Bregenz é a cidade austríaca da água. Capital do pequeno e próspero estado de Vorarlberg, ela se debruça sobre o lago de Constança (Bodensee), um mar interior que divide com a Alemanha e a Suíça, e vive voltada para ele: passeios à beira d'água, banhos de verão, barcos que cruzam para outros países e, acima de tudo, o espetáculo mundialmente famoso da ópera sobre o lago. Atrás dela, a montanha Pfänder oferece uma das vistas mais impressionantes da Europa central, com três países e dezenas de picos alpinos aos seus pés.
Neste canto ocidental, a Áustria se espelha mais na Suíça do que em Viena. O dialeto, a arquitetura contemporânea de madeira e concreto, a cultura do design e até o jeito das pessoas têm aqui um ar próprio, alemânico. Não é por acaso: depois da Primeira Guerra Mundial, Vorarlberg chegou a votar majoritariamente para se unir à Suíça. Bregenz junta esse espírito de fronteira com uma vida cultural potente, liderada pelo seu festival de verão e pelo Kunsthaus, um dos templos da arte contemporânea europeia.
Este guia percorre Bregenz com um olhar prático e acolhedor: como chegar de trem vindo de Zurique, Innsbruck ou da Alemanha, como subir o Pfänder, o que ver no centro medieval, como aproveitar o lago de barco e na orla, e como funciona o mítico Festival de Bregenz, com seu palco flutuante sobre a água. Também contamos por que esta pequena capital de província é um dos programas culturais mais originais da Europa e uma base perfeita para explorar o triângulo entre Áustria, Alemanha e Suíça.
Bregenz nasceu como Brigantium, um povoado celta que os romanos conquistaram por volta do ano 15 a.C. e transformaram em município e sede da sua frota no lago de Constança. Destruída pelos alamanos no século III, ressurgiu na Idade Média como residência dos condes de Bregenz e, a partir do século XII, dos poderosos condes de Montfort, que a governaram até que, em 1523-1525, passou para as mãos dos Habsburgo, sob cujo domínio ficou ligada ao destino da Áustria. Capital de Vorarlberg, Bregenz viveu um episódio singular depois da Primeira Guerra Mundial: em um referendo de 1919, mais de 80% dos eleitores do estado pediram a união com a Suíça, desejo que as potências vencedoras ignoraram no Tratado de Saint-Germain. Em 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, a cidade inaugurou sobre duas barcaças no lago o Festival de Bregenz, que com o tempo se tornaria um dos grandes eventos operísticos do mundo graças ao seu palco flutuante. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Alpine heart of Austria: the Tyrol of the old counts and of Maximilian's imperial residence in Innsbruck, the land that rose up with Andreas Hofer in 1809, that was split in two in 1919 — with South Tyrol ceded to Italy — and that was a First World War front in the ice of the Alps, today a mecca of skiing and mountain tourism.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existir a Áustria, e antes mesmo de o latim chegar a estas margens, já havia um povoado na colina onde hoje fica a Cidade Alta de Bregenz. Ali viviam os brigantios, uma tribo celta que deu nome ao lugar: Brigantion. A posição, no extremo leste do grande lago de Constança e no cruzamento de rotas alpinas, tornava o lugar estratégico. Por isso ele chamou a atenção de Roma.
Por volta do ano 15 a.C., depois de uma série de campanhas, os romanos conquistaram a região alpina e tomaram Brigantion. Com eles, o povoado celta virou a cidade romana de Brigantium, que por volta do ano 50 d.C. recebeu o status de município. E não era uma praça qualquer: Brigantium se tornou a sede da frota romana do lago de Constança (o 'almirantado' do Bodensee) e chegou a ter teatro, termas e toda a infraestrutura de uma cidade próspera do Império. Durante séculos, o lago foi uma via romana de comunicação e comércio, e Bregenz era o seu principal porto na margem leste.
Como tantas cidades do limes, Brigantium sofreu a pressão dos povos germânicos. Por volta de 259-260 foi arrasada pelos alamanos, que acabariam se estabelecendo na região por volta do século V. Daquele esplendor romano restam hoje vestígios arqueológicos e o eco de um nome. Mas ficou também algo mais duradouro: foram os alamanos que deixaram no Vorarlberg o dialeto alemânico, muito parecido com o suíço, que até hoje distingue Bregenz do resto da Áustria. Na língua e no jeito de ser, a cidade ainda guarda a marca daqueles primeiros séculos.
Depois da queda de Roma e dos séculos obscuros, Bregenz renasceu na Idade Média em torno do seu castelo, no alto da colina. A partir de 917, a fortaleza foi residência da dinastia dos Udalrichinger, que se intitulavam condes de Bregenz e governavam boa parte do que hoje é o Vorarlberg. Sob o seu comando, o povoado foi crescendo até formar o núcleo murado que ainda se conserva como Oberstadt (Cidade Alta), com ruas de paralelepípedo, portões e torres.
Por volta de 1160, a herança dos condes de Bregenz passou para uma das famílias mais importantes do sudoeste alemão e alpino: os condes de Montfort. Durante mais de três séculos, os Montfort dominaram Bregenz e boa parte da região e deixaram a sua marca em castelos, igrejas e no próprio traçado da cidade. Foi uma época de vida feudal, comércio pelo lago e disputas dinásticas, em que Bregenz consolidou o seu papel de praça principal da margem leste do Bodensee.
O poder dos Montfort foi se enfraquecendo, e os seus territórios foram vendidos ou transferidos aos poucos para a grande potência da região: a casa de Habsburgo. Bregenz passou definitivamente às mãos dos Habsburgo entre 1523 e 1525 e foi integrada aos domínios austríacos, com os quais dividiria o seu destino dali em diante. A Cidade Alta, com a emblemática Torre de São Martinho (Martinsturm), cuja grande cúpula bulbosa foi erguida no século XVII, ficou como testemunho daqueles séculos medievais em que Bregenz foi terra de condes.
O episódio mais curioso da história moderna de Bregenz e da sua região aconteceu depois da catástrofe da Primeira Guerra Mundial. Em 1918, o Império Austro-Húngaro desmoronou e, das suas ruínas, nasceu uma pequena República da Áustria, empobrecida e cambaleante. No extremo oeste do país, o Vorarlberg, com Bregenz como capital, olhava com desconfiança para a distante e arruinada Viena. E olhava com esperança para a Suíça, próspera, neutra e estável, com quem compartilhava a língua alemânica, a geografia e afinidades culturais.
Esse sentimento foi parar nas urnas. Em 11 de maio de 1919, o Vorarlberg realizou um referendo sobre a possibilidade de abrir negociações para que o estado se unisse à Confederação Helvética. O resultado foi categórico: mais de 80% dos eleitores (80,75%) votaram a favor de explorar a adesão à Suíça. Era uma expressão democrática clara de que uma região queria mudar de país.
Só que a decisão não estava nas mãos dos habitantes do Vorarlberg. As potências vencedoras da guerra tinham outros planos para o mapa da Europa Central. O Tratado de Saint-Germain, de 1919, que fixou as condições para a Áustria, não previa a separação do Vorarlberg. E a própria Suíça, dividida internamente e com medo de romper os seus equilíbrios internos (entre outras coisas, por somar um cantão católico e de língua alemã), não demonstrou entusiasmo em receber o território. A vontade da maioria da região foi simplesmente ignorada. O Vorarlberg ficou na Áustria, onde continua até hoje, mas mantém uma identidade própria e um certo orgulho daquele 'cantão que não foi'. Longe de ser folclore, a história ajuda a entender por que Bregenz olha tanto para a Suíça e para o lago compartilhado, e tão pouco para o leste.
A história contemporânea de Bregenz é marcada por uma ideia genial que nasceu da escassez. Em 1946, com a Europa em ruínas apenas um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial e a Áustria sob ocupação aliada, um punhado de entusiastas quis devolver um pouco de beleza e esperança à cidade. Não havia um grande teatro, mas havia o lago. Então montaram o palco sobre a água: duas barcaças de cascalho ancoradas no Bodensee, uma para o palco e outra para a orquestra, e estrearam a ópera 'Bastien und Bastienne', do jovem Mozart. Já naquela primeira edição veio público da Alemanha, da Suíça e da França. Estava criado o Festival de Bregenz (Bregenzer Festspiele).
O que começou como um improviso do pós-guerra se revelou uma fórmula impossível de copiar. A ideia de apresentar ópera ao ar livre, sobre o lago, com a natureza como pano de fundo, foi tão mágica quanto popular. Em 1950 foi construída a primeira plataforma de madeira sobre estacas e uma arquibancada na margem para 6.500 espectadores. Nos anos seguintes, cenógrafos renomados transformaram a paisagem natural em parte do espetáculo, e o palco do lago, a Seebühne, foi crescendo até se tornar o maior palco flutuante do mundo. A inauguração do Festspielhaus (a sala coberta), em 1980, deu ao conjunto a estrutura que tem hoje.
Atualmente, o Festival de Bregenz atrai a cada verão cerca de 200.000 espectadores do mundo inteiro. As produções no lago são famosas pelos cenários colossais e ousados, que usam a água como extensão do palco e são renovados a cada dois anos (a mesma ópera é apresentada por dois verões seguidos). Alguns desses cenários monumentais ficaram tão famosos que foram parar no cinema, como o que aparece num filme de James Bond. Em 2026, com 'La Traviata', de Verdi, em cartaz, o festival comemora seu 80º aniversário: oito décadas desde que duas barcaças transformaram uma pequena capital de província num dos encontros de ópera mais originais do planeta.
A Bregenz atual é uma cidade pequena, com apenas algumas dezenas de milhares de habitantes, mas com um peso cultural muito maior do que o seu tamanho. Capital do Vorarlberg, o estado mais ocidental e um dos mais prósperos da Áustria, ela virou uma referência inesperada de arte e design contemporâneos. O Kunsthaus Bregenz (KUB), inaugurado em 1997 num cubo de vidro e concreto projetado pelo arquiteto suíço Peter Zumthor (Prêmio Pritzker), é um dos espaços de arte contemporânea mais respeitados da Europa e, junto com o festival, colocou a cidade no mapa cultural internacional.
Essa vocação para o design não é por acaso: o Vorarlberg inteiro é famoso no mundo da arquitetura por ter reinventado a construção em madeira, combinando a tradição artesanal dos vilarejos do Bregenzerwald com um modernismo sóbrio e ecológico. Bregenz é a porta de entrada dessa região e uma prova de que um território pequeno pode ter uma identidade cultural fortíssima. A cidade também vive voltada para o lago: o calçadão do Bodensee, os banhos de verão, os barcos que cruzam para a Alemanha e a Suíça e uma qualidade de vida que a coloca entre as melhores da Áustria.
No fim das contas, Bregenz é uma cidade de fronteiras e de encontros. Aqui três países se tocam, fala-se um alemão com sotaque suíço, paga-se em euros mas de olho no franco, e a ópera monumental sobre a água convive com a vida tranquila de uma capital de província alpina. Da Brigantium romana à Seebühne, passando pelos condes de Montfort e pelo referendo de 1919, Bregenz sempre foi um lugar de cruzamento: entre povos, entre línguas, entre países e entre épocas. E nesse cruzamento, ao lado do seu lago compartilhado, encontrou uma personalidade única em toda a Áustria.