Cayastá é um dos grandes lugares da história argentina: aqui, às margens do rio San Javier, ficava Santa Fe la Vieja, o local original onde Juan de Garay fundou a cidade de Santa Fe em 1573, décadas antes de a cidade ser transferida para sua localização atual. As ruínas daquela primeira Santa Fe, hoje transformadas em parque arqueológico, permitem caminhar pelas ruas, alicerces e templos de uma cidade colonial do século XVI, numa viagem à própria origem do povoamento do Litoral.
O sítio é excepcional: é um dos poucos lugares da Argentina onde dá para ver o traçado completo de uma cidade colonial antiga, com seus lotes, sua praça, suas igrejas e conventos, e onde a arqueologia trouxe à luz até sepultamentos e restos daqueles primeiros habitantes. É também o lugar onde repousam os restos de figuras históricas da conquista, como Hernandarias. Tudo isso num cenário natural de rio e margens, na tranquila localidade de Cayastá.
Este guia percorre o essencial de Cayastá com um olhar prático e acolhedor: como visitar o parque arqueológico de Santa Fe la Vieja e seu museu, o que se vê no sítio, como é a região do rio San Javier, quando ir, como chegar saindo de Santa Fe e onde comer. Cayastá é um destino imperdível para quem ama história e arqueologia, uma janela aberta para as origens da Argentina.
Em 1573, o conquistador Juan de Garay fundou a cidade de Santa Fe no local que hoje ocupa Cayastá, às margens do rio San Javier, como parte do avanço espanhol para ligar o Río de la Plata ao Alto Peru. A cidade funcionou ali durante várias décadas, mas os problemas — enchentes, a erosão do rio, o isolamento e os conflitos — levaram à sua transferência, no começo do século XVII, para a localização atual (a atual cidade de Santa Fe). O local original ficou abandonado e passou a ser conhecido como 'Santa Fe la Vieja'. No século XX, as escavações arqueológicas trouxeram à luz suas ruínas, que hoje formam um parque arqueológico e museu, um dos sítios históricos mais importantes do país. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Litoral province that was the cradle of constitutionalism and a granary of the pampas: land of the first colonial settlements at Cayastá, seat of the 1853 Constitution, of the port of Rosario and of the first Argentine flag.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A cidade de Santa Fe não fica onde foi fundada: sua primeira versão nasceu em 1573 às margens do rio San Javier, no lugar onde hoje fica a localidade de Cayastá, e décadas depois os próprios moradores a mudaram inteira, uns 80 quilômetros ao sul, até sua localização atual. Naquele ano de 1573, o conquistador espanhol Juan de Garay fincou a cidade neste canto do Litoral argentino. A fundação não foi um fato isolado, mas parte de uma estratégia maior da conquista espanhola: a 'abertura de portas para a terra', ou seja, a necessidade de estabelecer cidades que conectassem o Rio da Prata e o Atlântico com o Alto Peru e o coração do domínio espanhol na América do Sul. Garay, que partia de Assunção do Paraguai, buscava consolidar essa via de comunicação fluvial e terrestre.
A escolha do local, às margens do rio, seguia a lógica da época: a água era via de transporte, fonte de recursos e elemento de defesa. A cidade foi traçada segundo o modelo colonial espanhol, com sua praça central, ruas em quadrícula, os terrenos repartidos entre os moradores e os espaços reservados para os edifícios religiosos e de governo. Foram erguidas igrejas e conventos das ordens religiosas (franciscanos, dominicanos, mercedários), que eram parte fundamental da vida colonial.
A região era habitada por povos originários, com os quais a nova cidade manteve relações de conflito e, ao mesmo tempo, de convivência necessária. A fundação de Santa Fe foi um passo-chave na consolidação da presença espanhola no Litoral e na articulação do vasto território do Rio da Prata. Poucos anos depois, Garay fundaria também (ou refundaria) a cidade de Buenos Aires, completando essa estratégia de ocupação do território. A primeira Santa Fe ficava assim inscrita nas próprias origens do povoamento hispânico da Argentina.
Durante várias décadas, a primeira Santa Fe funcionou como uma cidade colonial do Litoral, com sua vida religiosa, comercial e administrativa, sua população de espanhóis, crioulos, mestiços e indígenas, e seu papel na rede de comunicações do território. Mas o local original apresentava problemas crescentes que acabariam selando seu destino. O rio, que tinha sido escolhido como aliado, virou uma ameaça: as enchentes e a erosão dos barrancos colocavam a cidade em perigo e comprometiam seu futuro.
A esses problemas somavam-se outros: o isolamento relativo, as dificuldades de comunicação e os conflitos com as populações indígenas da região. Diante dessa situação, as autoridades e os moradores decidiram, no começo do século XVII, transferir a cidade para um lugar mais favorável. Assim, Santa Fe foi levada para sua localização atual (a atual cidade de Santa Fe de la Vera Cruz), levando consigo a população e abandonando o local original.
O lugar primitivo ficou despovoado e, com o tempo, foi sendo coberto por vegetação e sedimentos, passando a ser conhecido como 'Santa Fe la Vieja'. A cidade nova prosperou em sua nova localização, enquanto a velha ficou como uma lembrança e, por fim, como um sítio perdido debaixo da terra. O que parecia o fim da história daquele lugar seria, séculos depois, o começo de uma nova: a de sua redescoberta arqueológica, que traria de volta à luz as origens de Santa Fe.
Durante séculos, o sítio da primeira Santa Fe ficou esquecido debaixo da terra na região de Cayastá. Até que apareceu Agustín Zapata Gollán, um personagem singular — historiador, jornalista, gravurista e arqueólogo santafesino, diretor do Departamento de Estudos Etnográficos e Coloniais —, que em 4 de novembro de 1949 anunciou ter encontrado as ruínas de Santa Fe la Vieja num campo perto de Cayastá. A primeira coisa que ele desenterrou foram os muros de adobe da igreja de San Francisco. As primeiras escavações foram cercadas de uma intensa polêmica sobre a identidade do sítio, mas Zapata Gollán perseverou e a Academia Nacional de la Historia acabou ratificando a autenticidade das ruínas. Os arqueólogos foram descobrindo o traçado da cidade colonial — suas ruas, sua praça, as fundações das casas e dos edifícios principais —, num trabalho que permitiu reconstruir como tinha sido aquela cidade fundacional do século XVI.
Entre os achados mais notáveis estavam os restos dos templos e conventos (as igrejas de San Francisco, Santo Domingo e la Merced) e os sepultamentos preservados dentro deles, uma prática comum na época colonial. As escavações revelaram restos humanos, objetos de uso cotidiano, cerâmicas e peças que iluminaram a vida daqueles primeiros habitantes, incluindo os restos de figuras centrais da conquista, como Hernandarias.
O valor excepcional do achado levou à desapropriação do terreno pelo governo provincial e à criação do Parque Arqueológico Santa Fe la Vieja, com seu museu de sítio, que protege e exibe as ruínas e os objetos recuperados. O sítio foi declarado Monumento Histórico Nacional em 1957 e se tornou um destino único: um dos poucos lugares da Argentina onde dá para caminhar por uma cidade colonial antiga e espiar, literalmente, as origens do povoamento hispânico do Litoral. Cayastá guarda assim, em seu solo, a memória da primeira Santa Fe e um capítulo fundador da história argentina.
Um dos aspectos que tornam Santa Fe la Vieja um sítio excepcional é que em seu solo repousam os restos de figuras centrais da história do Rio da Prata. O mais célebre é Hernando Arias de Saavedra, conhecido como 'Hernandarias' (c. 1561-1634), o primeiro governante crioulo — ou seja, nascido na América — do Rio da Prata. Hernandarias governou em várias ocasiões, impulsionou a divisão do enorme território do Rio da Prata, defendeu as populações indígenas dos abusos e promoveu a organização institucional da região. Morreu em Santa Fe em 1634 — antes da mudança da cidade — e foi sepultado na igreja de San Francisco da antiga Santa Fe. Nas escavações de 1949 foi encontrado, junto ao altar-mor desse templo, do lado do Evangelho, um sepulcro com os restos de duas pessoas: Hernandarias e sua esposa, Jerónima de Contreras, filha do próprio fundador Juan de Garay. Hoje o sítio exibe réplicas exatas desses sepultamentos no local do achado.
A identificação dos sepultamentos coloniais foi uma das grandes contribuições científicas do sítio. Nas igrejas de San Francisco, Santo Domingo e la Merced, os arqueólogos encontraram dezenas de túmulos, muitos com seus enxovais funerários e na posição original, o que permitiu estudar os costumes funerários, a saúde, a dieta e a composição daquela sociedade colonial antiga, formada por espanhóis, crioulos, mestiços e indígenas.
Esses achados deram a Santa Fe la Vieja um valor que vai além do monumental: o sítio não só conserva o traçado de uma cidade, mas também a memória física de seus habitantes. Por isso é considerado um documento arqueológico único para entender as origens da sociedade do Rio da Prata e um lugar de forte carga simbólica para a identidade santafesina e argentina.