Poucas capitais europeias preservam um centro histórico tão intacto e tão bonito quanto Praga. A 'cidade das cem torres' se espalha pelas duas margens do rio Moldava, coroada pela silhueta de seu enorme castelo e atravessada pela Ponte Carlos, aquela ponte de pedra do século XIV repleta de estátuas barrocas que se tornou sua imagem mais reconhecível. Caminhar por suas ruas de paralelepípedo é como entrar em um livro de contos de fadas: aqui convivem o gótico, o renascentista, o barroco e o art nouveau sem que nenhuma guerra os tenha apagado.
Mas Praga não é só um museu a céu aberto. É a cidade de Kafka e da Revolução de Veludo, da cerveja mais antiga e querida da Europa, dos cafés literários e dos teatros de marionetes, dos concertos de música clássica em igrejas centenárias. É o Relógio Astronômico que marca as horas desde 1410, o bairro judeu com seu cemitério e suas sinagogas, as ruelas de Malá Strana ao pé do castelo e o pôr do sol dourado sobre os telhados visto da colina de Petřín. Uma cidade que mistura a solenidade da história com uma vida boêmia muito viva.
Este guia percorre o essencial de Praga com um olhar prático e caloroso: como organizar a visita ao castelo, quando atravessar a Ponte Carlos para fugir das multidões, o que ver na Cidade Velha e no bairro judeu, como se locomover de metrô e bonde, onde tomar a melhor cerveja tcheca e quais passeios fazer a partir daqui. Praga é compacta, fácil de percorrer a pé e segura, e com um pouco de planejamento oferece alguns dos dias mais memoráveis de qualquer viagem pela Europa Central.
Praga nasceu em torno de um cruzamento de rotas comerciais sobre o Moldava e de um castelo fundado por volta do século IX pela dinastia Přemyslida, os primeiros duques da Boêmia. Segundo a lenda, foi a princesa Libuše quem profetizou a grandeza da cidade. Ao longo da Idade Média, Praga cresceu como capital do Reino da Boêmia e viveu sua primeira grande era de ouro no século XIV sob o imperador Carlos IV, que a transformou em capital do Sacro Império Romano-Germânico: fundou a primeira universidade da Europa Central (1348), mandou construir a Ponte Carlos, a Catedral de São Vito e a Cidade Nova, dando a Praga a escala monumental que ainda hoje impressiona. No século XV, as guerras hussitas — desencadeadas após a morte na fogueira do reformador Jan Hus em 1415 — marcaram a ferro e fogo a história religiosa tcheca. Mais tarde, sob os Habsburgo, a Defenestração de Praga de 1618 deflagrou a Guerra dos Trinta Anos. Durante o domínio austríaco, a cidade se encheu de palácios e igrejas barrocas. Em 1918, após a queda do Império Austro-Húngaro, Praga tornou-se capital da nova Tchecoslováquia. Viveu a ocupação nazista, o regime comunista, a Primavera de Praga de 1968 e, finalmente, a pacífica Revolução de Veludo de 1989, que devolveu a democracia. Em 1993, com a separação amistosa entre Tchéquia e Eslováquia, tornou-se a capital da atual República Tcheca. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Praga começa, como a de tantas grandes cidades, na fronteira difusa entre o mito e a arqueologia. A lenda de fundação, registrada pelo cronista Cosmas de Praga no século XII, conta que a princesa Libuše, filha do lendário líder Krok e dotada do dom da profecia, governava os tchecos do alto do rochedo de Vyšehrad, às margens do rio Moldava (Vltava). Um dia, em pleno transe, Libuše apontou para uma colina do outro lado do rio e anunciou: 'Vejo uma grande cidade cuja glória tocará as estrelas'. Ela mandou seus enviados irem até a floresta e construírem um castelo no lugar onde encontrassem um homem talhando a soleira (em tcheco, 'práh') de sua casa: daí, segundo o mito, vem o nome Praha.
Pressionada a se casar, Libuše escolheu Přemysl, um lavrador, e fundou assim a dinastia dos Přemyslidas, que governaria a Boêmia por séculos. Para além da lenda, a arqueologia confirma que as colinas dos dois lados do Moldava eram habitadas desde tempos pré-históricos, e que as duas fortalezas principais — o Castelo de Praga (Pražský hrad), fundado por volta do ano 880 pelo príncipe Bořivoj I, e Vyšehrad, um pouco posterior — se tornaram os polos em torno dos quais a cidade cresceu.
A figura cristã decisiva desses primeiros tempos é são Venceslau (Václav), duque da Boêmia no século X, assassinado pelo irmão Boleslau por volta do ano 935 e logo transformado em santo padroeiro do povo tcheco. Seu culto e a rotunda que abrigou seus restos no Castelo deram a Praga um peso espiritual que acompanharia a cidade durante toda a Idade Média.
O momento mais glorioso da história de Praga chegou no século XIV pelas mãos de Carlos IV de Luxemburgo (Karel IV), rei da Boêmia a partir de 1346 e imperador do Sacro Império Romano-Germânico a partir de 1355. Criado em parte na corte francesa e profundamente ligado à sua terra natal, Carlos fez de Praga a capital imperial e o centro político, intelectual e artístico da Europa Central, transformando-a em uma das maiores e mais esplêndidas cidades do continente.
As obras do seu reinado ainda definem a silhueta da cidade. Em 1348, ele fundou a Universidade Carolina, a primeira universidade da Europa Central. No mesmo ano, mandou construir a Cidade Nova (Nové Město), uma ambiciosa expansão urbana planejada em torno de grandes praças, como a atual Praça Venceslau. Encomendou o início da catedral gótica de São Vito, no Castelo, e mandou erguer a ponte de pedra que hoje leva o seu nome, a Ponte Carlos (Karlův most), iniciada em 1357 para substituir uma anterior destruída por uma enchente. Fora da cidade, mandou construir o castelo de Karlštejn para guardar as joias da Coroa imperial.
Sob Carlos IV, Praga também foi elevada a sede arquiepiscopal (1344), o que lhe deu independência eclesiástica e reforçou seu prestígio. Aquele século deixou para a cidade um patrimônio gótico extraordinário e a memória de uma época em que, nas palavras da tradição tcheca, Praga foi de fato o coração da Europa.
No começo do século XV, Praga foi palco de um dos movimentos religiosos mais influentes da Europa pré-moderna. O teólogo e pregador Jan Hus, reitor da Universidade Carolina e pregador na Capela de Belém, denunciou a corrupção do clero e defendeu a comunhão sob as duas espécies (pão e vinho) para todos os fiéis, antecipando em um século a Reforma Protestante de Lutero. Convocado ao Concílio de Constança com um salvo-conduto, foi declarado herege e queimado na fogueira em 1415, o que provocou uma enorme indignação na Boêmia.
O conflito explodiu em 1419 com a Primeira Defenestração de Praga: uma multidão hussita invadiu a prefeitura da Cidade Nova e jogou vários vereadores pela janela. Começaram assim as guerras hussitas (1419-1434), nas quais os seguidores de Hus — liderados militarmente pelo genial estrategista caolho Jan Žižka — resistiram, uma após a outra, às cruzadas enviadas contra eles. Durante décadas, a Boêmia se tornou um território em boa parte desligado da obediência a Roma.
As guerras deixaram uma marca profunda na identidade tcheca: Jan Hus virou herói nacional e símbolo da liberdade de consciência (seu grande monumento domina hoje a Praça da Cidade Velha), e o movimento hussita é considerado um precursor da Reforma europeia. O acordo final, os Compactata de Basileia, reconheceu parcialmente as reivindicações hussitas, mas as tensões religiosas marcariam a história tcheca pelos dois séculos seguintes.
A partir de 1526, a coroa da Boêmia passou para as mãos da dinastia católica dos Habsburgo, que governaria o país por quase quatro séculos. Um parêntese brilhante foi o reinado do imperador Rodolfo II, que no fim do século XVI transferiu sua corte para Praga (1583) e transformou o Castelo em um centro de arte, alquimia e ciência, atraindo astrônomos como Tycho Brahe e Johannes Kepler, pintores maneiristas e todo tipo de sábios e excêntricos. Foi uma segunda era de ouro cultural para a cidade.
Mas as tensões entre a maioria protestante da nobreza tcheca e a coroa católica acabaram explodindo. Em 23 de maio de 1618, no episódio conhecido como a Segunda (ou Terceira) Defenestração de Praga, nobres protestantes jogaram por uma janela do Castelo dois governadores imperiais e um secretário. O episódio desencadeou uma rebelião e, com ela, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), um dos conflitos mais devastadores da história europeia.
O destino da Boêmia foi selado na Batalha da Montanha Branca (Bílá hora), às portas de Praga, em 8 de novembro de 1620: a derrota dos nobres protestantes foi total. No ano seguinte, 27 líderes da revolta foram executados na Praça da Cidade Velha, fato lembrado pelas cruzes incrustadas no calçamento. Vieram depois a recatolização forçada, o exílio de boa parte da elite protestante e a perda da autonomia tcheca. Em contrapartida, a Praga barroca de igrejas, palácios e estátuas — incluindo muitas da Ponte Carlos — nasceu em grande parte dessa época de domínio católico dos Habsburgo.
Durante o século XIX, sob o domínio do Império Austríaco e depois Austro-Húngaro, Praga viveu um poderoso renascimento nacional tcheco (národní obrození). Intelectuais, linguistas e historiadores como Josef Jungmann e František Palacký resgataram e modernizaram a língua tcheca, escreveram a história nacional e alimentaram uma consciência identitária diante da cultura alemã dominante. Esse impulso se traduziu em monumentos emblemáticos como o Teatro Nacional, financiado por subscrição popular e inaugurado em 1881 (e reconstruído após um incêndio em 1883), ou o Museu Nacional, que coroa a Praça Venceslau.
A industrialização transformou a cidade, que cresceu, se modernizou e incorporou bairros e subúrbios. No começo do século XX, Praga era uma metrópole cosmopolita onde conviviam tchecos, alemães e uma importante comunidade judaica — de cujo bairro (Josefov) e cujo legado, com figuras como Franz Kafka, a cidade guarda memória. O movimento pela autonomia tcheca foi crescendo dentro do Império.
A Primeira Guerra Mundial precipitou o desfecho. Com o colapso da Áustria-Hungria, em 28 de outubro de 1918 foi proclamada em Praga a independência da Tchecoslováquia, um novo Estado que unia tchecos e eslovacos. Seu primeiro presidente foi o filósofo e estadista Tomáš Garrigue Masaryk, e Praga se tornou a capital. A jovem república democrática, uma das poucas que sobreviveram na Europa Central do entreguerras, viveu um período de prosperidade e vitalidade cultural interrompido pela ameaça nazista no fim dos anos 1930.
O século XX trouxe a Praga seus capítulos mais sombrios. Depois do Acordo de Munique, de 1938, que entregou os Sudetos à Alemanha nazista, as tropas de Hitler ocuparam o restante da Boêmia e da Morávia em março de 1939 e instauraram o Protetorado da Boêmia e Morávia. A ocupação foi brutal: a comunidade judaica de Praga foi quase exterminada no Holocausto — muitos passaram pelo campo-gueto de Terezín —, e a repressão se intensificou depois do atentado de 1942 contra o alto dirigente nazista Reinhard Heydrich. Praga foi uma das últimas grandes cidades europeias a ser libertada, durante o levante de maio de 1945.
O pós-guerra não trouxe liberdade. Em fevereiro de 1948, o Partido Comunista tomou o poder em um golpe, e a Tchecoslováquia passou a integrar o bloco soviético. Seguiram-se décadas de regime autoritário, julgamentos políticos e economia planificada. A tentativa de reforma mais famosa veio em 1968: a chamada Primavera de Praga, liderada por Alexander Dubček, que prometia um 'socialismo com rosto humano' e mais liberdades. A resposta foi a invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia em agosto daquele ano, que esmagou as reformas e abriu caminho para a dura 'normalização'.
O regime comunista finalmente desmoronou em novembro de 1989 com a Revolução de Veludo (sametová revoluce), uma transição pacífica impulsionada por manifestações massivas na Praça Venceslau e liderada pelo dramaturgo e dissidente Václav Havel, que se tornou presidente. Em 1993, a separação pacífica da Tchecoslováquia (o 'divórcio de veludo') deu origem à República Tcheca, com Praga como capital. Em 1992, o centro histórico de Praga foi inscrito como Patrimônio Mundial da Unesco.