Lagos é, para muitos, a face mais bonita do Algarve. Esta cidade do sudoeste de Portugal reúne em poucos quilômetros um centro histórico murado cheio de charme, uma marina animada e, acima de tudo, um trecho de costa de falésias douradas, grutas e enseadas de água turquesa de tirar o fôlego. Seu símbolo é a Ponta da Piedade, um cabo de formações rochosas esculpidas pelo mar, onde os passeios de barco entram entre arcos e cavernas que parecem talhados à mão.
Mas Lagos não é só praia. É uma cidade com um passado enorme e nem sempre luminoso. Do seu porto, no século XV, o Infante Dom Henrique, o Navegador, impulsionou as expedições que abriram a rota africana e deram início à era dos Descobrimentos. Aqui, em 1444, aconteceu o primeiro mercado de escravos africanos da Europa, um capítulo que hoje a cidade não esconde: ela o conta, com sobriedade, em um museu instalado no próprio edifício do antigo mercado. E aqui o terremoto e o maremoto de 1755 arrasaram grande parte do que existia, marcando um antes e um depois.
Este guia leva você pela Lagos completa: suas praias e sua costa espetacular (Praia Dona Ana, Praia do Camilo com sua escadaria de mais de 200 degraus, Meia Praia, a Ponta da Piedade), seu centro histórico com muralhas, igrejas e fortaleza, e sua memória histórica, que inclui tanto a glória dos navegadores quanto a sombra do comércio de escravos. Contamos o que ver, quanto custa cada coisa com dados verificados, como se locomover sem metrô pelo Algarve e como aproveitar Lagos como base para descobrir o sudoeste português.
Lagos tem raízes na Antiguidade: houve aqui assentamentos que os romanos conheciam como Lacóbriga, com uma economia ligada ao sal e à produção de conservas de peixe e garum. Sob domínio muçulmano, entre os séculos VIII e XIII, a vila, chamada Zawaia, fez parte do al-Gharb (o Algarve). Seu grande momento chegou no século XV: transformada em base naval e comercial, Lagos foi ponto de partida das expedições africanas impulsionadas pelo Infante Dom Henrique, o Navegador, que viveu na cidade. Daqui zarparam as caravelas rumo à costa da África e aqui, em 1444, foi realizado o primeiro mercado de escravos africanos da Europa, quando uma expedição comandada por Lançarote de Freitas voltou da baía de Arguin, na atual Mauritânia, com 235 cativos. Lagos foi durante décadas a capital administrativa do Algarve e prosperou com o comércio ultramarino, protegida por muralhas reforçadas nos tempos dos reis João II, Manuel I e Filipe I. Em 1º de novembro de 1755, o grande terremoto de Lisboa e o maremoto que veio em seguida destruíram quase por completo a cidade, incluindo o palácio onde havia morado o Infante Dom Henrique, e abriram um longo período de decadência. Lagos se recuperou a partir de meados do século XIX com as fábricas de conservas de peixe e, já no século XX, com o turismo, que a transformou em um dos grandes destinos do Algarve. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Atlantic south: the most Islamised region of Portugal (al-Gharb), where Henry the Navigator drove the Discoveries from Sagres and Lagos, the city of Europe's first slave market (1444), now turned into the country's great tourist coast.
Ler a história de Algarve →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes das caravelas e dos Descobrimentos, já existia na costa sudoeste da Península Ibérica um povoado que vivia do mar. As origens de Lagos remontam a povos pré-romanos, e com a chegada de Roma o lugar ficou conhecido como Lacóbriga. Sob domínio romano, a região se firmou como um centro produtivo ligado ao Atlântico. Há indícios de salinas e de fábricas de salga e de garum, a cobiçada pasta de peixe fermentado, além de restos de oficinas de cerâmica. Essa atividade ligava Lacóbriga às rotas comerciais do Mediterrâneo e do império.
Depois da queda de Roma vieram os povos germânicos e, no século VIII, a conquista muçulmana, que transformou todo o sul da península. A região passou a fazer parte do al-Gharb al-Andalus, o 'ocidente' de al-Andalus, de onde vem o nome 'Algarve'. A vila, que os árabes chamaram de Zawaia, ficou integrada a esse mundo andaluz durante vários séculos. Dessa época restam marcas nos nomes de lugares, nas técnicas de agricultura e de pesca e no traçado da cidade velha.
Essa longa fase terminou no século XIII, quando o avanço da Reconquista cristã chegou ao extremo sul do que hoje é Portugal. Entre 1240 e 1250, as tropas portuguesas tomaram as praças do Algarve, e Lagos passou a fazer parte do reino de Portugal, que desde então incorporou o Algarve à sua coroa. A vila manteve sua vocação marítima e portuária. Dois séculos depois, foi justamente isso que a colocou no centro de um dos maiores processos históricos da Idade Moderna.
O grande momento de Lagos chegou no século XV, pelas mãos do Infante Dom Henrique, conhecido como Henrique, o Navegador (1394-1460), filho do rei D. João I. Em 1415, uma armada portuguesa partiu para conquistar Ceuta, no norte da África, e Lagos serviu de porto de abrigo para essa frota. Foi o começo da expansão ultramarina portuguesa. Nas décadas seguintes, o Infante promoveu a partir do Algarve uma série de expedições que foram descendo aos poucos pela costa ocidental da África. Elas ultrapassaram o temido Cabo Bojador e exploraram territórios até então desconhecidos pelos europeus.
Lagos virou uma das principais bases dessa empreitada. Seu porto ficava em boa posição no sudoeste atlântico, perto de Sagres, onde a tradição situa o círculo de navegadores e cartógrafos do Infante, e dali partiram e voltaram inúmeras caravelas. O próprio Henrique, o Navegador, morou na cidade, primeiro no castelo e depois num palácio do governador. Com o seu impulso, Lagos viveu uma fase de grande importância estratégica e comercial. A estátua do Infante que hoje domina a Praça do Infante Dom Henrique lembra esse papel fundador na história dos Descobrimentos.
Essas expedições abriram rotas que, nas décadas seguintes, dariam a Portugal um império marítimo espalhado pela África, pela Ásia e pela América, incluindo o Brasil. Mas a 'idade de ouro' dos Descobrimentos teve desde o início um lado sombrio e inseparável. Junto com ouro, marfim e especiarias, os navios passaram a trazer também seres humanos capturados para serem vendidos como escravos. E esse comércio teve em Lagos seu ponto de partida documentado na Europa.
Em 1444, Lagos foi palco de um dos episódios mais terríveis da história europeia. A cidade hoje não esconde esse fato, e vale a pena contá-lo com precisão. Naquele ano, uma expedição de seis caravelas comandada por Lançarote de Freitas, organizada dentro das empreitadas africanas patrocinadas por Henrique, o Navegador, navegou até a baía de Arguim, na costa da atual Mauritânia. A frota voltou a Lagos com 235 pessoas capturadas na África, que foram repartidas e vendidas na cidade. Foi o primeiro mercado de venda de escravos africanos da Europa na Idade Moderna.
O cronista Gomes Eanes de Zurara, contemporâneo dos fatos, deixou um relato impressionante do desembarque e da partilha dessas pessoas num campo nos arredores de Lagos. Ele descreve como as famílias eram separadas para serem distribuídas entre os novos donos: pais de filhos, maridos de esposas, irmãos de irmãos. Esse episódio marcou o início da participação sistemática de Portugal no tráfico atlântico de seres humanos. Esse comércio durou séculos e arrancou milhões de africanos de suas terras, muitos deles levados ao Brasil.
O edifício conhecido hoje como Mercado de Escravos, na Praça do Infante, depois serviu de alfândega. Ele ocupa o lugar associado àquele comércio e abriga desde 2016 um núcleo museológico dedicado à memória da escravidão, ligado ao Museu Municipal de Lagos. Sua existência é fruto de uma decisão importante: não apagar nem maquiar esse capítulo, e sim contá-lo com sobriedade e rigor. Com isso, a cidade reconhece que o mesmo lugar que foi berço dos Descobrimentos também foi berço do tráfico de escravos na Europa. É uma parte indispensável da história de Lagos e de Portugal.
Nos séculos XV e XVI, Lagos viveu um longo período de esplendor. Virou um porto próspero, enriquecido pelo comércio ultramarino, e por muito tempo foi a capital administrativa do Algarve, sede do poder regional. Essa riqueza precisava de proteção contra a pirataria, os corsários norte-africanos e as frotas inimigas. Por isso a cidade foi cercada e reforçada por muralhas, hoje monumento nacional, construídas ao longo dos reinados de D. João II, D. Manuel I e D. Filipe I. No século XVII veio somar-se a elas o Forte da Ponta da Bandeira, que protegia a entrada do porto.
Dessa época de ouro restam igrejas, palácios e traçados urbanos, embora muita coisa tenha sido transformada ou destruída pelo que veio depois. A história de Lagos, como a de todo o sul de Portugal, tem uma data que mudou tudo: 1º de novembro de 1755. Naquela manhã, o grande terremoto de Lisboa, um dos mais devastadores da história europeia, sacudiu toda a costa. O Algarve ficava mais perto do epicentro, no mar em frente ao cabo de São Vicente, e foi uma das regiões mais atingidas. Depois dos tremores veio um maremoto (tsunami) que varreu o litoral.
Lagos ficou praticamente arrasada. O mar destruiu boa parte da cidade baixa, e edifícios, igrejas e fortificações desabaram. Até o palácio onde Henrique, o Navegador, tinha morado desapareceu. Os anos seguintes foram de miséria e decadência: a cidade perdeu população e importância, e o posto de capital do Algarve acabou passando para Faro. Boa parte do que se vê hoje no centro histórico vem da reconstrução feita depois do desastre, sobre o traçado da cidade antiga.
Depois do golpe do terremoto de 1755, Lagos levou quase um século para se reerguer. A retomada veio em meados do século XIX com a indústria de conservas. O litoral algarvio, rico em sardinha e atum, se encheu de fábricas de conservas de peixe que geraram empregos e voltaram a ligar a cidade à economia atlântica. Durante décadas, a pesca e as conservas foram o motor de Lagos e de boa parte do Algarve, com seus barcos, armações de atum (as artes tradicionais de pesca do atum) e comunidades de pescadores.
O século XX trouxe a grande transformação: o turismo. A partir dos anos 1960, e principalmente depois da construção do aeroporto de Faro e da melhoria das estradas e transportes, o Algarve virou um dos grandes destinos de sol e praia da Europa. A região ficou muito popular entre britânicos, irlandeses e europeus do centro do continente. Lagos tem um centro histórico cercado de muralhas, clima ameno e uma costa espetacular de falésias e grutas, com a Ponta da Piedade como cartão-postal. Com tudo isso, a cidade passou a viver em grande parte do visitante. As velhas fábricas de conservas fecharam e a economia se voltou para o turismo, a náutica e os serviços. A construção da moderna marina de Lagos, já no fim do século XX, simbolizou essa mudança.
Hoje Lagos é uma das cidades mais visitadas do Algarve, e sua população chega a se multiplicar no verão. Seu grande desafio atual é o mesmo de tantos destinos de sucesso: lidar com a pressão do turismo sem perder a identidade de uma cidade com mais de dois mil anos de história. Isso inclui encarar todo o seu passado. Há o esplendor dos Descobrimentos e o papel de Henrique, o Navegador, mas também a memória do primeiro mercado de escravos da Europa, que a cidade decidiu preservar e explicar. Talvez seja esse equilíbrio entre beleza, memória e honestidade histórica o que faz de Lagos um destino tão único.