Nazaré é, ao mesmo tempo, uma vila de pescadores de longa tradição e a capital mundial das ondas gigantes. Durante séculos foi uma vila marítima da costa atlântica portuguesa, com seus barcos de proa alta, seu peixe secando ao sol e suas mulheres vestidas com as tradicionais 'sete saias', as sete saias sobrepostas do traje típico. No verão, sua enorme praia se enche de guarda-sóis e famílias. Mas desde 2011 o nome de Nazaré correu o mundo por outro motivo: as maiores ondas já surfadas quebram aqui.
O segredo está debaixo d'água. Em frente à Praia do Norte se abre o cânion submarino de Nazaré, o maior cânion submarino da Europa, com mais de 200 km de extensão e profundidades de mais de 4.500 metros. Esse cânion funciona como um funil que concentra e amplifica a energia das tempestades do Atlântico, de modo que, quando chegam as grandes ondulações de inverno, a Praia do Norte levanta paredes de água de dezenas de metros. Foi aqui que o alemão Sebastian Steudtner surfou a onda de 26,21 metros (86 pés) reconhecida como recorde mundial.
Nazaré oferece, assim, duas viagens em uma. Tem o espetáculo natural das ondas gigantes — de outubro a março, é bom deixar claro, porque no verão o mar fica calmo e elas não aparecem —, que se assiste do Sítio, o bairro no alto da falésia, junto ao Forte de São Miguel Arcanjo e seu farol. E tem a Nazaré tradicional: o funicular histórico, a igreja da Virgem que deu nome e lenda à vila, o peixe fresco, a praia e os costumes marítimos. Este guia mostra os dois lados, com informações práticas e verificadas.
O nome e a origem de Nazaré estão ligados a uma lenda fundadora. Segundo a tradição, uma imagem da Virgem trazida de Nazaré, na Galileia (daí o nome), chegou a esta costa na Alta Idade Média. A lenda mais famosa conta que, em 1182, o cavaleiro Dom Fuas Roupinho perseguia a cavalo um cervo em meio à neblina e quase despencou da falésia; ao invocar Nossa Senhora da Nazaré, seu cavalo parou milagrosamente à beira do precipício, salvando sua vida. Em agradecimento, ele mandou construir a Ermida da Memória, e com o tempo foi erguido o grande santuário de Nossa Senhora da Nazaré, que fez do Sítio um importante local de peregrinação. Lendas à parte, Nazaré foi durante séculos uma vila de pescadores que trabalhavam no Atlântico com barcos de proa alta, puxados à mão por bois (e depois tratores) sobre a areia, e cujas mulheres vestiam as 'sete saias'. Historicamente, a vila se organizou no Sítio (em cima), na Praia (à beira-mar) e em Pederneira. Tudo mudou no século XXI: em novembro de 2011, o surfista americano Garrett McNamara surfou na Praia do Norte uma onda de cerca de 24 m (78 pés) que bateu o recorde mundial e colocou Nazaré no mapa do surfe de ondas grandes, graças ao cânion submarino que amplifica as ondulações. Desde então, a vila virou a meca mundial das ondas gigantes. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Portugal of learning and faith: Coimbra and its university, one of the oldest in the world; Fátima, a great pilgrimage centre; Nazaré and its giant waves; Aveiro, the 'Portuguese Venice' of the lagoon; and Óbidos, a walled medieval village.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucas cidades têm um nome e uma origem tão ligados a uma lenda quanto Nazaré. Segundo a tradição, tudo começa com uma pequena imagem da Virgem Maria supostamente esculpida em Nazaré, na Terra Santa, e trazida para esta costa atlântica nos primeiros séculos da Idade Média. Dessa devoção, Nossa Senhora da Nazaré, vêm tanto o nome do lugar quanto a sua fama de santuário.
O episódio mais famoso, que ainda é contado em cada visita, se passa em 1182. O cavaleiro Dom Fuas Roupinho, alcaide do castelo de Porto de Mós, cavalgava numa manhã de neblina perseguindo um cervo. O animal corria em direção à beira do penhasco do Sítio, e o cavaleiro, cego pela bruma, galopava atrás dele direto para o precipício. No último instante, vendo-se perdido, Dom Fuas invocou Nossa Senhora da Nazaré, cuja ermida conhecia. O cavalo parou de repente, milagrosamente, com as patas na beirada do abismo, e salvou a vida do cavaleiro.
Em agradecimento, Dom Fuas mandou erguer nesse ponto a Ermida da Memória, a capela da memória, que se conserva até hoje. Vale tratar esse relato com honestidade: é uma lenda religiosa, não um fato documentado. Mas a sua força foi enorme. A devoção à Virgem de Nazaré cresceu ao longo dos séculos, atraiu peregrinos de todo o reino e motivou a construção do grande santuário do Sítio. Foi a fé, mais do que a história, que desenhou os primeiros traços desta cidade.
Além da lenda, a Nazaré real foi durante séculos, antes de tudo, uma vila de pescadores. A geografia a organizou em três núcleos que ainda hoje se distinguem: o Sítio, no alto do penhasco, onde ficavam o santuário e as primeiras casas, protegidas do mar e dos ataques de piratas; a Praia, junto à areia, onde vivia e trabalhava a comunidade pescadora; e Pederneira, sobre outra elevação. Durante muito tempo, o medo dos corsários que atacavam a costa manteve a população longe da orla; só com o passar dos séculos o casario desceu de vez para a praia.
A vida girava em torno do Atlântico. Os barcos tradicionais de Nazaré, de proa alta e cores vivas, saíam para o mar direto da areia, sem porto: eram lançados na água e depois puxados de volta para a praia com a força de bois (e, mais tarde, de tratores), num trabalho coletivo que era um verdadeiro espetáculo. O peixe secava ao sol sobre redes estendidas na areia, uma cena que ainda dá para ver e que virou uma das imagens típicas da cidade.
Dessa cultura marinheira também nasceu o traje mais famoso de Portugal: as 'sete saias'. As mulheres de Nazaré usavam várias saias curtas sobrepostas (tradicionalmente sete), coloridas, com lenço, avental e outras peças. Muitas explicações populares já foram dadas para o número, de simbolismos religiosos a razões práticas, como se proteger do frio durante as longas esperas na praia enquanto os homens estavam no mar. Todas fazem parte do folclore, e ainda hoje há senhoras que usam o traje no Sítio e à beira-mar. A fortaleza do Sítio, o Forte de São Miguel Arcanjo, construída no século XVII para defender a costa dos piratas, lembra aqueles tempos em que o mar trazia tanto o sustento quanto o perigo.
Durante séculos, o que deu nome e fama a Nazaré não foram as ondas, e sim a Virgem. O Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, no Sítio, se tornou um dos centros de peregrinação marianos mais importantes de Portugal. A devoção, alimentada pela lenda de Dom Fuas Roupinho e pela fama da imagem, atraiu fiéis, reis e navegadores, que confiavam suas travessias à Senhora da Nazaré antes de se lançar ao Atlântico.
Dizem que até figuras da era dos Descobrimentos vieram rezar aqui. A tradição associa o nome de Vasco da Gama (e de outros navegadores) à devoção por esta Virgem, cujo culto chegou a atravessar o oceano: há lugares chamados Nazaré no Brasil, a começar por Nazaré, na Bahia, e em outras antigas possessões portuguesas, prova de como a devoção se espalhou junto com o império.
Todo 8 de setembro, a grande Romaria de Nossa Senhora da Nazaré enche o Sítio de peregrinos, procissões, música e festa popular, numa celebração que mantém viva essa dimensão religiosa. O santuário, a Ermida da Memória e as capelas do promontório continuam sendo a âncora espiritual da cidade, o motivo pelo qual, muito antes de qualquer surfista olhar para a Praia do Norte, Nazaré já aparecia nos mapas de Portugal como destino de fé.
Em frente à Praia do Norte, escondido debaixo do mar, está o segredo que transformaria Nazaré para sempre: o cânion submarino de Nazaré, o maior cânion submarino da Europa. É uma fenda gigantesca no fundo do oceano que se estende por mais de 200 quilômetros mar adentro, chega a profundidades de mais de 4.500 metros e se aproxima extraordinariamente da costa, bem em frente à praia.
Esse acidente geológico funciona como um funil natural. Enquanto o fundo do mar nas laterais do cânion é relativamente raso e freia as ondas, dentro do cânion a água profunda deixa a energia das ondas passar quase sem resistência. Quando chega uma grande ondulação do Atlântico, as ondas que viajam pelo cânion se propagam mais rápido que as das laterais e, ao convergirem perto da costa, se combinam e interferem de forma construtiva, somando suas alturas. O resultado, nas grandes tempestades de inverno, são paredões de água de dezenas de metros quebrando na Praia do Norte, um fenômeno praticamente único no planeta.
Durante séculos, essa mesma força do mar foi vista só como uma ameaça: a costa de Nazaré era temida pelos pescadores, e muitas vidas se perderam nas suas águas. Ninguém imaginava que aquela fúria do Atlântico, canalizada pelo cânion, acabaria virando o maior ímã turístico da cidade. Faltava alguém ter coragem de descer essas ondas.
A grande virada veio em novembro de 2011. O surfista americano Garrett McNamara, rebocado por um jet ski, desceu na Praia do Norte uma onda estimada em cerca de 24 metros (78 pés), homologada como recorde mundial da maior onda já surfada. As imagens rodaram o mundo e, da noite para o dia, Nazaré deixou de ser conhecida só pelo santuário e pela praia e virou a meca global do surfe de ondas gigantes.
Desde então, os melhores surfistas de ondas grandes do mundo fazem a peregrinação a Nazaré todo inverno. O recorde foi sendo superado: o brasileiro Rodrigo Koxa surfou uma onda de cerca de 24,4 metros (80 pés), reconhecida em 2018, e o alemão Sebastian Steudtner elevou a marca para 26,21 metros (86 pés) com uma onda surfada em 29 de outubro de 2020, homologada pelo Guinness e pela World Surf League como o recorde vigente. Existem medições ainda maiores, na faixa dos 28-29 metros, que aguardam confirmação oficial. A cada temporada de ondas grandes, entre outubro e março, milhares de espectadores se espremem no penhasco do Sítio, ao lado do Forte de São Miguel Arcanjo, para ver o espetáculo.
Hoje Nazaré vive uma síntese fascinante das suas duas almas. Continua sendo uma vila de pescadores, com seus varais de peixe seco, suas sete saias e seu santuário mariano; e é, ao mesmo tempo, a capital mundial das ondas gigantes, com um museu do surfe no forte, surfistas que viraram heróis locais e uma economia transformada pelo turismo. Do cervo de Dom Fuas ao recorde de Steudtner, da fé à adrenalina, a história de Nazaré é a de uma cidade que sempre olhou para o mesmo mar bravo do Atlântico, primeiro com medo e devoção, e agora também com assombro.