Um aviso sóbrio e incontornável: a Ucrânia está em guerra desde 2022 e hoje não é um destino turístico seguro, e Odessa é ainda menos segura por ser um grande porto do mar Negro, alvo frequente de ataques de longo alcance que danificaram até seu centro histórico protegido pela Unesco. Este guia é informativo e cultural: serve para conhecer e valorizar Odessa e seu extraordinário patrimônio, não para incentivar viagens no contexto atual.
Feita essa ressalva, Odessa merece ser contada. É uma cidade singular, diferente de qualquer outra da Ucrânia: fundada no fim do século XVIII no litoral do mar Negro, cresceu como porto franco e janela cosmopolita do império, com uma população que misturava ucranianos, russos, judeus, gregos, italianos, franceses e muitos outros. Daí vêm sua elegante arquitetura do século XIX, seu humor, sua música, sua literatura e aquele caráter mediterrâneo, mercantil e boêmio que a tornou famosa. Seu centro histórico foi inscrito pela Unesco em 2023, em plena guerra, como reconhecimento e como gesto de proteção.
Este guia percorre a Odessa que vale a pena conhecer: a escadaria Potemkin e o bulevar Prymorsky, o Teatro de Ópera — um dos mais bonitos da Europa —, a rua Deribasivska, o centro histórico e seus palácios, as catacumbas e as praias. Com as informações práticas — moeda, trens da Ukrzaliznytsia, como a cidade se organiza — para entendê-la, sempre tendo em mente, com sobriedade, que qualquer plano real depende de a situação de segurança permitir e de a cidade deixar de ser um alvo.
Odessa é uma cidade jovem para os padrões europeus: foi fundada oficialmente em 1794 por ordem da imperatriz Catarina, a Grande, sobre o local de um assentamento anterior, como grande porto do Império Russo no mar Negro. Seu desenvolvimento se deve a administradores como o Duque de Richelieu e o conde Vorontsov, e à sua condição de porto franco, que a transformou numa cidade rica, cosmopolita e multicultural, com uma enorme comunidade judaica e comunidades grega, italiana e de muitas outras origens. No século XIX floresceram sua arquitetura neoclássica e sua vida cultural. A escadaria Potemkin ficou mundialmente famosa pelo filme 'O Encouraçado Potemkin' (1925), de Eisenstein. Odessa passou pela revolução, pelas guerras mundiais, pela ocupação e pelo Holocausto, e pela era soviética. Com a independência de 1991, continuou sendo o grande porto ucraniano. Seu centro histórico é Patrimônio Mundial da Unesco desde 2023, inscrito em plena guerra. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Odessa é uma cidade jovem, e essa juventude explica boa parte do seu caráter. Onde hoje fica a cidade, houve antes outros assentamentos e, pouco antes da sua fundação, uma pequena fortaleza otomana chamada Hacibey (Hocabey), na costa noroeste do mar Negro. Depois das guerras russo-turcas do século XVIII, o Império Russo ficou com essa faixa de litoral, a chamada Nova Rússia, e decidiu construir ali um grande porto que lhe desse saída para o mar Negro e para o comércio mundial.
A fundação oficial de Odessa é fixada em 1794, por ordem da imperatriz Catarina, a Grande. Figuras notáveis participaram do projeto, como o militar de origem espanhola e napolitana José de Ribas (que dá nome à rua Deribasivska) e o engenheiro Franz de Volland, autor do traçado ortogonal de ruas largas que ainda define o centro histórico. Segundo a tradição, o nome 'Odessa' foi inspirado na antiga colônia grega de Odessos, num gesto de evocação clássica bem típico da época.
Desde o início, Odessa foi pensada como uma cidade moderna, planejada, aberta ao mar e ao comércio. Seu crescimento foi vertiginoso: em poucas décadas passou de um punhado de casas a uma das cidades mais importantes do império, atraindo comerciantes e moradores de toda a Europa e do Mediterrâneo.
O século XIX foi a grande época de Odessa. Dois administradores marcaram sua decolagem: o Duque de Richelieu — nobre francês emigrado que foi seu primeiro governador e a quem foi dedicada a famosa estátua no alto da escadaria — e, mais tarde, o conde Mikhail Vorontsov. Mas o fator decisivo foi econômico: em 1819, Odessa recebeu o status de porto franco, que isentava o comércio de tarifas alfandegárias e transformou a cidade num ímã para mercadores do mundo inteiro.
Pelo seu porto saía o trigo das férteis estepes da Ucrânia — o 'celeiro da Europa' — rumo a todo o Mediterrâneo e além, e entravam mercadorias, ideias e gente. Odessa se encheu de comerciantes ucranianos, russos, judeus, gregos, italianos, franceses, alemães, armênios e de muitas outras origens. Essa mistura deu à cidade um caráter cosmopolita, multilíngue e singular, com uma enorme e próspera comunidade judaica, que chegaria a ser uma das maiores da Europa e uma das mais influentes na cultura, no comércio e na vida intelectual.
A riqueza ganhou forma numa arquitetura esplêndida: os palácios e edifícios neoclássicos e ecléticos do centro, o bulevar Prymorsky, a monumental escadaria que desce até o porto (concluída por volta de 1841), o Teatro de Ópera. Odessa também se tornou um grande centro cultural: por ela passaram ou nela viveram escritores como Púchkin (exilado ali por um tempo) e, mais tarde, toda uma plêiade de autores, músicos e humoristas que criaram o inconfundível 'espírito odessita', irônico, vital e mestiço.
O turbulento século XX atingiu Odessa com força. Em 1905, durante a revolução que abalou o Império Russo, a cidade foi palco de uma célebre rebelião: a tripulação do encouraçado Potemkin se amotinou e buscou refúgio no porto de Odessa, e a repressão que se seguiu deixou inúmeras vítimas. Duas décadas depois, o cineasta Serguei Eisenstein imortalizou esses fatos no filme 'O Encouraçado Potemkin' (1925), cuja famosa cena da escadaria — um massacre de civis filmado com genialidade — deu à escadaria de Odessa fama mundial, a ponto de hoje ela ser conhecida como Escadaria Potemkin.
Depois da Revolução de 1917 e da guerra civil, Odessa passou a fazer parte da Ucrânia soviética. Mas a maior tragédia veio com a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, depois de uma longa e dura defesa, a cidade foi ocupada pelas forças do Eixo e ficou sob administração romena (aliada da Alemanha nazista), na região chamada Transnístria. Durante a ocupação, desencadeou-se o Holocausto: a imensa e antiquíssima comunidade judaica de Odessa, uma das mais importantes da Europa, foi alvo de massacres, deportações e extermínio. Dezenas de milhares de judeus de Odessa e da região foram assassinados. É uma memória que precisa ser nomeada com precisão e sem eufemismos: nesses anos, a cidade perdeu uma parte essencial da sua população e da sua alma cosmopolita.
Odessa foi libertada em 1944 e, pela resistência de seus habitantes e de seus partisans — que lutaram em parte a partir das catacumbas —, recebeu o título soviético de 'Cidade Heroica'. Mas a Odessa do pós-guerra já não seria a mesma cidade multicultural e deslumbrante de antes da catástrofe.
Nas décadas do pós-guerra, Odessa continuou sendo o grande porto do sul soviético e um importante centro industrial, naval, científico e cultural, além de destino de veraneio no mar Negro. Manteve a fama de cidade engenhosa e boêmia, berço de humoristas, músicos e escritores, e conservou viva — apesar de tudo — parte da sua identidade multilíngue e mestiça. As praias de Arcádia, o clima do centro histórico e o humor odessita faziam parte do imaginário de toda a União Soviética.
Com a independência da Ucrânia em 1991, Odessa passou a ser o principal porto marítimo do novo Estado e uma de suas maiores cidades. Sua condição de grande porto exportador de grãos a manteve no centro da economia ucraniana e do comércio mundial de alimentos. A cidade continuou cultivando seu caráter próprio, seu patrimônio do século XIX e sua vida cultural, e trabalhando na restauração do seu centro histórico.
O reconhecimento chegou ao auge em janeiro de 2023, quando a Unesco inscreveu o centro histórico de Odessa na Lista do Patrimônio Mundial — e, ao mesmo tempo, na de Patrimônio em Perigo —, num gesto excepcional, feito em plena guerra, para reconhecer seu valor universal e reforçar sua proteção.
A invasão russa em grande escala de fevereiro de 2022 colocou Odessa no centro da guerra. Como principal porto do mar Negro e saída dos grãos ucranianos para o mundo, a cidade e sua região ganharam enorme valor estratégico, tanto militar quanto econômico. Odessa se preparou para uma possível ofensiva por mar e por terra que acabou não acontecendo sobre a cidade, mas ficou permanentemente exposta a ataques de longo alcance.
Desde então, Odessa vem sofrendo repetidos ataques com mísseis e drones, dirigidos sobretudo contra sua infraestrutura portuária e energética, no contexto da disputa pelas exportações de grãos e do bloqueio e desbloqueio do mar Negro. Alguns desses ataques causaram vítimas e danificaram edifícios do centro histórico protegido pela Unesco, incluindo a área em torno da catedral da Transfiguração, um dos templos emblemáticos da cidade, atingida em 2023. A destruição de patrimônio numa cidade Patrimônio Mundial gerou condenação internacional.
Apesar de tudo, Odessa continua viva e resistindo. O Teatro de Ópera reabriu em junho de 2022 como símbolo de continuidade cultural; os odessitas protegeram seus monumentos com sacos de areia e estruturas, e a cidade manteve, na medida do possível, o seu ritmo. Hoje Odessa vive essa dupla condição: a de grande cidade histórica e cosmopolita do mar Negro e a de alvo de guerra, sujeita a alertas, toques de recolher e ataques. Por isso, com toda a sobriedade: hoje ela não é um destino turístico, e sim uma cidade em guerra cujo patrimônio, admirável, aguarda tempos de paz para voltar a se mostrar ao mundo.