Corrientes é a capital da província de mesmo nome, uma das cidades mais antigas e com mais personalidade do Litoral argentino. Fica na margem esquerda do rio Paraná e está ligada a Resistencia (Chaco) pela ponte General Manuel Belgrano. É uma cidade de ruas arborizadas, casarões coloniais, forte religiosidade popular e uma identidade musical inconfundível: é o berço do chamamé.
Sua grande Costanera às margens do Paraná é o orgulho local: um calçadão amplo de frente para o rio, com praias, monumentos, bares e pores do sol memoráveis, e a silhueta da ponte Belgrano recortada sobre a água. Corrientes também é a Capital Nacional do Carnaval: todo verão, o Corsódromo Nolo Alías ganha vida com as comparsas Ara Berá e Copacabana em uma das maiores festas do país.
À música e à festa soma-se uma espiritualidade muito presente: a Cruz de los Milagros, o culto à Virgem e ao Gauchito Gil, as igrejas históricas. E, como grande vantagem, Corrientes é a porta de entrada e a base de serviços para uma das áreas úmidas mais espetaculares da América do Sul: os Esteros del Iberá. Uma cidade calorosa em todos os sentidos, ideal para mergulhar na cultura do Litoral.
Corrientes foi fundada em 3 de abril de 1588 pelo adelantado Juan Torres de Vera y Aragón, com o nome de Ciudad de Vera, no lugar conhecido como as Siete Corrientes (por causa dos redemoinhos e das pontas do rio Paraná). Pensada como ponto de passagem entre Assunção e Buenos Aires, com o tempo seu nome virou San Juan de Vera de las Siete Corrientes e, por fim, Corrientes. A cidade guarda em sua origem a lenda da Cruz de los Milagros. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Uma cruz de madeira que as chamas não conseguem queimar. É isso que conta a tradição de Corrientes: nos primeiros meses de vida da cidade, quando os ataques indígenas ameaçavam varrer do mapa o precário forte espanhol, a grande cruz de urunday que os fundadores tinham fincado junto à paliçada resistiu intacta ao fogo, e um raio fulminou quem tentava queimá-la. Mais de quatro séculos depois, essa mesma cruz (3,75 metros de madeira dura) é venerada em um santuário do centro histórico, e sua lenda continua sendo a melhor porta de entrada para uma cidade onde história e fé são inseparáveis.
Tudo começou em 3 de abril de 1588, quando o adelantado Juan Torres de Vera y Aragón, com o auxílio de Alonso de Vera y Aragón (apelidado 'el Tupí') e de Hernando Arias de Saavedra, fundou a cidade. A ata de fundação fala em fundar 'la ciudad de Vera en el sitio que llaman de las Siete Corrientes'. Ou seja, o nome original da cidade foi Ciudad de Vera, em memória da linhagem do fundador.
O topônimo 'Siete Corrientes' (Sete Correntes) faz referência ao regime acidentado do rio Paraná naquele ponto: as pontas de rocha e os redemoinhos que geram várias 'correntes' de água. A fundação atendia a uma necessidade estratégica: Torres de Vera y Aragón precisava cumprir as capitulações do seu cargo de adelantado, e a cidade foi concebida como ponto de passagem e porto intermediário entre Assunção do Paraguai e Buenos Aires, na longa rota fluvial do Paraná.
Com o passar dos anos, o nome foi mudando. Como São João Batista foi um dos santos escolhidos como padroeiros da cidade, ela acabou ficando conhecida como San Juan de Vera de las Siete Corrientes, e desse nome comprido o uso popular foi ficando só com a forma abreviada: Corrientes.
Poucos relatos estão tão ligados ao nascimento de Corrientes quanto o da Cruz de los Milagros (Cruz dos Milagres). Segundo a tradição, nos primeiros tempos da fundação os espanhóis ergueram uma grande cruz de madeira. Os indígenas da região, em conflito com os colonizadores, tentaram várias vezes destruí-la e incendiá-la, mas, conta a lenda, a cruz resistiu milagrosamente ao fogo, e raios teriam fulminado quem tentava queimá-la.
Esse episódio, vivido como um milagre, deu origem a uma das devoções populares mais profundas de Corrientes. A cruz, de madeira de urunday e com 3,75 metros, foi guardada primeiro em uma ermida precária e, a partir de 1730, no primeiro templo construído em sua honra (erguido em 1720). A pedra fundamental do santuário atual, o quinto da série, foi lançada em 1888, durante o terceiro centenário da cidade, e ele foi consagrado em 1897. Todo 3 de maio, dia da Cruz, milhares de fiéis se reúnem para venerá-la. A religiosidade popular é, aliás, um traço central da identidade de Corrientes: à Cruz de los Milagros somam-se o culto à Virgem de Itatí e a enorme devoção ao Gauchito Gil, cujos santuários vermelhos aparecem por toda a província.
A história de Corrientes é marcada pela sua relação com o rio Paraná. A localização foi escolhida pelas vantagens naturais como porto, em um ponto-chave da rede fluvial que ligava o interior ao Atlântico. Durante séculos, a cidade cresceu como polo comercial e portuário e como capital de uma província de pecuária e erva-mate.
O episódio mais dramático dessa história de fronteira aconteceu na madrugada de 13 de abril de 1865. Cinco vapores paraguaios desceram em silêncio pelo Paraná e surgiram diante do porto de Corrientes, onde estavam ancorados dois pequenos navios argentinos em reparo, o 25 de Mayo e o Gualeguay. As embarcações paraguaias passaram direto e, de repente, inverteram o rumo e atacaram os barcos indefesos, deixando muitos mortos a bordo. Dois dias depois, em 15 de abril, o general paraguaio Wenceslao Robles desembarcou na cidade no comando de uns 2.000 soldados, enquanto outra coluna de cavalaria paraguaia chegava por terra no mesmo dia. Os invasores instalaram um governo interino de três membros do partido federal de Corrientes, supervisionado de perto por comissários paraguaios.
A agressão, longe de dobrar o país, teve o efeito contrário: gerou uma onda de indignação patriótica que uniu momentaneamente as facções políticas argentinas em torno do governo nacional e tornou politicamente impossível qualquer neutralidade. Apenas duas semanas depois da invasão, em 1º de maio de 1865, Argentina, Brasil e Uruguai assinaram em Buenos Aires o Tratado da Tríplice Aliança contra o Paraguai, que foi mantido em segredo por um tempo. Assim, a breve ocupação de Corrientes acabou sendo a faísca que acendeu a Guerra da Tríplice Aliança (1865-1870), que no Brasil conhecemos como Guerra do Paraguai: o conflito armado mais sangrento da história sul-americana. Ela deixou na memória de Corrientes uma ferida profunda, que a cidade ainda lembra.
Essa condição de fronteira, com o Paraguai ao norte e, do outro lado do rio, o Chaco a oeste, moldou uma cultura de cruzamento, em que o guarani e o espanhol se entrelaçam. A língua guarani, inclusive, foi declarada idioma oficial alternativo da província junto com o espanhol (lei 5598 de 2004): Corrientes é a única província argentina onde o guarani tem esse status.
Se tem uma coisa que define Corrientes no imaginário argentino é o chamamé. Esse gênero musical, nascido no Litoral argentino e muito especialmente em solo correntino, funde raízes guaranis com a herança europeia (o acordeão, o violão, o bandoneón) e canta, em espanhol e em guarani, o rio, o mato, o amor e a terra. Quem conhece a música do Mato Grosso do Sul e do Rio Grande do Sul vai reconhecer o parentesco. Em 2020, a UNESCO declarou o chamamé Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, um reconhecimento mundial a essa expressão profundamente correntina.
Todo mês de janeiro, a cidade celebra a Fiesta Nacional del Chamamé no Anfiteatro Mario del Tránsito Cocomarola, que reúne os grandes intérpretes do gênero. O chamamé divide espaço com o outro grande orgulho festivo da cidade: o Carnaval. Corrientes é a Capital Nacional do Carnaval na Argentina, e a cada verão o Corsódromo Nolo Alías se enche de plumas, brilho e comparsas como Ara Berá e Copacabana, em uma das maiores festas do país.
A Corrientes de hoje conserva o charme de uma cidade antiga do Litoral argentino: casarões coloniais, ruas arborizadas, uma catedral em frente à Plaza Cabral e uma ampla orla sobre o Paraná, com a ponte General Belgrano (que a liga a Resistencia, no Chaco) ao fundo. É uma capital de ritmo tranquilo, quente e acolhedora, onde a música, a fé e o rio ditam o compasso.
Além dos atrativos urbanos, a capital Corrientes tem um papel estratégico para o turismo: é a principal porta de entrada e base de serviços para os Esteros del Iberá, uma das maiores e mais biodiversas áreas úmidas do planeta, lar de capivaras, jacarés, cervos-do-pantanal e centenas de aves. Assim, a cidade combina o melhor de dois mundos: a cultura viva do Litoral (chamamé, carnaval, devoção popular) e o acesso a uma das grandes maravilhas naturais da Argentina.