Antes de tudo, um aviso sóbrio e necessário: a Ucrânia está em guerra desde 2022 e hoje não é um destino turístico seguro. Este guia é informativo e cultural. A ideia é apresentar Uzhhorod e seu patrimônio, e não incentivar ninguém a viajar em plena guerra. Dito isso, vale a pena contar a história de Uzhhorod. Ela é a capital da Transcarpátia, o canto mais ocidental da Ucrânia. Ao longo do século XX foi húngara, tchecoslovaca, soviética e finalmente ucraniana, e essa mistura aparece na sua arquitetura e no seu caráter.
É uma cidade pequena e simpática, de escala centro-europeia, cortada pelo rio Uzh e dominada por um castelo medieval que hoje abriga o museu regional. Ela é conhecida pela longa avenida de tílias à beira do rio, pelo calçadão Korzo cheio de cafés e pelo bairro tcheco do entreguerras. Acima de tudo, é famosa pelas cerejeiras japonesas (sakuras), que em abril deixam as ruas cor-de-rosa. Como é uma das áreas mais distantes do front, desde 2022 virou refúgio de muitos deslocados internos.
Este guia mostra a Uzhhorod que vale a pena conhecer: o castelo e seu museu, o museu de arquitetura popular com sua igreja de madeira, o centro histórico e seus cafés, e os passeios pelos castelos e vinhedos da Transcarpátia. Traz também informações práticas (moeda, trens da Ukrzaliznytsia, como se locomover) para entender a cidade. Lembre sempre que qualquer plano real depende de a situação de segurança permitir.
Uzhhorod fica às margens do rio Uzh, num cruzamento de caminhos entre os Cárpatos e a planície da Panônia. Houve ali um assentamento eslavo antigo e, já na Idade Média, a região passou a fazer parte do Reino da Hungria, ao qual a Transcarpátia pertenceu durante séculos. O castelo atual tomou forma como fortaleza de pedra entre os séculos XIII e XVII. Depois da Primeira Guerra Mundial, a região passou à Tchecoslováquia (1919), e Uzhhorod viveu um período próspero no entreguerras, com um moderno bairro 'tcheco'. Em 1938-1939 foi ocupada pela Hungria e, depois da Segunda Guerra Mundial, foi incorporada à União Soviética, dentro da RSS da Ucrânia. Com a independência, em 1991, passou a ser ucraniana. Desde a invasão russa de 2022, por sua posição na fronteira oeste, virou refúgio de deslocados. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The most Central European side of Ukraine: Lviv in Habsburg Galicia, the “Piedmont” of the national awakening; elegant Chernivtsi in Bukovina; the Hutsul villages of the Carpathians; Uzhhorod in Transcarpathia; and the great fortresses of Kamianets-Podilskyi and Khotyn.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Uzhhorod nasceu onde o rio Uzh sai dos Cárpatos rumo à planície panônica, uma passagem natural entre a Europa Central e as estepas do leste que a condenou — ou a abençoou — a ser sempre terra de fronteira. Na Alta Idade Média, a região fazia parte da órbita eslava da Grande Morávia, e a tradição local liga as origens da cidade a um líder eslavo chamado Laborec, senhor de uma fortaleza no Uzh que teria caído por volta do ano 900 diante dos magiares que chegavam do leste.
Com a chegada e o assentamento dos húngaros na bacia dos Cárpatos, a Transcarpátia — a vertente sul das montanhas — foi incorporada ao nascente Reino da Hungria, do qual faria parte por quase mil anos. Uzhhorod (em húngaro Ungvár, 'o castelo do Ung') virou um centro regional do condado de Ung. Sua população era uma mistura de rusinos (rutenos) eslavos no campo e de húngaros, alemães e outros moradores na vila e em torno do castelo.
A colina sobre o rio foi desde cedo um ponto fortificado. Os castelos da região vigiavam as passagens e as rotas do sal e do comércio através dos Cárpatos. Durante os séculos medievais, Uzhhorod foi uma possessão que passou pelas mãos de diferentes famílias nobres húngaras, entre elas os Drugeth, de origem ítalo-francesa, que chegaram à região no século XIV e marcariam sua história por gerações.
O castelo de Uzhhorod que vemos hoje ganhou forma sobretudo entre os séculos XVI e XVII, quando a família Drugeth reforçou a velha fortaleza medieval e a transformou em um bastião moderno, com muros grossos e baluartes angulares de estilo italiano pensados para resistir à artilharia. Eram tempos turbulentos: o Reino da Hungria tinha ficado dividido após a catástrofe de Mohács (1526) diante dos otomanos, e este canto do nordeste ficou na zona de atrito entre os Habsburgo, o principado da Transilvânia e a ameaça turca.
Nesse contexto aconteceu um dos fatos mais importantes da história religiosa da região. Em 1646, na capela do castelo de Uzhhorod, foi assinada a União de Uzhhorod, pela qual um grupo de sacerdotes ortodoxos rutenos da região aceitou a comunhão com Roma, reconhecendo o Papa, mas conservando o rito bizantino e seus costumes litúrgicos. Nascia assim a Igreja greco-católica rutena, que seria durante séculos um pilar da identidade dos rusinos da Transcarpátia e que ainda hoje tem em Uzhhorod e Mukachevo o seu coração.
Ao longo do século XVII, a região foi sacudida pelas guerras e rebeliões anti-Habsburgo da nobreza húngara, nas quais o castelo mudou de mãos. Em 1691, após a extinção da linha principal dos Drugeth, a fortaleza e seus domínios passaram à família Bercsényi, muito ligada à grande insurreição de Rákóczi do início do século XVIII. Com o tempo, perdida sua função militar, o castelo foi cedido e chegou a abrigar um seminário greco-católico.
Após a derrota do Império Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial e seu desmembramento, o destino da Transcarpátia foi decidido nas mesas do pós-guerra. Pelos tratados de paz de 1919-1920, a região — então chamada de Rutênia Subcarpática — foi incorporada à nova Tchecoslováquia, com a promessa de uma ampla autonomia. Uzhhorod virou sua capital administrativa.
Esses anos de entreguerras foram, em muitos sentidos, uma época dourada para a cidade. A República Tchecoslovaca, uma das democracias mais sólidas da Europa do entreguerras, investiu na região e transformou Uzhhorod: foi erguido um moderno bairro governamental e residencial — o chamado 'bairro tcheco' ou Malé Galago —, com edifícios funcionalistas, escritórios, escolas e moradias planejadas que ainda hoje dão caráter à cidade. Foram plantadas as tílias e as cerejeiras que a tornariam famosa, as margens do Uzh foram organizadas e floresceu uma vida cultural plural, com rutenos, húngaros, tchecos, eslovacos, judeus e outras comunidades convivendo na cidade.
Essa Uzhhorod cosmopolita do entreguerras deixou uma marca arquitetônica e afetiva que a distingue do resto da Ucrânia. Foi também um período de despertar da consciência nacional entre os rusinos e ucranianos da região, com debates sobre sua identidade que se estenderiam por décadas.
A crise de 1938-1939 rompeu aquele equilíbrio. Após a Primeira Arbitragem de Viena (novembro de 1938), a Alemanha nazista e a Itália fascista entregaram Uzhhorod e a faixa sul da Transcarpátia à Hungria. Em março de 1939, enquanto a Tchecoslováquia desmoronava, a Hungria ocupou o resto da região, esmagando a efêmera proclamação de uma Ucrânia Carpática independente. Uzhhorod (Ungvár) voltava a ser húngara.
Os anos da Segunda Guerra Mundial trouxeram o capítulo mais sombrio. A Transcarpátia tinha uma comunidade judaica numerosa e antiquíssima, muito presente em Uzhhorod. Em 1944, após a ocupação alemã da Hungria, os judeus da região foram confinados em guetos e deportados em massa para Auschwitz, onde a imensa maioria foi assassinada. A comunidade judaica de Uzhhorod, que tinha sido parte essencial da vida da cidade durante séculos, foi praticamente aniquilada no Holocausto. É uma memória que precisa ser nomeada com precisão e sem eufemismos.
No fim da guerra, o Exército Vermelho tomou a região no outono de 1944. Em 1945, um tratado entre a Tchecoslováquia e a URSS transferiu a Transcarpátia para a União Soviética, e ela foi incorporada como óblast da Transcarpátia à RSS da Ucrânia. Começaram décadas de vida soviética: sovietização, industrialização, a fundação da Universidade de Uzhhorod em 1945 e a chegada de novos moradores, enquanto a Igreja greco-católica, proibida pelo regime, era reprimida. Uzhhorod passou a ser uma tranquila capital regional soviética no canto mais ocidental do país.
Com a dissolução da União Soviética, a Ucrânia declarou sua independência em 1991, e Uzhhorod virou a capital do óblast da Transcarpátia dentro do novo Estado. Renasceram a Igreja greco-católica e a vida religiosa e cultural plural da região. A cidade, no ponto de contato com a Eslováquia e a Hungria, se transformou em uma importante passagem de fronteira, ainda mais quando esses vizinhos entraram na União Europeia: Uzhhorod ficou, literalmente, na borda externa da UE.
Seu caráter continuou sendo o de uma cidade tranquila, verde e mestiça, orgulhosa de suas tílias, suas sakuras, seu castelo e sua mistura de línguas e cozinhas. A proximidade com a Europa Central também a tornou um ponto de contato cultural e econômico com o outro lado da fronteira.
Desde a invasão russa em larga escala de fevereiro de 2022, a história de Uzhhorod deu uma guinada dolorosa, mas singular. Por ser a cidade ucraniana mais distante do front, virou um dos grandes refúgios do país: centenas de milhares de pessoas deslocadas das regiões do leste e do sul passaram pela Transcarpátia, e muitas se instalaram em Uzhhorod. A cidade acolheu famílias, instituições, empresas e organizações humanitárias transferidas das zonas em guerra. Embora geograficamente protegida, não esteve totalmente a salvo dos alertas aéreos e da ameaça de ataques de longo alcance que paira sobre todo o país. Hoje Uzhhorod vive essa dupla condição: a de cantinho sereno e centro-europeu, e a de retaguarda solidária de um país em guerra.