Santiago de Compostela é o destino de todos os caminhos. Há mais de mil anos, peregrinos de meia Europa atravessam montanhas e planícies para chegar até aqui, ao túmulo que a tradição atribui ao apóstolo Santiago Maior. Essa peregrinação, o Caminho de Santiago, transformou esta cidade galega em uma das três grandes cidades santas da cristandade e deixou um centro histórico de pedra dourada, arcadas e praças que hoje é Patrimônio Mundial da Unesco.
O coração de tudo é a catedral, uma massa românica revestida por uma fachada barroca deslumbrante que domina a praça do Obradoiro. Lá dentro espera o Pórtico da Glória, a obra-prima do Mestre Mateus, e, nas grandes solenidades, o botafumeiro, o enorme incensário que voa de um lado ao outro do transepto entre nuvens de incenso. Ao redor, o centro antigo é um labirinto vivo de rúas, bares, conventos e a energia de uma cidade universitária que nunca para.
Este guia percorre Santiago com um olhar prático e acolhedor: como visitar a catedral e reservar o Pórtico da Glória, quando o botafumeiro realmente voa, como funciona o Caminho e o que é preciso para conseguir a Compostela, onde comer um bom pulpo á feira ou uma mariscada, e como se locomover por uma cidade feita para caminhar debaixo de chuva. Santiago é pedra, incenso, frutos do mar e emoção: um fim de viagem que tem gosto de chegada.
A história de Santiago começa no início do século IX, quando — segundo a tradição — o eremita Pelayo viu umas luzes no bosque de Libredón e o bispo Teodomiro de Iria Flavia identificou ali um sepulcro, atribuído ao apóstolo Santiago Maior. O rei Afonso II das Astúrias mandou erguer uma primeira igreja sobre o túmulo por volta do ano 820 e se tornou o primeiro peregrino. A descoberta deu origem ao Caminho de Santiago, que na Idade Média atraiu peregrinos de toda a Europa e encheu o norte da península de hospitais, pontes e igrejas. Em 997, Almançor arrasou a cidade, mas respeitou o sepulcro; em 1075 começou a construção da grande catedral românica, coroada um século depois pelo Pórtico da Glória do Mestre Mateus (por volta de 1188). O arcebispo Diego Gelmírez impulsionou a cidade e a elevou a sede metropolitana em 1120, e é dessa época o célebre Códice Calixtino, o primeiro 'guia' do peregrino. No barroco, Fernando de Casas Novoa ergueu a espetacular fachada do Obradoiro (1738-1750). Depois de séculos de declínio, o Caminho ressurgiu com força no século XX, sobretudo a partir do Ano Santo de 1993, até se tornar hoje um fenômeno mundial. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Tudo começou, segundo a tradição, com umas luzes misteriosas numa floresta. No início do século IX, um eremita chamado Pelaio (Pelágio) viu estranhos clarões sobre uma área de mata conhecida como Libredón, no noroeste da Gallaecia. Avisado, o bispo Teodomiro de Iria Flavia foi até o local e encontrou um sepulcro de pedra que, de acordo com a interpretação da época, foi atribuído ao apóstolo Tiago Maior, um dos doze discípulos de Jesus, decapitado em Jerusalém por volta do ano 44 por ordem de Herodes Agripa. Uma lenda antiquíssima dizia que seus restos tinham sido levados por mar até a Galícia por seus discípulos. A identificação aconteceu, segundo a cronologia tradicional, por volta dos anos 820-830.
A descoberta não foi só um acontecimento religioso: foi também uma questão de Estado. O rei Afonso II das Astúrias, cujo reino cristão resistia no norte ao domínio muçulmano sobre boa parte da península, entendeu na hora o valor daquilo. Ele veio de Oviedo — tornando-se o primeiro peregrino da história — e mandou erguer uma primeira igreja de pedra e barro sobre o sepulcro. Ter o túmulo de um apóstolo dava ao pequeno reino asturiano um símbolo espiritual de primeira grandeza, capaz de rivalizar com as grandes sedes da cristandade e de unir os reinos cristãos diante de Al-Andalus.
Em volta daquela primeira capela começou a crescer um povoado. O nome 'Compostela' costuma ser explicado como derivado do latim 'campus stellae' (campo da estrela), em alusão às luzes da descoberta, embora os estudiosos modernos o liguem mais provavelmente a 'compostum' (cemitério, lugar de sepultamento), já que havia na região uma necrópole do fim do período romano. Seja como for, o 'Locus Sancti Iacobi' — o lugar de Santiago — tinha nascido, e com ele uma das maiores correntes de peregrinação da história do Ocidente.
Nos séculos seguintes, a fama do sepulcro se espalhou por toda a cristandade europeia e o fluxo de peregrinos não parou de crescer. O culto local virou uma peregrinação internacional: da França, da Alemanha, da Itália ou das ilhas britânicas, milhares de pessoas pegavam a estrada para chegar ao túmulo do Apóstolo, em pé de igualdade com Roma e Jerusalém. Ao longo das rotas floresceram hospitais, pontes, mosteiros, igrejas e cidades inteiras. O Caminho de Santiago virou uma grande artéria por onde circulavam não só fiéis, mas também ideias, arte, comércio e tendências artísticas que deram forma ao românico europeu.
A cidade, porém, também conheceu a violência. No ano 997, o líder muçulmano Almançor (Al-Mansur) saqueou e destruiu Santiago numa de suas campanhas e levou os sinos e as portas da igreja até Córdoba, carregados — segundo a crônica — nos ombros de prisioneiros cristãos. Mas respeitou o sepulcro do Apóstolo. A cidade se reergueu e, ao longo do século XI, foi murada e fortificada.
O grande impulsionador da Compostela medieval foi o arcebispo Diego Gelmírez, uma figura política e eclesiástica de enorme ambição que governou a sede nas primeiras décadas do século XII. Sob seu comando, em 1120, o papa Calisto II elevou Santiago a sede metropolitana (arcebispado), consolidando seu prestígio. Dessa época é o famoso Códice Calixtino (Liber Sancti Iacobi), um manuscrito em latim de meados do século XII que reúne sermões, milagres, música litúrgica e, sobretudo, uma descrição das rotas de peregrinação considerada o primeiro 'guia' do Caminho, com conselhos, etapas e alertas para o viajante. O nome do códice vem do fato de seus autores terem querido atribuí-lo ao papa Calisto II. É um testemunho fundamental para entender o fenômeno jacobeu.
O símbolo eterno de Santiago é a sua catedral, e construí-la foi uma empreitada de séculos. A grande catedral românica que conhecemos hoje começou a ser erguida em 1075, durante o episcopado de Diego Peláez e o reinado de Afonso VI, sobre os templos anteriores. Foi pensada como uma das maiores igrejas de peregrinação da Europa, do mesmo tipo que Saint-Sernin de Toulouse ou Sainte-Foy de Conques: planta em cruz latina, naves amplas e um deambulatório que permitia às multidões de peregrinos contornar o altar-mor e venerar o sepulcro sem interromper as celebrações. As obras se estenderam por décadas e a catedral foi consagrada no século XII.
Sua obra-prima é o Pórtico da Glória, esculpido pelo chamado Mestre Mateus. Uma inscrição preservada na própria catedral data a colocação dos lintéis em 1188, embora o conjunto tenha sido concluído nos anos seguintes. O Pórtico é um dos pontos altos da arte românica europeia: mais de duzentas figuras de pedra — profetas, apóstolos, anjos músicos, os vinte e quatro anciãos do Apocalipse afinando seus instrumentos — cercam um Cristo em majestade de uma expressividade e um naturalismo revolucionários para a época. Na coluna central, uma imagem do próprio São Tiago recebia os peregrinos, que durante séculos apoiaram a mão na coluna até deixar no mármore a marca gasta dos dedos.
Com o tempo, a catedral foi ganhando acréscimos góticos, renascentistas e, principalmente, barrocos, que mudaram seu aspecto externo sem alterar o núcleo românico. O resultado é um edifício em que se leem, sobrepostos, quase mil anos de história da arte, e que continua sendo o coração espiritual da cidade e o destino final de todos os caminhos.
A imagem mais universal de Santiago — a que aparece nos cartões-postais, nas moedas e na memória de todo peregrino — não é românica, e sim barroca. Entre os séculos XVII e XVIII, a cidade passou por uma espetacular renovação arquitetônica que a transformou num dos grandes conjuntos barrocos da Europa. Arquitetos como Domingo de Andrade (autor da Torre do Relógio, ou Berenguela) e Simón Rodríguez encheram o centro histórico de fachadas, torres, retábulos e escadarias de uma exuberância deslumbrante, tudo no granito local que dá à cidade seu tom característico entre o cinza e o dourado.
O ápice desse esplendor é a fachada do Obradoiro, obra-prima de Fernando de Casas Novoa, construída entre 1738 e 1750. Pensada como uma gigantesca cortina de pedra que protege e valoriza o antigo Pórtico da Glória românico, a fachada ergue duas torres gêmeas altíssimas e um portal central de linhas dinâmicas e verticais, coroado pela figura de São Tiago peregrino. É uma obra teatral, luminosa e cheia de movimento, que domina a praça do Obradoiro com uma majestade difícil de igualar.
Em volta da catedral se completou, nesses mesmos séculos, o grande cenário urbano que o visitante admira hoje: o Pazo de Raxoi, o Hostal dos Reis Católicos (o antigo Hospital Real fundado pelos Reis Católicos no início do século XVI para acolher peregrinos, hoje um Parador) e as quatro praças encadeadas que cercam o templo. A cidade de pedra que hoje é Patrimônio Mundial da Unesco tomou forma, em grande parte, naqueles séculos de fervor barroco.
O Caminho de Santiago nem sempre foi o fenômeno de massas que é hoje. Depois do auge medieval, a peregrinação entrou num longo declínio. A Reforma protestante, as guerras religiosas na Europa, as epidemias, a insegurança das estradas e, mais tarde, a secularização da sociedade foram reduzindo o número de peregrinos. Nos séculos XVIII e XIX, até as relíquias se perderam: os restos atribuídos ao Apóstolo tinham sido escondidos no século XVI por medo de ataques (como o do corsário inglês Francis Drake), e o local foi esquecido, até serem 'redescobertos' em escavações em 1879 e terem a autenticidade reconhecida pelo papa Leão XIII em 1884. Mesmo assim, durante boa parte do século XX o Caminho foi um rumor quase esquecido, percorrido por poucos.
O grande renascimento veio nas últimas décadas do século XX. A retomada do interesse cultural e histórico pelo Caminho, o apoio institucional da Galícia e da Europa — o Conselho da Europa o declarou o Primeiro Itinerário Cultural Europeu em 1987 e a Unesco o inscreveu como Patrimônio Mundial — e, especialmente, a enorme campanha do Ano Santo Xacobeo de 1993 mudaram tudo. Em poucos anos, passou-se de alguns poucos milhares de peregrinos para centenas de milhares por ano, que hoje chegam à cidade a pé ou de bicicleta vindos de todos os cantos do mundo, por motivos religiosos, esportivos, culturais ou simplesmente pessoais.
A cidade voltou ao noticiário, nem sempre por bons motivos. Em julho de 2011, o Códice Calixtino sumiu da catedral num roubo que chocou a Espanha; o manuscrito, de valor incalculável, apareceu um ano depois na garagem de um ex-eletricista da catedral, que confessou o furto. O episódio, digno de romance, lembrou ao mundo o tesouro documental que Santiago guarda.
A Santiago de Compostela do século XXI é uma cidade que vive em equilíbrio entre seu passado milenar e um presente dinâmico. Capital da Galícia e sede da Xunta e do Parlamento galego, é também uma animada cidade universitária: a Universidade de Santiago, fundada em 1495, enche as rúas de estudantes e dá à cidade um pulso jovem que contrasta com a solenidade de suas pedras. O centro histórico, Patrimônio Mundial da Unesco desde 1985, é um dos mais bem conservados da Europa, um labirinto de pedestres feito de arcadas, praças e igrejas que se percorre a pé debaixo da chuva atlântica.
O motor da cidade continua sendo o Caminho. Todo ano, centenas de milhares de peregrinos completam alguma das rotas e chegam, emocionados, à praça do Obradoiro, onde se abraçam, choram e comemoram o fim da jornada. Esse fluxo constante mantém viva uma economia e uma cultura de acolhida com raízes na Idade Média. Os Anos Santos Xacobeos — quando o 25 de julho, dia do Apóstolo, cai num domingo — multiplicam o movimento e viram grandes acontecimentos.
A gastronomia é outra grande atração: o pulpo á feira, a mariscada, a empanada, os pimentões de Padrón ou a tarta de Santiago atraem viajantes que também peregrinam pelo prazer da boa mesa galega. E ao lado do centro antigo convivem propostas contemporâneas, como a monumental (e polêmica) Cidade da Cultura, de Peter Eisenman. Destino de todos os caminhos, cidade santa, universitária e gastronômica, Santiago continua fazendo o que faz de melhor há mais de mil anos: receber quem chega.