilha. A antiga mesquita principal foi consagrada como igreja e, com o tempo, sobre ela se ergueu a igreja de Santa María la Mayor, que ainda conserva vestígios andaluzes, como a base de seu minarete transformado em campanário. As famílias nobres e os novos moradores cristãos remodelaram o centro histórico, construindo palácios e igrejas que convivem com o traçado muçulmano.
Nos séculos XVI e XVII, Ronda se consolidou como um enclave senhorial e agrícola da serra. A criação, no século XVI, da Real Maestranza de Caballería, uma instituição nobre dedicada à prática equestre e militar, teria com o tempo uma consequência inesperada: seria o embrião da famosa praça de touros e da ligação de Ronda com o mundo da tourada.
O século XVIII marcou a época de ouro da Ronda monumental. A cidade, dividida pelo Tajo, precisava de uma ligação firme entre suas duas metades. Uma primeira tentativa de ponte sobre o desfiladeiro desabou, mas por fim a grande obra saiu do papel: o Puente Nuevo, cuja construção levou mais de quarenta anos e só terminou em 1793. Com seu arco central se erguendo quase cem metros acima do fundo do desfiladeiro, virou na hora o símbolo da cidade e uma das obras de engenharia mais admiradas da Espanha da época.
Nesse mesmo século, em 1785, foi inaugurada a praça de touros da Real Maestranza de Caballería de Ronda, uma das mais antigas e monumentais da Espanha. A cidade ficou para sempre ligada à história da tauromaquia: ela é associada à evolução da tourada a cavalo para a tourada a pé moderna, ligada à família Romero, e dá nome a um estilo, a 'escola rondenha'. Vale lembrar que a tauromaquia é hoje uma prática polêmica na Espanha; aqui ela é citada por sua relevância histórica e patrimonial.
O século XIX acrescentou a Ronda uma camada de lenda. A acidentada Serranía, com seus caminhos difíceis e sua geografia de esconderijo, ficou famosa em toda a Europa por seus bandoleiros: personagens reais transformados em mito, como José María 'El Tempranillo', que assaltavam viajantes nas passagens de montanha e que a literatura romântica cobriu com uma aura de rebeldia e romantismo. Esse imaginário de bandidos, contrabandistas e serra indomável atraiu os primeiros viajantes estrangeiros e ainda hoje faz parte do charme cultural da região, que tem até um museu do bandoleiro.
Poucos lugares da Espanha seduziram tanto viajantes e artistas quanto Ronda. Ao longo do século XIX, os românticos europeus — fascinados pelo pitoresco, pelo exótico e pelo sublime — encontraram em sua paisagem de tirar o fôlego, nas lendas de bandoleiros e no clima andaluz um destino irresistível. Escritores e pintores britânicos, franceses e alemães percorreram a Serranía e deixaram registrado seu espanto diante do Tajo e do Puente Nuevo. A cidade ganhou uma fama literária que dura até hoje.
Essa aura chegou ao auge no século XX com três grandes nomes. O poeta austríaco Rainer Maria Rilke se hospedou no Hotel Reina Victoria no inverno de 1912-1913 e ficou tão encantado que chamou Ronda de 'a cidade sonhada'; escreveu que tinha procurado por toda parte a cidade de seus sonhos e a havia encontrado em Ronda. O escritor americano Ernest Hemingway, apaixonado por touradas e pela Espanha, era visitante frequente e a evocou em obras como 'Morte ao entardecer' (1932); sua ligação com a cidade ajudou a espalhar o nome dela entre o público de língua inglesa. E o cineasta Orson Welles, grande amigo do toureiro rondenho Antonio Ordóñez, amou tanto este lugar que pediu que suas cinzas ficassem aqui: elas repousam em uma propriedade da família Ordóñez, nos arredores da cidade.
Hoje, esse legado faz parte da identidade de Ronda tanto quanto seus monumentos. A cidade celebra seus hóspedes ilustres com estátuas, placas e roteiros literários, e continua atraindo milhões de visitantes que querem espiar o mesmo abismo que inspirou poetas e romancistas. Cidade milenar, praça de fronteira, berço de mitos e refúgio de artistas, Ronda reúne em um espaço pequeno uma história e uma beleza que explicam por que é um dos destinos mais queridos da Andaluzia.