Poucas cidades do mundo carregam tanta história do século XX quanto Berlim, e poucas a transformam em tanta energia criativa. A capital alemã é uma metrópole enorme, verde e aberta, cortada pelo rio Spree, onde convivem os testemunhos de um passado dramático —o nazismo, a guerra, a divisão, o Muro— com uma das cenas culturais, artísticas e noturnas mais vibrantes da Europa. Caminhar por Berlim é ir lendo camadas de história: uma placa no chão marca por onde passava o Muro, um prédio crivado de balas lembra a guerra, e em frente pulsa um café cheio de gente jovem do mundo inteiro.
Berlim é o Portão de Brandemburgo e a cúpula de vidro do Reichstag; é a Ilha dos Museus, Patrimônio da Humanidade, com seus tesouros da Antiguidade; é a East Side Gallery, o trecho mais longo do Muro transformado em galeria de arte a céu aberto; e é o comovente Memorial do Holocausto, em pleno centro. Mas também é Kreuzberg e sua mistura multicultural, Prenzlauer Berg com seus cafés e pátios, os biergartens do verão, os lagos onde os berlinenses tomam banho e alguns clubes de música eletrônica lendários. A cidade encara de frente sua história mais sombria e, ao mesmo tempo, se reinventa sem parar.
Este guia percorre o essencial de Berlim com um olhar prático e acolhedor: como ver os grandes marcos históricos sem se sobrecarregar, quais museus escolher, como se locomover numa cidade gigantesca com um transporte público excelente, quais bairros curtir e como organizar os dias. Berlim não é uma cidade de cartão-postal bonitinha e compacta como outras capitais europeias; é grande, às vezes áspera, profundamente honesta com seu passado, e justamente por isso uma das mais fascinantes que se pode visitar.
Berlim nasceu por volta do século XIII como dois pequenos povoados comerciais —Berlin e Cölln— às margens do rio Spree, numa região de pântanos e bosques. Com o tempo, tornou-se residência dos príncipes-eleitores de Brandemburgo e depois dos reis da Prússia, que a fizeram capital de seu reino e a enfeitaram com palácios, avenidas e o Portão de Brandemburgo, inaugurado em 1791. Em 1871, após a unificação alemã impulsionada por Bismarck, Berlim passou a ser a capital do novo Império Alemão e viveu um crescimento vertiginoso até se tornar uma grande metrópole industrial e cultural. Os anos 1920 da República de Weimar a transformaram num caldeirão artístico e boêmio, até que a ascensão do nazismo em 1933 a converteu no coração do Terceiro Reich e, durante a Segunda Guerra Mundial, em palco de bombardeios e da batalha final de 1945. Com a derrota da Alemanha, a cidade foi dividida em setores entre as potências vencedoras e, em plena Guerra Fria, partida em duas: Berlim Ocidental, ligada à República Federal, e Berlim Oriental, capital da comunista República Democrática Alemã. Em 1961, o regime do Leste ergueu o Muro de Berlim, que separou famílias e bairros durante 28 anos e se tornou o símbolo mundial da divisão entre o bloco capitalista e o comunista. A queda do Muro, em 9 de novembro de 1989, foi um dos momentos mais emocionantes do século e precedeu a reunificação alemã de 1990. Berlim voltou então a ser a capital de uma Alemanha unida e, desde então, se reconstruiu e se reinventou como uma das cidades mais dinâmicas e criativas da Europa. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Prussian heart of Germany: Berlin, capital of the Reich and of the Republic; Potsdam and the Hohenzollern palaces; Dresden, the Florence on the Elbe flattened in 1945; and Leipzig, birthplace of the peaceful demonstrations that helped bring down the Wall in 1989.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Berlim começa, como a de tantas cidades do norte da Europa, ao lado de um rio e de um vau. No século XIII existiam, na verdade, dois povoados gêmeos, um em cada margem do rio Spree: Cölln, numa ilha do rio (a atual Ilha dos Museus), e Berlim, na margem oposta. A primeira menção documental de Cölln é de 1237 e a de Berlim, de 1244, por isso 1237 é adotado por convenção como a data de 'nascimento' da cidade. As duas localidades viviam do comércio fluvial e terrestre, numa região pantanosa e arenosa da Marca de Brandemburgo.
Ao contrário da crença popular, o nome 'Berlim' não tem nada a ver com o urso (Bär) que aparece no seu brasão: os linguistas o associam a uma raiz eslava ('berl-' ou 'birl-') que significaria 'pântano' ou 'terra seca numa área úmida', uma lembrança dos povos eslavos que habitaram a região antes da colonização germânica. O urso do brasão é, na verdade, um emblema heráldico 'falante' adotado séculos depois.
Em 1307, Berlim e Cölln se uniram formalmente numa aliança para defender interesses comuns, o primeiro passo de uma longa fusão. Durante a Idade Média, a cidade cresceu modestamente como centro mercantil de Brandemburgo e chegou a integrar por um tempo a Liga Hanseática. O grande salto viria quando uma poderosa dinastia a escolheu como sede do seu poder: os Hohenzollern.
Em 1415, o imperador do Sacro Império concedeu a Marca de Brandemburgo à casa de Hohenzollern, que fez de Berlim-Cölln sua residência. A partir daí, o destino da cidade ficou ligado ao dessa dinastia, que foi transformando o modesto burgo mercantil na capital de um Estado cada vez mais poderoso. A Reforma Protestante chegou a Brandemburgo no século XVI, e a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) atingiu duramente a cidade, que perdeu boa parte da população.
A recuperação veio pelas mãos do chamado 'Grande Eleitor', Frederico Guilherme, que depois de 1648 repovoou Berlim, fortificou a cidade e, sobretudo, acolheu milhares de huguenotes franceses protestantes expulsos da França em 1685: esses refugiados trouxeram ofícios, comércio e cultura, e deixaram uma marca duradoura. Em 1701, seu filho foi coroado como Frederico I, primeiro rei 'na' Prússia, e Berlim passou a ser capital real. Ao longo do século XVIII, sob Frederico Guilherme I e principalmente sob Frederico II, 'o Grande', a Prússia se tornou uma grande potência europeia e Berlim, uma capital do Iluminismo, com academias, palácios e bulevares como a Unter den Linden.
Dessa época monárquica vêm muitos dos símbolos da Berlim histórica: a avenida Unter den Linden, o Portão de Brandemburgo (concluído em 1791 como porta de entrada da cidade), a Ilha dos Museus e os grandes edifícios neoclássicos. A cidade real e prussiana lançou as bases da metrópole que estava por vir.
Em 18 de janeiro de 1871, após a vitória prussiana sobre a França, foi proclamado o Império Alemão e o rei da Prússia, Guilherme I, foi coroado imperador (Kaiser). Berlim se tornou a capital da Alemanha unificada e, com isso, viveu uma de suas maiores transformações. Nas décadas seguintes, a cidade cresceu num ritmo vertiginoso: a industrialização atraiu centenas de milhares de trabalhadores, ferrovias foram construídas, fábricas foram erguidas (Siemens, AEG) e a população se multiplicou até transformar Berlim numa das maiores cidades do mundo.
Em 1894 foi inaugurado o Reichstag, sede do parlamento imperial e símbolo da nova potência. A cidade ganhou bondes, rede de esgoto moderna, grandes lojas de departamentos, uma vida cultural e científica intensa e bairros operários densíssimos. Em 1920, a 'Grande Berlim' (Groß-Berlin) incorporou vários municípios e localidades vizinhas, multiplicando sua área e sua população até passar dos quatro milhões de habitantes, o que fez dela a terceira maior cidade do mundo.
A derrota na Primeira Guerra Mundial e a abdicação do Kaiser em 1918 abriram caminho para a República de Weimar, proclamada em Berlim. Os anos 1920 transformaram a cidade num caldeirão cultural — os 'Anos Dourados' —, capital do cinema, do cabaré, das vanguardas artísticas, do teatro de Brecht e da ciência de Einstein. Mas essa efervescência convivia com uma enorme tensão política e social que acabaria desembocando na tragédia.
Em janeiro de 1933, Adolf Hitler foi nomeado chanceler e Berlim, capital do Reich, virou o centro do poder nazista. O regime marcou a cidade com sua propaganda, seus desfiles e seus crimes: o incêndio do Reichstag, em 1933, serviu de pretexto para suspender as liberdades; em 1936, os Jogos Olímpicos tentaram mostrar ao mundo uma fachada de esplendor; e em novembro de 1938 a 'Noite dos Cristais' (Kristallnacht) desencadeou a violência aberta contra a população judaica. Berlim, que tinha uma das maiores comunidades judaicas da Europa, foi palco de perseguição, deportações e extermínio, uma ferida que a cidade lembra hoje em inúmeros memoriais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Berlim foi alvo de intensos bombardeios aliados que destruíram bairros inteiros. O fim chegou com a Batalha de Berlim, em abril e maio de 1945: o Exército Vermelho soviético cercou e tomou a cidade em combates ferozes, rua por rua. Hitler se suicidou em seu bunker em 30 de abril de 1945, e em 2 de maio a guarnição se rendeu. Poucos dias depois, em 8 de maio, a Alemanha capitulava.
A Berlim que saiu da guerra era um mar de ruínas. Grande parte do seu patrimônio histórico tinha sido arrasada, a população havia despencado e a cidade enfrentava fome e frio. Sobre essa paisagem devastada logo se desenharia uma nova fratura, desta vez geopolítica, que marcaria a segunda metade do século XX: a divisão do mundo em dois blocos.
Após a derrota nazista, as potências vencedoras dividiram a Alemanha e Berlim em quatro setores de ocupação (americano, britânico, francês e soviético). A cidade ficou numa situação inusitada: embora encravada em plena zona soviética, sua metade ocidental ficou sob controle dos aliados ocidentais. As tensões explodiram logo: em 1948-1949, a União Soviética bloqueou os acessos terrestres a Berlim Ocidental, e os aliados responderam com a lendária 'ponte aérea', que abasteceu a cidade pelo ar durante quase um ano.
Com a fundação das duas Alemanhas em 1949, Berlim Oriental se tornou capital da República Democrática Alemã (RDA, comunista) e Berlim Ocidental, um enclave da República Federal (RFA) cercado por território do Leste. Durante anos, milhares de pessoas fugiram do Leste para o Oeste através de Berlim. Para conter essa sangria, na madrugada de 13 de agosto de 1961 o regime da RDA começou a erguer o Muro de Berlim, que dividiu a cidade em duas por 28 anos. O Muro, com sua 'faixa da morte', suas torres de vigilância e suas vítimas fatais, se tornou o símbolo mais visível da Guerra Fria e da divisão do mundo.
A queda do Muro, em 9 de novembro de 1989, foi um dos acontecimentos mais emocionantes do século XX. Pressionado pelos protestos pacíficos no Leste e pela crise do bloco soviético, o regime anunciou naquela noite a abertura das fronteiras, e milhares de berlinenses escalaram e derrubaram o Muro entre lágrimas e comemorações. Aquele momento abriu caminho para a reunificação alemã.
Em 3 de outubro de 1990, menos de um ano depois da queda do Muro, a Alemanha se reunificou formalmente e Berlim foi novamente designada capital do país unido. Em 1991, o Bundestag (parlamento) decidiu transferir a sede do governo e do parlamento de Bonn para Berlim, processo que terminou no fim dos anos 1990 com a volta do parlamento ao renovado Reichstag, coroado pela famosa cúpula de vidro do arquiteto Norman Foster, inaugurada em 1999.
As três décadas seguintes transformaram Berlim numa das cidades mais dinâmicas e criativas da Europa. A antiga 'faixa da morte' do Muro virou bulevares, parques e bairros; a Potsdamer Platz, que tinha sido terra de ninguém entre os dois blocos, renasceu como um moderno distrito de arranha-céus; e a cidade se encheu de museus, galerias, espaços alternativos, vida noturna e uma cena cultural vibrante que atraiu artistas e jovens do mundo todo. Memoriais como o do Holocausto, a East Side Gallery (o trecho do Muro pintado por artistas) e o Checkpoint Charlie fizeram da própria história da cidade parte da sua identidade e da sua oferta cultural.
Hoje Berlim é a capital da Alemanha e o seu maior estado-cidade, uma metrópole com mais de três milhões e meio de habitantes, multicultural, aberta e em constante reinvenção. Poucas cidades carregam sua história tão à flor da pele: o viajante caminha entre as cicatrizes do século XX e a energia de uma cidade que transformou seu passado dividido em motivo de memória, liberdade e criatividade.