Poucas cidades europeias se reinventaram com tanta determinação quanto Linz. Durante décadas, foi conhecida sobretudo como cidade industrial e siderúrgica às margens do Danúbio, com uma imagem cinzenta associada às suas usinas de aço. Mas, no fim do século XX, a cidade apostou forte na cultura, na arte e na tecnologia e deu uma virada espetacular: hoje é uma das capitais mundiais da arte digital, Cidade das Artes Midiáticas da Unesco e um destino surpreendente para quem busca uma Áustria diferente do cartão-postal imperial.
O Danúbio é o eixo de tudo. Em uma margem se estende o centro histórico, dominado pela enorme Hauptplatz com sua coluna barroca da Trindade, as ruas de pedestres, o castelo no alto da colina e as duas catedrais. Na outra margem brilham, sobretudo à noite, os dois edifícios que simbolizam a nova Linz: o Ars Electronica Center, o 'museu do futuro' com sua fachada que muda de cor, e o Lentos, museu de arte moderna que se ilumina sobre o rio. Entre as duas margens, as pontes e os calçadões convidam a caminhar.
Este guia percorre o essencial de Linz com um olhar prático e acolhedor: a praça monumental e o centro antigo, os museus que a colocaram no mapa cultural, o clássico bonde que sobe o Pöstlingberg, as catedrais e os passeios junto ao Danúbio. Linz é uma cidade de tamanho humano, fácil de percorrer, onde a herança histórica convive com uma das cenas de arte e tecnologia mais interessantes da Europa, e onde não falta um bom café acompanhado da famosa Linzer Torte.
Linz tem raízes antiquíssimas: na época romana existiu aqui um assentamento chamado Lentia, um posto sobre o Danúbio que controlava a travessia do rio. O nome atual aparece documentado na Idade Média, quando Linz cresceu como cidade comercial graças à sua posição estratégica nas rotas que ligavam o sul da Alemanha aos Bálcãs e ao seu porto fluvial no Danúbio. Em 1490 foi elevada a capital da Alta Áustria. A cidade viveu um momento de esplendor no fim do século XV, quando o imperador Frederico III instalou aqui sua residência e morreu em Linz em 1493. No século XVII, o grande astrônomo Johannes Kepler viveu e trabalhou em Linz, onde formulou parte de suas leis do movimento planetário; a universidade local hoje leva o seu nome. Durante o século XIX a cidade se industrializou e foi conectada por ferrovia. O capítulo mais sombrio veio com o nazismo: Adolf Hitler, que havia passado a juventude em Linz, sonhava em transformá-la em uma das 'cidades do Führer' e planejou para ela grandes obras e um gigantesco complexo cultural que nunca foi concluído; durante a guerra foram construídas as grandes siderúrgicas (as atuais voestalpine) e um subcampo do campo de concentração de Mauthausen. Depois da guerra e da reconstrução, Linz carregou a imagem de cidade fabril e poluída. A grande transformação veio a partir dos anos 1970 e 1980, com a aposta na cultura: em 1979 nasceu o Ars Electronica, festival pioneiro de arte e tecnologia, que se tornou marca de identidade. O processo culminou com a designação de Linz como Capital Europeia da Cultura em 2009 e como Cidade das Artes Midiáticas da Unesco em 2014. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The heart of the country: the imperial Habsburg capital with its Ring and its palaces, the Danube and the Wachau valley, and Linz, the industrial city marked by its Nazi past. This is where Austria was born as a state and where its history beat for a thousand years.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
As origens de Linz remontam à época romana. No lugar onde hoje fica a cidade existia um assentamento chamado Lentia, um posto fortificado às margens do Danúbio que fazia parte do limes, a fronteira norte do Império Romano que acompanhava o curso do grande rio. Lentia controlava um ponto estratégico: um vau ou travessia do Danúbio por onde passavam as rotas que ligavam o sul da Germânia às províncias do império. O nome 'Lentia', provavelmente de raiz celta mais antiga, sobreviveu transformado no atual 'Linz'.
Depois da queda de Roma e dos séculos turbulentos das migrações, o lugar continuou habitado graças ao seu valor como travessia fluvial. Na Alta Idade Média, Linz aparece nos documentos como ponto de passagem e mercado. Sua posição sobre o Danúbio — a grande rodovia comercial da Europa Central — e no cruzamento de rotas terrestres que iam do sul da Alemanha à Boêmia e aos Bálcãs fez dela um polo comercial. A cidade cresceu em torno do seu porto fluvial, das suas feiras e dos direitos de pedágio e de armazenagem das mercadorias transportadas pelo rio.
Durante a Idade Média, Linz obteve privilégios de cidade e de mercado, e sua importância comercial só aumentou. O comércio de sal (que descia do Salzkammergut), de ferro e de outros produtos passava pelos seus cais. Essa vocação de cidade comercial e fluvial, assentada sobre a travessia do Danúbio, marcaria seu caráter durante séculos.
Ao longo da Baixa Idade Média, Linz se consolidou como uma das principais cidades da região situada 'acima do Enns' (Oberösterreich, a Alta Áustria). Em 1490, no contexto de uma reorganização dos territórios dos Habsburgo, Linz foi elevada a capital do território do arquiducado da Áustria situado acima do rio Enns, ou seja, da futura Alta Áustria. Era o reconhecimento do seu peso econômico e da sua posição central nessa parte do país.
O momento de maior relevância política da Linz medieval veio pelas mãos do imperador Frederico III de Habsburgo. Em seus últimos anos, o idoso imperador do Sacro Império transferiu na prática sua residência para Linz, instalando-se no castelo que dominava a cidade. Durante esse breve período, no fim do século XV, Linz funcionou como uma espécie de capital imperial improvisada, um centro de onde se governavam os vastos domínios de Frederico. O imperador morreu em Linz em 1493, o que deixou uma marca na memória e no castelo da cidade.
Essa fase elevou o prestígio de Linz e deixou como legado o castelo (o Linzer Schloss), que com o tempo seria reconstruído e ampliado. Embora o centro do poder dos Habsburgo fosse se deslocar definitivamente para Viena, Linz manteve seu status de capital regional da Alta Áustria, função que conserva até hoje.
Um dos capítulos mais brilhantes da história de Linz é sua ligação com um dos pais da astronomia moderna: Johannes Kepler. O matemático e astrônomo alemão viveu em Linz durante vários anos, nas primeiras décadas do século XVII, onde trabalhou como professor e matemático a serviço dos estados da Alta Áustria.
Foi justamente em Linz que Kepler desenvolveu parte fundamental da sua obra. Ali ele concluiu e publicou trabalhos-chave para a compreensão do movimento dos planetas, entre eles a formulação da sua terceira lei do movimento planetário, que relaciona os períodos orbitais dos planetas com suas distâncias ao Sol. Também trabalhou em Linz na sua grande obra sobre a harmonia cósmica e em tabelas astronômicas. A cidade foi, assim, palco de alguns dos avanços científicos mais importantes do seu tempo.
Foram, no entanto, anos difíceis para Kepler: a Contrarreforma e as tensões religiosas da época, os conflitos que desembocariam na Guerra dos Trinta Anos e os problemas pessoais (como o famoso processo por bruxaria contra sua mãe, que ele teve de defender) marcaram sua estadia. Mesmo assim, o legado de Kepler ficou ligado para sempre a Linz, a ponto de a universidade pública da cidade levar hoje o seu nome: a Johannes Kepler Universität (JKU).
O século XIX transformou Linz profundamente. A Revolução Industrial chegou ao Danúbio e a cidade, com seu porto e sua posição de entroncamento, virou um centro fabril e de transportes. Um marco precoce foi a construção, por volta de 1832, de uma das primeiras ferrovias do continente europeu, a linha de tração animal (puxada a cavalo) que ligava Linz a Budweis (České Budějovice), na Boêmia, para transportar sal e mercadorias. Com o tempo, as modernas linhas ferroviárias a vapor conectaram Linz a Viena e Salzburgo, integrando-a à rede austríaca.
A cidade cresceu em população e indústria, com fábricas têxteis, químicas e metalúrgicas que aproveitavam a energia e o transporte fluvial. Linz deixou de ser apenas uma cidade comercial para começar a ser também uma cidade industrial, uma identidade que se acentuaria no século XX.
Ao mesmo tempo, Linz foi berço e palco da música. O grande compositor Anton Bruckner, nascido na vizinha Ansfelden em 1824, teve uma forte ligação com a cidade: foi organista da Catedral Velha (Alter Dom) de Linz durante anos, antes de se mudar para Viena, e deixou uma marca musical profunda na região. Sua memória continua presente em Linz, que dedica à sua figura instituições musicais, uma moderna sala de concertos (a Brucknerhaus, às margens do Danúbio) e um festival, o Brucknerfest. O compositor está enterrado na vizinha abadia de St. Florian, onde também foi organista.
O século XX trouxe a Linz o seu capítulo mais sombrio. Adolf Hitler havia passado parte da infância e da juventude em Linz e na vizinha Leonding, e sempre considerou a cidade como sua 'terra natal'. Após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista (o Anschluss de 1938), Hitler concebeu planos grandiosos para transformar Linz em uma das 'cidades do Führer', dotada de edifícios públicos monumentais e de um gigantesco complexo cultural e de museus (o chamado 'Führermuseum') que ele pretendia encher com obras de arte saqueadas por toda a Europa. A maioria desses planos nunca chegou a sair do papel.
O que de fato foi construído, com consequências trágicas, foi uma enorme usina siderúrgica (as Hermann-Göring-Werke, hoje a empresa voestalpine), erguida para a máquina de guerra do regime com uso de mão de obra forçada. Nos arredores funcionaram subcampos do sistema do campo de concentração de Mauthausen, e milhares de prisioneiros e trabalhadores forçados sofreram e morreram em condições atrozes. A cidade também foi duramente bombardeada por seu valor industrial durante a Segunda Guerra Mundial.
Depois da guerra, Linz ficou dentro da zona de ocupação — o Danúbio marcou por alguns anos a fronteira entre a zona americana e a soviética — e enfrentou uma longa reconstrução. A indústria siderúrgica, transformada na voestalpine, foi o motor da recuperação econômica e trouxe emprego e prosperidade, mas também prendeu Linz a uma imagem de cidade fabril, cinzenta e poluída, que a marcaria por décadas e que a cidade se proporia a superar a partir dos anos 1970.
A partir da década de 1970, Linz embarcou em uma das reinvenções urbanas mais bem-sucedidas da Europa. Decidida a deixar para trás sua imagem de cidade industrial poluída, apostou na cultura, na arte e na tecnologia como novo motor de identidade. O marco fundador dessa aposta foi o nascimento, em 1979, do festival Ars Electronica, um evento pioneiro no mundo dedicado à interseção entre arte, tecnologia e sociedade. Dessa iniciativa surgiriam com o tempo o Ars Electronica Center (o 'Museu do Futuro') e o Prix Ars Electronica, um dos prêmios mais prestigiados da arte digital.
A cidade investiu em infraestrutura cultural: a Brucknerhaus (sala de concertos às margens do Danúbio), o museu Lentos de arte moderna, a renovação do Schlossmuseum no castelo e a transformação das margens do rio em um eixo cultural. Também trabalhou intensamente para melhorar seu meio ambiente, reduzindo a poluição que a havia caracterizado, até se tornar um exemplo de recuperação urbana.
O reconhecimento internacional veio em etapas. Em 2009, Linz foi Capital Europeia da Cultura, o que deu enorme visibilidade à sua cena artística e consolidou sua nova imagem. Em 2014, a Unesco a designou Cidade das Artes Midiáticas (City of Media Arts), dentro da sua Rede de Cidades Criativas, em reconhecimento à sua liderança mundial em arte digital. Daquela cidade industrial cinzenta quase nada resta no imaginário: a Linz de hoje é uma capital cultural e tecnológica que olha para o futuro sem abrir mão da sua história.