Bremen é uma daquelas cidades alemãs que surpreendem pelo charme tranquilo e pelo enorme peso histórico. Antiga praça hanseática às margens do Weser, foi durante séculos uma cidade livre e comerciante, orgulhosa de sua independência. Até hoje forma, junto com Bremerhaven, a menor cidade-estado da Alemanha. O centro histórico de tijolo vermelho tem casas de fachada estreita, vielas medievais e uma praça do mercado esplêndida. Dá para percorrê-lo a pé em poucas horas, e cada passo rende uma foto de cartão-postal.
O coração de Bremen é a Marktplatz, dominada pelo imponente Rathaus (prefeitura) gótico com fachada renascentista e pela estátua do Roland, símbolo das liberdades da cidade. Os dois são Patrimônio da Humanidade da Unesco. Ao lado da prefeitura fica a estátua mais querida da cidade, a dos Músicos de Bremen: o burro, o cachorro, o gato e o galo do famoso conto dos irmãos Grimm. As patas dianteiras do burro brilham de tanto que os visitantes as tocam para fazer um pedido. Perto dali estão a pitoresca Böttcherstraße, de arquitetura expressionista, e o labiríntico bairro Schnoor, de casinhas de pescadores e artesãos.
Este guia percorre Bremen com um olhar prático e acolhedor: o que ver no centro histórico, como aproveitar um bate-volta à vizinha Bremerhaven e seu comovente Museu da Emigração, onde provar a cerveja Beck's, que nasceu aqui, e como se locomover por uma cidade simpática, verde e muito acessível. Bremen não é uma metrópole deslumbrante como Berlim ou Munique. É uma cidade em escala humana, com séculos de história mercantil, contos de fadas e aquele jeito hanseático sóbrio e encantador do norte da Alemanha.
Bremen nasceu como sede episcopal por volta do ano 787, quando Carlos Magno nomeou o missionário Willehad primeiro bispo da região para evangelizar os saxões. No século IX, o arcebispado de Hamburgo-Bremen se tornou o grande centro missionário do norte da Europa e da Escandinávia. Com o passar dos séculos, Bremen virou uma próspera cidade comerciante e entrou para a Liga Hanseática, a confederação de cidades mercantis que dominou o comércio no Báltico e no mar do Norte. Em 1404 foi erguida a estátua do Roland, símbolo das liberdades e dos direitos de mercado da cidade. Entre 1405 e 1409 foi construído o Rathaus gótico, depois revestido com uma esplêndida fachada renascentista. Bremen defendeu com unhas e dentes sua condição de cidade livre imperial, um status de autogoverno que manteve ao longo de toda a Idade Moderna. No século XIX, a cidade e seu novo porto de Bremerhaven (fundado em 1827) se tornaram um dos maiores pontos de partida da emigração europeia para as Américas: por ali saíram milhões de pessoas rumo ao Novo Mundo. O século XX trouxe a guerra. Por ser uma cidade portuária e industrial, Bremen sofreu duros bombardeios aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Depois do conflito, ficou dentro da zona de ocupação americana e manteve seu histórico status de cidade-estado. Hoje é um dos dezesseis Länder da Alemanha. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Hanseatic, seafaring Germany: Hamburg and Bremen, free cities and great ports of northern trade, cradle of the Hanseatic League and the gateway through which millions of European emigrants left for the Americas.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Bremen começa com uma cruz e uma missão. Por volta do ano 787, nos tempos de Carlos Magno e de suas guerras para submeter e cristianizar os saxões, o monge frísio Willehad foi enviado para evangelizar a região do baixo Weser e nomeado o primeiro bispo de Bremen. Naquele promontório às margens do rio foi erguida uma primeira catedral de madeira, consagrada no ano 789. A empreitada era perigosa: os saxões pagãos resistiam, e a igreja primitiva foi destruída numa revolta antes de ser reconstruída.
O verdadeiro salto veio no século IX. No ano 845, depois que Hamburgo foi destruída pelos vikings, o arcebispado de Hamburgo se uniu ao bispado de Bremen, e a cidade virou sede do poderoso arcebispado de Hamburgo-Bremen, encarregado de comandar a missão cristã em todo o norte da Europa: Dinamarca, Noruega, Suécia, Islândia e as terras do Báltico. Sob arcebispos como Ansgar — o 'apóstolo do Norte' — e, mais tarde, Adalberto, Bremen se tornou um dos grandes centros religiosos da Europa setentrional, a ponto de ser chamada de 'Roma do Norte'.
Dessa época vem a origem da catedral de São Pedro (St. Petri Dom), que até hoje domina a praça do mercado. A ambição missionária de Bremen construiu seu prestígio, mas o futuro da cidade não estaria na Igreja, e sim no comércio: sua posição sobre o Weser, caminho natural para o mar do Norte, a voltava para o mar e para os negócios.
Entre os séculos XII e XV, Bremen deixou de ser uma sede episcopal para se tornar uma próspera cidade mercantil, e essa transformação foi, em boa parte, uma luta pela liberdade diante do poder de seus próprios arcebispos. Os cidadãos e comerciantes de Bremen foram arrancando privilégios e autonomia da autoridade eclesiástica, até passarem a governar a si mesmos. O símbolo dessa independência eles mesmos ergueram em pedra: em 1404, levantaram na praça do mercado a estátua do Roland, um cavaleiro com mais de dez metros de altura que empunha a 'espada da justiça' e olha desafiador para a catedral, sede do arcebispo. O Roland representava as liberdades, os direitos de mercado e a jurisdição própria da cidade, e até hoje uma lenda local diz que, enquanto ele estiver de pé, Bremen continuará livre.
Pouco depois, entre 1405 e 1409, a cidade construiu seu Rathaus (prefeitura) gótico, outro gesto de orgulho cívico. A riqueza que tornava tudo isso possível vinha do comércio marítimo. Já em 1260 Bremen aparecia entre as cidades ligadas à Liga Hanseática (Hanse), a grande confederação de cidades mercantis do norte da Europa que dominou por séculos o comércio do Báltico e do mar do Norte. Bremen, ao lado de Lübeck e Hamburgo, esteve entre suas praças importantes, negociando tecidos, cereais, cerveja, peixe e matérias-primas de toda a Europa.
A relação de Bremen com a Hanse foi intensa, mas às vezes conflituosa — a cidade entrou e saiu da Liga mais de uma vez —, e é desse passado hanseático que vem o caráter de Bremen: mercantil, sóbrio, independente e zeloso de suas liberdades. Esse orgulho ficou gravado em seu nome oficial, que se mantém até hoje: 'Cidade Livre Hanseática de Bremen' (Freie Hansestadt Bremen).
Na Idade Moderna, Bremen consolidou sua condição de cidade-estado autônoma. Em 1646, o imperador Fernando III lhe concedeu formalmente o status de cidade livre imperial (Freie Reichsstadt), o que a colocava diretamente sob a autoridade do imperador e lhe garantia o autogoverno, à margem de príncipes e arcebispos. Bremen defenderia essa independência com unhas e dentes ao longo dos séculos seguintes, inclusive diante das tentativas da Suécia e de outras potências de submetê-la após a Guerra dos Trinta Anos.
Essa época de prosperidade e orgulho cívico deixou sua marca mais bonita na arquitetura. Entre 1595 e 1612, o Rathaus gótico ganhou uma espetacular fachada nova no estilo do chamado 'Renascimento do Weser' (Weserrenaissance), obra do arquiteto Lüder von Bentheim: uma portada monumental coberta de estátuas do imperador e dos príncipes eleitores, relevos, arcos e ornamentos esculpidos em arenito. É uma das obras-primas do Renascimento na Alemanha e o principal motivo pelo qual o Rathaus foi depois reconhecido pela Unesco.
Enquanto isso, a cidade aderiu cedo à Reforma protestante e se tornou um baluarte do luteranismo e do calvinismo no norte. Seu comércio continuava crescendo, agora olhando também para o Atlântico: café, tabaco, açúcar e algodão começaram a chegar pelos seus cais. Mas um problema físico ameaçava seu futuro: o Weser estava se enchendo de sedimentos e ficando cada vez menos navegável para os navios grandes, que já não conseguiam subir o rio até a própria Bremen. A solução para esse problema, no século XIX, mudaria a história da cidade.
Em 1827, o burgomestre de Bremen, Johann Smidt, comprou do vizinho Hannover um terreno na foz do Weser, junto ao mar do Norte, e fundou ali um novo porto de águas profundas: Bremerhaven ('porto de Bremen'). Era a resposta ao problema do rio assoreado: se os grandes navios já não conseguiam chegar a Bremen, Bremen iria até o mar. A decisão se revelou visionária e transformou a cidade-estado numa potência marítima.
Ao longo do século XIX e no começo do XX, Bremerhaven se tornou um dos maiores portos de emigração da Europa. De seus cais, companhias de navegação como a Norddeutscher Lloyd — fundada em Bremen em 1857 — levaram milhões de pessoas rumo à América. Estima-se que, entre 1830 e 1974, mais de sete milhões de emigrantes partiram de Bremen e Bremerhaven: alemães empobrecidos, camponeses da Europa central e oriental, judeus fugindo da perseguição, famílias inteiras que deixavam para trás a fome e a falta de perspectivas em busca de uma vida nova nos Estados Unidos, no Brasil, na Argentina e em outros destinos do Novo Mundo.
Essa maré humana é parte essencial da identidade de Bremen e da origem de milhões de famílias hoje espalhadas pela América, muitas delas no Sul do Brasil. A memória desse êxodo está preservada no Deutsches Auswandererhaus (Museu Alemão da Emigração) de Bremerhaven, inaugurado em 2005, que reconstrói com enorme sensibilidade a viagem do emigrante: a angústia da despedida no cais, a superlotação da travessia de navio, a incerteza da chegada a Ellis Island. É um dos melhores museus do mundo dedicados à emigração e um lugar comovente para quem tem raízes nessa diáspora.
O século XX trouxe a Bremen seu capítulo mais duro. Depois da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial e da abdicação do kaiser em 1918, uma onda revolucionária de inspiração soviética percorreu a Alemanha. Em Bremen, operários, marinheiros e soldados proclamaram em janeiro de 1919 a 'República Soviética de Bremen' (Bremer Räterepublik), um breve governo de conselhos revolucionários que durou apenas algumas semanas: foi esmagado em fevereiro de 1919 por tropas do governo e pelos Freikorps, com dezenas de mortos. Foi um episódio menor, mas significativo, da conturbada história do início da República de Weimar.
Sob o nazismo, a partir de 1933, Bremen sofreu, como o resto da Alemanha, a perseguição aos opositores e, sobretudo, à sua comunidade judaica, despojada de seus direitos, expulsa e, por fim, deportada e assassinada no Holocausto. A cidade, grande porto e importante centro industrial — com estaleiros, a fábrica de aviões Focke-Wulf e bases de submarinos —, tornou-se um alvo militar de primeira ordem.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bremen foi duramente bombardeada pela aviação aliada em inúmeros ataques. Grandes áreas do centro histórico e dos bairros residenciais ficaram destruídas ou gravemente danificadas, e milhares de civis morreram. Por uma sorte notável, os dois grandes símbolos da cidade — o Rathaus e o Roland — sobreviveram quase intactos à destruição, o que permitiu que o coração histórico de Bremen preservasse sua alma. Após a rendição de 1945, a cidade ficou, junto com Bremerhaven, como um enclave da zona de ocupação americana dentro do norte controlado pelos britânicos, por seu valor como porto de abastecimento.
Depois da guerra, Bremen manteve seu histórico status de cidade-estado. Na nova República Federal da Alemanha, fundada em 1949, a 'Cidade Livre Hanseática de Bremen' — formada pelas cidades de Bremen e Bremerhaven — tornou-se um dos dezesseis Länder (estados federados) do país, e continua sendo o menor de todos em área e população. Seu parlamento, a Bürgerschaft, e seu governo, o Senado presidido por um burgomestre (Bürgermeister), mantêm viva uma tradição de autogoverno que remonta à Idade Média.
A reconstrução do pós-guerra devolveu a vida ao centro histórico, e cantinhos como o bairro Schnoor ou a Böttcherstraße — de arquitetura expressionista dos anos 1920 — foram cuidadosamente preservados e restaurados. O porto continuou sendo o motor econômico: hoje, Bremerhaven é um dos maiores portos de contêineres e de exportação de automóveis da Europa, e Bremen mantém uma indústria forte, com a fábrica da Airbus, a da Mercedes-Benz e um importante polo aeroespacial (aqui são fabricadas partes do foguete europeu Ariane).
Em 2004, a Unesco declarou Patrimônio da Humanidade o conjunto do Rathaus e do Roland, reconhecendo seu valor como testemunho do desenvolvimento da autonomia cívica e do Sacro Império. Bremen é hoje uma cidade universitária, culta e acolhedora, orgulhosa ao mesmo tempo de seu passado hanseático e de seu lado mais terno: o dos Músicos de Bremen, aqueles quatro animais do conto dos Grimm que — embora nunca tenham chegado à cidade — se tornaram seu emblema mais querido e a primeira imagem que vem à cabeça de milhões de pessoas ao ouvir o nome Bremen.