Zell am See é um daqueles cartões-postais que resumem os Alpes austríacos: um lago de águas turquesa encaixado entre montanhas, com um centro histórico de ruazinhas e uma igreja medieval à beira d'água e, atrás, os picos nevados refletidos no lago. É uma pequena cidade turística do estado de Salzburgo, na região do Pinzgau, que junto com a vizinha Kaprun forma uma das regiões de férias mais completas do país, boa tanto para o verão quanto para o inverno.
O que torna Zell am See única é a combinação de água e alta montanha. De um lado, o Zeller See, ideal para nadar, navegar ou passear pela orla; acima da cidade, a montanha panorâmica da Schmittenhöhe, com vista de 360 graus sobre dezenas de picos; e a poucos quilômetros, o glaciar Kitzsteinhorn, que a mais de 3.000 metros permite esquiar boa parte do ano e espiar o gelo eterno. É também a porta de entrada para dois dos grandes destaques da Áustria: a espetacular estrada alpina do Grossglockner e as cachoeiras de Krimml, as mais altas do país.
Este guia percorre Zell am See e seus arredores com olhar prático: como subir ao glaciar e à Schmittenhöhe, como organizar a grande rota panorâmica do Grossglockner (aberta só de maio a outubro ou novembro), quando visitar as cachoeiras de Krimml e como aproveitar o lago e o Parque Nacional Hohe Tauern. Uma região de natureza grandiosa, com o conforto de uma cidade turística bem organizada como base.
Zell am See nasceu por volta do ano 740, quando monges enviados pelo arcebispo de Salzburgo fundaram às margens do lago uma 'cella' (cela monástica), a 'cella in bisonzio', que deu nome ao lugar e aparece documentada em 743. Durante séculos, o Pinzgau e seu lago estiveram sob o domínio dos arcebispos de Salzburgo, e a vida da região girou em torno da agricultura de montanha e da mineração (cobre, prata, zinco) nos vales vizinhos. A grande mudança veio em 1875, quando a ferrovia do vale do Salzach chegou a Zell am See: a chegada do trem, em 30 de julho daquele ano, marcou o nascimento do turismo, e o lago passou de canto pobre a 'a pérola da região de Salzburgo'. No século XX se desenvolveram o esqui e o alpinismo; nos anos 30 foi construída, como obra contra o desemprego, a estrada alpina do Grossglockner, e a partir dos anos 60 o glaciar Kitzsteinhorn transformou Kaprun em um centro de esqui para o ano todo. A região também viveu uma tragédia: o incêndio do funicular do Kitzsteinhorn, em novembro de 2000, em que morreram 155 pessoas. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The land of salt: Hallstatt, which gave its name to Europe's first Iron Age; Salzburg, ruled for centuries by prince-archbishops who grew rich on salt, expelled their Protestants and saw Mozart born; and the imperial Salzkammergut of lakes and mountains, where Franz Joseph declared war in 1914 and where the Nazis hid the art stolen from Europe.
Ler a história de Salzburg and the Lakes (Salzkammergut) →Saem de Salzburgo, a 58 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome já diz tudo: 'Zell' vem de 'cella', a cela ou pequeno mosteiro com que começou a história desta cidade. Por volta do ano 740, por ordem do arcebispo João de Salzburgo, alguns monges fundaram às margens do lago um povoado religioso que as fontes latinas chamam de 'cella in bisonzio' —a cela no Pinzgau—, documentado pela primeira vez no ano 743. Daquele núcleo monástico, num vale isolado entre montanhas, nasceu o povoado que conhecemos hoje.
O lugar fazia sentido: o lago oferecia peixe e água, os vales davam pastagens, e a passagem para o sul se conectava com os caminhos alpinos. Durante toda a Idade Média, a vida girou em torno da agricultura de montanha, da pecuária e de uma igreja que foi crescendo. A atual paróquia de Santo Hipólito, de origem românica e com uma robusta torre medieval, tem suas raízes naquela fundação monástica e continua sendo o edifício histórico mais notável do centro antigo.
A partir dos séculos XII e XIII, o poder dos arcebispos de Salzburgo, que eram ao mesmo tempo príncipes da Igreja e senhores territoriais, foi aumentando em toda a região do Pinzgau. Por meio de heranças e compras, os arcebispos consolidaram seu domínio, e por volta de 1228 o Pinzgau ficou firmemente em suas mãos; em 1480 os diferentes condados da região passaram definitivamente para o governo de Salzburgo. Assim, durante séculos, Zell am See e seu lago foram um cantinho do extenso principado eclesiástico dos arcebispos de Salzburgo, longe das grandes rotas do poder, com uma vida modesta marcada pelo ritmo das montanhas.
Durante boa parte da sua história, o Pinzgau foi uma terra dura e pobre. A vida nos vales altos era exigente: invernos longos, terras difíceis de cultivar e uma economia de subsistência. A esse quadro somou-se, durante séculos, a mineração, que deu à região uma de suas poucas fontes de riqueza e de trabalho.
Nas montanhas ao redor de Zell am See —em áreas como Bruckberg e Thumersbach, e nos vales vizinhos— foram exploradas durante séculos jazidas de cobre, enxofre, chumbo argentífero e zinco. Inúmeras galerias perfuraram a rocha em busca desses metais, que eram comercializados e transformados na região. A mineração alpina foi uma atividade importante em todo o mundo germânico, e o Pinzgau teve sua parte, embora nunca tenha alcançado a fama nem a escala das grandes minas de sal do Salzkammergut ou de prata do Tirol.
Com o tempo, muitas dessas explorações se esgotaram ou deixaram de ser rentáveis, e a região voltou a depender sobretudo da agricultura e da pecuária de montanha. Ainda no século XIX, Zell am See era descrita como um lugar modesto, quase um 'asilo de pobres' segundo algum cronista da época, um povoado pequeno que vivia com o mínimo num ambiente magnífico, mas difícil. Nada fazia prever que esse mesmo ambiente —o lago e as montanhas que hoje nos parecem um luxo— se tornaria, em poucas décadas, a maior riqueza do lugar.
O ponto de virada na história de Zell am See tem data exata: 30 de julho de 1875, quando um trem da ferrovia do vale do Salzach —a linha que ligava Salzburgo ao Tirol— chegou pela primeira vez à estação de Zell am See. Com a locomotiva chegou também o mundo moderno, e com ele, o turismo. O que durante séculos tinha sido um povoado isolado e pobre ficou de repente conectado às grandes cidades do império.
O efeito foi transformador. Na segunda metade do século XIX, os Alpes entraram na moda: a burguesia europeia descobriu o prazer da montanha, do ar puro, dos banhos em lagos limpos e das excursões aos cumes. Zell am See, com seu lago espelhado cercado de picos, tinha tudo para fazer sucesso. Já na década de 1870 começou a ser descrita como 'a pérola da região de Salzburgo'. Foram construídos hotéis, pensões e casarões; chegaram os primeiros veranistas e, mais tarde, os pioneiros do alpinismo e do esqui.
O século XX consolidou essa vocação turística. O esqui, que se popularizou nos Alpes no começo do século, encontrou nas encostas da Schmittenhöhe um cenário ideal, e Zell am See foi se tornando uma estação de esportes de inverno, além de destino de verão. Os teleféricos e meios de elevação substituíram aos poucos a longa caminhada dos pioneiros, e o povoado cresceu no ritmo dos hóspedes. Daquele 'asilo de pobres' do século XIX sobrou pouco: em poucas gerações, Zell am See passou a ser um destino de férias de renome internacional, e o lago e as montanhas se transformaram em seu tesouro.
Nos anos 1930, enquanto a Europa vivia a Grande Depressão e a Áustria sofria com o desemprego em massa, foi iniciada perto de Zell am See uma obra colossal que mudaria o mapa turístico da região: a estrada alpina do Grossglockner. A ideia era dupla: criar uma grande rota panorâmica que abrisse ao público o coração dos Altos Tauern e, ao mesmo tempo, dar trabalho a milhares de desempregados em tempos de crise.
A construção começou em 30 de agosto de 1930, com a primeira detonação. Durante cinco anos, mais de 4.000 operários —em sua maioria trabalhadores vindos de toda a Áustria para escapar do desemprego— esculpiram a montanha em condições duríssimas, em grande altitude, com invernos brutais e recursos técnicos limitados. O projeto foi impulsionado pelo governador de Salzburgo, Franz Rehrl, e desenhado pelo jovem e brilhante engenheiro Franz Wallack, cujo traçado de curvas e cotovelos continua sendo admirado como uma obra-prima da engenharia alpina.
Em 3 de agosto de 1935, o presidente austríaco Wilhelm Miklas inaugurou a estrada. Seus 48 quilômetros e 36 curvas fechadas subiam até mais de 2.500 metros, levando pela primeira vez milhares de visitantes até o pé do Grossglockner, a montanha mais alta da Áustria, e diante da grande geleira Pasterze. Desde então, a Hochalpenstrasse se tornou uma das grandes atrações do país e um motor econômico para toda a região, incluindo Zell am See, sua porta de entrada natural.
Hoje, essa mesma estrada é também um observatório da mudança climática. A geleira Pasterze, que na época da construção chegava quase até onde hoje fica o estacionamento do mirante, recuou de forma dramática: os visitantes precisam descer um bom trecho para tocar o gelo, e as medições documentam ano após ano como a maior geleira dos Alpes orientais encolhe. O mesmo acontece com a geleira do Kitzsteinhorn e com os demais gelos dos Hohe Tauern, testemunhas silenciosas do aquecimento do planeta.
A poucos quilômetros de Zell am See, o povoado de Kaprun escreveu dois capítulos muito diferentes da história austríaca do século XX. O primeiro foi uma grande obra de esperança. Nas montanhas acima de Kaprun foram construídas, entre os anos 1930 e 1950, enormes barragens e usinas hidrelétricas: os reservatórios de alta montanha de Wasserfallboden e Mooserboden, alimentados pelo degelo das geleiras. A obra, retomada após a Segunda Guerra Mundial em boa parte com a ajuda do Plano Marshall, tornou-se um símbolo da reconstrução e do renascimento da Áustria: 'Kaprun' foi durante décadas sinônimo de esforço coletivo e de futuro, e sua energia impulsionou o país. Hoje os reservatórios são também um passeio espetacular de alta montanha.
O segundo capítulo é uma tragédia que a região lembra com dor e respeito. Em 11 de novembro de 2000, um funicular subterrâneo que levava esquiadores e excursionistas à geleira do Kitzsteinhorn pegou fogo dentro do túnel. O trem, lotado, parou no terço inferior do túnel pouco depois de partir. Um aquecedor defeituoso, instalado sem autorização na cabine, havia incendiado o óleo hidráulico dos freios, e o fogo se espalhou com uma velocidade devastadora. A fumaça tóxica subiu pelo túnel como por uma chaminé. Das pessoas a bordo, a maioria tentou fugir para cima, na direção da fumaça, e morreu intoxicada; apenas doze, que escaparam para baixo passando ao lado do foco do incêndio, sobreviveram. No total, morreram 155 pessoas: foi a maior catástrofe da Áustria do pós-guerra.
O julgamento posterior terminou em 2004 com a absolvição de todos os acusados, uma decisão que deixou muitas famílias com a sensação de que ninguém assumiu a responsabilidade; em 2008 foi fechado um acordo extrajudicial de indenização para os sobreviventes e familiares. O funicular não foi reconstruído, e o acesso à geleira é feito hoje por teleféricos. Em Kaprun há um memorial dedicado às vítimas, muitas delas estrangeiras, que a cada aniversário reúne familiares vindos de vários países. É uma história real e sombria desta região de montanha, que vale a pena conhecer com a seriedade que merece.
A Zell am See do século XXI é uma das regiões de férias mais completas dos Alpes austríacos. Junto com Kaprun, forma um destino de duas temporadas: no inverno, esqui garantido graças à geleira Kitzsteinhorn e às pistas da Schmittenhöhe; no verão, banho e vela no lago, trilhas no Parque Nacional Hohe Tauern, a rota panorâmica do Grossglockner e as cachoeiras de Krimml. A antiga cela de monges se transformou num pequeno centro turístico internacional que recebe visitantes de toda a Europa e do mundo, com presença especial, nas últimas décadas, de turistas do Oriente Médio atraídos pelo verde e pela água da montanha.
Esse sucesso também traz suas tensões. O turismo de massa pressiona um ambiente frágil, e a região debate como crescer sem prejudicar a paisagem que a sustenta. Mas o maior desafio vem do céu: a mudança climática. As geleiras que tornaram a região famosa —a Pasterze, aos pés do Grossglockner, e o gelo do Kitzsteinhorn— recuam a olhos vistos, documentadas por cientistas ano após ano. O esqui na geleira, que foi durante décadas uma das marcas registradas de Kaprun, enfrenta um futuro incerto à medida que as temperaturas sobem.
Ao mesmo tempo, o Parque Nacional Hohe Tauern, o maior dos Alpes, protege um tesouro natural extraordinário: geleiras, cumes de três mil metros, vales selvagens e uma fauna que inclui marmotas, íbex e o abutre-barbudo reintroduzido. Zell am See vive hoje nesse equilíbrio entre aproveitar uma natureza grandiosa e a responsabilidade de cuidar dela. Sua história —da humilde cela monástica à pérola do turismo alpino— é a de um lugar que aprendeu a fazer de suas montanhas e de seu lago a sua maior riqueza, e que agora tem o desafio de conservá-los para quem vier depois.