Plzeň é um daqueles nomes que quase todo mundo já bebeu sem saber: cada vez que alguém pede uma cerveja 'pilsner' ou 'pils' em qualquer canto do planeta, está mencionando esta cidade da Boêmia ocidental. Foi aqui, em 1842, que nasceu a Pilsner Urquell, a primeira cerveja loira de baixa fermentação, clara e dourada, que revolucionou a forma de fazer e beber cerveja no mundo inteiro. Visitar sua fábrica histórica, descer aos porões escavados na rocha onde ainda maturam barris e provar a cerveja não filtrada direto da madeira é, para muitos, o coração de qualquer viagem a Plzeň.
Mas a cidade é muito mais do que sua cerveja. Fundada no fim do século XIII, conserva um centro histórico medieval organizado em quadrícula ao redor de uma das maiores praças da Tchéquia, a Praça da República, dominada pela altíssima torre da catedral gótica de São Bartolomeu. A poucos passos fica a imponente Grande Sinagoga, uma das maiores da Europa, testemunho da importante comunidade judaica que viveu aqui. E, sob as ruas, se estende um labirinto de subterrâneos históricos, escavados ao longo de séculos, que hoje podem ser percorridos.
Este guia percorre Plzeň com um olhar prático e próximo: como chegar a partir de Praga, como organizar o tour da cervejaria, o que ver no centro histórico, onde comer e beber bem e como aproveitar a cidade como porta de entrada para a Boêmia ocidental. Industrial e monumental, cervejeira e cultural, Plzeň combina a solidez de uma cidade de trabalho com o orgulho de ter dado ao mundo uma de suas bebidas mais universais.
Plzeň foi fundada em 1295 pelo rei Venceslau II da Boêmia como uma 'cidade nova' real, planejada em tabuleiro de xadrez num cruzamento de rotas comerciais do oeste do reino, para impulsionar o comércio e substituir um povoado mais antigo (a 'velha Plzeň', hoje Starý Plzenec). Graças à sua localização, prosperou rapidamente como centro mercantil e, durante as guerras hussitas do século XV, manteve-se fiel ao lado católico, resistindo a vários cercos. Nos séculos seguintes, continuou sendo uma próspera cidade comercial e artesanal. Seu grande salto veio no século XIX: em 1842, os cervejeiros da cidade —insatisfeitos com a qualidade irregular de sua cerveja— fundaram uma cervejaria municipal e, com o mestre cervejeiro bávaro Josef Groll, produziram a primeira cerveja loira clara de baixa fermentação, a futura Pilsner Urquell ('Plzeňský Prazdroj'), que daria nome a todo um estilo. Quase ao mesmo tempo, em 1869, Emil Škoda comprou uma fábrica de máquinas que se tornaria o gigante industrial Škoda, produtor de armamentos e maquinário pesado que fez de Plzeň um polo industrial-chave, alvo de bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Plzeň foi libertada pelo exército norte-americano do general Patton em maio de 1945, fato que é comemorado todos os anos. Em 2015, foi Capital Europeia da Cultura. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Bohemia of spa towns and heavy industry: Karlovy Vary and its spa tradition founded by Charles IV, and Plzeň, birthplace of pilsner beer in 1842 and of the Škoda works, on the Bavarian border liberated by Patton's army in 1945.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Plzeň como cidade começa com um ato de planejamento deliberado. Em 1295, o rei Venceslau II da Boêmia (Václav II) fundou uma 'cidade nova' real em um cruzamento de rotas comerciais no oeste do reino, junto à confluência de vários rios. O objetivo era claro: criar um forte centro mercantil e administrativo que controlasse os caminhos rumo à Baviera e ao Sacro Império e dinamizasse a economia da região. Para diferenciá-la do assentamento mais antigo dos arredores — a 'velha Plzeň', hoje Starý Plzenec, que já tinha tido importância na época dos primeiros Přemyslidas —, a nova fundação foi organizada sobre um traçado em xadrez, com ruas retas que partiam de uma grande praça central retangular.
Essa malha medieval, ainda perfeitamente legível no centro histórico atual, é um dos exemplos mais claros de urbanismo planejado da Boêmia medieval. A grande praça — hoje Praça da República — ficou como coração comercial e cívico, com a prefeitura e, no centro, a igreja. Os colonos receberam privilégios e direitos que favoreceram o comércio, as feiras e o artesanato.
Desde os primeiros tempos, Plzeň também obteve direitos cervejeiros: como muitas cidades reais da Boêmia, seus burgueses tinham o privilégio de produzir cerveja, uma atividade que, com os séculos, se tornaria parte da própria identidade da cidade. Aquela decisão real do fim do século XIII lançou assim os alicerces — urbanos e econômicos — sobre os quais todo o resto cresceria.
Durante as guerras hussitas do século XV, que opuseram os seguidores reformistas de Jan Hus à Igreja católica e ao imperador, Plzeň tomou um caminho diferente do de boa parte da Boêmia. Enquanto muitas cidades aderiam ao movimento hussita, Plzeň se manteve, no essencial, fiel ao lado católico e leal ao rei, tornando-se um dos principais bastiões católicos do reino.
Essa fidelidade custou caro em termos militares. A cidade foi sitiada várias vezes pelos exércitos hussitas ao longo das décadas de conflito, inclusive pelo próprio Jan Žižka, o lendário comandante caolho, que cercou Plzeň sem conseguir tomá-la. As sólidas fortificações e a determinação de seus habitantes permitiram que a cidade resistisse, o que reforçou seu prestígio e lhe rendeu privilégios e reconhecimentos por parte da Coroa e do papado.
Essa posição durante as guerras hussitas deixou uma marca duradoura na identidade de Plzeň, que se orgulhou durante séculos de sua lealdade católica. Passado o conflito, a cidade continuou prosperando como centro comercial e artesanal da Boêmia ocidental, beneficiando-se de sua localização estratégica nas rotas para o oeste e dos direitos e liberdades acumulados ao longo da Baixa Idade Média.
O acontecimento que deu fama universal a Plzeň aconteceu no século XIX. Apesar da longa tradição cervejeira da cidade, por volta de 1830 a qualidade da cerveja local era irregular e, segundo a tradição, chegou a ser tão ruim que, certa vez, os moradores derramaram barris inteiros em sinal de protesto. Decididos a produzir uma cerveja de qualidade constante, os burgueses com direito de fabricá-la fundaram uma nova cervejaria municipal, a Bürgerliches Brauhaus ('Cervejaria Burguesa'), inaugurada em 1842.
Para comandá-la, contrataram um mestre cervejeiro bávaro, Josef Groll, que combinou elementos-chave: o método de baixa fermentação (lager) trazido da Baviera, a excepcional maciez da água de Plzeň, o malte claro do tipo pálido produzido ao estilo inglês e o lúpulo aromático da vizinha região de Žatec (Saaz). O resultado, apresentado em outubro de 1842, foi uma cerveja completamente nova: dourada, clara, transparente, com espuma branca e sabor limpo e refrescante. Até então, a maioria das cervejas era turva e escura; aquela loira cristalina causou sensação.
O novo estilo se espalhou rapidamente pela Europa e pelo mundo, copiado por toda parte, até se tornar o tipo de cerveja mais popular do planeta: a 'pilsner' ou 'pils', batizada com o nome da cidade. Para se proteger das imitações, a marca original adotou o nome 'Pilsner Urquell' / 'Plzeňský Prazdroj' ('fonte original'). Assim, uma decisão local de melhorar a cerveja acabou dando a Plzeň um lugar permanente na história mundial da gastronomia.
Quase ao mesmo tempo em que nascia a pilsner, Plzeň dava outro salto que definiria seu perfil moderno: a industrialização pesada. Em 1869, o engenheiro Emil Škoda comprou uma pequena oficina de máquinas na cidade e a transformou, em poucas décadas, em um dos maiores conglomerados industriais da Europa Central: as fábricas Škoda (Škodovy závody). Sob sua direção, a empresa passou a produzir maquinário pesado, locomotivas, caldeiras, equipamentos para a indústria e, de forma decisiva, armamentos.
No fim do século XIX e começo do XX, a Škoda se tornou a grande fornecedora de armas e maquinário do Império Austro-Húngaro, e Plzeň, uma cidade industrial operária, que cresceu enormemente com a chegada de trabalhadores. A fábrica foi fundamental nas duas guerras mundiais: durante a Primeira, abasteceu o exército austro-húngaro e, após a ocupação nazista, foi obrigada a produzir armamentos para a Alemanha de Hitler, o que a transformou em alvo dos bombardeios aliados.
A cidade foi libertada no fim da Segunda Guerra Mundial pelas tropas americanas do general George Patton, em maio de 1945, um fato singular na Europa Central da época (a maior parte da Tchecoslováquia foi libertada pelo Exército Vermelho) e que Plzeň relembra todos os anos com festas da libertação. Depois da guerra, sob o regime comunista, a indústria Škoda continuou sendo um pilar econômico, embora reorganizada. A marca industrial segue sendo parte essencial da identidade de Plzeň, ao lado da cerveja.
Durante o século XIX, impulsionada pelo crescimento econômico e industrial, Plzeň abrigou uma comunidade judaica próspera e numerosa, que teve papel de destaque no comércio, nas finanças e na vida cultural da cidade. Como testemunho dessa pujança, entre 1888 e 1893 foi erguida a Grande Sinagoga (Velká synagoga), um edifício monumental de estilo romântico com marcados traços mouriscos e duas torres com cúpulas, considerado uma das maiores sinagogas da Europa.
A comunidade manteve escolas, associações e uma intensa vida religiosa e social até a primeira metade do século XX. Tudo mudou com a ocupação nazista e o Holocausto. Após o estabelecimento do Protetorado da Boêmia e Morávia em 1939, os judeus de Plzeň foram perseguidos, despojados de seus bens e, em 1942, deportados em sua grande maioria para guetos e campos de extermínio, principalmente via o campo-gueto de Terezín. A comunidade, que tinha sido uma das mais importantes da Boêmia, foi quase completamente aniquilada.
A Grande Sinagoga sobreviveu à guerra (não foi destruída, em parte porque serviu de depósito), mas ficou sem a comunidade que lhe dava vida. Depois de décadas de abandono durante o comunismo, foi restaurada após 1989 e hoje funciona como espaço de culto ocasional, sala de concertos e, sobretudo, lugar de memória da população judaica desaparecida. É um dos testemunhos mais comoventes do passado multicultural de Plzeň.
Depois da Segunda Guerra Mundial e do golpe comunista de 1948, Plzeň passou a fazer parte da Tchecoslováquia socialista. Como grande cidade industrial e operária, foi um dos centros do regime, mas também palco de tensões: em 1953, uma revolta de trabalhadores contra uma reforma monetária que cortou suas economias resultou em protestos que foram reprimidos pelo regime, um dos primeiros levantes operários do bloco soviético. A economia continuou girando em torno da indústria Škoda e, claro, da cervejaria, cuja cerveja Pilsner Urquell era exportada como produto emblemático do país.
Com a Revolução de Veludo de 1989 e a posterior criação da República Tcheca em 1993, Plzeň entrou em uma nova fase. A cervejaria passou para mãos privadas e internacionais (hoje faz parte de um grande grupo cervejeiro), enquanto a indústria se reconvertia. A cidade investiu na restauração de seu patrimônio histórico, na modernização de sua universidade e na diversificação de sua economia.
O reconhecimento dessa transformação veio em 2015, quando Plzeň foi escolhida Capital Europeia da Cultura, junto com a cidade belga de Mons. Durante aquele ano, a cidade recebeu uma intensa programação de festivais, exposições, shows e projetos artísticos que renovaram seus espaços culturais e projetaram sua imagem por toda a Europa. Hoje Plzeň combina sua dupla herança — a cervejeira, com a peregrinação mundial ao berço da pilsner, e a industrial, com o legado da Škoda — com uma vida universitária e cultural ativa, consolidando-se como a grande cidade do oeste tcheco.