O Castelo de Mir é uma das imagens mais queridas de Belarus: uma fortaleza de tijolo vermelho com torres ameadas que se reflete num lago, a meio caminho entre o castelo medieval defensivo e o palácio residencial do Renascimento. Erguido no século XVI nas terras do oeste bielorrusso, sobreviveu a guerras, incêndios e saques e hoje, restaurado, é Patrimônio Mundial da Unesco e um dos destinos turísticos mais visitados do país.
O charme dele está na mistura de estilos e de épocas. Começado como fortaleza gótica pela família Ilínich, foi transformado em residência renascentista pelos poderosos Radziwiłł, a maior dinastia de magnatas do Grão-Ducado da Lituânia, que o possuíram durante séculos. Nas suas muralhas convivem o tijolo gótico, as decorações renascentistas, as lendas de fantasmas e os ecos das grandes guerras que devastaram essas terras, incluindo a Segunda Guerra Mundial, quando os nazistas usaram o castelo como gueto para a população judaica da região antes do extermínio.
Este guia percorre o castelo e seus arredores — as salas-museu, as torres, os porões, o parque com o lago e o povoado de Mir — com preços e informações práticas verificados. Ele é visitado quase sempre no mesmo passeio que o vizinho palácio de Nesvizh, a outra joia da Unesco da região. E, como em qualquer viagem a Belarus, vale fazer isso tendo em mente os alertas consulares vigentes sobre o país.
A construção do Castelo de Mir começou por volta da década de 1520, por iniciativa do nobre Yuri Ilínich, no estilo gótico de tijolo, com cinco torres unidas por muralhas grossas. Com a extinção da família, o castelo passou em 1568 para as mãos dos Radziwiłł, que o completaram em chave renascentista, com um palácio de três andares encostado às muralhas. Os Radziwiłł o mantiveram durante séculos; o conjunto sofreu com guerras e abandono, mudou de donos no século XIX (os Wittgenstein e depois os Sviatopolk-Mirski) e foi estatizado na época soviética. Durante a Segunda Guerra Mundial funcionou como gueto para os judeus da região. Restaurado ao longo de décadas, em 2000 foi inscrito na lista do Patrimônio Mundial da Unesco. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história do Castelo de Mir começa na primeira metade do século XVI, nas terras do oeste da atual Belarus, que faziam parte do Grão-Ducado da Lituânia, um dos maiores estados da Europa de seu tempo. Por volta da década de 1520, o nobre Yuri Ilínich, um magnata ambicioso que buscava elevar sua família, começou a construir um castelo de pedra e tijolo junto à localidade de Mir, então uma modesta praça de mercado.
O projeto era o de uma fortaleza totalmente medieval: um quadrilátero de muralhas grossas, com até três metros de espessura na base, reforçado por cinco torres, quatro nos cantos e uma sobre a entrada. O estilo era o gótico de tijolo típico do Báltico, com torres decoradas com nichos, faixas de pedra clara e motivos ornamentais que combinavam a função defensiva com a vontade de exibir poder e prestígio. Acredita-se que, com essa fortaleza, Ilínich queria obter o título de conde do Sacro Império, o que exigia possuir um castelo à altura.
A obra, porém, se arrastou, e a família Ilínich não chegou a aproveitá-la por muito tempo: em poucas décadas, a linhagem principal se extinguiu. O último herdeiro dos Ilínich era aparentado, por parte de mãe, com uma das famílias mais poderosas do Grão-Ducado, os Radziwiłł. O castelo acabaria passando para eles, o que abriu sua grande época.
Em 1568, o Castelo de Mir passou para as mãos da casa Radziwiłł, a maior dinastia de magnatas do Grão-Ducado da Lituânia. A família era tão poderosa que chegou a rivalizar com os próprios reis da Polônia-Lituânia, com domínios enormes, exércitos particulares e títulos de príncipe. Com eles, Mir deixou de ser apenas uma fortaleza e passou a ser também uma residência senhorial.
Os Radziwiłł promoveram uma grande transformação de inspiração renascentista. Junto às muralhas leste e norte, construíram um palácio de três andares com dezenas de cômodos, equipado com conforto e decoração à altura de sua posição: salões de recepção, salas de jantar, fogões de cerâmica, galerias. O castelo ganhou jardins ao redor, lagos foram escavados e, com o tempo, foi acrescentado um sistema de fortificações de terra (bastiões) adaptado à artilharia. Mir virou uma das residências de uma família cuja corte principal ficava na vizinha Nesvizh.
Nos séculos XVI e XVII, na época de esplendor da República das Duas Nações, o castelo viveu seus melhores dias. Mas as guerras logo chegaram: os conflitos de meados do século XVII com a Moscóvia e a Suécia (o chamado 'Dilúvio') e, mais tarde, a Grande Guerra do Norte, no início do século XVIII, danificaram gravemente o conjunto várias vezes, o que exigiu sucessivas reconstruções.
O destino do castelo ficou ligado ao da República das Duas Nações, que no fim do século XVIII sumiu do mapa, dividida entre Rússia, Prússia e Áustria nas chamadas partilhas. As terras de Mir passaram para o Império Russo. Os Radziwiłł, envolvidos nas turbulências políticas da época, incluindo as revoltas contra o domínio russo, foram perdendo poder, e o castelo mudou de mãos.
Ao longo do século XIX, Mir teve vários proprietários. Por herança, acabou com os príncipes Wittgenstein, de origem alemã, e por fim, no final do século, foi comprado pela família Sviatopolk-Mirski, que seriam seus últimos donos aristocráticos. Àquela altura, o castelo já tinha perdido havia muito qualquer valor militar e estava abandonado, com partes em ruínas.
Os Sviatopolk-Mirski começaram a recuperá-lo com espírito romântico, como residência e símbolo de prestígio. Plantaram o parque paisagístico de estilo inglês que hoje cerca o castelo, cuidaram do lago e ergueram, no início do século XX, a capela-panteão da família, um pequeno templo de estilo neorrusso decorado com um mosaico chamativo, feito para abrigar seus túmulos. É esse ar romântico e ajardinado que, em boa parte, o entorno do castelo ainda conserva.
O século XX trouxe ao castelo, e sobretudo à cidadezinha de Mir, suas páginas mais sombrias. Depois da Primeira Guerra Mundial e da guerra polaco-soviética, a região ficou do lado polonês no período entreguerras. Mir era então um típico shtetl, um povoado com uma forte comunidade judaica, famoso no mundo inteiro por sua yeshivá, a academia talmúdica de Mir, uma das mais prestigiadas do Leste Europeu, que atraía estudantes de vários países.
A Segunda Guerra Mundial destruiu esse mundo. Após a ocupação alemã de 1941, os nazistas confinaram a população judaica de Mir e arredores em um gueto, e o próprio Castelo de Mir foi usado por um tempo como local de confinamento desse gueto, antes da deportação e do assassinato em massa de seus moradores em 1942. A comunidade judaica de Mir, com séculos de história, foi praticamente aniquilada; só um grupo conseguiu fugir e se juntar aos partisans. A yeshivá, que tinha conseguido ser evacuada, sobreviveu no exílio, e suas sucessoras existem hoje em Israel e nos Estados Unidos.
Esse capítulo, sóbrio mas incontornável, faz parte da história do castelo tanto quanto suas torres e seus salões. Lembrá-lo, com a antiga sinagoga da cidade e os memoriais do Holocausto local, dá à visita uma dimensão que vai além do pitoresco.
Depois da Segunda Guerra Mundial, com a região integrada à República Socialista Soviética da Bielorrússia, o Castelo de Mir foi nacionalizado. Durante um tempo teve vários usos (chegou até a abrigar moradias), e o conjunto continuou se deteriorando. Só a partir da década de 1980 começaram trabalhos sérios de restauração, que se estenderiam por muitos anos e foram devolvendo ao castelo sua aparência histórica.
O reconhecimento internacional veio em dezembro de 2000, quando a Unesco inscreveu o 'Complexo do Castelo de Mir' na lista do Patrimônio Mundial. A entidade o considerou um exemplo excepcional da arquitetura de castelos da Europa Central, em que as fases gótica, renascentista e barroca se sobrepõem e se harmonizam, refletindo as sucessivas influências culturais da região. A restauração foi concluída nas décadas seguintes, e o castelo abriu como museu-reserva estatal.
Hoje, o Castelo de Mir é um dos destinos turísticos mais visitados de Belarus e uma das imagens mais emblemáticas do país, presente até nas cédulas. É visitado como museu, recebe concertos e festivais e quase sempre é combinado com o vizinho palácio de Nesvizh, a outra joia da Unesco dos Radziwiłł. Como em qualquer viagem a Belarus, vale planejar a visita levando em conta os alertas consulares vigentes sobre o país. Mas o castelo em si oferece uma viagem fascinante por cinco séculos de história europeia, com suas luzes renascentistas e suas sombras do século XX.