Córdoba é a capital da província de mesmo nome e a segunda cidade mais populosa da Argentina, bem no centro do país. É apelidada de 'La Docta' (a sábia, a culta) por ser sede da Universidade Nacional de Córdoba, a primeira universidade do país e uma das mais antigas das Américas, fundada em 1613. É uma cidade jovem e vibrante graças à sua enorme população estudantil, mas com um centro histórico colonial que conserva um dos conjuntos jesuíticos mais importantes do continente.
Seu grande tesouro é a Manzana Jesuítica, declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2000 junto com as estâncias jesuíticas do interior da província. Nesse quarteirão convivem a Iglesia de la Compañía de Jesús — com sua célebre abóbada de cedro paraguaio em forma de casco de barco invertido —, a Capilla Doméstica, o antigo Reitorado da Universidade e o Colegio Nacional de Monserrat. A poucos passos ficam a Plaza San Martín, o Cabildo histórico, a Catedral e a Cripta Jesuítica subterrânea.
Mas Córdoba não é só história: é também o bairro Güemes, com sua feira de artesãos e sua cena gastronômica e boêmia, a elegante Nueva Córdoba, com o Paseo del Buen Pastor e o parque Sarmiento, e o Cerro de las Rosas, com seus restaurantes e vida noturna. Some a isso o lomito cordobés — reconhecido entre os melhores sanduíches do mundo —, o fernet com Coca e o calor humano da sua gente, e você tem uma das cidades mais completas para descobrir no centro da Argentina.
Córdoba foi fundada em 6 de julho de 1573 por Jerónimo Luis de Cabrera, na rota que ligava o Alto Peru ao Atlântico. Os jesuítas se estabeleceram no fim do século XVI e, em 1613, fundaram o Colegio Máximo, que deu origem à Universidade Nacional de Córdoba, a primeira do país. A 'Manzana Jesuítica' que eles ergueram — igreja, colégio e universidade — foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 2000. Em 1918, a cidade foi o berço da Reforma Universitária, um movimento estudantil que transformou as universidades de toda a América Latina. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The landlocked province of sierras and rivers: Comechingón land founded by Cabrera in 1573, seat of the oldest university in the country and of the great Jesuit legacy, cradle of the University Reform and of the Cordobazo, capital of sierra tourism and of cuarteto.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
No teto de uma igreja do século XVII, bem no centro de Córdoba, há algo que parece fora de lugar: um casco de barco virado de cabeça para baixo, feito inteiramente de madeira de cedro paraguaio. Não há mar por perto, nem estaleiro, nem tradição naval. O que houve foi um jesuíta que sabia construir barcos, e não abóbadas de pedra, e que resolveu o problema com a única coisa que sabia fazer bem. Esse teto inusitado, hoje uma das joias do barroco americano, é uma boa metáfora de Córdoba: uma cidade que, desde a sua fundação, contornou seus limites com engenhosidade e acabou construindo algo único.
Córdoba foi fundada em 6 de julho de 1573 pelo capitão Jerónimo Luis de Cabrera, governador do Tucumán, com o nome de Córdoba de la Nueva Andalucía. Diferentemente de Mendoza e das demais cidades de Cuyo, que foram fundadas por expedições vindas do Chile, Córdoba nasceu da corrente colonizadora que descia do norte, do Tucumán e do Alto Peru. A cidade se instalou no vale do rio Suquía (hoje rio Primero), em terras habitadas pelos povos comechingones e sanavirones.
A localização não foi por acaso. Córdoba ficou no centro geográfico do atual território argentino, na rota natural que ligava o Alto Peru (o coração econômico do império espanhol, com a prata de Potosí) ao Atlântico e ao Rio da Prata. Essa posição de encruzilhada logo transformou a cidade num ponto estratégico de comunicações e comércio e, principalmente, num centro religioso e cultural que marcaria o seu destino nos séculos seguintes.
Os jesuítas chegaram a Córdoba no fim do século XVI e se estabeleceram oficialmente por volta de 1599. No coração da cidade, ergueram o que hoje conhecemos como Manzana Jesuítica: um conjunto que reunia a igreja, a residência, o colégio e a universidade da ordem. Ali, em 1613, fundaram o Colégio Máximo, que deu origem à Universidade de Córdoba, a primeira do atual território argentino e uma das mais antigas de toda a América. Graças a essa tradição de estudo e ensino, a cidade ganhou seu apelido mais famoso: 'La Docta', a douta.
O edifício mais admirado do conjunto é a Igreja da Companhia de Jesus, o templo mais antigo da cidade, erguido no século XVII. A grande maravilha está na abóbada do teto. Como não havia mestres capazes de construir uma abóbada de pedra, recorreu-se a um construtor naval, tradicionalmente identificado como Philippe Lemaire. Ele projetou o forro em madeira de cedro paraguaio, montada no formato de um casco de barco invertido. É uma das obras-primas do barroco americano, e o trabalho dos artesãos indígenas ficou registrado em cada detalhe.
Os jesuítas sustentavam toda essa obra com um sistema econômico exemplar: as estâncias jesuíticas do interior da província (Caroya, Jesús María, Santa Catalina, Alta Gracia e La Candelaria) produziam a riqueza que financiava o colégio e a universidade. Mas tudo foi interrompido em 1767, quando o rei Carlos III da Espanha decretou a expulsão da Companhia de Jesus de todos os seus domínios. Em 12 de julho daquele ano, os jesuítas de Córdoba foram reunidos e mandados para o exílio. Eles só voltariam à cidade no século XIX.
Enquanto os jesuítas construíam seu quarteirão do saber, a cidade colonial crescia ao redor da sua praça principal, hoje Plaza San Martín. Ali se instalaram os dois poderes que organizavam a vida colonial: o civil e o religioso. O Cabildo de Córdoba, sede do governo da cidade, começou como uma modesta construção de adobe por volta de 1588 e ganhou o andar superior com sacadas em 1610. Mas o edifício que admiramos hoje, com sua elegante galeria de quinze arcos, só ficou pronto no fim do século XVIII, quando o marquês de Sobremonte era governador intendente. Hoje ele funciona como espaço cultural e museu.
Diante dessa mesma praça fica a Catedral de Córdoba, a igreja principal da cidade e a mais antiga do país ainda em funcionamento. A construção começou por volta de 1582 e se estendeu por dois séculos, até que as torres foram concluídas no fim do século XVIII. Isso explica a mistura de estilos que a torna única: renascentista, barroco e detalhes de inspiração indígena. Sob o chão do centro histórico se conserva ainda a Cripta Jesuítica do antigo Noviciado, um espaço subterrâneo do século XVII que ficou esquecido durante décadas e foi redescoberto no século XX, durante obras viárias na avenida Colón. Esses edifícios, junto com a Manzana Jesuítica, formam um dos conjuntos coloniais mais bem conservados da Argentina.
Em 1918, a velha Universidade de Córdoba voltou a ser protagonista da história, desta vez como berço de um movimento que transformaria a educação em todo o continente. A universidade ainda era governada por uma elite clerical e conservadora, com cátedras vitalícias e sem nenhuma participação dos estudantes. Entre março e outubro daquele ano, o movimento estudantil se rebelou, com greves, ocupações do prédio e confrontos com o setor conservador.
O momento mais lembrado aconteceu em 15 de junho de 1918. Os estudantes invadiram a universidade para impedir a eleição de um reitor que manteria a velha ordem e declararam greve geral. Pouco depois, a Federação Universitária de Córdoba publicou o célebre Manifesto Liminar, redigido em boa parte por Deodoro Roca e intitulado 'A juventude argentina de Córdoba aos homens livres da América do Sul'. O texto reivindicava o cogoverno, para que professores, estudantes e formados governassem juntos a universidade. Pedia também a autonomia universitária diante do poder político, a liberdade de cátedra e o acesso por concurso.
A Reforma de 18 saiu vitoriosa, e seus princípios se espalharam como rastilho de pólvora pelas universidades de toda a Argentina e da América Latina, inclusive do Brasil. Por isso Córdoba não é só a cidade da primeira universidade do país. É também o lugar onde nasceu uma forma moderna e democrática de pensar a universidade, que ainda hoje marca milhões de estudantes do continente.
Em meados do século XX, 'La Docta' ganhou outra identidade: a de grande polo industrial do interior argentino. A partir dos anos 1950, a cidade se encheu de fábricas. A estatal IAME (Industrias Aeronáuticas y Mecánicas del Estado) chegou a produzir aviões e o lendário Rastrojero. A IKA (Industrias Kaiser Argentina) fabricou o lendário Torino. Mais tarde vieram a Fiat e outras montadoras. Essas fábricas atraíram dezenas de milhares de operários e consolidaram sindicatos poderosos e politizados. A combinação de fábricas e universidades de massa fez de Córdoba uma cidade de operários e estudantes como não havia outra no país.
Essa mistura explosiva estourou em 29 de maio de 1969, durante a ditadura do general Juan Carlos Onganía. Naquele dia, colunas de metalúrgicos, eletricitários e trabalhadores do transporte, lideradas por dirigentes como Agustín Tosco, Elpidio Torres e Atilio López, se juntaram a milhares de estudantes. O protesto superou a polícia e ocupou o centro da cidade por quase dois dias, com barricadas e confrontos. A repressão deixou mortos e centenas de presos. O operário metalúrgico Máximo Mena, uma das vítimas, virou o símbolo da revolta. O Exército precisou entrar na cidade para retomar o controle.
O 'Cordobazo' foi muito mais que uma revolta local. Ele enfraqueceu Onganía de forma irreversível, e o general caiu um ano depois. O episódio entrou para a história argentina como o maior levante operário-estudantil do século XX e é frequentemente comparado ao Maio de 68 francês. Para entender a Córdoba de hoje, contestadora, universitária, industrial e orgulhosa da sua identidade, o Cordobazo é uma referência obrigatória, e a sua memória continua muito viva na cidade.
No ano 2000, a Unesco inscreveu na Lista do Patrimônio Mundial a 'Manzana Jesuítica e Estâncias de Córdoba', reconhecendo o valor universal excepcional do legado jesuíta na província. A distinção abrange o conjunto urbano do centro da cidade: a Igreja da Companhia de Jesus, a Capela Doméstica, a antiga Reitoria da Universidade e o Colegio Nacional de Monserrat. Abrange também as cinco estâncias do interior da província que sustentavam economicamente essa obra: Caroya, Jesús María, Santa Catalina, Alta Gracia e La Candelaria.
A Unesco destacou que esses lugares representam uma experiência religiosa, social e econômica única no gênero, desenvolvida por mais de um século e meio. Nela se fundiram a arquitetura europeia, os saberes e a mão de obra dos povos originários e africanos e um sistema de produção que integrava a cidade ao campo. Para Córdoba, o título consolidou sua identidade de capital cultural e histórica do centro da Argentina: uma cidade universitária, jovem e vibrante, que guarda no centro histórico um dos tesouros coloniais mais importantes da América do Sul.