Sarmiento é um surpreendente oásis verde no meio da estepe patagônica, uma cidadezinha agrícola cercada de chácaras, álamos e dois grandes lagos (Musters e Colhué Huapi) no centro-sul da província de Chubut. Fundada no começo do século XX por uma mistura de colonos — entre eles bôeres sul-africanos, galeses, lituanos e criollos —, deve sua fertilidade ao rio Senguer, que irriga o vale e permite a produção de cerejas, frutas vermelhas e hortaliças no meio de uma paisagem árida.
Sua grande atração turística é o Bosque Petrificado José Ormachea, uma área protegida provincial onde a erosão deixou à mostra troncos fossilizados de árvores que viveram há cerca de 65 milhões de anos, numa paisagem lunar de barrancos multicoloridos, cânions e formações erosivas. É uma das florestas petrificadas mais acessíveis e bonitas da Patagônia, e se complementa com o vizinho Bosque Petrificado Víctor Szlápelis.
Tranquila e autêntica, Sarmiento é uma parada ideal para quem percorre a Patagônia central pela Rota 26 e a região de Comodoro Rivadavia, combinando paisagens geológicas únicas, natureza de lagos e estepe, uma colônia de raízes multiculturais e a calma de uma cidade do interior onde o tempo parece passar devagar.
Sarmiento foi fundada oficialmente em 1897 (Colonia Sarmiento) como um assentamento agrícola no vale do rio Senguer, povoado por colonos de origens diversas: bôeres que chegaram depois da Guerra Anglo-Bôer, galeses vindos do vale do Chubut, lituanos, chilenos e criollos. A irrigação do Senguer transformou a estepe num oásis produtivo. Seu nome homenageia Domingo Faustino Sarmiento. A versão completa está na página de história.
Ler a história completa ↓The heart of Atlantic and Andean Patagonia: Tehuelche and Mapuche land, setting of the only large Welsh colony in the Americas, cradle of Argentine oil at Comodoro Rivadavia, home to the whales of Península Valdés and to the thousand-year-old forest of Los Alerces.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Durante boa parte do século XX, nas chácaras de Sarmiento se ouvia falar africâner: era a língua dos bôeres sul-africanos que, derrotados pelo Império Britânico, atravessaram o Atlântico para recomeçar a vida na estepe de Chubut. Essa é só uma das histórias improváveis deste oásis patagônico. No fim do século XIX, o Estado argentino impulsionava a ocupação efetiva da Patagônia depois das campanhas militares das décadas de 1870 e 1880, e nesse contexto o fértil vale do rio Senguer, no centro-sul do atual Chubut, foi escolhido para abrigar uma colônia agrícola que aproveitasse a água do rio para tornar a estepe produtiva.
A Colônia Sarmiento foi fundada oficialmente em 1897 e recebeu esse nome em homenagem a Domingo Faustino Sarmiento, o educador e presidente argentino. Diferentemente de outras colônias patagônicas, Sarmiento se destacou pela enorme diversidade de origens de seus moradores. Entre os primeiros colonos havia famílias galesas vindas do vale inferior do Chubut, criollos argentinos, chilenos e, de forma muito característica, um contingente de bôeres, agricultores de origem holandesa que emigraram do sul da África depois da Guerra Anglo-Bôer.
Mais tarde chegaram também imigrantes lituanos e de outras procedências, formando uma comunidade multicultural pouco comum. O trabalho de canalização e irrigação do rio Senguer transformou a terra árida em chácaras produtivas, dando origem ao oásis verde cercado de estepe que caracteriza Sarmiento até hoje.
O caso dos colonos bôeres talvez seja o mais singular de toda a colonização patagônica. Depois da derrota para os britânicos na Guerra Anglo-Bôer (1899-1902), várias centenas de famílias bôeres, principalmente da África do Sul, buscaram novas terras onde continuar a vida agrícola longe do Império Britânico. O governo argentino lhes ofereceu terras no vale do Senguer, e assim eles se instalaram na região, trazendo seu idioma (o africâner, falado na colônia durante gerações), sua religião calvinista e suas técnicas de cultivo. Com o tempo, grande parte dessa comunidade bôer emigrou de novo, muitos de volta à África do Sul após o fim do apartheid, mas sua marca cultural e arquitetônica continua presente na cidade.
O grande patrimônio natural de Sarmiento vem de uma época muitíssimo mais antiga que a colônia. Há dezenas de milhões de anos, durante o período Terciário, a região tinha um clima quente e úmido, muito diferente do atual, e era coberta por extensas florestas. A intensa atividade vulcânica da cordilheira dos Andes, então em formação, soterrou essas florestas sob cinzas e sedimentos.
Nesse ambiente, os troncos caídos passaram por um processo de permineralização: a água carregada de minerais se infiltrou na madeira e, célula por célula, foi substituindo a matéria orgânica por sílica e outros compostos, conservando com impressionante riqueza de detalhes a estrutura das árvores. O resultado são troncos petrificados, literalmente transformados em pedra, que preservam os anéis de crescimento e a textura da casca.
Com o passar das eras, o soerguimento do terreno e a erosão do vento e da água foram expondo esses fósseis na superfície, deixando-os à vista em uma paisagem espetacular de barrancos multicoloridos e cânions. Para proteger esse patrimônio foram criadas as áreas naturais do Bosque Petrificado José Ormachea e do Bosque Petrificado Víctor Szlápelis, que hoje permitem ao visitante caminhar entre vestígios de florestas desaparecidas há milhões de anos.
Ao longo do século XX, Sarmiento consolidou seu perfil agrícola graças à irrigação do Senguer. A produção de cerejas, frutas vermelhas, hortaliças e forragens fez do vale um polo produtivo no meio da árida Patagônia central. A proximidade com Comodoro Rivadavia, a capital do petróleo argentino, também ligou a região à economia regional dos hidrocarbonetos.
O entorno natural completa a identidade do lugar. Os lagos Musters e Colhué Huapi, alimentados pelo Senguer, são corpos d'água de grande importância: o Musters abastece de água potável boa parte da região e oferece pesca e esportes náuticos, enquanto o Colhué Huapi, mais raso, passa por variações marcantes conforme o volume de água que recebe. Em anos de seca, ele chega a encolher drasticamente e deixa à mostra amplas praias de lama, que voltam a ser cobertas quando a vazão do rio se recupera.
Nas últimas décadas, o turismo se somou como atividade relevante, atraído sobretudo pelas florestas petrificadas, pelos lagos e pela singular história multicultural da cidade. Sarmiento mantém seu jeito de cidadezinha agrícola tranquila, com seu museu regional, suas chácaras de cereja (a colheita vai de novembro até o fim de janeiro) e suas festas populares, entre elas o tradicional Festival de Doma y Folclore, que todo mês de fevereiro reúne centenas de visitantes. Ao mesmo tempo, firma-se como uma parada de interesse geológico e paisagístico nos roteiros pela Patagônia central, entre a costa atlântica e a cordilheira. A combinação de água, história de imigração e fósseis milenares faz de Sarmiento um destino que resume, em poucos quilômetros quadrados, boa parte das camadas geológicas e humanas que formam a Patagônia.
Muito antes da colônia, o vale do Senguer e os lagos Musters e Colhué Huapi eram território dos povos tehuelches (aónikenk), caçadores-coletores que percorriam a estepe patagônica e usavam esses corpos d'água como locais de acampamento e de caça de guanacos e emas. Os próprios nomes dos lagos remetem a essa época de exploração: o lago Musters lembra o oficial britânico George Chaworth Musters, que em 1869-1870 cruzou a Patagônia de sul a norte acompanhando grupos tehuelches e deixou um dos primeiros relatos detalhados da região.
O grande patrimônio paleontológico da área, os troncos petrificados, era conhecido pelos moradores locais desde cedo, mas seu estudo e sua valorização se consolidaram no século XX. O nome de uma das florestas, José Ormachea, homenageia a pessoa associada à sua descoberta e divulgação, enquanto o Víctor Szlápelis lembra outro morador ligado à região. Com o tempo, geólogos e paleontólogos identificaram nesses sítios restos de uma flora do período Cretáceo-Paleógeno (de cerca de 65 milhões de anos), o que transformou Sarmiento em um ponto de referência para entender as antigas florestas subtropicais que cobriram a Patagônia antes do soerguimento dos Andes.
Para proteger esse tesouro foram estabelecidas as áreas naturais do Bosque Petrificado José Ormachea e do Bosque Petrificado Víctor Szlápelis, hoje integradas como Monumento Natural Provincial. O Museo Regional Desiderio Torres, na cidade, completa essa história reunindo fósseis, materiais arqueológicos tehuelches e testemunhos da colonização, de modo que a história natural e a história humana de Sarmiento são contadas juntas.